Um Lugar Sem Esperança

8 Bônus - Parte 1


Notas iniciais
- Como prometido, trouxe um bônus sobre o passado do casal dasafortunado. Obrigada pelas leitores que se sensibilizaram e comentaram a história como muitas outras não fizeram. Sem querer julgar, mas a história merecia mais reviews do que tem de fato. Mas isso não tem importância. Antes leitoras fantasmas do que nenhuma.

Flash Back

Foi em uma festa. Na festa de aniversário de Naruto, meu colega da faculdade. Lembro-me como se fosse ontem, num sábado chuvoso em Manhattan. Eu estava emburrada na sacada do pequeno apartamento do loiro. O vestido prata todo trabalhado em bordados e pedras brilhantes me incomodava, já que todas as convidadas da festa estava de jeans e saias curtas, roupas básicas. Me sentia excluída, não só pela roupa como por não conhecer ninguém além do Naruto, o pior era que ele não me deixava ir embora, trancara a porta a chave e disse para eu me entrosar, mas não era algo simples de se fazer com um vestido e penteado de gala. Parecia a mãe dos convidados.

Entre meus pensamentos de como eu estava arrependida de ter ido ao tal aniversário, um moreno de estatura média atravessou todo tonto a porta que ligava a sala à sacada, rindo, com um cigarro apagado na boca. Apoiou os braços na proteção de pedra e acendeu a pontinha da do tabaco. Eu odiava aquele cheiro. Virei o rosto e mirei um ponto de luz qualquer que me distraísse.

“Mano, que roupa é essa?” Falou com tom de deboche me analisando dos pés à cabeça pelo canto dos olhos. Por mais que eu tentasse demonstrar superioridade, no meu interior não podia negar que aquele comentário arrasou comigo, mais do que eu já estava arrasada.

“É uma roupa como qualquer outra.” Falei sem olhá-lo.

“Não é não.” Soprou a fumaça na minha direção.

“Nada pessoal, mas eu não gosto do cheiro de cigarro, então pode, por favor, fumar mais afastado de mim?” Pedi educadamente, me segurando para não pegar aquele negócio asqueroso e jogar prédio abaixo.

“Poder eu até que poderia, mas não to afim.” Disse com um sorriso de canto que me fez notar sua beleza. Ele era realmente lindo. “Seu excesso de ‘classe’ e ‘chick’ e ‘formal’ e essas coisas todas de ‘por favor’ e ‘obrigada’ me dão nos nervos, mesmo assim não pedi para você se mudar.” Falou tragando mais e jogando a fumaça para o alto.

“A diferença é que eu sou ‘educada’, isso não atrapalha ninguém, pelo contrário. Já você, incomoda e muito com essa droga!” Ele riu solto. “Qual a graça?” Perguntei nervosa.

“Chama isso de droga?” Perguntou com deboche. “Vou te mostrar o que é droga...”

“Não desejo saber.” Interrompi arrumando uma mecha de cabelo que caiu sobre meus olhos.

“Isso é seu cabelo mesmo?” Perguntou apontando com a cabeça as madeixas presas em um coque clássico. Achei estranho ele mudar os rumos da conversa do nada.

“Por que não seria?”

“Sei lá, não é todo mundo que tem o cabelo rosa bebê!” Apagou o cigarro e o jogou ao vento. “Talvez, só talvez, seu cabelo fosse bonito solto, normal, sem esses troços todos aí. Acha isso bonito? Credo! Você parece um pavão!”

“Mal educado! Não pedi sua opinião sobre minhas vestes! Você fala como se entendesse algo de moda!”

“Entendo sim, entendo bastante para saber que um vestido da sua mãe e um cabelo de velha não são a escolha certa para o aniversário de um amigo de faculdade.” Falou imitando uma pessoa séria. Não tive como não rir. “Tá de bom humor agora?” Virei o rosto tentando esconder o sorriso. “Se quiser, eu te ajudo melhorar isso, se é que é possível.”

“Estou bem assim.” Não queria ajuda de um fumante mal educado para me vestir.

“Mentira.” Me virei para ele na intenção de responder. “Nem adianta negar porque se você estivesse a vontade assim não estaria sozinha na sacada olhando as luzes dos prédios se pagarem enquanto tem uma festa lá dentro.”

“Como sabe que não? Eu... eu sou mais quieta, não sou muito de farra.”

“Mentiu de novo.” Ok, isso já estava me irritando. “Você não se vestiria assim se não fosse para valer a pena, nem teria vindo aqui para começar, a menos que você goste de ficar em sacadas sozinha.” Virou o rosto para frente, pegando mais um cigarro no bolso e acendendo.

“Tem razão, estou desconfortável com essa roupa. O que você pode fazer para mudar isso?” Dei uma chance para ouvi-lo. Ele deu aquele sorriso sedutor novamente, apagou o cigarro e falou se dirigindo a porta que levava à sala.

“Vem cá.” O segui, desconfiada até a cozinha, suportando olhares tortos e comentários maldosos sobre mim. Ele fechou a porta atrás dele e veio em minha direção. Medo é uma palavra dúbia perto do que senti. O que ele faria comigo? Eu não o conhecia, não podia confiar, ainda mais em um homem (bonito) trancado comigo em uma cozinha no meio de uma festa. Se eu gritasse ninguém me ouviria. “Relaxa, não vou te estuprar! Você não faz meu tipo de mulher.” Falou sério.

“E você não faz meu tipo de homem.” Retruquei num reflexo. Ele riu e ficou cara a cara comigo, a centímetros, o que fez meu coração disparar e deixar minha respiração descompensada. Podia sentir seu hálito quente, com o aroma da nicotina e de menta, quis por instantes, loucos instantes, beijá-lo. Mesmo com aquele cheiro que tanto me irritava.

“Sim, eu acho que faço o seu tipo de homem!” Falou rindo se afastando. Pude sentir minhas bochechas corarem. Virei meu rosto para o oposto do dele. Logo sinto tocar minha perna com uma faca na mão.

“Hey! Que isso?!!!” Perguntei assustada me afastando dele que parecia confuso.

“Calma! Mano, cê acha que eu vou te estuprar, te matar, te esquartejar... Caramba! Eu sei que tenho cara de nóia, na verdade, eu sou mesmo nóia, drogado, não faço faculdade, num tenho emprego nem nada, mas pra que eu ia machucar você?” Se alterou. “Sabe o que eu acho? Que você ta se garantindo demais.” Arqueei minha sobrancelha transparecendo minha confusão. “Tanta gata na festa, experientes, gostosas e tudo mais... pra que eu vou querer você, a mais desgrenhada da festa?”

“Olha aqui, se me trouxe até aqui para me ofender por causa de uma maldita roupa, abra essa droga de porta e me deixe ir para casa! Eu não te conheço, muito menos você me conhece e por isso não tem o direito de dizer essas coisas como se soubesse quem eu sou de fato, ok?” Gritei e só o vi se irritar mais. Segurou firme o cabo da faca em minha direção. Gritei, mas ele logo abafou o socorro com um beijo que eu não correspondi. Me soltou segundos depois e se agachou na altura de minhas pernas, pensei que ele fosse me abusar ou algo do tipo, mas ele só cortou a longa saia do vestido, deixando acima do joelho Ficou de pé, tirou o casaco e deu para eu vestir, tudo rapidamente exibindo sem hesito uma expressão de irritação.

“Garota, faz o seguinte: cresce, vira adulta, depois abra a sua boquinha para falar as coisas que não sabe e arcar com as consequências disso.” Foi até a pia, deixando a faca sobre o granito e molhou as mão com um pouco d’água, vindo em minha direção novamente. Deixei. “Seu jeito...” Tirou os grampos que mantinham o coque perfeito no meu cabelo e o bagunçou todo, umedecendo os fios, penteando com os dedos de um jeito desleixado, deixando eu com cara de desleixada. “Seu jeito me irrita!” Com o polegar tirou o batom da minha boca, dando um selinho em seguida. Eu estava completamente sem reação, entregue a todas suas palavras e ações. “Agora sim está parecendo gente!” Falou abrindo a porta, sem se preocupar comigo na frente da mesma. Estava pasma, toda boba com aquilo. Quem era ele? Por que ele era tão impulsivo e estranho?

A janela acima da pia servia de espelho, pude ver claramente meu reflexo distinto do outro que eu avistara antes de sair de casa. Meu cabelo estava meio liso meio ondulado com aparência de quem acabava de acordar; meu vestido, caríssimo, além de cortado, estava curto ao extremo e minha maquiagem parecia estar no meu rosto havia dias. Estava um trapo. Semelhante as putas que dançavam na sala. Para ele aquela era sua definição de beleza? Por Deus! Parecia uma viciada!

Saí da cozinha furiosa, mas não deixei transparecer na minha expressão. Os olhares reprovados se tornaram surpresos quando surgi ali no meio, mas nada que relevante. Assim que sumi do campo de visão, esqueceram que eu existia. Não tinha nada a ver com a roupa ou com o cabelo, eu simplesmente não fazia parte daquele mundo, não era aquela minha realidade. Naruto não parecia em nada um cara que vivia disso, mas só bastava observá-lo no meio de lindas meninas dançando bêbado com uma garrafa de cerveja na mão para aceitar a triste verdade de que eu estava enganada.

Quando a música acabou, me apressei para abordá-lo e pedir a chave, mas o moreno importuno me interrompeu, esbarrando em mim propositalmente com um copo na mão. O olhei completamente confusa, porém tudo o que ele me disse foi ‘beba’. Claro que não obedeci e empurrei cuidadosamente o copo que ele me oferecia para o lado, negando. Ele fechou os olhos em sinal de impaciência e jogou a cabeça para trás, logo repetindo a mesma ordem com a voz controlada.

“Beba!”

“Não!” Respondi com a voz grossa. “Não bebo e não será hoje que mudarei meus hábitos.”

“Quais são seus hábitos?” Perguntou bebendo do líquido que eu recusava. Olhei de relance para o Naruto completamente bêbado jogado no sofá com uma garota em cima dele, percebendo que para minha total infelicidade, não havia jeito de eu ir embora tão cedo. Então juntei o inútil ao desagradável e cedi um assunto com o moço. Na verdade tentei. O barulho era tamanho que depois de repetir minha resposta duas vezes, quase gritando, nos irritamos e ele decidiu me levar de volta para a sacada, mesmo eu achando que não tinha mais graça dar-lhe uma terceira explicação.

“Eu leio; vejo filmes; vou à recitais de balé; ao Central Park; restaurantes típicos; faço viagens de trabalho...”

“Que vida chata!” Exclamou me oferecendo novamente a bebida. Virei o rosto. Quando voltei a olhá-lo, seu feição estava diferente, amena, como se me assegurasse daquilo. Ainda relutante, bebi, pela primeira vez na minha vida. Tossi assim que o líquido quente e amargo desceu por minha garganta rasgando tudo. O que mais me deixava alarmada era meu gosto por aquela sensação que embora desconfortável, era estranhamente boa. O moreno riu enquanto eu tossia, tomando em um gole todo o resto que continha no copo como se fosse água. Me perguntava há quanto tempo ele devia beber para ser tão insensível assim.

“O que era isso?” Perguntei assim que consegui respirar normalmente.

“Whisky.” Jogou o copo num canto da sacada onde um casal de lésbicas se beijavam. “Gostou?” Perguntou debochado. Franzi os lábios de raiva, o que só o fez rir mais de mim. Por um momento me sentia envergonhada por ser tão certinha, achar que conhecia o mundo como a palma da minha mão, sendo tão ignorante naquele aspecto, naquele meio de vida que eu sempre soube que existia, mas ignorava. “Espere aqui.” Não demorou muito para ele voltar com uma garrafa e dois copos onde despejou um pouco do líquido e me deu. “Não vai ficar bêbada se tomar rápido e em poucas doses. Tem que virar de uma vez.” Disse fazendo exatamente o que aconselhava, em seguida umedecendo os lábios e me olhando daquele jeito que me deixava entorpecida. “Não há nenhum problema de ser livre por apenas uma noite. Está aqui para se divertir. Divirta-se!”

Bebi. Tossi um pouco, mas não tardou para eu repetir uma mesma dose. E mais outra, e outras, até não haver nada na garrafa que antes se encontrava pela metade. Depois disso, eu não me lembro claramente do que aconteceu, apenas de pequenos flashes dos sorrisos do moreno, pessoas caindo e se beijando, Naruto dançando comigo e rindo descontrolado, eu subindo as escadas e um beijo, mas as memórias estavam turvas demais para eu reconhecer quem eu beijava.

Quando despertei, nem se quer abri os olhos por causa da dor de cabeça descomunal. Franzi o cenho contra a luz forte que insistia em meus olhos e tentei me colocar numa posição confortável, mas bastou eu tencionar me mover para meu corpo ficar todo dolorido. Quê que eu tinha feito para estar daquele jeito? Parecia que eu tinha levado uma surra. Abri então os olhos lutando contra a grande luminosidade do quarto, mas assim que minha vista se acostumou com a claridade, percebi que havia problemas maiores do que as dores corporais que eu sentia.

Aquele não era meu quarto, nem qualquer outro cômodo na minha casa. Olhei para o lado e me assombrei mais ainda. O moreno da noite passada dormia a sono solto com um cigarro apagado entre os dedos e um sutiã em cima do seu peitoral. Para piorar mais ainda a situação, notei que aquele sutiã era meu, notei que estava completamente nua e o homem ao meu lado parecia estar acordando. Era muita informação para eu digerir de uma só vez.

Uma análise rápida: eu havia ficado bêbada e o cara me arrastou para o quarto e me abusou. Mas que tamanha desgraça... Minha virgindade havia ido pelos ares, tomada por um estranho drogado e eu nem se quer me lembrava como havia sido. Também, o pior ainda estava por vir. Meus pais, rigorosos e extremamente cuidadosos para comigo deviam estar soltando fogo pelas ventas por minha causa. Eu nunca passava a noite fora ou deixava de atender suas chamadas, no mínimo. Falando nisso, eu nem sabia onde estava meu celular ou o restante das minhas roupas.

“Já acordada gata?” Falou com a voz sonolenta e sedutora, me despertando dos devaneios que me atormentavam. O ignorei. Me enrolei no lençol e saí pelo quarto procurando minhas coisas. Achara apenas o vestido jogado na televisão e meus sapatos, um em cada canto cômodo. “Seu sutiã aqui!” indicou gracejando, o rodando na mão com um sorriso malicioso. “Vem pegar!” Suspirei pesado e tentei tirar de sua mão a peça, mas tudo o que consegui foi ser pega novamente por ele, descobrindo meu corpo e se postando por cima de mim.

“Me larga!” Protestei sem saber se o estapeava para sair de cima de mim ou se usava as mãos para me cobrir.

“Poderia ficar para continuarmos de onde paramos...” Falou beijando a curvatura do meu pescoço.

“Nunca!” Consegui sair debaixo dele, pegando meu sutiã e me afastando da cama. “Olha, tudo o que eu fiz foi porque certamente estava bêbada e a culpa é toda sua por eu ter chegado nesse ponto!” Ele riu debochado. “Deve ter me confundido com uma de suas putas!” Esbravejei subindo o vestido.

“Quem vê pensa que não gostou...” Pirraçou. Meu primeiro impulso foi avançar nele, mas parei assim que percebi que seria inútil, pois ele daria um jeito de inverter as posições e se aproveitar mais de mim. Coloquei meus sapatos e saí a procura da minha bolsa, na esperança de que não houvesse sido roubada. “No armário.” Indicou saindo da cama e acendendo um cigarro. “Olha vejam só, a senhorita educação nem se quer diz ‘obrigada’ pela minha gentileza!” Ironizou.

“Obrigada? Você me drogou e me fez mal, ainda quer que eu lhe agradeça?” Falei furiosa enquanto ele riu.

Oh, Sasuke! Isso! Vai! Assim! Não Para!” Dizia imitando uma voz, em seguida rindo descontrolado, me deixando rubra de cólera e constrangimento. “Desculpa, mas não foi isso que pareceu ontem à noite.” Tragou despreocupado. “Eu já devia saber que você era virgem... Juro que tentei hesitar, mas sabe, você é gostosinha, e já tinha te embebedado, seria um baita de um desperdício!” Meus olhos marejaram de humilhação. Como ele podia falar assim tão indiferente, como se fosse apenas um detalhe, algo insignificante? “À propósito, mamãe ligou atrás de você.” Meu coração deu um salto. “Melhor ir logo para casa. Se ficar vai ter problemas, senão com seus pais, com o Naruto, para arrumar essa bagunça.” Peguei minha bolsa e saí, batendo a porta.

A dor de cabeça era tanta que nem se quer chorar eu conseguia. Andava pelas ruas como uma vagabunda, recebendo olhares reprovativos e comentários escrotos de homens pervertidos. Era dez da manhã de um domingo. O Upper West Side estava repleto de gente, só para relevar minha situação constrangedora. Na minha cabeça, preocupações como essa tomavam pouco espaço, me perdia totalmente na noite anterior. Como eu pude ser tão idiota ao ponto de me deixar levar por um homem bonito? Me sentia imunda, terrível, sentia um ódio sólido daquele homem por tirar a minha donzelice, por me instigar de tal maneira. Não sabia nem se conseguiria olhar novamente para o Naruto sem me lembrar da maldita festa onde eu me perdi inteiramente.

Semanas depois, Naruto veio falar comigo, pedir desculpas pelo ocorrido na festa, por todos os infortúnios e disse que só não o fez antes porque não tivera coragem, mas entre ficar constrangido ou sem sua amizade, ele preferia a primeira alternativa. O perdoei, claro, não tinha escolha, afinal, nem fora ela que fizera mal para mim, foi seu amigo que eu nem se quer sabia o nome. Ele não o mencionou nem eu perguntei do mesmo, mas seu olhar inconstante no meu já entregava seu conhecimento sobre o caso. O que me envergonhava.

Mais algumas semanas se passaram, até que em uma tarde de domingo num barzinho, o sujeito impertinente apareceu. Quando eu decidi olhar para ele, ele decidiu olhar para mim, e então ficamos nessa troca de lembranças por um tempo. Na época, achava que somente o Naruto sabia do ocorrido em seu aniversário, posteriormente soube que aquela noite era conhecida por todos do grupo do qual eu participava, por isso, naquele momento, não dei importância aos meus instintos assassinos me incitando a pular no pescoço daquela criatura a minha frente e rançar suas artérias com as unhas. Agi como se nem o conhecesse, quebrando aquela longa troca de olhares com um tímido aceno de cabeça. Aquele era meu ‘oi’ e o meu desprezo. Até anoitecer, mantive a pose indiferente a sua presença, o ignorava com uma desenvoltura surpreendente até para mim, e com sutis olhadas de relance, percebia o nervoso subir por sua cabeça.

Saí da mesa para atender uma ligação, indo para uma área aberta do local. Quando o percebi perto de mim, já era tarde. Me pegou com brutalidade e me prensou na parede, fitando meus olhos com uma expressão furiosa. Instantaneamente me lembrei do episódio semanas antes, na cozinha. Me lembrei que aquela sensação de temor era a mesma, tendo a infelicidade de desejar que ele me beijasse a acabasse com aquela agonia, assim como fizera da primeira vez. Como se tivesse lido minha mente tomou meus lábios com urgência e vigor, fazendo com que todo meu orgulho e preconceito para com ele se esvaecesse em um só instante.

Seu nome era Sasuke; tinha minha idade; não estudava nem tinha casa, dormia numa van que seu avô lhe deixou de herança; trabalhava numa borracharia e tudo o que ganhava gastava com bebidas, cigarros e outras drogas. Comia na casa do Naruto e abastecia sua lata-velha com galões de gasolina que roubava das garagens alheias.

À partir daquele dia, mesmo não suportando um ao outro, era impossível não nos deixarmos levar pelo clima que nos rondava. Passamos a nos ver mais(voluntariamente ou por acaso), e a cada vez que nos encontrávamos passávamos menos tempo discutindo e mais tempo nos beijando em um canto qualquer, aos poucos nosso ódio e implicância foi se transformando em algo dúbio que até hoje não consigo expressar.

Logo nos assumimos inconscientemente. Ele não saía com outras garotas além de mim, e eu não me sentia mais estuprada quando ele me embebedava e me arrastava para a cama. Sasuke não era em absoluto o melhor homem do mundo, ainda era um moleque, na verdade. Ele não era perfeito, não era o cara dos meus sonhos, mas havia notado que só ele fazia meu coração bater num ritmo diferente, só ele sabia como me deixar furiosa e me fazer sorrir ao mesmo tempo. Era só ele quem eu queria e isso já o tornava único e necessário para mim.

“Por que fuma tanto?” Perguntei distraidamente um dia. Ele deu de ombros e tragou mais um pouco, com os olhos fechados, concentrado em algo que ninguém poderia cogitar. Esse mistério que ele causava era o que mais me atraia. Nunca passava para saber o que se passava em sua cabeça. “Acho incoerente colocar um bastão abrasando na boca, puxar a fumaça e depois soltar. Beber é muito mais interessante.” Falei brincando com seu cabelo.

“Fala isso porque a única porcaria que experimentou até hoje foi bebida.” Disse num tom sério. Peguei a o maço do cigarro de sua boca e traguei, tossindo um bocado em seguida. “Você é fraca, hein! Por Deus! Minha vizinha de doze anos fuma baseado com elegância e você fica aí de cu doce pra tragar um mísero cigarro!”

“Então vá fumar com ela!” Retruquei enciumada e ofendida com a comparação. Sasuke sempre me media com outras garotas, sempre ressaltando minha inferioridade só porque eu tinha dinheiro e era bem educada. Alegava que eu era uma patricinha, mimada, mesmo tendo provas de que eu era independente, apesar do meu estado.

“Calma, doce!” Falou rindo, me oferecendo um maço inteiro. “Toma aqui. Vou te ensinar fumar.”

“Não preciso!” Falei irritada pegando o cigarro e me afastando dele. “Não sou fraca.” Disse acendendo o isqueiro. “E você não pode ter vizinha. Mora num carro.” Bufou indiferente e se pôs a me assistir fumando. Depois de um tempo, disse calmamente, como se não fosse nada:

“Vou embora para Califórnia.” Instantaneamente, o gosto do cigarro não me pareceu tão amargo e o restante do mundo era como um papel de parede gasto. Tudo o que eu pensava era no Sasuke, em poucos meses, minha vida havia se curvado para ele. Dei uma longa tragada e disse com uma confiança assustadora:

“Então eu vou com você.” Ele sorriu e me beijou.

Cinco dias depois larguei faculdade, emprego, pai, mãe e o restante da família, deixando um bilhete vergonhoso preso na geladeira com meia dúzia de palavras e um adeus. Peguei minha parte da herança e fugi com o Sasuke para a Califórnia, assim como Naruto, Gaara e outros amigos próximos. Estavam sendo procurados não só pela polícia mas também por bandos traficantes por roubos, revendas e dívidas. Sem alternativa, só lhes restavam fugir. Minha relação com o Sasuke estava intensa demais para eu deixá-lo se afastar de mim assim, não pensara duas vezes antes de sair daquela loucura de Nova York com ele.

Nos primeiros dias tive a ingênua impressão de que os garotos havia finalmente tomado rumo na vida. As noites em festas cessaram; não encontrava mais drogas nos bolsos do Sasuke; pararam com os roubos, jogos de azar e rachas com carros furtados. Naruto havia até comprado uma pequena casa a meio quilômetro da costa, moramos todos lá por um tempo, até Sasuke arranjar um quarto para morarmos. No começo, era difícil esconder minha cara de desgostos e às vezes me pegava arrependida de ter largado o conforto da minha antiga casa por um quarto num bairro pacato de Los Angeles. Então pensava no Sasuke: para ele, que ‘vivia’ numa van, estar ali já era um passo gigantesco. Daí me sentia injusta, e fazia o máximo possível para expressar minha gratidão por estar ali com ele.

Mas o tempo passou e toda a ilusão que eu alimentei em relação a súbita mudança dos garotos foi reduzida a pó. Bastou se estabilizarem, arrumar um emprego, fazer novas amizades e conhecer o território para voltarem a vida que tinham antes, só com uma ligeira diferença: numa potência três vezes maior. Aquela cidade era o ponto perfeito para os ‘negócios’ que eles mexiam. Logo voltei a encontrar variadas drogas não só nos bolsos do Sasuke, mas por todo canto do quarto que até então eu organizava. Voltaram a sair à noite, entrando em qualquer lugar que tivesse música e o que beber, e era claro, só de olhar para o rosto do Sasuke, que aquele era o seu mundo e ninguém poderia mudar isso.

Eu não era tão ingênua, sabia que ele e os outros não apenas revendiam como também usavam as drogas, mas nunca na minha frente. Não entendia aquela atitude, pois eu já bebia e fumava na mesma quantidade que eles e para mim aquilo já era a gota d’água. Certamente não me sentiria nenhum pouco atraída vendo-os injetar veneno nas artérias ou tomar comprimidos entorpecentes. O que me incomodava era a sensação de eu estar sendo incômoda para eles.

“Eu não acho que deva se envolver nisso, Sakura” Respondeu Sasuke quando eu toquei no assunto.

“Não quero me envolver, não quero definitivamente estar no meio disso. Só estou dizendo que me sinto mal, inferiorizada, quando vocês evitam falar ou fazer coisas perto de mim.” Ele riu. “Às vezes me ignoram, às vezes dão demasiada atenção para mim. Sinceramente, eu não entendo.” Me joguei no colchão ignorando o desdém de Sasuke.

“Você realmente é inferior.” Disse com tom de descaso. “Veja:” Se aproximou ficando por cima de mim. “por não se drogar, por ter estudo, religião, dinheiro e talvez um futuro pela frente, é inevitável não tratarmos você como nossa garotinha.” Falou com uma voz irônica, beijando meu rosto. “Consequentemente, vamos querer cuidar da nossa garotinha para que ela não termine como nós, então, não se ofenda, doce. É para o seu bem.” Quando ia me beijar, saí debaixo dele e comecei a caminhar pelo quarto indignada, buscando algo de efeito para dizer. Ele, deitado, apoiou a cabeça no braço e começou fumar, me observando com um sorriso galanteador. Se eu não estivesse tão injuriada, iria rir daquela cena.

“Eu não estou aqui para ser a garotinha de ninguém, sou sua mulher. Só sua. Eu... Eu sei que a vida de vocês é essa e eu nunca questionei. Devia soltar minha mão e me deixar caminhar sozinha. Acho que está mais do que na hora da sua garotinha conhecer o mundo do qual está sendo excluída.” Disse sem olhá-lo, mas algo me dizia que sua expressão convencida adquiria um toque de confusão.

“O que está querendo dizer?” Perguntou nu timbre mais alto. “Sabe que metáforas não funcionam comigo.” Suspirei. Peguei sua jaqueta pendurada na maçaneta da porta, retirando de um dos bolsos um pequeno saco de baseado. “Quê que tem?” Abri a gaveta da cômoda ao seu lado e peguei papel. “Tem certeza?” Perguntou parecendo meio inseguro quanto ao que eu fazia.

“Se eu tiver que colocar todo esse lixo no meu corpo para você me valorizar, pode ter certeza que será isso que farei.”

“Não disse que precisa se drogar para eu te estimar. Se fosse assim, nunca teria me apaixonado por você. Se não está lembrada, quando nos conhecemos, você nem se quer havia experimentado RedBull, e na época já tinha dezenove anos!”

“Não importa.” Me agachei de junto a ele. “Eu quero ser como você. Quero que você tenha orgulho de mim...”

“Sakura, está fazendo tudo errado...” Me interrompeu o contínuo sorriso sarcástico.

“Não estou! Olha pra mim!” Peguei seu rosto. “Eu vim porque eu te amo, quero fazer parte da sua vida!”

“Então veio em vão, pois vida é uma coisa que eu não tenho.” Sussurrou. “Mas se insiste em se acabar como eu me acabei, vá em frente. Te dou total apoio, e mesmo se não desse, você pode fazer o que quiser. Não sou seu proprietário.” Puxou um pouco da fumaça do cigarro que se consumia por si só enquanto conversávamos. “Mas tenha na cabeça que todo esse tempo que só quis te proteger.”

“Ok. Por onde começo?” Perguntei erguendo o saco recheado de droga.

E foi assim que dei início ao meu declínio. Não demorou para eu experimentar de todas as porcarias que Sasuke e Naruto usavam. Enquanto seus vícios mais fortes eram com a heroína, eu me perdia em alucinações com comprimidos de êxtase. À noite estava viva, o restante do dia era dedicado para minha recuperação que a cada dia que passava levava menos tempo. Já estava apta para aquela vida e não tinha mais medo da certeza de que não iria passar dos trinta anos no ritmo que eu estava, temia apenas pelo Sasuke que, com o tempo, começou a apresentar sintomas estranhos, mesmo negando seu estado sempre que eu me preocupava.

Toda noite era uma noite, cada uma mais diferente do que a outra, mais louca do que anterior. Havia manhãs em que acordava em pontos de ônibus ou desmaiada na calçada, mas bastava olhar ao redor e me consolar com o fato de que sempre haveria no mínimo o Sasuke ou o Naruto bêbados por ali. Assaltos, de lojas de departamento até carros estacionados em ruas escuras; competições de racha no deserto dos limites da Califórnia; poker apostando tudo; noites na cadeia por atentado ao pudor; brigas; sexo, muito sexo e Sasuke no pronto de socorro.

Notas finais
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