Um Lugar Para Ficar

32 Capítulo 32 – Confiança, Medo e Promessas


Notas iniciais
Obrigada BeeGommes, por ter recomendado fic. Amei o que você escreveu, coração. Capítulo especialmente para você. Espero muito goste. A todos, uma excelente leitura.

Enquanto caminhavam pela propriedade em busca do melhor local, da melhor árvore onde pudessem erguer a casinha, as crianças se mostraram bastante animadas e faladeiras. Alcançando, em pouco tempo, uma área onde as árvores eram próximas umas das outras, com copas cheias. Raios de sol atingiam o chão de terra em pequenos filetes de luz, que na visão de uma criança chegava a ser mágico.

Emmett chegou àquela parte das terras, ainda carregando Noah nos ombros. O menino mantinha as mãos na cabeça dele, sobre o chapéu de couro preto, sempre olhando tudo ao redor, com feição animada. Emmett também levava a sobrinha pela mão.

Os cachorros iam à frente, às vezes farejando, sentindo que havia esquilos por perto.

Enrico erguia o olhar com curiosidade sempre que ouvia um pássaro cantar. Reconhecendo os sons diferentes. Emmett sabia que tinha a ver com sua paixão por música; que ali estava um jovem músico apreciando os diferentes cantos de pássaros no arvoredo. Emmett seguia seu olhar, e, ao identificar a espécie, revelava o nome. E também um pouco sobre seu comportamento. Enrico lhe sorria como se estivesse diante o ser humano mais incrível do mundo. O menino começava acreditar que Emmett sabia tudo sobre qualquer coisa.

Já o sobrinho dele, Logan, esteve o tempo inteiro com uma vareta em punho fingindo ser uma espada, lutando com inimigos imaginários.

Pararam ao alcançar a pequena clareira, olhando em volta, no alto das árvores, tentando ver nelas uma casinha ainda inexistente.

Folhas secas e gravetos sob seus pés estalavam a cada movimento. A brisa soprava as folhas no alto dos galhos com suavidade.

Emmett pôs Noah no chão, os pezinhos do menino calçados de tênis, fizeram barulho ao pisotear as folhas mortas. Abby soltou da mão do tio logo que pararam de andar.

Logan enfiou o graveto na terra, ainda fingindo ser uma espada. Indo de um lado a outro, olhando pro alto como os demais faziam.

Jujuba latiu de repente, causando estremecimento em Enrico. Caramelo olhou fixamente no tronco de uma árvore, em seguida, saiu em disparada, empurrando folhas secas sob as patas, perseguindo um esquilo. Num instante, Jujuba o alcançou.

Noah começou a rir e a pular de olho na cena que os dois cachorros protagonizavam. Os cachorros pararam há alguns metros de onde eles estavam; se pondo de pé nas patas dianteiras, latindo sem parar pros esquilos no alto da árvore.

Abby ficou preocupada que eles pudessem pegar os esquilos.

— Jujuba e Caramelo, parem com isso já! – ela exigiu, com uma leve imitação da mãe. – Deixem os esquilinhos em paz. Parem de ser malvados. – Mas, em vez disso, os cachorros latiram ainda mais.

Emmett assobiou. O som que emitiu fez com que os cachorros parassem de fazer todo aquele barulho e se pusessem nas quatro patas outra vez.

— Aqui! – disse para os cachorros. Jujuba correu na frente. – Isso, garota! – Emmett a incentivou.

— Vem Jujuba! – Noah gritou, vendo-a correr com as orelhas balançando. – Vem também, Caramelo. Vem Caramelinho.

Os dois cachorros pararam perto deles. Noah agarrou Jujuba pelo pescoço, ganhando uma lambida no rosto em retribuição. Abby acariciou as orelhas de Caramelo e também ganhou uma lambida em forma de agradecimento.

Enquanto isso, Enrico se mostrava hipnotizado, olhando ao redor. A expressão em seu rosto, de puro contentamento. A brisa soprou os cabelos na testa dele, e ele os afastou com a mão para longe dos olhos.

Emmett viu o momento em que fechou os olhos e ficou somente apreciando os sons da natureza. Não tinha dúvidas de que era o músico sentindo os acordes no pipilar de cada pássaro. Não demorou, um sorriso marcou os lábios do menino. Emmett sacou o celular do bolso dos jeans e fez uma fotografia dele para mostrar a mãe depois.

Logan tinha se afastado alguns metros e voltou correndo em seguida, trazendo um sorriso no rosto.

— Tio. Tio, Emmett – falou ofegante. – Encontrei uma que pode servir. – Foi nesse momento que Enrico voltou abrir os olhos para reparar neles.

— Nos mostre em que lugar – Emmett pediu.

— É por aqui – o menino fez um gesto com a mão na direção de onde viera. E se pôs a caminhar, com os outros logo atrás.

Os cachorros se distanciaram e retornaram para juntos deles muito rápido.

Todos pararam diante a grande árvore de tronco grosso cujos galhos mais baixos estavam encobertos por baba de velho.

Logan ergueu a mão, após afastar os cabelos louros da testa. – É essa, tio Emmett – disse orgulhoso. E olhou então para o tio.

Emmett sorriu para o sobrinho. Depois pôs a mão no ombro de Enrico. O menino olhou pra ele com a mesma expressão de contentamento que marcava seu rosto segundos atrás. Emmett então moveu a mão fazendo um carinho no ombro pequeno.

— O que acha filho? Gostou dessa?

Enrico anuiu. – Sim – disse, com um leve sorriso. – Ela é perfeita.

E foi observando aquela expressão genuína de felicidade que Emmett pensou na mulher que ama, no quanto lhe faria bem saber como o filho se sentia em paz naquele ambiente. Mas, também pensou no garotinho triste que um dia havia sido. E nunca esteve tão certo sobre o que vinha fazendo.

— Temos nossa árvore, então – disse as crianças.

Logan, Abby e Noah comemoraram aos pulos. Os cachorros entraram na bagunça, embora não soubessem o porquê de tanta euforia.

Em vez de pular como as outras crianças estavam fazendo, Enrico abraçou as pernas de Emmett, agradecido. Emmett olhou para baixo, surpreendido pelo gesto. Bagunçando os cabelos do menino na palma da mão, para depois pegá-lo no colo. Enrico passou os braços em volta do pescoço dele, num gesto carinhoso encostou seu rosto na lateral do rosto de Emmett.

— A mamãe e a Amy também vão poder ajudar? – pediu.

— Sim. As duas vão poder ajudar, sempre.

— E vai caber a mamãe na casinha?

— Sim. Caberá até a mim. Será uma casinha e tanto.

— Então... a gente vai poder se esconder aqui quando... quando ele chegar?

“Quando ele chegar”, Emmett se viu repetindo mentalmente o que Enrico dissera. Num instante de confusão, até a ficha cair, percebendo que “ele” era Royce, o marido de Rosalie. A confirmação do pavor que aquela criança carregava, doeu no mais íntimo de seu coração. De repente, os medos de Enrico se confundiram com a história e os medos do Emmett garotinho.

O menino notou sua feição de dor, e, embora não soubesse da história de Emmett, sentiu que uma recordação o magoava.

Quando a mão de Enrico tocou seu rosto, as lembranças se dissolveram. Emmett então olhou o garoto em seus braços, confiante em seu cuidado e proteção.

— Ele não vai chegar Enrico.

— Quem vai chegar? – Noah disparou, interrompendo o diálogo dos dois.

Emmett deixou de olhar Enrico para olhar Noah.

— O que vocês acham de me ajudar com as anotações. Iremos precisar de muitas coisas. Por isso é importante começarmos agora.

Todas as crianças gritaram, animadas, que sim. A pergunta de Noah tinha ficado esquecida, assim como a preocupação de Enrico. Emmett o pôs no chão. E todos se puseram sentados à sombra da árvore, numa grossa raiz exposta.

Ele retirou do bolso um bloco de notas e uma caneta. Anotou tudo o que precisaria. E também sugestões das crianças, para o que esperavam da casinha na árvore.

Mais tarde, quando retornaram a sede, o sol estava se pondo. Mesmo aquela altura, as crianças estavam ainda mais empolgadas do que quando sairiam da sede mais cedo.

Entraram todas na casa grande, faladeiras e barulhentas, contando tudo o que tinham feito, e também visto, para Lena e Kate na sala de estar. As duas ouviram a tudo com atenção, fazendo perguntas no momento certo.

— Onde estão Rose e a Amy? – Emmett pediu, mesmo com toda aquela falação.

— No quarto que ela dormia com as crianças. – Kate respondeu enquanto a avó ria de algo que Noah contava.

Emmett foi até lá. A porta estava entreaberta. Rosalie se encontrava sentada na cama, de costa pra porta. Separava as roupas limpas das crianças tirando-as do cesto já passadas a ferro. No centro da cama, Amy dormia toda esparramada, com a chupeta na boca.

Entrou no cômodo sem fazer barulho, pisando devagar no assoalho de madeira. Pôs as mãos no colchão ao se curvar para beijar no pescoço de Rosalie. Ela se moveu ficando de frente pra ele. E, então, suas mãos tocaram-lhe o rosto. Agora era capaz de perceber quando as lembranças o tocavam, da mesma forma que acontecia a ela.

Cobriu os lábios dele com os seus num beijo suave e breve. Por fim, perguntou:

— Onde estão os meninos?

— Na sala, contando tudo o que fizemos a vovó e a Kate. Você precisa ver o sorriso estampado no rostinho de cada um deles.

Rosalie voltou acariciar o rosto dele com as pontas dos dedos.

— Eles estão muito sujos?

— Só um pouquinho.

— Então é melhor eu deixar isso aqui pra depois. Vou levar eles pro banho logo.

— Se me permitir, posso fazer isso – ele se ofereceu. – Eu os levo e supervisiono.

— Faria isso?

— Por que não? São nossos filhos.

Rosalie se inclinou, ficando de joelhos no colchão, enquanto o abraçava pelo pescoço. Emmett apertou a cintura dela com o braço, aproveitando para lhe beijar o pescoço. E trocaram mais um beijo antes de se afastarem.

Ele se aproximou de Amy na cama. – E a minha garotinha?... – murmurou beijando a barriguinha dela, logo depois se afastou. – Volto daqui a pouco com nossos garotos, de banho tomado.

— Amor... – Rosalie falou baixinho. Emmett se virou para olhá-la. – Eles nunca tiveram essa chance com... você sabe... sempre fui eu a cuidar deles.

Emmett anuiu.

Quando ele saiu, Rosalie se deitou ao lado de Amy e lhe deu um cheirinho na bochecha. Se dedicando arrumar as roupas minutos depois.

Na sala, as crianças ainda falavam sem parar. Lena tinha servido suco de amora pra elas. Por isso quando Emmett chegou encontrou a mesinha de centro cheia de copos vazios.

— Noah? Enrico? – ele começou, tentando ser ouvido com toda aquela falação sem ter de levantar a voz. Esperou um segundo e então voltou a falar: – A mãezinha de vocês disse que os dois têm de ir pro banho. Como ela está ocupada, serei eu a supervisioná-los hoje, tudo bem?

— Onde que tá a mãezinha? – Noah perguntou.

— Ela está arrumando as roupas de vocês, lá no quarto.

— Você vai tomar banho também, papai? Vai lavar seu pinto e seu popô?

As outras crianças caíram na risada.

— Não agora. Mas com toda certeza farei isso.

— Mas, só a mãezinha sabe lavar o cabelo meu e do Rico. Só a mãezinha.

— O papai também sabe – Emmett explicou a ele.

— Sabe, de verdade?

— Claro que sim. – Emmett percebeu Enrico, de repente, quieto demais. – Enrico, você prefere que seja a mamãe a supervisionar seu banho? Se for assim, tudo bem. Vocês podem esperar por ela.

— Eu não sei... – ele falou de cabeça baixa. – Se a mamãe não puder, eu posso tomar banho sozinho. – Ele se levantou devagarinho e segurou na mão do irmão. – Vem comigo Noah – chamou.

— Mas e o papai? – o irmãozinho perguntou.

Enrico cochichou qualquer coisa no ouvido dele, e Noah fez beicinho querendo chorar.

Antes que Emmett pudesse reagir, os dois deixaram a sala de estar, de cabeça baixa, com passos largos e decididos.

— Fiz algo de errado? – ele pediu a irmã, um pouco surpreso com o que acabou de acontecer.

— Você não fez nada de errado. Fique tranquilo. Isso está mais pra algo que aquele desgraçado fez.

— Vá falar com Rose – Lena sugeriu.

Logan e Abby estavam em silêncio, observando os adultos falarem. Emmett deu as costas pra eles e foi ao quarto falar com Rosalie novamente.

Ela fechava o guarda-roupa quando ele tornou entrar no quarto.

— Já terminaram? – ela pediu um tanto surpresa. De repente, olhando em volta, buscando pelos filhos. Esperando que eles entrassem pela porta enrolados de toalha a qualquer instante. – Onde eles estão? – pediu ao perceber que não estavam a caminho. Subitamente ficando aflita.

— Eles estão bem, amor – Emmett lhe disse. – Mas eu não consegui levá-los pro banho. De repente Enrico pegou Noah pela mão e disse que eles tomariam banho sozinhos, se você não pudesse ir.

— Eu vou falar com eles – Rose avisou, antes que terminasse de falar. – Preciso saber o que estão pensando.

— Eu posso ir com você?

Ela não disse nada, em vez disso estendeu a mão pra ele. E eles deixaram o quarto de mãos dadas, indo até o banheiro no fim do corredor.

Rosalie parou de frente a porta, dando uma leve batida na madeira, avisando de sua chegada. Certificando-se de que eram mesmo eles lá dentro.

— Noah? Rico? É a mamãe e o Emmett – disse.

Ela abriu a porta devagar, reparando dentro do banheiro. Emmett permanecia do lado de fora. Os dois meninos já tinham retirado as roupas e estavam dentro do box. O mais velho segurava o frasco de xampu, pronto para pingar na cabeça do irmão. Se interrompendo quando viu que ela chegava.

— Mãezinha... – Noah murmurou e então disparou a chorar.

Rosalie entrou no box com eles.

— O que aconteceu? – pediu, preocupada.

Para o desespero dela, Enrico também começou a chorar. Ela envolveu aos dois em um só abraço.

— Por que estão chorando? – pediu.

Emmett pôs a cabeça para o lado de dentro do banheiro, também preocupado.

— Está tudo bem aí? – perguntou.

Rosalie então olhou para ele. A angústia estampada no olhar. Tentando entender o que tinha acontecido com os filhos.

— Vocês estavam tão felizes mais cedo, porque iriam construir uma casinha na árvore com o papai Emmett – ela comentou. – Disseram até que seria como Bob, o Construtor. O que aconteceu para ficarem assim? Fala pra mamãe.

— Rico? Noah? – Emmett pediu. – Olhem aqui pro papai.

Os dois meninos olharam na direção de onde ele estava. Ainda choravam, sem desgrudar da mãe.

— Fala ao papai: o que aconteceu?

Noah fungou e começou a falar.

— A gente teve medo.

— Medo do quê?

— Rico teve medo – Noah repetiu.

— Fala pro papai e pra mamãe do que vocês tiveram medo?

Rosalie afagou o rosto dos dois, um de cada vez.

— Fala filho – ela incentivou.

Enrico teve dificuldades em falar.

— Eu não consigo... – se explicou, soluçando. Quase enlouquecendo a mãe de angústia.

— Fala você então, Noah – Rose sugeriu vendo que o mais velho não tinha condições.

— Teve medo que o papai Emmett... – ele soluçou. – Que ele fosse ficar bravo e... e... ele ia fazer um dodói na mãezinha...em você – E ao dizer a última palavra, Noah disparou a chorar novamente.

Rosalie apertou os dois num abraço desajeitado, sentida por eles. Sabendo que era demais todo medo e preocupação que tinham com ela. E estava certa de que isso jamais mudaria.

— Isso não vai acontecer. Eu não vou ficar bravo. Nem mesmo farei um dodói na mãezinha de vocês. Eu a amo. E amo também aos dois, da mesma forma que também amo a Amy. Quando me ofereci para acompanhá-los no banho, eu só queria ajudar a mãezinha de vocês que estava ocupada. – Ele olhou especificamente para Enrico. – Por que achou que eu ficaria bravo, campeão?

O menino estremeceu com as lembranças, mas, se pôs a falar, ainda que atrapalhado nas palavras por causa da angústia que sentia.

— Porque o Royce bateu, bateu e bateu na mamãe. Muitas e muitas vezes a mamãe ficou machucada porque ela teve de deixar de fazer as coisas pra ele pra dar banho na gente. E então ele vinha e também batia na gente, às vezes com a cinta, outras com um fio de luz que ele tinha na garagem.

Rosalie fechou os olhos com força, mergulhando nas memórias doloridas do tempo em que viveu ao lado de Royce King. Recordando todas as vezes que Royce espancou os três dentro do banheiro, porque a queria sempre a disposição dele, nunca dos filhos. Sempre a culpando de tudo.

Emmett então entrou no box com eles.

— Tudo isso ficou pra trás, campeão – ele lembrou. E abraçou Rose deixando que os meninos ficassem entre os dois. Sussurrando ao ouvido dela: – Não pense mais nisso, amor. Estou com você agora e tudo será diferente. – Rose meneou a cabeça, embora apertando os lábios para não chorar.

Emmett passou a mão na cabeça de Enrico. – Eu vou deixar que a mamãe se encarregue do banho de vocês. Estarei esperando no meu quarto.

— Vocês não querem mesmo que o papai Emmett ajude com o banho? – Rose pediu, se esforçando para parecer bem.

Noah deu um pulinho. – Eu quero sim, mãezinha.

— Eu também, mamãe – Enrico concordou.

Os quatro riram. Bem mais tranquilos agora que as coisas tinham sido esclarecidas. Rosalie então passou pro outro lado deixando somente os três dentro do box. Pronta para deixar o banheiro.

— Mãezinha fica vendo a gente tomando banho com o papai – Noah sugeriu.

— Tá – E Rose piscou pra Emmett. – Então eu fico sentadinha aqui – ela apontou para o vaso sanitário com a tampa abaixada.

Ela se sentou ali, sentindo que o coração acalmava. Se permitindo rir vendo os filhos perderem a carinha triste, brincando de jogar espuma um no outro. Emmett ao lado deles, se revessando em lavar os cabelos de um, depois do outro.

Os meninos se puseram embaixo do chuveiro juntos.

— Bote seu bumbum grande pra lá Rico – Noah falou, empurrando o irmão com o corpo, se acabando de rir. Nem parecia o garotinho que há poucos minutos estava morrendo de medo.

Enrico teve de segurar no braço de Emmett para não cair.

Rosalie sorriu quando ele falou do bumbum do irmão. Mas fez o alerta quando o empurrou.

— Noah, não faz isso, bebê. O Rico pode cair.

— E pode ficar com um dodói?

— Isso.

— Tá bem – ele olhou o irmão. – Desculpa Rico.

— Eu não tenho um bumbum grande – Enrico protestou.

— Tem, sim.

Os dois deram risadas. E Noah voltou a falar.

— O papai tem um bumbum grande – gargalhou, batendo no bumbum de Emmett sobre os jeans com a mão cheia de espuma.

— Não tenho, não, seu espertinho – Emmett se defendeu, embora estivesse com o sorrido escancarado no rosto, exibindo as covinhas, assim como Noah exibia as dele.

— É, sim – Noah insistiu. – Um popozão igual do Rico. O senhor buzanfa – e riu ainda mais.

Sentada no vaso sanitário, a mãe também não conseguia parar de rir.

— Então o papai Emmett e eu somos iguais – Enrico comentou todo orgulhoso. E Rose pode perceber como era gratificante pra ele se parecer com alguém que não fosse Royce King.

— Eu também sou né, mãezinha? – Noah de repente se sentiu excluído e isso o entristeceu um pouco.

— É sim, meu amor. Os três são popozudos. Meus popozudos.

Emmett olhou pra ela de um jeito maroto, e Rose viu em seus olhos que queria dizer “você acha isso mesmo”. Ela abaixou o olhar com um sorriso escancarado.

Ele pôs os meninos embaixo do chuveiro outra vez. Depois os enrolou em toalhas diferentes. Os dois foram os primeiro a deixar o banheiro. As toalhas sobre os ombros e os pés calçados com chinelinhos de borracha, fazendo barulho no assoalho.

Emmett beijou no rosto de Rosalie quando ela passou por ele na porta do banheiro, indo logo atrás dos meninos.

— Acho que fiquei mais molhado que eles – Emmett comentou.

Ela olhou dos meninos pra ele. – Obrigada amor. Eles ficaram bem felizes em ter sua ajuda no banho hoje.

Emmett segurou na mão dela, beijando nos nós de seus dedos.

— Não está mais sozinha, Rose – disse-lhe olhando nos olhos.

Ambos seguiram pelo corredor até o quarto que as crianças estavam ocupando temporariamente.

— Eu percebi como Enrico e você ficaram orgulhosos de serem comparados um com o outro.

— Nós somos exatamente iguais... – ele disse, e Rose sabia ao que se referia. A consciência disso fez seu coração latejar.

— Se meu filho se tornar metade do homem que você é hoje, serei o ser humano mais feliz da face da terra.

Emmett passou o braço em volta dos ombros dela ainda enquanto caminhavam, e lhe deu um beijo na têmpora direita.

Os meninos já estavam dentro do quarto quando eles passaram pela porta. Amy estava sentada na cama, coçando um olhinho, com a cara amassada.

— Papa – ela o chamou.

— Mamãe, cadê a nossa roupa? – Enrico perguntou.

Emmett foi falar com Amy na cama.

— Está na poltrona, amor.

Amy gargalhou. Quando Rosalie olhou, encontrou Emmett beijando na barriguinha dela, fazendo barulhos com a boca.

— Como está a menininha do papai – ele falou com Amy. – Dormiu bem a minha ursinha?

— Tavaio, papa. Lá! Tavaio.

Emmett gargalhou.

— Agora não é hora para andar a cavalo, está tarde. Mas o papai brinca daqui a pouco com você. Deixa só eu terminar de ajudar seus irmãozinhos.

— Mamã – Amy engatinhou até os pés da cama, onde a mãe a pegou no colo. Comovida, Rosalie ficou vendo Emmett ajudar os meninos a se vestir, depois pentear seus cabelos com imenso cuidado e carinho. De quando em quando os meninos o abraçavam como se dissessem “nós te amamos e gostamos que esteja aqui cuidando da gente”.

[...]

Royce tinha acabado de chegar com o carro à entrada de veículos. No banco do carona havia uma fotografia de Rosalie e outra das crianças, um pouco amassadas. Tinha passado o dia inteiro indo de um lugar a outro, mostrando as fotos, perguntando se os tinham visto. As respostas eram sempre as mesmas: ninguém sabia nada deles.

Estava furioso. Nada do que fazia dava resultado. Nenhuma pista do paradeiro de Rosalie. Nem mesmo um dia depois de ela ter fugido, quando verificou em todas as rodoviárias. Ninguém soube dizer nada.

Ela não poderia ter desaparecido da face da terra. Tinha certeza de que uma hora a encontraria, em algum momento ela cometeria um erro.

Demorou-se no interior do veículo, olhando fixamente o porta-luvas onde dentro havia uma arma. Pensou em Rosalie, nos planos que tinha para quando a encontrasse. Por fim se decidiu por sair do veículo, pegando apenas a garrafa de uísque no chão do carro embrulhada em um saco de papel. Saiu e bateu a porta com força.

Olhando sobre o teto do carro, percebeu que outro veículo havia parado ao lado da calçada. A porta foi aberta e uma jovem mulher apareceu, foi aí que ficou mais irritado. Era Dorothy, professora de Enrico, outra vez.

Royce virou as costas e seguiu até a porta da casa levando a garrafa de uísque embrulhada no saco de papel e as chaves na mão.

— Senhor King? – Dorothy se precipitou, dando uma corridinha pelo gramado.

Quando Royce se virou, estava com o olhar doentio. Nitidamente alcoolizado. Dorothy deu dois passos para trás.

— Eu só queria saber se sua esposa já retornou com as crianças – falou intimidada. Royce nada disse. – O senhor disse que ela entraria em contato, mas isso não aconteceu.

— Por que não cuida de sua própria vida?! – ele grasnou.

A cada segundo que ficava ali, Dorothy sentia mais medo de Royce King. Sem perceber, recuou mais alguns passos.

— Sua esposa e as crianças não viajaram, não é mesmo? O senhor está mentindo.

E, então, um som ensurdecedor fez Dorothy tremer dos pés a cabeça. Royce tinha acabado de socar o capô do próprio carro, afundando a lataria sob o peso de seu punho.

— Desapareça e não volte mais aqui – grasnou. De repente indo na direção de onde Dorothy estava. – Estou farto de sua intromissão. De todas essas perguntas.

Dorothy se apressou indo até o carro, cambaleante, com os saltos do sapato afundando na grama alta. Abrindo a porta com a mão trêmula, se afundando no assento num instante.

Royce se encaminhou a entrada da casa novamente. A senhora que morava próximo a eles, estava no jardim, olhando-o sobre a cerca viva.

— Por que não vai tricotar, velha enxerida? Não tem nada aqui pra você ver.

A senhora se afastou da cerca, porém, sem deixar de olhá-lo. Seu olhar o acusava. E isso o enlouquecia. Era tudo culpa de Rosalie, tinha de encontrá-la e fazê-la perceber isso. Que era a culpada de tudo. Ele sempre foi bom, ela era quem não sabia se portar. Era nisso que acreditava.

Entrou dentro da casa bagunçada, batendo a porta com força demais.

O carro de Dorothy havia desaparecido da frente da casa.

Royce se jogou no sofá, com braços e pernas esparramados, bebendo do uísque direto no gargalo.

— É tudo culpa sua Rosalie – disse. – Você tinha de estar aqui. Você e aquelas crianças melequentas tinham de estar aqui. Isso vai ter de acabar querida... vai ter de acabar, de uma forma ou de outra.

[...]

A família se encontrava reunida na sala de estar ouvindo Garrett falar. Kate estava grudada a ele no sofá, rindo sempre que dizia algo bobo.

Lena olhava os netos e bisnetos com adoração. Feliz da vida.

Observava Emmett brincar com as crianças no tapete da sala, depois de terem tirado a mesinha de centro do lugar. No jeito como ele olhava pra Rosalie e ela pra ele. A forma como Enrico e Noah o abraçava, chamando-o de papai sempre que tinham chance. Amy falando “papa” toda vez que olhava pra ele.

Abby e Logan, felizes com os primos, compartilhando os brinquedos e a atenção.

Lena tinha certeza de que fizera a coisa certa ao tentar uni-los. Porque ela sabia; ninguém mais o compreenderia como Rosalie e ele a ela. E juntos ensinariam aquelas crianças que a vida pode ser, sim, divertida. Que um pai pode ser bom e amoroso.

Notas finais
Sill