Um Lugar para Nós
7 A Escola Nova
Notas iniciais
-Prometo que um dia eu encontro você de novo e não vou deixar ninguém te fazer mal.
Zoey acordou assustada e suada. Estava ofegante. De novo tinha aquele sonho e já estava começando a ficar com medo, ninguém tinha o mesmo sonho tantas vezes.
-Zoey, acorda, você tem que ir pra escola. Disse a mãe desanimada.
-Eu já acordei, já vou descer pra tomar café.
Faltavam duas horas para a aula começar, mas precisava mesmo acordar cedo. Tomou banho, sentou na penteadeira e escovou o cabelo por longos minutos. Passou menos tempo escovando as orelhas e a cauda de gato. Pegou uma faixa branca comprida, encostou o rabo no corpo e foi enrolando a fita, até prendê-la tão bem a ponto de ninguém perceber. Colocou o uniforme da escola, que ficava um pouco folgado o que ajudava muito e colocou uma boina na cabeça, tentando esconder as orelhas. Naturalmente seu cabelo estava preso com as famosas fitas vermelhas.
Desceu as escadas sorrateiramente.
-Zoey, pode tomar café.
-Não, eu não to com fome. Respondeu depois de ser descoberta.
A mãe lhe lançou um olhar muito significativo.
-Só um copo de suco ta bom. Pronto, já acabei meu café da manhã. Tchau. Tomou o suco correndo e se despediu dos pais, sem lhes dar chance de dizerem algo.
Pegou o caderno e o estojo e foi para a rua. Primeiro dia de aula nunca tem lição de verdade. O vento gelado batendo no rosto era calmante para ela, era como uma promessa de que tudo ficaria bem.
Caminhou bastante até chegar na tal escola. Suspirou.
Primeiro dia de aula na nova escola... Relaxa, Zoey, vai ficar tudo bem. Só por hoje eu serei uma garota normal que pode viver uma vida normal.
Todos os dias ela dizia a mesma coisa para si mesma, era com aquela promessa que convivia. Mentia tanto para si mesma que já até parecia verdade.
Entrou na escola cabisbaixa, a maioria das pessoas já se conheciam, o que não ajudava muito a ruiva. Isolou-se em algum canto que julgou ser perto do banheiro. Um discurso sobre o novo ano letivo e sobre como os alunos deveriam se comportar começou e acabou, e Zoey não se mexeu do lugar onde estava.
Os alunos correram para ver em que sala caíram, e Zoey só foi olhar depois que todos tinham ido embora.
-Zoey... Zoey... Repetia procurando o próprio nome. Um garoto chegou do lado dela. Zoey olhou do canto do olho, ele era bronzeado, tinha cabelos castanhos e provavelmente olhos também castanhos, mas Zoey não tinha certeza.
Ele começou a olhar na mesma lista de Zoey.
-Você viu a bagunça que virou esse lugar? Eu sempre deixo para olhar depois que todos saem, é perigoso ficar aqui!
-Achei que se matariam apenas para verem em que sala estão. Nunca vi alunos tão animados com relação à escola.
-É aquela história, só estão animados por enquanto. Quando os professores começarem a passar dever eles querem que as férias cheguem.
Zoey riu, era verdade. Era difícil ela rir, mas com ele foi fácil. Ele lembrava alguém, mas a pessoa não lhe vinha à mente agora.
-Hey, parece que estamos na mesma sala!
-Isso é bom, eu não queria ficar numa sala onde não conhecesse ninguém.
-É verdade, você é nova aqui. É melhor irmos, antes que os professores comecem a entrar nas salas.
Caminharam lentamente até a sala. Mark sentou mais a frente com alguns amigos conhecidos. Zoey sentou na última carteira da sala, tentando se esconder de todos.
O professor entrou e se apresentou.
-Gente, eu sou professor de música e já tenho um trabalho de primeiro dia de aula para vocês.
-Ah, professor, mas já?
O professor riu um pouco.
-Vai ser legal. Vocês escreverão uma música que gostam em um papel e nós trocaremos com outras salas. A pessoa escreverá um comentário sobre sua escolha e lhe mandará uma música que goste. Vocês escreverão um comentário sobre a escolha da pessoa e mandarão de volta.
-E nós iremos saber quem mandou o comentário? Perguntou uma garota.
-Não, nós iremos fazer isso com a escola inteira, ou seja, gente demais para poder descobrir.
Ah, ótimo, minha música vai parar na mão de uma criança de dez anos, com a sorte que eu tenho! Pensou Zoey.
O professor entregou uma folha e pediu que escrevessem o nome da música. Zoey escreveu a música que achava mais parecida com ela, Iris, de Goo Goo Dolls. Assinou no final da música com suas iniciais, Z.H.
Foi uma das primeiras a entregar a folha. Depois que todos entregaram, o professor pediu para um inspetor levar as folhas e distribuir entre a escola. No tempo em que as folhas não voltavam, os alunos ficaram conversando com o professor sobre os tipos de música que gostavam.
O inspetor chegou com várias folhas na mão.
-Gente, eu vou falar o nome da música e vocês venham buscar, ok?
Chamou folha por folha, algumas nem eram daquela sala. Quando disse o nome de sua música, Zoey foi buscar sem que ninguém percebesse que se mexeu.
Leu o comentário no final da folha.
Por que acha que ninguém te entenderia? Você me parece triste, mas consciente do mundo em que vive. E.G.
Do outro lado da folha, estava a música. Ela conhecia, Beautiful Disaster, de Kelly Clarkson. Quantas vezes ouvira aquela música pensando em si mesma?
Você pode não acreditar, mas me sinto exatamente como essa música, um desastre. Você tem bom gosto e parece não se sentir parte do mundo em que vive, espero não estar certa.
Entregou a folha para o professor e sentou-se novamente. Por algum tempo pareceu invisível, mas sua falta de conversa com as outras alunas, fez com que todos começassem a olhar para ela e comentar como era estranha. O tempo todo calada e com os olhos no mesmo ponto.
Com a boa audição que tinha, ouviu todos os murmúrios sobre si. Cruzou os braços na carteira e escondeu o rosto ali. Para evitar os pensamentos sobre os cochichos e evitar ouvi-los, ficou cantando a música que seu amigo de outra sala mandou. Apesar da letra triste, a música era bonita. Muito tempo depois o sinal para o intervalo bateu.
-Oi, ruiva! Você é nova aqui, não é? Perguntou uma garota de cabelo loiro claríssimo e longo e olhos castanhos.
-Sou.
Zoey nem olhou a loira para responder e já ia se retirando quando a outra puxou seu pulso com brutalidade. A cauda presa de Zoey se agitou.
-Olha aqui, quando eu faço uma pergunta, quero uma resposta de verdade. E quero que as pessoas olhem nos meus olhos para responder! Ela disse virando Zoey e olhando nos olhos também castanhos.
Zoey não queria arrumar confusão, não poderia fazer isso.
-Sim, eu sou nova aqui! Respondeu olhando nos olhos da outra.
-Certo, vou lhe deixar um aviso: nessa escola, quem manda sou eu, não me importa se você é rica ou famosa, esse lugar é meu! Não quero você se metendo com nenhum garoto que esteja acima dos nerds.
-Acredite, eu não quero saber de nenhum garoto.
-Achei que quisesse quando te vi conversando com o moreno, mas agora que você disse isso, vou achar que joga do outro lado.
-O que você acha não é problema meu!
Zoey puxou o pulso e foi embora o mais rápido que pôde. Agora, além de todos os problemas que tinha, essa garota ainda iria querer arrumar briga com ela.
Que ótimo, como se já não bastasse os caçadores!
As coisas haviam piorado muito com o tempo. As autoridades, com medo do instinto animal presente nas crianças, conseguiram permissão para caçá-las! Onde já se viu, tratar crianças que não nasceram daquele jeito porque queriam como animais?
Infelizmente, o sinal tocou e Zoey teve de voltar para a sala. O professor contou um pouco sobre ele e porque seguiu a carreira de professor de música. Zoey passou o tempo todo dormindo, como a boa gata que era. Quando deu a hora de ir embora, Zoey não tinha a mínima vontade de ir para casa enfrentar as perguntas da mãe.
Ficou perambulando pelos arredores da escola, pensando no sonho que tivera novamente.
Queria tanto que você fosse real, Elliot. Queria que todos fossem reais, mas principalmente você! Fico me perguntando quantos transformados ainda existem. Será que mais conseguiram se esconder como eu? Ou será que sou a última? Eu estou cheia de perguntas, e sem uma única resposta...
Zoey ouviu um barulho longe de pés na grama. Manteve-se atenta. Estava disfarçada, mas eles ainda podiam perceber se prestassem bastante atenção. Realmente eram caçadores! Ela podia ouvir as armas sendo carregadas.
E agora? Se eu correr vão me perseguir e descobrir e se eu ficar parada, vão descobrir ainda mais rápido. Eu to ferrada de qualquer jeito, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!
Zoey não sabia o que fazer e se corresse, para onde iria correr? Quando os caçadores estavam se aproximando ela fechou os olhos, respirou fundo e esperou pelo pior.
Enquanto que, em uma árvore, um loiro estava sentado em um galho com as pernas esticadas.
-Zoey Hanson, o que você faz aqui? Perguntou sussurrante, sabendo que ela não iria ouvi-lo.
Num momento Zoey estava com os pés no chão, e no outro estava pisando em algo que balançava. Abriu os olhos e viu um garoto a sua frente.
-Ah, quem é você? Perguntou assustada.
-Silêncio, quer ser descoberta? Olha para baixo.
Zoey olhou e viu os caçadores procurando por algo.
-Por pouco não te pegaram. Você é louca, ia deixar que eles te matassem sem nem tentar sobreviver. E os seus pais, como eles iam ficar?
-Você fala como se soubesse algo sobre mim. Ela respondeu temerosa. Será que ele tinha percebido tão facilmente o que ela era?
-Como assim? Você não lembra de mim?
-Me tira dessa árvore, por favor? Eu quero ir pra minha casa, eu não deveria ficar perto de você.
-E por que não?
-Você sabe o mundo em que vivemos, vai que você é um deles!
Zoey tinha aprendido a fingir ter medo dos transformados, era o único jeito de pensarem que ela não era um deles. Elliot achou que tinha se enganado de garota, Zoey nunca falaria daquela forma.
-Desculpe, achei que fosse alguém que eu conheci, vejo que me enganei. Sabe como é, estou a muito tempo procurando essa pessoa. Disse ele quando já estavam no chão.
-Acredite, sei como se sente. Quis muito encontrar uma pessoa, mas já descobri que ela não existe, foi apenas um sonho que eu tive... Espero que você tenha mais sorte do que eu! Zoey respondeu de costas e foi embora.
Em casa, não sentiu fome, mesmo sua mãe tendo feito peixe. Se jogou na cama e olhou pela janela o sol da tarde se transformar em lua. Não percebeu que ficou tanto tempo olhando a natureza mudar conforme as horas.
-Essa sua mania de ficar parada igual a um gato me assusta! Disse a mãe entrando no quarto. Zoey deu um pulo da cama.
-Mãe, você não pode me assustar assim, quase tive um ataque do coração!
-Relaxa, você tem sete vidas! Brincou a mais velha.
-Haha, muito engraçado, to morrendo de rir da sua piada! Ironizou Zoey enfezada. A mãe conseguiu o que queria, tirar a expressão pensativa do rosto de Zoey.
-Você quer jantar? A comida está uma delícia, modéstia a parte!
-Eu acho que... O estômago de Zoey roncou Eu já to descendo.
Ainda não tinha se trocado. Resolveu tomar um banho, colocar o pijama e jantar. Depois voltou para o quarto, escovou os dentes e deitou para dormir.
O medo do escuro fez com que ela inconscientemente colocasse as mãos na orelhas, tentando fazer o mesmo carinho de seu sonho. Não funcionava, ela não sabia fazer como o pequeno loiro. Jogou a coberta no rosto, como se estivesse se escondendo, e apertou os olhos, até conseguir dormir.
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