Um Lugar Para Ficar
35 Capítulo 35 – Um Presente Especial
Notas iniciais
Alguns dias depois...
Duas viaturas da polícia se encontravam estacionadas próximas à residência de Royce King. Enquanto policiais aguardavam que alguém abrisse a porta, a senhora na casa ao lado apareceu no jardim, contando que Royce não aparecia fazia dias.
Assim, com ajuda de um chaveiro, deram um jeito de abrir a fechadura cumprindo o mandado.
O estado em que a casa estava deixou todos em alerta. A bagunça já começava no hall de entrada com o tapete sujo de lama e bebida. Papéis de contas a pagar tinham sido empurrados por debaixo da porta, depois de a caixa do correio aparecer lotada.
Na sala, além da sujeira, havia objetos quebrados. Latas de cervejas vazias, e também garrafas de uísque. Embalagens de comidas para viagem. Algumas vazias, outras com sobras mofadas.
O ambiente recendia álcool, mofo e comida estragada.
Na cozinha a situação era ainda pior. Todas as superfícies dos móveis estavam entulhadas de louça suja. O cheiro de comida estragada ardia nas narinas. O lixo não havia sido posto pra fora provavelmente há muitos dias. Novamente, muitos objetos quebrados.
Uma cadeirinha de alimentação ao lado da mesa, com um pratinho em cima, guardava sobras de comidas secas. Isso chamou atenção de um dos policiais em particular. Ao tentar chegar mais perto, tropeçou num bastão de baseball largado ao chão. Olhou o objeto como que analisando, sem tocá-lo, pensando ter visto gotas secas de sangue.
A casa estava escura. As cortinas estavam todas fechadas impedindo a entrada da luz do dia. Imaginaram que Royce as mantivessem assim para manter a bagunça longe de olhares curiosos da vizinhança.
Armários abertos com pouca comida dentro, algumas com a data de validade vencida. Um dos policiais reconheceu alimentos infantis tanto nos armários quanto na geladeira.
Numa das cadeiras da mesa encontrou almofadas empilhadas uma sobre as outras como fosse um assento elevatório.
No quarto dos meninos, encontraram o guarda-roupa revirado. Os poucos brinquedos espalhados. Material escolar atirado no chão, sugerindo que mochilas foram esvaziadas e feitas às pressas.
O violino quebrado largado atrás da porta.
— Parece que as crianças foram levadas daqui às pressas – um deles transformou em palavras o que todos imaginavam.
Encontraram um carrinho de bebê abandonado no corredor de acesso aos quartos, com roupas e fraldas dentro.
No quarto menor – o de Amy – encontraram um berço bagunçado. Mais roupas espalhadas e gavetas reviradas. Um colchão inflável ao lado do berço. No lençol sobre ele, pequenas manchas de sengue seco.
No banheiro do corredor, muita bagunça e mais sujeira.
Na suíte do casal, lençóis estavam revirados. Muitas roupas de mulher espalhadas sobre a bagunça. Outras no chão e na poltrona ao lado da cama. Algumas, inclusive, rasgadas. Muitos objetos quebrados. Produtos que Rosalie usava para se maquiar tinham sidos atirados da penteadeira no chão. Mas, o que mais chamou atenção dos policiais foram as várias fotografias de Rosalie recortadas e coladas ao espelho com algum tipo de cola. Tantas que não restava mais espaço no vidro.
Dentro do banheiro mais bagunça e sujeira. Cartelas de compridos largadas de qualquer maneira, muitas das quais eram para aliviar dores. O cesto de roupas sujas tão cheio que algumas peças pendiam no chão.
Após algum tempo confirmaram que não havia porão, nem mesmo sótão, na casa. E que realmente estava vazia.
[...]
Rosalie tinha aproveitado seu horário de almoço para ir até a loja de música. Planejava comprar o violino de Enrico ainda que tivesse de dividir em varias prestações.
Fez o trajeto até lá, ansiosa, pensando na cara de felicidade do filho quando descobrisse a surpresa. E no quanto tudo aquilo significava pra ele.
Entrou na loja de música sentindo-se renovada. Olhou em volta nos mais diferentes tipos de instrumentos musicais. Mas foi o violino que fez seu coração bater mais rápido, motivado pela emoção de fazer o primogênito feliz. Enrico teria novamente seu sonho realizado.
O próprio dono da loja, um homem de cabelos grisalhos e barba bem aparada, se aproximou oferendo ajuda.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-la?
Rosalie se virou na direção dele, com a bolsa na mão, quase sorrindo.
— Procuro por um violino para uma criança de sete anos de idade – disse.
O dono da loja olhou nela com um pouco mais de atenção, parecendo reconhecê-la agora que falou.
— É a mãe do garotinho que tem tocado violino na igreja nas manhãs de domingo? Que também estão morando na fazenda Recanto dos Ursos?!
— Sim – Rosalie respondeu, meneando a cabeça, com um sentimento profundo de felicidade.
— Já ouvi seu filho tocar. É um garotinho muito talentoso.
— Obrigada. Música é a paixão da vida dele. Eu não sei tocar nada. Mas ele nasceu com esse dom.
— Por aqui, por favor – o homem indicou com a mão o caminho.
Encaminharam-se a uma parte da loja onde havia apenas violinos. E Rosalie percebeu a sutil diferença entre alguns deles.
— Por que estes são diferentes daqueles ali? – pediu.
— Estes – o homem mostrou com a mão os violinos – são violinos acústicos. E aqueles ali, de design arrojado, são elétricos. O som do violino elétrico é um pouco mais áspero, mais fanho, mais gritante, porque é amplificado pela eletricidade, enquanto o acústico só é movido pela força do braço do tocador, e, por mais suavemente ou com vigor que se toque, haverá diferenças por causa do material e da fonte de produção da sonoridade em cada um. Pelo que vi na igreja, seu garotinho prefere o acústico, não é isso?
— Sim, é isso mesmo.
— Neste caso, aconselho levar esse daqui. Ele é ½ o tamanho ideal para o seu garoto. É possível usá-lo com idades entre sete e oito anos. Estamos vendendo o kit completo: case, breu, suporte para partitura e arco afinador. Tudo o que ele vai precisar.
Pegou um estojo fechado e pôs sobre um balcão de vidro. Abriu o zíper e levantou a tampa revelando um lustroso violino cor de mogno no tamanho mencionado.
— Sim, é esse – Rosalie comentou. Completando em pensamentos. – Esse é o violino do Enrico.
Depois de mencionar valores, a compra foi efetuada no cartão de crédito. Que, aliás, era a primeira vez, em muito tempo, que usava um cartão em seu nome. Foram muitos anos de sua juventude dependendo de Royce, embora não tivesse tido escolha, pra tudo, presa a um amor cruel.
Uma adolescente de quinze anos, de cabelos escuros e cacheados, cujo Rosalie ficou sabendo ser filha do homem que a atendeu, pôs um laço de fita azul na parte mais fina do estojo. Alegrando Rosalie ainda mais com o que disse: “Seu filho vai amar o presente”. “E o melhor presente que um garotinho que ama tocar violino poderia ganhar”. “Eu quase enlouqueci quando ganhei meu primeiro violoncelo.”
Aquele não seria o primeiro violino que Enrico ganhava na vida. Ele já tinha vivido essa emoção ao ganhar um violino de presente da professora de música na antiga escola. Foi nele que encontrou refúgio para os momentos de dor e medo, fazendo do violino seu melhor amigo. Então Royce o destruiu deixando seu garotinho desolado.
Contra os planos de Royce, Enrico hoje receberia um novo violino. Podendo assim tocar quando bem quisesse. Dessa vez, no entanto, o instrumento musical carregaria um significado ainda maior, pois seria presente de sua mãe, à custa de muito esforço e sacrifício.
Um presente para alguém que teve seus primeiros anos de vida sacrificados por conta de sua fraqueza e medo. Um presente especial para alguém especial. Um presente para aquele que lhe devolveu a vontade de viver no instante que veio ao mundo.
Ao deixar a loja, Rosalie abraçou o estojo do violino com carinho, pensando em Enrico. A mamãe vai conseguir realizar seu sonho, pensou. E atravessou a rua, refazendo o caminho de volta a livraria Refúgio, onde Esme esperava por ela.
Quando entrou na livraria, Esme atendia a uma cliente no balcão de pagamentos. A sineta anunciou sua chegada. Esme e a moça de cabelos escuros olharam em sua direção.
— Me desculpe pelo atraso – pediu, imediatamente. Preocupada com que Esme pudesse estar pensando. Aproximou-se do balcão, passando para o outro lado, ficando ao lado de dela. Tendo o cuidado de deixar o estojo do violino num espaço na prateleira embaixo do próprio balcão de atendimento.
Esme entregou a sacola com a compra à moça. As duas agradeceram simultaneamente pela preferência. A cliente deixou a livraria com uma expressão satisfeita no rosto.
— Não se preocupe por ter se atrasado alguns minutos. O importante é que conseguiu comprar o violino do Enrico.
— Obrigada, Esme. Sabe que o dono da loja até mencionou ter visto o Enrico tocando na igreja?!
— Que é maravilha.
— Não é?! – concordou Rosalie, com satisfação e orgulho. – Pessoas que nem conhecemos reconhecem que meu garotinho é especial. Talentoso – dizendo isso, ficou com o olhar distante cintilando numa nuvem lágrimas.
— É claro que, sim, minha amiga – Esme apertou a mão dela gentilmente sobre o balcão. – Enrico é um doce de criança. Todos os três são.
Momentos depois, Rosalie caminhava pela loja, fazendo algumas arrumações, quando percebeu, através da vitrine, America passando na calçada. Ela não parou para entrar. Rosalie olhou pra Esme, percebendo que também havia notado.
— Ela nunca mais entrou aqui – comentou com Esme. – Eu sinto muito por isso, em parte é por minha causa.
— Bobagem, Rose. Não é culpa sua que America seja assim... ressentida.
— Te fiz perder uma cliente, de anos talvez.
— Em compensação ganhei uma amiga. Uma ótima amiga, pra vida toda.
Rosalie sorriu pra ela, absorvendo o carinho em suas palavras. Sim, elas eram amigas. O que disse só veio a reforçar o quanto era querida.
— Acha que ela ainda pensa em ter algo com Emmett? – perguntou.
— Eu realmente espero que não. – Esme começou. – Não gostaria de vê-la amargurada. Apesar de achar que ela não o ame. Penso que isso era mais um capricho, por ele ser um dos poucos homens solteiros na cidade que nunca olhou pra ela do jeito que gostaria.
— Lamento que tenha sido eu a destruir as esperanças dela de um dia ficar com ele. Não podemos mudar o que sentimos. Emmett e eu nos amamos. Também não posso culpá-la por desejar se envolver com ele. Emmett é um homem incrível. Apaixonante – ela se viu pensando em Emmett, em seus beijos e carícias. E também no como era atencioso e bom para as crianças.
— Esses olhinhos brilhantes não negam que está apaixonada – Esme atiçou, e a amiga deu risada.
— É melhor eu ir cuidar de meu serviço – Rosalie avisou ainda risonha.
As horas foram passando depressa. Aproximadamente por volta das 3h45, Alice passou pela porta. Parecia bastante animada até. Coisa que nos últimos dias não vinha acontecendo.
— Olá, gente bonita! – disse. – Mamãe. Rose.
— Pelo que estou vendo você e Jasper voltaram a se falar – comentou Esme, desviando a atenção da tela do computador.
— Já estava na hora – Rosalie aproveitou para dizer, chegando um pouco mais perto.
— Sim – Alice pulou. – Hoje, na aula de cálculo, ele pediu se podia sentar ao meu lado. E não era como se quisesse que eu lhe explicasse algo, até porque ele é mil vezes melhor que eu nessa matéria. O lance é que ele queria sentar comigo. E eu disse que sim. Porque, claro, eu sentia falta dele. E sabe o que foi melhor em tudo isso? – as duas negaram, balançando a cabeça. – Ele disse que sentia minha falta. Ai a gente ficou o resto do dia pra lá e pra cá junto outra vez. Então comecei a pensar nas coisas que você me disse, Rose. – Como Rosalie ficou calada, ela continuou: – Sobre eu ser mandona e destratar ele às vezes.
Esme se encheu de orgulho.
– Meu amor, você esta amadurecendo. Minha garotinha está crescendo.
— A amizade de Rose está me fazendo muito bem – admitiu Alice. E as duas olharam no rosto de Rosalie, agradecidas.
— Rose – disse Esme –, você está onde realmente deveria estar.
— Não posso discordar – Rosalie brincou. – Mas, vem cá, cadê ele que não veio com você? Foi direto pra casa? Como assim?
— Não – Alice negou, com um sorriso gigantesco. – Ele está na sorveteria da esquina. Eu vim na frente pra contar pra vocês a novidade.
Do lado de fora, Jasper parou atrás da porta de vidro, mudando um dos sorvetes de mão.
— Disfarça, ele chegou – Alice cochichou.
A sineta soou assim que ele passou pela porta.
— Olá! – disse se dirigindo a Rose e a Esse.
— Olá, Jasper – Esme tinha um sorriso gentil ao se dirigir a ele.
— Oi, Jasper – Rosalie também o cumprimentou. Compreendendo o novo sentimento entre os dois. Sabendo que, no fundo, Esme também compreendia. – É bom tê-lo de volta – disse.
— Obrigado – Jasper deu um sorrisinho tímido no qual Rosalie achou uma graça.
Ele estendeu a mão, entregando um dos sorvetes a Alice.
— É pra você.
— Obrigada, Jazz.
Alice lhe disse obrigado em vez de agir como se tivesse a obrigação de fazer as coisas para ela e isso o cativou.
— É de limão, o seu favorito – comentou.
Esme e Rosalie trocaram olhares, achando uma gracinha ele ter se lembrado do sabor de sorvete favorito de Alice.
— Mamãe, a gente vai terminar o sorvete primeiro. Depois fazemos a lição de casa, tudo bem?
— Por mim está ótimo.
— Vem, Jazz! – Alice tocou no braço dele com a outra mão.
— Com licença – Jasper pediu.
Alice mais uma vez as surpreendeu. Em vez de arrastar Jasper de um lado pra outro como sempre fazia, caminharam lado a lado, sem pressa, até o cantinho da leitura.
— Jasper é um doce de menino – comentou Rosalie.
— Ele é sim – Esme admitiu. – A mãe soube criá-lo muito bem.
— Ele tem irmãos?
— Não. Jasper é filho único, assim como Alice. A mãe o cria sozinha desde que ele tinha a idade da Amy.
— O pai dele é falecido?
— Divorciados. Era peão de rodeios, dificilmente parava na cidade.
— Ele nunca mais voltou para ver o filho?
— Algumas vezes, no natal. Não mais que isso.
— Que pena. Ele é mesmo um bom garoto. Acho que eles se gostam, bem mais que amigos.
— O pior é que eu tenho notado isso também. Não sinto só aquela amizade entre duas crianças como antes. Sinto que são dois adolescentes descobrindo o primeiro amor. Quem não vai gostar muito é Carlisle. A garotinha dele crescendo, já pensando em ter o primeiro namorado. Bom, pelo menos, é um bom garoto e o conhecemos desde que era um bebê.
Enquanto conversavam lá na frente, os dois terminavam de tomar os sorvetes sentados ao lado um do outro, num dos sofás cheios de almofadas, onde Alice costumava ler para as crianças, compartilhando os fones de ouvido.
— Eu adoro essa música – Alice comentou.
— É a minha favorita – admitiu Jasper.
— Sempre soube que você tinha bom gosto – Alice acrescentou, e os dois riram juntos.
[...]
Quando Rosalie se deu conta, Emmett estava estacionando a caminhonete ao meio-fio, como sempre, em frente à livraria.
Ele saiu do carro, passando pela frente do capô, pondo o chapéu na cabeça ainda enquanto subia na calçada. Sorrindo para Rosalie ao perceber que já o tinha visto. As covinhas em suas bochechas tinham o poder de acelerar as batidas no coração dela.
Rosalie sentiu vontade de correr pros braços dele, porém, se limitou ficar onde estava. Já tinha abusado demais da boa vontade de Esme por um só dia.
Emmett agora dificilmente tirava o chapéu. E isso se devia a uma declaração feita por Rosalie. Certa vez lhe disse que ficava sexy quando aparecia assim.
A sineta entregou sua chegada. Ele ajeitou o chapéu na cabeça com os dedos da mão direita. A camisa preta de botões, com mangas dobradas até acima dos cotovelos, tinha três botões abertos deixando um pedaço do peito musculoso à mostra.
Rosalie sentiu o coração reagindo à presença dele com batidas apressadas. A verdade era que, descaradamente, todo seu corpo reagia.
— Boa tarde – ele cumprimentou Esme. Em seguida, piscou o olho para Rosalie. Se intencional ou não, o fato foi que ele a deixou ainda mais afetada com o gesto, causando inquietude a algumas partes do corpo dela.
— Boa tarde – Esme comentou, rindo sutilmente.
Emmett ficou onde estava. Olhando Rosalie parada num dos corredores próximos à entrada da loja. Ambos ansiando contato físico.
Sem se dar conta, Rosalie esfregou as mãos na lateral do corpo.
— Ora – soltou Esme, de repente –, deixem disso e se deem logo um beijo. Não vou me opor. Sei que estão doidos por isso. Eu não sou uma pessoa ruim. Vamos, deixem disso.
Rosalie sorriu, embora um pouco constrangida que Esme tivesse percebido o que acontecia.
Emmett deu alguns passos em direção a ela, e quando estava perto o bastante, segurou seu rosto entre as mãos. As mãos dela se apoiaram no peito largo dele, enquanto ficava nas pontas dos pés, durante um beijo breve.
Ela riu, envergonhada, quando Emmett se afastou, se pondo ao seu lado com o braço em volta de seus ombros. Então sentiu os lábios dele tocar seus cabelos, no alto da cabeça.
— Assim está melhor – disse Esme, com um sorriso conspiratório estampado no rosto.
Sorriram um para o outro, antes de voltar olhar pra Esme.
— Como andam as coisas lá na fazenda? – Esme pediu, quando ambos chegaram mais perto do balcão onde estava.
— Vovó anda tão feliz quanto um pinto no lixo. Segundo ela, as coisas estão como sempre sonhou. As crianças têm chegado sempre felizes da escola, e eu as ajudo com a lição de casa antes de irem brincar pela fazenda. No geral, a casinha na árvore tem sido a grande atração.
— Essa é só mais uma das gentilezas desse humano incrível – Rosalie teceu o elogio. – Desde que os meninos começaram voltar pra casa – a menção a palavra casa, Emmett beijou na têmpora esquerda dela –, depois da escola com Kate, ele é quem tem feito a lição de casa com eles todos os dias.
— Não me surpreende – Esme falou num tom alegre.
— Eu vou deixar você terminar – avisou Emmett, afastando o braço dos ombros de Rosalie. Causando nela a ausência do seu calor e o desejo de tê-lo sobre seus ombros de volta.
Ela apenas assentiu com a cabeça.
— Nós já vamos fechar – Esme disse a ele.
— Sendo assim, espero por vocês do lado de fora. Não quero atrapalhar.
Alice e Jasper se aproximaram trazendo as mochilas pesadas sobre os ombros.
— Ei, Emmett! – saudou Alice.
— Oi, baixinha. Parece que você e Jasper fizeram as pazes, finalmente – comentou.
— A vida é muito chata sem ele por perto.
— Eu entendi bem? É isso mesmo? Você não disse que Jasper não vive sem você, ou qualquer coisa parecida, como teria dito alguns dias atrás?
— Nós somos melhores quando estamos juntos. E a verdade é que eu sentia muita falta de estar com ele.
Emmett bagunçou os cabelos dela no alto da cabeça.
— Parece que alguém aqui está crescendo – brincou. E Alice bufou inconformada.
— Nem tanto assim. No que diz respeito à estatura, parece que não tenho crescido nada nos últimos meses.
Jasper não conseguiu permanecer sério diante o que ouviu dela. Emmett o acompanhou na risada.
— Ei, mamãe, Jasper e eu vamos esperar do lado de fora. Podemos dar carona pra ele?
— Tudo bem – Esme respondeu, sem interromper o que fazia. – Encontro com vocês lá fora.
Eles deram tchau a Rosalie e Emmett e foram para o lado de fora da loja.
Emmett olhou pra Rosalie. – Te espero lá fora também, Raio de Sol.
Momentos depois, Rosalie apareceu na calçada, com a bolsa embaixo do braço. O estojo do violino pela alça, na mão.
Emmett estava encostado à caminhonete, olhando o movimento na rua. Virando-se ao sentir a aproximação dela. Seus olhos não demoraram a registrar o estojo preto na mão de Rosalie.
— É o que estou pensando?
— Sim – ela disse, esbanjando um sorriso largo. Chegando mais perto.
Emmett beijou nos lábios dela ainda enquanto estendia as mãos para ajudá-la com o violino. Já com o estojo preto na mão, ele falou:
— Nosso garotinho vai ficar muito feliz, não vai?
— Demais. Passei o dia inteiro pensando nisso.
— Aposto que sim.
— O dono da loja disse que já o ouviu tocar na igreja aos domingos. Eu nem conseguia acreditar que estava comprando o violino pro meu filho, pelo meu próprio esforço. E ainda ouço o dono da loja elogiar a aptidão do meu pequeno. Foi como um sonho.
— Eu sei o quanto esperou por esse dia. Acho que até mais que o próprio Enrico. Por isso nunca pressionei que me deixasse fazer isso. Estou orgulho de você, meu amor.
— Tem ideia do quanto te amo? – ela lembrou.
— Que tal me mostrar o quanto me ama hoje à noite, quando todos já estiverem dormindo? – E ele revelou aquele sorrisinho que entregava suas intenções.
— Que assanhado esse cowboy. – Ela deu uma risadinha, cutucando na aba do chapéu dele com o dedo.
— Você sabe o quanto sou louco por você – ele acrescentou, e segurou na cintura dela com as duas mãos. Encostando o nariz na pele do pescoço dela, aspirou seu aroma enquanto dizia: – O que me diz?
— Mal posso esperar... – a resposta saiu dos lábios dela na forma sussurrada.
Emmett sentiu a ansiedade pela chegada da noite crescendo.
Alice e Jasper se encontravam encostados ao carro de Esme numa vaga de estacionamento, dando risadinhas de algo que viram no celular.
Emmett e Rosalie olharam naquela direção, imaginando o que poderiam ter visto ou dito um para o outro.
— Não foi sobre a gente – Rosalie disse pra ele.
Emmett roubou um beijo rápido dos lábios dela.
— Não me importaria se fosse – admitiu.
Esme se aproximou depois de guardar as chaves da loja na bolsa.
— Nos vemos amanhã – disse a Rosalie. – Até logo, Emmett! E comportassem na estrada, não vão se distrair.
— Pode deixar – Emmett foi quem respondeu.
Quando Esme se encaminhava até onde estava estacionado seu carro, percebeu um Mercedez-Benz preto se aproximando, diminuindo a velocidade.
— É o papai! – Alice falou em voz alta.
Carlisle se inclinou na janela aberta do carro. A essa altura, o carro já tinha parado de se movimentar, porém, o motor permanecia ligado.
— Já estão indo pra casa? – pediu.
— Vamos só deixar Jasper na casa dele antes – Esme lhe disse. – Encontramos você em casa daqui a pouco. Está indo pra lá, não é?
— Sim. Vou descansar para o plantão dessa noite.
— Estarei em casa em alguns minutos, querido.
— Tchau, papai.
— Você e Jasper não estavam brigados? Fizeram as pazes é? – Em seu tom de voz tinha aquela pontada de ciúme de pai.
— Está todo mundo comentando isso?! – Alice admirou-se.
Carlisle olhou no rosto de Jasper ainda de dentro do carro.
— Não vá deixar minha filha triste de novo rapaz.
— Não, senhor.
Emmett buzinou ao passar por eles na caminhonete. E Rosalie lhes deu um tchuzinho.
[...]
Na varanda da sede estavam Lena, Merci, Kate e Amy. Lena em sua adorada cadeira de balanço em madeira maciça. Merci numa das cadeiras de vime, com a fralda de pano de Amy na mão. Kate sentada no chão com os pés no degrau. Amy indo de um lado a outro da varanda empurrando um desses brinquedos que lembram um andador todo colorido, com vários botões para distrair a criança.
As três mulheres viram quando a caminhonete chegou e parou ao lado do galpão, onde Emmett costumava estacionar durante o dia. Viram também eles deixarem o carro e se encaminhar a varanda.
— Amy, olha só quem acabou de chegar, bebê – Kate chamou por ela, movendo a mão para que olhasse naquela direção.
A menina largou o brinquedo assim que os avistou. Ansiosa, correu a fim de encontrá-los.
— Mamã – falou toda agitada, e quando quis descer os degraus, Kate a segurou antes que o fizesse.
Merci tinha se levantado logo que a menina começou a correr. Voltando a sentar apenas quando Kate disse que ficaria com ela.
Não demorou, Amy se pôs a chorar estendo os braços pra mãe.
— Oh, meu amor, não chore assim. Eu vou deixar você ir com a mamãe – Kate falou com a voz carinhosa. – Só não quero que se machuque.
— Amy? – Rosalie chamou, enquanto caminhava. – A mamãe já vai chegar aí. Tenha calma, meu anjo.
— Mamã – Amy soluçou. Se esticando no colo de Kate.
— Oh, meu Deus do céu, que choro – Rosalie comentou, se apressando em ir ao encontro da filha. Deixando que Emmett levasse o violino.
— O que é isso papai? – Emmett pediu. Sempre carinhoso ao falar com as crianças.
Lena foi quem explicou a ele.
— Ela ficou brava porque sua irmã não deixou que descesse os degraus para ir ao encontro de vocês.
A essa altura, Kate já tinha se levantado com Amy no colo. E Rosalie se apressado, subindo os degraus para pegá-la.
— Pronto! – disse quando a recebia dos braços da irmã de Emmett. – Olha a mamãe. – Rosalie cheirou e beijou o rostinho dela mais de uma vez.
— Mamã.
— Oi, meu amor?
E Amy beijou no rosto dela, com baba e lágrimas se misturando. Depois olhou no rosto de Kate, fazendo beicinho de ressentimento.
— Titi – acusou.
— Foi titia que segurou você?
— Gulô.
— Ô titia sapeca.
— Peca, titi.
— É, titia muito sapeca – Rosalie repetiu, com um sorrisinho ao beijar as bochechas de Amy.
Emmett parou ao lado dela, pondo uma mão nas costas de Amy enquanto beijava no alto da cabecinha loura.
— Titia malvada – ele falou com Amy, os lábios ainda tocando nos cabelos finos dela, inalando o aroma de xampu infantil.
— Papa – chamou toda dengosa. Em seguida, mostrou o caminho dos estábulos com o dedinho roliço em riste. – Tavaio. Lá.
— Você quer ir ver os cavalos? – E ele riu solto. – Daqui a pouco o papai te leva lá pra ver eles.
Amy desviou o dedinho daquela direção, encostando-o à boca de Emmett. E ele fingiu morder. Ela sorriu.
— É o violino do Enrico? – Lena perguntou.
Emmett ergueu um pouco a mão que segurava o estojo presto. – É, sim, vovó. Rose comprou pra ele.
— Ele vai ficar tão feliz – Lena mencionou.
— Ele vai, sim. Aliás, onde ele está agora?
— Estão todos lá nos fundos, brincando. Voltaram agora a pouco da casinha na árvore.
— Nosso pequeno músico vai ficar numa felicidade só – Kate comentou.
A babá também fez seu comentário.
— Ele é realmente muito bom. Nunca vi uma criança tocar violino com o talento e amor que Enrico demonstra.
— Meu bisneto nasceu com um dom – Lena se gabou.
Rosalie voltou à atenção a Emmettt.
— Amor – disse ela –, você busca ele pra mim? Vou esperar no quarto dos meninos com a Amy.
— Num minuto estaremos com vocês.
Kate estendeu as mãos para o irmão. – Deixe que eu leve o violino pro quarto deles.
Então, Emmett deixou que a irmã pegasse o estojo de suas mãos. Enquanto fazia isso, Rosalie se dirigiu a babá.
— Eu vou ficar com Amy agora, Merci. Obrigada.
— Eu vou estar ainda um pouco por aqui, qualquer coisa é só chamar.
— Obrigada.
Rosalie entrou na casa, levando Amy nos braços. Logo atrás dela, Kate levava o violino.
Emmett deu a volta na casa, seguindo pela varanda lateral. Imediatamente avistando as crianças. As quatro brincavam jogando bola. Duas traves pequenas, de plástico, em distância considerável, demarcava o gol.
Jujuba e Caramelo estavam na varanda observando as crianças brincar. Imaginou que cansados de tanto correr. Afagou na cabeça de cada um, dizendo em seguida:
— Estão tomando conta deles? – Caramelo então soltou um latido. – Muito bem, garoto. Muito bem.
Emmett e os dois cachorros olharam novamente na direção de onde as crianças brincavam.
— Enrico?
O menino olhou pra trás, as bochechas vermelhas, sorrindo pra ele.
— Vem cá filho!
Enrico correu até ele, alegre. Subindo os degraus daquela parte da varanda, pulante.
— A mamãe já chegou? – ele pediu, sentindo o calor da agitação esquentado as bochechas.
— Já, sim. E ela quer que você vá até o quarto.
— O seu?
— Não, no de vocês.
Nesse momento, Enrico tinha parado ao lado de Emmett. Moveu os ombros num gesto alegre e correu até a porta, parando para olhar pra trás.
—Você não vem, papai? – pediu a Emmett.
— Sim, eu vou.
Do gramado, Noah olhou na direção da varanda, passando a mão na testa para afastar os cabelos dos olhos.
— Rico aonde você vai? – gritou.
— Vou ver a mamãe. Ela chamou.
— A mãezinha já chegou?
— O papai disse que sim.
A bola passou rolando nos pés dele e ele sequer notou.
— Eu vou também. Espere eu irmão! – E começou a correr, indo para a varanda.
— Sem correr nos degraus, Noah – Emmett alertou. E o menino parou de correr no mesmo instante. Quando parou ao lado de Emmett, ofereceu a mão pequena a ele.
Os três entraram na casa pela porta da cozinha. Noah segurando na mão de Emmett.
Atravessaram os cômodos sempre atrás de Enrico. Noah, saltitando. Algumas vezes tropeçando nos próprios pés. Não fosse Emmett estar segurando sua mão, certamente teria caído mais de uma vez.
Enrico parou diante a porta do quarto novo, abrindo- a devagar.
— Mamãe?
Amy estava no tapete brincando com alguns dos brinquedos dos irmãos. Rosalie sentada na caminha dele.
— O papai disse que você queria falar comigo – disse o menino.
— Isso mesmo, príncipe. Chega aqui, mais pertinho da mamãe.
Enrico foi até onde ela estava, com a expressão feliz, passando os braços em volta do pescoço dela.
— Está tudo bem, mamãe? – ele pediu, ainda com um dos braços nos ombros dela.
— Está tudo perfeito – ela disse, e sorriu. O menino sorriu em resposta.
Na porta, Emmett pediu que Noah aguardasse ao lado dele.
Ainda que não tivesse entendido o porquê, Noah obedeceu. Porém, seus pezinhos, calçados de tênis, não pararam de se mover se mostrando impaciente.
— A mamãe tem uma coisa para você – Rosalie falou com Enrico, despertando não só o interesse nele, mas também no irmão. Ela continuou: – Você imagina o que pode ser?
Enrico moveu a cabeça, negando.
— Não.
— Está bem aqui, embaixo desse cobertor.
Com curiosidade, Enrico passou os olhos no cobertor do Buzz Lightyear ao lado da mãe em sua cama. Havia um volume embaixo dele, e o menino ficou pensando o que poderia ser. Como que esperasse aprovação olhou no rosto dela.
— Você pode puxar o cobertor – ela instruiu.
— Tenho medo.
— Medo do que, amor?
— Porque eu acho que é uma coisa muito boa. – Tinha olhado novamente o montinho oculto pelo cobertor, analisando sua forma. – Posso ficar emocionado.
— Não há nada de errado em ficar emocionado, meu anjo.
— Não? – murmurou já meio choroso.
— Vem cá! Dá um beijinho na mamãe – Rosalie o aninhou nos braços. Ela o beijou no rosto. Ele também beijou no rosto dela, depois pôs a mão pequena em cima do cobertor.
— Pode puxar – ela incentivou, dando uma piscadela.
Enrico olhou um instante nos olhos da mãe, antes de finalmente puxar o cobertor revelando o estojo preto do violino enfeitado por um laço de fita azul.
A emoção bateu forte. Ele se pôs a chorar enquanto tremia.
— Mamãe... – sussurrou, com os lábios tremendo. – Mamãe.
— O que foi amor?
Enrico acariciou o estojo bem ao lado de onde ficava o laço de fita azul.
— Eu sei o que é.
— A mamãe comprou pra você. É seu. Abre!
— Eu não consigo...
— Vem cá – Rosalie segurou nas mãos pequenas dele, reconhecendo o quanto estavam trêmulas, ajudando-o abrir o estojo.
Logo que a tampa foi erguida, Enrico chorou um pouco mais. Não conseguia acreditar no que os olhos viam. O violino novinho, brilhando como verniz diante de seus olhos.
Amy correu para junto de Rosalie, assustada, se agarrando a suas pernas. Rosalie afagou os cabelos finos da menina, mas, seus olhos estavam mesmo era no filho mais velho, que chorava de emoção, sem conseguir acreditar que tivesse mesmo acabado de ganhar um violino novo.
Noah inclinou o pescoço, buscando a olhar de Emmett.
— Por que o Rico tá chorando, papai? – seu rostinho estava marcado por uma mascara de preocupação e angustia.
— Ele só está emocionado, pequeno.
— O que é isso, mocionado?
— Ficar emocionado é como ficar feliz, de conseguir algo a muito desejado. Nesse caso a felicidade é tanta que toca o coração, e então surgem as lágrimas.
— Ah... – Foi tudo o que Noah conseguiu dizer. Tornando olhar o irmão, que continuava chorando.
— Ele é seu, filho – Rosalie disse. – A mamãe conseguiu cumprir com a promessa. Agora você tem outra vez um violino. E está completinho, com tudo o que você vai precisar.
Enrico reparou em todas as coisas que acompanhavam o instrumento. E, então, novamente se lançou nos braços da mãe.
— Obrigado, mamãe! Obrigado. Muito obrigado. Eu amo você, muito. Muito mesmo, daqui até a lua.
— A mamãe te ama até a lua, ida e volta – ela repetiu, recordando um dos livros infantis que leu para eles certa noite. – Agora pegue o seu presente, que eu sei que você amou de montão.
Enrico se afastou dos braços dela devagar. Com as duas mãos, foi retirando o violino do estojo como quem segura um cristal raro. As lágrimas lhe correram o rosto novamente. Olhou com admiração e fascínio o instrumento. E ao posicioná-lo ao queixo, sorriu com lágrimas nos olhos.
Abaixou o instrumento com delicadeza, e foi pros braços da mãe mais uma vez. Tomando cuidado com a irmãzinha que rondava os dois. Abraçando Rosalie meio que de lado enquanto segurava o violino.
— Obrigado, mamãe. Obrigado – ele voltou a dizer.
Emmett deixou então que Noah fosse se juntar a eles.
— Agora você tem um violino novo, Rico – Noah mencionou, abraçando as costas do irmão. – A mãezinha é muito boa.
Ao ouvi-lo dizer essas palavras, Rosalie olhou pra Emmett junto à porta com lágrimas nos olhos. Quando piscou, elas rolaram facilmente por seu rosto.
Emmett piscou um olho pra ela, dizendo naquele gesto que tudo estava como deveria ser. Que as crianças reconheciam seu valor.
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