Um Lugar Para Ficar
46 Epílogo
Notas iniciais
Alguns anos depois...
Deitada na cama, despertando de uma noite de sono tranquila, Rosalie percebeu vozes e risos vindo do lado de fora da casa. Através das cortinas na janela, notou o sol se esforçando para entrar no quarto. Um lindo dia de verão aguardava por ela, assim como sua família.
O espaço ao seu lado na cama estava vazio, percebeu isso quando deslizou o braço procurando pelo marido. Havia um bilhete com um pequeno ramalhete de flores do campo, o mesmo tipo de flores que estivera decorando sua cerimônia de casamento com Emmett. Mesmo antes de ler o bilhete, sabia que era dele.
Com a outra mão segurou o cobertor em torno do corpo, erguendo o torso encostando-se a cabeceira da cama enquanto lia as poucas palavras.
“Me encontre na arena.
Com amor, seu marido Emmett.”
Tinha o cheiro do perfume dele no papel. Antes de deixá-lo na mesinha de cabeceira, aspirou ao aroma no papel junto com o das flores. O aroma de ambos só lhe trazia lembranças boas.
Saiu da cama enrolada ao lençol, e escolheu no guarda-roupa um vestido floral com estampas em cores claras, escolheu também um par de botas na cor caramelo com o chapéu na mesma cor. Uma breve ida ao banheiro e então saiu para a varanda da frente, onde Lena e Kate conversavam sentadas nas cadeiras de vime.
Lena já não cuidava tanto das coisas da casa como antes. A idade avançada trazia suas limitações junto com o cansaço.
— Bom dia, vovó. Bom dia, Kate.
As duas mulheres olharam para ela, interrompendo a conversa sobre nada em particular.
O sorriso de Kate cresceu no rosto.
— Noite agitada – ela brincou com a cunhada.
Rosalie sentiu a vergonha cair sobre si.
— Bom dia, minha querida – Lena saudou com alegria. – Seu marido está na arena com dois dos filhos de vocês. Os outros dois estão espalhados por aí.
Rosalie ouviu vozes e risos com mais intensidade agora que estava mais perto. Aproximou-se dos degraus, olhando em volta; Noah, agora um adolescente de quase quinze anos, jogava baseball com o tio Garrett e o primo Logan, que veio de férias de seu primeiro ano na faculdade trazendo a namorada, uma afro-americana chama Zalika que conhecera no campus. Logan acabou escolhendo medicina veterinária, seguindo os passos do tio como demonstrou interesse ainda na infância.
Noah havia se tornado um adolescente popular, assim como o primo. E fazia sucesso entre as garotas de sua idade. Diferente de Enrico que sempre foi mais reservado, tímido demais quando o assunto é falar com as garotas. A única com quem consegue ter uma conversa demorada sem gaguejar é com Abby, que esteve todos esses anos ao lado dele.
Os dois quase nunca se desgrudavam. E Rosalie sempre acreditou quando Lena dizia que os dois acabariam namorando um dia. Ele, o músico dedicado, ela, a bailarina. O casal perfeito, pensava todas as vezes que os via juntos.
E para confirmar seus pensamentos, olhando em direção à árvore plantada pelo avô de Emmett tantos anos atrás, quando tinha acabado de se casar com Lena, reconheceu a figura de Enrico, sentado na grama verde ao lado de Abby; os longos cabelos louros da menina estavam presos num coque perfeito de bailarina. Sua postura e formato dos ombros estregavam o gosto bela dança clássica.
Enrico com o estojo do seu mais novo violino descansando sobre as pernas, certamente estivera praticando na casinha da árvore onde costuma ir quando queria total silêncio. Do lado dele estava Caramelo, do lado de Abby, Jujuba. Ambos os animais de estimação ficando com a pelagem branca na cara por causa da idade.
Desde a noite que o salvou, ficando com ele quando se perdeu no meio do mato, Caramelo raramente se afastava de Enrico. O menino começaria no outono em The Boston Conservatory, em Boston, seguindo seu sonho de estudar música. Apesar de não gostar da ideia de tê-lo longe, era o sonho dele, não podia deixar de apoiá-lo.
Enquanto pensava nisso, os ouviu rirem sob a copa da árvore. Seu coração de mãe se enchendo cada vez mais de amores pela menina que fazia seu menino feliz. Ela desceu os degraus devagar, caminhando alguns passos na direção deles.
— Oi, mamãe.
— Oi, tia.
Rosalie sorriu.
— Oi, meus amores.
— Amy está treinando com o papai para a disputa da prova dos três tambores. Elliott está lá com eles – Enrico contou.
— Estou indo para lá, amor. Obrigada.
— Noah está jogando baseball.
Rosalie olhou novamente na direção de onde Noah jogava com o tio, o primo e a namorada do primo. Ele estava gritando “home run”. Depois disso olhou na direção dela, sorridente, o aparelho dentário brilhando junto ao seu sorriso.
— Ali está o amor de minha vida – se gabou, e soprou um beijo para ela. Rosalie mandou outro de volta, e continuou seu caminho rumo à arena.
Ainda distante, avistou Elliott, sentado na cerca branca, vestido igual ao pai com jeans, botas, camisa de botões e chapéu. Amy usava o mesmo estilo de roupa com a diferença que sua camisa era de xadrez cor-de-rosa e as mangas estavam com os punhos fechados. A menina montava um quarto de milha fêmea, de pelagem alazã – tonalidade avermelhada.
Um filho músico, um esportista e dois apaixonados por cavalos e o mundo em torno deles. Amy estava se tornando uma amazona dedicada, com pai e irmão mais novo para ajudá-la. A paixão por cavalos começou cedo, dos passeios com o pai pela fazenda, as visitas aos estábulos e festas de rodeio. Aos quatro anos de idade ganhou seu primeiro cavalo; um pônei fêmea, de pelagem branca, que ela batizou de Aurora. Exatamente com a mesma idade, Elliott ganhou um pônei, de pelagem avermelhada, e lhe deu o nome de Amuleto.
Hoje, uma pré-adolescente, dificilmente montava Aurora, ainda que fosse seu xodó.
Emmett estava de pé ao lado de Elliott, os cotovelos apoiados na madeira da cerca; nas mãos, o cronômetro marcava o tempo de Amy no percurso. Sua garotinha parecia voar montada em Honey. Os cabelos louros voando embaixo da aba do chapéu marrom. Uma cópia perfeita da própria Rosalie. Assim como Elliott que estava cada dia mais parecido com o pai, tanto na aparência física quanto no coração bondoso.
— Vai, Amy! – Rosalie ouviu Elliott incentivando a irmã.
A poeira levantando no chão a cada pisada do animal na areia fofa da arena. Amy era miudinha, parecia ser bem mais nova do que era, mas quando montava a cavalo se tornava gigante.
— Muito bem filha – Emmett elogiou, depois de conferir o tempo do percurso dela. – Muito bem. Essa é a minha garotinha.
Elliott olhou para o lado justamente quando Rosalie se aproximava.
— Mamãe! – o menino se alegrou. Emmett virou na mesma direção assim que ouviu o filho chamar pela mãe. O sorriso de covinhas crescendo no rosto de ambos. Rosalie sorriu de volta.
Emmett olhou brevemente no centro da arena e falou com a menina.
— Me dá só um minuto filha.
Amy continuou dando voltas em torno dos tambores, porém, dessa vez, sem pressa.
— Oi, mamãe.
— Oi, princesa. – Já estava bem próxima a Emmett quando respondeu a menina. E eles puderam finalmente trocar um beijo.
— Estávamos esperando por você – o filho mais novo contou.
— Desculpe querido, acabei dormindo demais.
— É seu dia de folga no trabalho, papai disse que não deveríamos te acordar. – Elliott saltou da cerca, correndo para junto deles. Prendeu os dois pela cintura em um só abraço, e os pais passaram os braços em torno dele da melhor forma que pode. – Amy está cada dia melhor – o menino elogiou a irmã.
Rosalie fez um carinho na bochecha corada dele.
— Você e o papai estão sendo ótimos treinadores.
— O papai é melhor. Ele sabe de muitas coisas.
Emmett sorriu. – Se meu filho está dizendo – comentou com orgulho.
— Rico é ótimo em tocar violino, Noah é ótimo com esportes, Amy é ótima na prova dos três tambores e você é melhor mamãe do mundo.
Rosalie o apertou entre nos braços.
— Meu pequeno urso – murmurou enquanto o apertava. No minuto seguinte, o menino correu de volta para a cerca.
— Scott e America foram até cidade, perguntaram se queria alguma coisa. Disse a eles que você estava dormindo – Emmett comentou enquanto se aproximavam da cerca.
— Tudo bem, eu não queria nada mesmo. America não estava se queixando do tamanho da barriga?
— Pode apostar que sim.
— Quem podia imaginar que eles acabariam se casando e que estariam agora esperando o primeiro filho. Três anos juntos. Mesmo se queixando de estar imensa, ela parece feliz ao lado dele.
— Fico feliz que eles estejam juntos. – Emmett soltou da mão dela para reiniciar a contagem do tempo de Amy no percurso. – Pode ir, princesa.
A menina bateu com as pernas em torno do animal e partiu para o primeiro tambor com um giro de 360° da esquerda para a direita. Fez o mesmo com os outros tambores, só que da direita para a esquerda. Determinação e prazer definia o que estava fazendo na arena.
Rosalie não podia negar que se sentia aflita quando Amy corria daquele jeito, mas não a impediria de fazer aquilo que gosta.
— Ela está mesmo empenhada – comentou, olhando a filha na arena.
— É o que ela mais quer. Participar das próximas competições.
— Tenho medo... – Rosalie admitiu pela primeira vez.
Emmett deixou de prestar atenção à menina para prestar atenção nela.
— Medo do que amor?
— Que ela se esforce tanto e no final não consiga uma classificação. Ela vai ficar arrasada...
— Ela vai conseguir Rose. Nossa garotinha é mesmo muito boa nisso. Ela está preparada. Vem treinando há bastante tempo.
— Dessa vez é algo grande. Ela vai chorar muito se não conseguir. Ela é assim, você sabe, uma alma livre, mas também é muito sensível.
— Se por acaso isso acontecer, eu vou estar lá para ela, amor. E eu vou continuar apoiando, seja qual for sua decisão.
— A vovó Lena disse que ela é igual a sua mãe. Com a mesma energia, paixão pela fazenda e pelos animais. Disse que vê-la crescer aqui é como acompanhar o crescimento de sua mãe outra vez.
— Ela também me disse isso. E eu não consigo deixar me sentir maravilhado cada vez que ela diz.
— Amy a adora, mesmo sem nunca tê-la visto pessoalmente.
— A vovó gosta de contar histórias.
— E nos amamos ouvi-la.
— Você não precisa se preocupar, não permitirei que nossa garotinha sofra.
— Você é a melhor pessoa. As crianças e eu tiramos a sorte grande ao te conhecer.
— Eu vou ter de discordar. Quem tirou a sorte grande fui eu ao encontrar vocês.
Rosalie o beijou. Nesse momento Amy se aproximou da cerca montada a cavalo. A égua relinchou. Com o susto, Rosalie deu um salto para trás. As crianças riram, ela e Emmett acabaram rindo junto com elas.
[...]
Era hora do jantar. Rosalie e Kate ajudavam Neva na cozinha agora que Lena pouco trabalhava nas coisas da fazenda e da casa.
— Eu vou chamar o pessoal – Rosalie comentou, secando as mãos no pano de prato. Deixou a cunhada terminando de pôr a mesa, enquanto a funcionária da fazenda olhava as panelas no fogão.
Ao chegar à sala e encontrá-los reunidos, como sempre acontecia, seu coração se encheu de satisfação e alegria.
Diante a tevê, sentados em puffs, Emmett e Noah jogavam videogame. Jujuba descansando aos pés deles agora. Elliott no sofá, esperando sua vez de jogar. Logan e Zalika, sentados ao lado dele, vendo coisas no celular, mantendo uma conversa entre eles. Lena em sua poltrona favorita, com Amy aconchegada a ela ouvindo histórias da mãe de Emmett.
Um sorriso fez os lábios de Rosalie se curvarem automaticamente. Ainda assim, notou que faltava Garrett, Abby, Enrico e Caramelo.
— Pessoal, o jantar está pronto – Todos os rostos na sala se voltaram para ela.
— Estamos terminando aqui, amor – Emmett lembrou. Seus dedos se movendo de forma rápida nos botões do joystick.
— Isso mesmo, minha adorada mãezinha – Noah reforçou a fala do pai.
E do sofá, o filho caçula se queixou:
— Eu ainda não joguei nenhum pouquinho.
Emmett se remexeu no puff.
— Termine aqui para o papai, filho.
Elliott saltou do sofá quase que imediatamente e sentou ao lado do pai, que lhe entregou o joystick.
— Amy – Rosalie chamou pela filha –, você pode, por favor, chamar o Rico e a Abby para a mamãe?
A menina beijou o rosto da bisavó e levantou logo em seguida.
Rosalie voltou-se para o sobrinho, que conversava com a namorada.
— Logan, você sabe onde está o seu pai?
— Eu acho que está no quarto dele e da mamãe. – Logan deixou o celular com a namorada e se levantou. – Eu vou chamar – avisou a tia.
— Obrigada, querido.
As vozes de Elliott e Noah se destacando das demais, envolvidos pelo jogo. A porta de tela bateu quando Amy saiu para a varanda da frente.
— Rico e Abby! – chamou uma vez. Ia gritar o nome do irmão mais velho novamente, quando percebeu os dois conversando embaixo da mesma árvore onde estiveram mais cedo. Caramelo outra vez ao lado deles, descansando na grama. Amy desceu os degraus, se esgueirando nos arbustos que rodeavam a grade de madeira da varanda, e observou os dois com atenção.
A conversa foi silenciada sem prévio aviso, os dois se olharam por um tempo que Amy achou uma eternidade, antes de seus rostos se aproximarem e os lábios se tocarem em um selinho tímido e temeroso.
Amy abriu e fechou a boca diversas vezes como tivesse perdido a voz. Logo depois disso, Enrico voltou a falar.
— Eu sei que no outono irei estudar música longe daqui... E... Bem... – ele hesitou com nervosismo.
Abby segurou sua mão.
— Por favor, Rico, não pare de falar agora.
— É... – Ele estava ficando corado. – Acontece que não posso ir sem saber antes de uma coisa: Você aceita ser minha namorada? Eu sei que vamos ficar muito tempo longe um do outro, mas eu vou voltar a cada data comemorativa especial e nas férias. A gente também poderá se falar todas as noites via Skype. Mas eu vou entender se...
— Rico – Abby pôs a mão nos lábios dele –, pare. Não precisa ficar nervoso, falando desse jeito sem parar. Justificando uma resposta que ainda não foi dita. – Ela sorriu, e seu sorriso fez Enrico relaxar. – É claro que aceito ser sua namorada. Eu confesso que estava esperando esse pedido já há algum tempo. Eu quero muito ficar com você. Quero viver um amor igual o dos meus pais, e o do meu tio Emmett com a tia Rose.
Enrico a presenteou com um amplo sorriso.
Ela endireitou os ombros, olhando nos olhos dele. – Acho que essa é a parte em que você me beija para valer.
Nervoso, Enrico se aproximou, levando uma das mãos com gentileza a tocar o rosto de Abby. A menina tremulou os cílios com ansiedade e nervosismo, mas se sentiu a garota mais sortuda do mundo quando seus lábios se tocaram com sutileza, se fazendo profundo quando os lábios entreabriram e suas línguas estiveram juntas pela primeira vez.
Um farfalhar de galhos nos arbustos ao redor da varanda, em seguida, o grito de Amy. Os dois se afastaram assustados, até entender o que acontecia.
— Estão namorando – Amy subiu os degraus, deixando o esconderijo para trás. Enrico e Abby se olharam com o mesmo olhar de choque inicial, mas, acabaram rindo depois. Amy parou diante a porta de tela, virou para olhá-los e cantarolou: – Rico e Abby embaixo de uma árvore, trocando beijinhos... – Voltou-se outra vez para a porta. – Estão namorando... Estão namorando... – Tornou a cantarolar, e então entrou na sala. – Estão namorando...
Os irmãos, Noah e Elliott, largaram o joystick e se juntaram a ela na cantoria.
— Estão namorando... Estão namorando... Estão namorando... – Até Noah finalmente parar e perguntar.
— Espera. Quem está namorando?
Os outros dois pararam também a cantoria, Amy para falar e o irmão mais novo para ouvir a revelação.
— A Abby e o Rico.
— O quê? – Noah soltou. – Mas, hein?
— É sério, eu os vi. Eles estavam se declarando, aí deram um selinho. Depois Rico pediu ela em namoro e ela disse que sim, então eles deram um beijo de língua, igualzinho quando o papai beija a mamãe, pensando que a gente não está vendo.
Empolgados, os três voltaram a cantarolar.
— Estão namorando... Estão namorando... Estão amorando...
Zalika prendia os cabelos cacheados no alto da cabeça quando deu risada deles.
Emmett chegou perto de Rosalie, pondo o braço em volta da cintura dela, enquanto beijava seu pescoço.
— Aconteceu – sussurrou ao ouvido dela. Rosalie balançou a cabeça concordando, os dedos das mãos deslizando na barba dele que começava crescer.
Nesse instante, Enrico e Abby entraram na sala de mãos dadas, seguidos de perto por Caramelo.
Rosalie notou o momento em que o primogênito ficou envergonhado. Os irmãos cantarolando sobre eles estarem namorando o incomodou. Ela olhou do filho mais velho para os outros três e fez um pedido.
— Não sejam assim. Não façam isso com o irmão de vocês.
— Ok, mamãe – Amy foi a primeira a se calar.
— Desculpe Rico – os três pediram ao mesmo tempo.
— E a Abby, vocês não vão pedir desculpas a ela também?
— Desculpe Abby – tornaram a pedir todos juntos.
De sua poltrona favorita, Lena declarou:
— Eu sempre soube que esse dia chegaria.
Logan e Garrett chegaram à sala, curiosos com a barulheira.
— Quem está namorando quem? – O tio foi quem perguntou.
— A Abby e o Rico – os três fanfarrões escancararam.
— Como assim?
Logan deu de ombros, passando pelo pai, indo se sentar ao lado da namorada no sofá.
— Namorando papai, assim como a Zalika e eu. – Ele olhou para a namorada e cochichou: – Não ligue, são todos malucos.
— Estou adorando todos eles – Zalika admitiu.
— Não senhor – Garrett tornou a se queixar. – Sua irmã é só uma garotinha.
Abby se pronunciou em defesa própria.
— Papai, em pouco tempo terei dezesseis anos. E o Rico não é nenhum estranho, a gente se conhecesse praticamente a vida toda.
Kate tinha entrado na sala e ouvia a tudo com um sorriso no rosto.
— Não seja bobo, Garrett. – Ela cutucou o braço do marido, e ele a olhou com cara de desespero.
— Relaxe, papai. Rico vai para a faculdade no outono – Logan tentou acalmá-lo. – Eles mal vão se encontrar depois disso.
Outra vez Lena atraiu a atenção para ela.
— O amor deles é para a vida toda. Quando os vi andando juntos, de mãos dadas, na infância, reconheci logo que eram almas gêmeas.
— Eu vou estudar dança na mesma escola que o Rico vai estudar música. Além disso, vou me casar com ele depois da faculdade.
Garrett levou a mão ao peito como estivesse tendo um infarto e olhou no rosto da esposa.
— Acho que estou tendo um ataque cardíaco – gemeu.
As crianças riram com gosto do desespero dele.
— Deixe de frescura, Garrett. Até terminar a faculdade eles ainda terão muito chão para percorrer. Não é como se eles fossem se casar a manhã.
— Eu não posso acreditar que minha garotinha esteja mesmo pensando nessas coisas. Até ontem ela ainda brincava de bonecas e corria para nossa cama toda vez que começava uma tempestade.
— Papai – Abby murmurou, sentindo-se tocada. Ela se aproximou do pai e o abraçou. – Eu não vou fugir nem nada parecido. E depois que eu me formar na faculdade, vou voltar a morar aqui com todos vocês. E fala sério, eu ainda estou no ensino médio.
— E com o Rico? – Garrett gemeu, e Abby sorriu.
— Sim, papai, e com o Rico. Esta também é a casa dele.
Rosalie se aproximou, segurando na mão do filho mais velho.
— Parabéns, querido. Abby é uma ótima menina.
— Você sempre soube, não é?
— Sim, meu amor. Eu sempre soube. – Ela beijou na testa dele. E Enrico olhou para Emmett.
— Tudo bem, papai? – pediu o menino.
— Mais do que bem, filho. – Emmett apertou o ombro dele de forma amigável. – Eu sei que será o melhor namorado para ela, assim como ela será uma boa namorada para você.
A voz de Noah, de repente, se destacou das demais.
— Quem não vai ficar muito feliz com essa notícia vai ser o Liam. Eu tenho certeza que ele gosta da Abby.
A menina fez careta diante a revelação.
— Me ponha fora dessa.
Do outro lado da sala, Elliott correu para junto da bisavó.
— Bisvovó, a senhora que sabe das coisas, pode me dizer se algum dia eu irei tirar nota máxima na prova de matemática? Estou preocupado, logo estarei entrando no quinto ano.
— Quem sabe se você se esforçar mais.
Risos entoaram por toda a sala de estar.
— Tudo bem – começou Kate. – Abby e Rico estão namorando, todo mundo já sabe. Garrett já teve seu momento Noah – O sobrinho levantou a mão mostrando que era ele. – Agora vamos todos para a cozinha, porque o jantar está esfriando. Além disso, Neva também tem uma família esperando por ela.
— Deixe que eu te ajudo, bisvovó – Elliott se adiantou, estendendo as mãos para ajudar Lena a levantar da poltrona. – Vem bisvovó.
— Obrigada, meu querido. – Lena se apoiou nele ao levantar da poltrona. E, em passos lentos, seguiram juntos até a cozinha.
— Tia Kate, você colocou meu lugar ao lado do da bisvovó? – Elliott pediu, assim que entrou na cozinha, levando Lena a ocupar o lugar dela a mesa.
— Exatamente como todos os dias – A tia bagunçou os cabelos dele ao passar para ajudar Neva a servir a mesa do jantar.
Pouco a pouco, todos foram ocupando seus lugares. Enquanto jantavam, cada um falou um pouco daquilo que lhe interessava. Mas o foco principal da conversa ficou em torno do namoro de Abby e Enrico. E o casamento de Alice e Jasper que aconteceria na próxima primavera.
[...]
Mais tarde, com os maiores conversavam na varanda, Lena descansando no quarto dela, Kate e o marido assistindo tevê na sala, Rosalie pediu que os dois mais novos fossem vestir o pijama e irem para suas camas que logo passaria para dar o beijo de boa-noite. Ela e Emmett conversavam no quarto quando pediu que fizessem isso. Mas quando foi procurá-los, como tinha prometido, nenhum dos dois estava na cama.
Emmett encontrou com ela no corredor de acesso aos quartos pouco tempo depois.
— Já voltou? – se surpreendeu com o como foi rápida dessa vez em dar boa-noite aos filhos.
— Advinha? – Rosalie sorriu. – Nenhum dos dois está na cama.
— Acho que sei para onde eles foram – Emmett sorriu. – Aqueles dois danadinhos. Eu vou buscá-los, não se preocupe.
Enquanto se afastava de Emmett, notou a porta do quarto de Enrico e Noah com a porta aberta e foi até lá. Deu uma batidinha na madeira somente para avisar de sua presença.
O quarto dos meninos continuava com a mesma decoração de quando eles o ganharam na infância. Nenhum dos dois quis modificar nada, apenas alguns objetos novos foram chegando, coisas que faziam parte da adolescência de cada um deles. Noah ainda gostava dos personagens de histórias em quadrinhos. E Enrico, de música clássica. Então pouco se tinha a mudar.
Sentado na cadeira da escrivaninha, Noah jogava no computador.
— Oi, amor – Rosalie chamou a atenção dele. – Achei que estivesse lá fora com o seu irmão, a Zalika e os seus primos.
— Eles estão em casais, não quis atrapalhar. Achei melhor vir jogar um pouco, afinal, tenho de aproveitar que estou de férias e posso dormir mais tarde.
Rosalie se aproximou, acariciou os cabelos louros dele e os afastou para longe da testa, beijando bem em cima da pequena cicatriz que Royce deixou na última vez que esteve com eles.
— Não vá dormir muito tarde, está bem? Mesmo que esteja de férias, não é legal dormir tão tarde.
— Mãezinha?
— Sim, meu amor?
— Eu não gosto quando chega a hora de dormir.
— É por causa dos pesadelos?
Noah balançou a cabeça, concordando.
— Achei que eles tivessem desaparecido há muito tempo.
— Acontece de uma vez ou outra eles voltarem.
— Ah, Noah, eu sinto muito. Por que não me contou isso antes?
— Não queria te deixar triste.
— Você nunca me deixa triste filho. Eu vou conversar com a doutora Halley, se for o caso, você volta com as sessões de terapia. Mas você sabe que pode me chamar se acordar no meio da noite e estiver assustado, não sabe?
— Ahã.
— Não importa a idade que tenha Noah, para mim será sempre meu bebê. Meu garotinho dramático e manhoso – Noah sorriu – que adorava se fantasiar de Super-Homem. – Rosalie olhou na prateleira de brinquedos, no ursinho de pelúcia que ele costumava dormir abraçado na infância, com suas orelhas moles e encardidas. – Você sabe que ainda pode dormir com o Felpudo, não sabe?
— A Amy e o Elliott iriam rir de mim, de monte. Não sou mais uma criancinha.
— Eles não farão isso quando souberem pelo que você e seu irmão já passaram. Você pode dormir com o Felpudo, nem eu nem o Rico, e muito menos o papai, vamos contar para alguém. Mesmo que agora conquiste os corações das garotas na escola, para mim será sempre meu bebê. – Ela tornou a beijar a cicatriz na testa dele. – Eu te amo, filho.
— Eu te amo mais.
— Impossível.
— É possível, sim.
[...]
Enquanto isso, Emmett procurava pelos dois fujões. Ao passar pela varanda, notou Abby sentada ao lado de Enrico dividindo o mesmo espaço numa das cadeiras maiores, a cabeça descansando no ombro do menino, o braço, enlaçado ao dele. Enrico parecia maravilhado. Logan e Zalika ao lado um do outro, porém, em cadeiras diferentes. Zalika parecia interessada na vida na fazenda, fazendo milhares de perguntas. Os outros três respondiam com orgulho sobre como era viver na Fazenda Recanto dos Ursos.
— Por acaso vocês não viram dois fujões passando por aqui viram? – Emmett pediu aos garotos.
— Eles foram em direção aos estábulos – Enrico foi quem respondeu.
— Como eu imaginei. – Emmett desceu os degraus da varanda. – Obrigado, filho.
À medida que se afastava da sede, sentia vontade de rir dos dois filhos menores. Eles não perdiam a chance de estar perto dos cavalos. Aprenderam direitinho.
Mesmo distante, notou luzes acesas no estábulo. Assim que entrou, encontrou Elliott indo de baia em baia com o balde de cenouras alimentando cada um dos cavalos. Emmett ficou orgulhoso do filho caçula.
Elliott vestia pijama e estava usando chinelos de dedos.
— Filho? – chamou.
O menino estava distante, mas, ouviu sua voz e se virou na direção de onde ela vinha.
— Oi, papai.
— Você não deveria estar em outro lugar agora, rapazinho?
Elliott fez careta.
— Na cama?
— Isso mesmo. – Emmett deu uma breve olhada em volta, procurando por Amy. – Onde está sua irmã? Mamãe não os encontrou quando foi dar o beijo de boa-noite e...
— Ela ficou triste?
— Eu diria que ficou preocupada mesmo.
— Eu já estava na cama, mas a Amy queria desejar boa-noite a Aurora e me chamou para vir junto. Eu só queria ser um bom irmão e não deixá-la sozinha. Eu estou encrencado, papai?
— É claro que não, filho. Mas onde está a Amy agora?
— Dentro da baia da Aurora.
Quando Emmett começou se afastar, Elliott chamou por ele.
— Papai?
— Sim, filho?
— Eu dei cenoura para o seu cavalo. O Noturno adorou.
— Ele sempre gostou de cenouras. Da próxima vez pode trazer maçãs também, ele vai gostar.
Elliott sorriu o mesmo sorriso de covinhas do pai.
Emmett voltou a andar, e o menino chamou por ele outra vez.
— Papai?
— Sim?
— Eu posso voltar correndo para encontrar a mamãe?
— Espere por mim e por sua irmã. Não quero que ande sozinho há essa hora.
— Então eu vou continuar distribuindo cenouras para os cavalos.
— Tudo bem, só não saia sem mim.
O menino voltou para a tarefa de antes. E Emmett seguiu pelo corredor largo do estábulo, passando por várias baias até chegar a do pônei da filha.
Amy dormia sobre um bloco de feno. O pônei fêmea, de pelagem branca, roçava o focinho na cabeça dela. Havia restos de cenoura ao lado do rosto de Amy e também dos cabelos. Emmett notou que usava o pijama favorito, de unicórnios, e as botas de montaria.
Ele pegou a filha no colo com cuidado. Aurora se afastou batendo os cascos no chão. Um fio de feno ficou preso nos cabelos compridos que se parecia tanto com os da mãe. Amy se aconchegou a ele e continuou dormindo.
— Vamos, Elliott – Ele chamou pelo menino ao sair da baia com a filha nos braços.
— Não acredito que ela dormiu – o irmão comentou. Em seguida, deixou o balde de lado com uma única cenoura dentro.
— Apague as luzes, filho – Emmett pediu. E se encaminhou para fora do estábulo. Elliott apagou as luzes e correu para junto deles.
— Papai, agora eu poso ir correndo na frente?
— Tudo isso para ver a mamãe? – Emmett brincou, e o menino sorriu se entregando. – Tudo bem você ir, mas tome cuidado. Estarei logo atrás de você.
— Eu tenho cuidado.
— Está bem, pode ir.
Enquanto Elliott se afastava, Amy murmurou sonolenta nos braços do pai.
— Papai?
— Sim, princesa?
— Mesmo que eu monte outra égua, a Aurora será sempre minha favorita.
— Eu sei disso querida.
— Foi o melhor dia de minha vida, quando você a trouxe na carretinha. Mamãe nem mesmo conseguiu acreditar que era para mim. Papai?
— Sim?
— Eu te amo muito.
— Eu também te amo, minha garotinha de espírito livre. Minha pequena amazona.
Quando se aproximavam da casa grande, ela murmurou de novo.
— Papai?
— Sim?
— Eu vou sentir saudades do Rico, quando ele for pra faculdade no outono. E de todas as vezes que ele me levou para brincar na casinha da árvore. E também da música dele.
— Todos nós iremos. Mas ele irá voltar sempre que possível. E nós podemos, também, ir visitá-lo.
— Papai?
Emmett sorriu.
— Será que a bisvovó pode continuar me contando histórias sobre a vovó Aimee?
— Amanhã, a bisvovó está dormindo agora. – Amy bocejou. – E você me parece bem cansada também, mocinha.
Ele passou novamente pelos meninos na varanda. Logan estava de pé contando uma história e parecia entusiasmado. Enrico sorrindo assim como as meninas. A irmã e o cunhado ainda na sala assistindo tevê, aconchegados um ao outro.
Levou Amy para o quarto dela que, assim como o dos meninos, mantinha a mesma decoração, com o acréscimo de novos objetos que foi desejando com o passar do tempo. A única coisa que foi substituída totalmente foi sua cama de bebê por uma cama de dossel que parecia de princesa, ao lado da de Abby.
Emmett a deitou na cama com cuidado. Rosalie entrou no quarto logo depois.
— Amy? Ela está bem, amor? Elliott disse que você a trouxe no colo.
— Ela só está dormindo.
— Ela dormiu na baia da Aurora outra vez? – Rosalie se aproximou da cama de dossel em tons de rosa e branco, e retirou as botas dos pés da filha. Depois o feno preso aos cabelos dela. – Não adianta, ela vai continuar fazendo isso, não é?
— Sim. Sabe que assim ela até parece à princesa Aurora – Emmett comentou, vendo a menininha loura dormindo na cama de dossel, depois de a mãe tirar o feno preso aos cabelos dela.
— É a princesa favorita dela.
— E eu não sei – Ele chegou mais perto, beijando o pescoço de Rosalie. – E Elliott? – pediu logo depois.
— Já o coloquei na cama.
— Ele ficou desesperado quando falei que você ficou preocupada.
— Ele é igualzinho a você.
Eles estavam de pé ao lado da cama, trocando um beijo, quando Amy murmurou.
— Papai, mamãe, eu estou vendo.
Ambos sorriram, e juntos se curvaram sobre a cama, fazendo cocegas na barriga dela.
— Você não estava dormindo, mocinha? – Rosalie brincou com ela.
Amy agarrou os dois pelo pescoço num abraço apertado. E eles beijaram cada um sua bochecha.
Saíram do quarto da filha de mãos dadas, caminhando juntos pelo mesmo corredor por aonde um dia ela e os filhos mais velhos chegaram a passar, desconfiados, temendo o futuro. Um caminho que se tornou rotina. Uma parte pequena do lugar, no coração daquela fazenda, aonde chegaram para ficar.
Depois de muito sofrer, a vida finalmente a presenteou com um amor que trouxe paz e tranquilidade. Uma família unida. Um lar onde seus filhos estavam crescendo rodeados de amor. O mais velho começando a percorrer o próprio caminho.
Ela, ajudando Emmett superar o passado. Ele, fazendo-a enxergar o amor de outra maneira.
Um dia de cada vez.
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