Um Lugar Para Ficar

16 Capítulo 16 – Trabalho e Preocupação


Notas iniciais
Oi, gente. Como estão todos? Eu gostaria de agradecer a Ivi pela recomendação, e dizer que achei sua percepção daquilo que a história se propõe a passar, perfeita. Quando li, eu só pensava que queria te abraçar e gradecer pessoalmente. Espero muito que goste desse capítulo. A todos uma excelente leitura ;)

Além de America, que acabara de chegar, outras duas clientes se encontrava no interior da livraria. Eram duas senhoras de meia-idade, de cabelos grisalhos e curtos, cuja semelhança física revelava algum grau de parentesco, possivelmente irmãs. E também um jovem rapaz, na casa dos vinte anos, de cabelos escuros e óculos de grau.

Rosalie se ocupava organizando alguns exemplares de romance, numa das seções mais próxima à entrada da loja.

O barulho se salto alto, e o cheiro do perfume adocicado impregnando o ar, antecederam a voz da recém-chegada.

— Olá, Esme – ouviu America falar. Ela se aproximava do balcão onde Esme estava usando o computador.

— Olá, America. Já fazia um bom tempo que não nos víamos. Como você está? – falou Esme, erguendo os olhos do monitor.

— Bem. Muito bem, na verdade.

— Ótimo! Deseja algum livro em especial? Chegaram novos exemplares de romance. Quem sabe não se interessa por algum. Estamos trazendo para a estante alguns deles. Mas já pode dar uma conferida.

— Nenhum em especial. Vou dar uma olhada, de repente encontro algo de que goste. Nunca se sabe, não é mesmo.

— Fique à vontade. Se precisar de ajuda, pode chamar a mim ou a Rose.

— Rose? Que Rose?

— A moça que trabalha comigo agora. Hoje é o primeiro dia dela aqui. Mas tem se saído muito bem. É esforçada, e com uma imensa vontade de aprender. Costumo levar isso em consideração.

— Mas e a Stacie? O que aconteceu com ela?

— Stacie pediu demissão na semana passada. Mudou-se para outra cidade com o marido. Foi inevitável sua partida.

— Não fazia ideia.

Rosalie prestava atenção à conversa por detrás da estante de livros. Mesmo que tentasse ignorar, estava muito perto pra fingir que não as ouvia.

America deu alguns passos à frente e, então, pôde perceber melhor a criança dormindo no cercadinho, com a chupeta na boca e o paninho encostado ao rosto corado. Sua respiração era suave e tranquila. Um verdadeiro anjinho.

— Que coisa mais linda – comentou, chegando um pouco mais perto. – De quem é?

Esme exibiu um pequeno sorriso.

— De minha funcionaria nova. Não é uma gracinha? Você precisa vê-la acordada; que lindos e expressivos olhos na cor âmbar ela tem. Se parece muito com a mãe. E é um docinho de criança. Nem dá tanto trabalho assim. Estou adorando tê-las aqui comigo.

— Ah – America murmurou, afastando-se do cercadinho. – Por um instante pensei que pudesse ser uma das crianças que vem com os pais para o horário da leitura. Agora, olhando ela assim de pertinho, me pareceu bem familiar. Não sei... Penso já ter visto essa bebê antes, em algum lugar.

— Não é difícil, a cidade é pequena. Apesar de elas estarem na cidade há pouco tempo.

— Esme, eu vou preci... – Rosalie falava, saindo detrás da estante de livros, mas parou depois de ver como America olhava pra ela; como alguém que acaba de ver uma assombração. Não havia outra definição para o espanto nos olhos acinzentados dela.

— Você por aqui?! – disparou America.

— Eu trabalho aqui. Na verdade, esse é meu primeiro dia.

— Então é você a tal Rose?

— Sim. Rose é apelido de Rosalie. Meu primeiro nome. Imagino que tenha se esquecido.

— É... É possível.

Esme mantinha uma expressão contente no rosto, olhando de uma pra outra.

— Então vocês já se conhecessem?

As duas olharam para ela, ao responderem:

— Nos conhecêssemos outro dia, em frente à papelaria.

E America prosseguiu.

— Por isso tive a impressão de já ter visto a criança. Isso mesmo. Ela estava dentro da caminhonete de Emmett quando nos conhecêssemos – e, então, voltou olhar pra Rosalie. – Achei que estivesse na cidade apenas de passagem.

— Pensei em fazer alguma coisa enquanto estivesse por aqui – Rosalie respondeu.

— Claro, com três crianças sempre pedindo alguma coisa. São três não são? Também tinha dois meninos com você no outro dia – America cutucou.

— Sim. Enrico e Noah. Eles foram apresentados a você, também.

— Ah, sim, agora me recordo.

— Eles são muito bonzinhos. Dificilmente pedem alguma coisa, sabe?! Então, a senhorita precisa de ajuda para encontrar algum livro? Posso ajudá-la se quiser.

— Não, obrigada.

— Vocês têm quase a mesma idade – constatou Esme. – Poderiam se tornar grandes amigas. America, você poderia levá-la qualquer dia desses pra conhecer a cidade, seu grupo de amigas. E a uma dessas festas que vocês gostam de frequentar.

America não escondeu seu desprezo ao olhar Rosalie de cima a baixo.

— Acho que não... Quero dizer, ela deve estar muito ocupada. Tem três crianças pra cuidar. Não deve ter tempo pra essas coisas.

— Não se preocupe Esme, estou bem assim, de verdade.

— Ah, querida, mas seria tão bom se pudesse fazer amizades por aqui. Ter outa coisa com que se distrair, depois de um dia de trabalho.

— Eu já fiz. Você e todos na fazenda Recanto dos Ursos são os melhores amigos que alguém poderia ter.

Esme ficou comovida com sua resposta, estendendo a mão para tocar na de Rosalie demonstrando seu afeto.

— Como America disse – Rosalie voltou a falar, olhando America –; eu tenho três filhos pequenos pra cuidar. E muito ocupada, certamente. Talvez não me encaixe no seu grupo de amigos.

— Isso é bobagem, querida. Você ainda é muito jovem. Basta apenas conseguir uma pessoa para ficar com as crianças uma horinha ou outra quando quiser sair. Eu mesma me ofereço pra isso.

— Tudo bem. Eu realmente não me importo.

As duas senhoras se aproximaram do balcão trazendo suas novas aquisições, e Esme logo se encarregou de atendê-las. Registrando a compra com a devida atenção.

De canto de olho, Rosalie viu America abrir um largo sorrido, revelando um discreto aparelho dentário na arcada inferior. Decidindo então acrescentar.

— Emmett não se importa de me mostrar à cidade. Nem que eu tenha três filhos pequenos.

O sorriso no rosto de America murchou. Apenas por um instante Rosalie sentiu-se vitoriosa.

Esme entregou as sacolas às clientes, agradecendo com um sorriso simpático a preferencia.

— Muito obrigada, mocinha – uma delas disse a Rosalie – Sua ajuda foi muito útil.

— Não foi nada.

— Até logo – as senhorinhas se despediram. A sineta da porta soou quando elas deixaram o estabelecimento.

— Acho que vou indo também – America aproveitou para anunciar.

— Não vai escolher um livro? – Esme pediu.

— Fica pra próxima. Acabei de lembrar de que tenho um lugar pra ir... Até logo, Esme.

— Até logo, America.

— Até logo, Rosalia... Rosane... Como é mesmo o seu nome?

— Rosalie. Para os amigos, Rose.

— Rosalie – America repetiu com desprezo.

Ela deixou a livraria quando o rapaz se aproximava do balcão para fazer o pagamento pelos livros que escolhera.

[...]

Sozinhas novamente, Rosalie chegou mais perto do balcão deixando sobre ele o exemplar de Julieta, de Anne Fortier, que antes tinha nas mãos.

— Qual o problema dela? – perguntou. – Essa é a segunda vez que nos encontramos, e ela, com toda certeza, parece me detestar.

— Achei mesmo estranha à reação dela. De repente, começou te tratar de um jeito que parecia te alfinetar. Talvez esteja um pouco enciumada.

— Enciumada com o quê?

— Com sua relação com Emmett, talvez. Comecei a notar depois de você ter mencionado ele. Ela pareceu levar um golpe e tanto.

— Eu confesso que falei de propósito mesmo. Porque antes ela mencionou meus filhos de jeito que não gostei. E, meu Deus, Emmett e eu somos apenas amigos. Mas, quer saber, você pode mesmo ter razão, Esme. No outro dia, quando nos encontramos em frente à papelaria, ela se mostrou interessada nele.

— Certa vez Alice me disse que America era doida por Emmett. Confesso que pensei não ser verdade, já que eles se conhecessem desde... desde sempre. E, bem, eles nunca foram vistos juntos por aí. Tudo bem que Emmett é um homem muito reservado. Mas America? America teria contado aos quatro ventos se tivesse acontecido alguma coisa entre eles.

— Meu Deus. Mas eu não quero interferir na relação de ninguém. Tudo o que quero é paz e sossego para poder criar meus filhos. E vê-los se tornar pessoas de bem.

Outra vez Esme alcançou seu braço com a mão, fazendo um pequeno afago.

— Mas é claro que não, Rose. Ninguém pensa isso de você. Além do mais, não existe uma relação quando apenas uma das partes almeja isso.

— Posso apostar que America não pensa assim.

— Esqueça America. Apenas esqueça. Se Emmett não quis nada com ela antes, não vai ser agora que vai querer. Pra ser bem sincera – acrescentou, lembrando o modo como Emmett olhava para Rosalie, quando a trouxe no trabalho mais cedo. – Ele me parece interessado em outra pessoa.

— Eu não quero ser um empecilho na vida de quem quer que seja.

— Rose, pelo amor de Deus, essa pessoa é você. Não vê como ele te olha? A tanta admiração e amor, que chega a ser desconcertante pra quem estar de fora. Quantas pessoas no mundo desejou um dia ter alguém que as olhassem da mesma forma como ele te olha. É puro amor.

Subitamente, os olhos de cor âmbar se arregalaram. Uma coisa eram seus sentimentos confusos e o que Emmett sugeria, outra coisa era alguém totalmente de fora afirmar com todas as letras o que via.

— Olha querida, me desculpe. Não devo me meter em sua vida. Mesmo porque não sei o que lhe aconteceu antes de chegar aqui. Assim como também não forçarei que me conte. É um assunto seu, cabe apenas a você decidir.

Rosalie abaixou o olhar, constrangida.

— Eu...

— Eu confio em você. É uma mulher decente, e de princípios. E é uma excelente mãe. Não precisa falar nada agora. Conte-me apenas quando se sentir confortável – Esme a olhava com compreensão e paciência, e isso lhe trouxe um pouco mais de tranquilidade.

Estava prestes a dizer sobre o inferno que era sua vida ao lado de Royce King, quando notou a sineta da porta anunciando a chegada de novos clientes. Reconheceu suas vozes sem ao menos ter de virar para vê-los chegar.

— Mãezinha? Minha mãezinha tá aqui? – Noah pediu a Kate. Ele segurava as alças da mochila junto ao corpo, com as duas mãos pequenas, e tinha um olhar ansioso, buscando o tempo todo pela presença da mãe.

— A mamãe disse que era aqui que ela iria trabalhar. E também ganhar dinheiro – Enrico explicou.

Atrás do balcão, Esme sorria pra eles.

— Mãezinha! – Noah gritou quando a viu.

Enrico já abraçava as pernas dela, quando Noah começou correr com a mochila pesada nas costas.

— Mãezinha. Mãezinha...

Depois de beijar o topo da cabeça de Enrico, ela olhou para Noah. O sorriso estava em seu rosto. Sempre contente em vê-los. Estendeu a mão afagando os cabelos louros dele, quando, também, grudou os bracinhos em suas pernas.

Kate se aproximou.

— Eu ia ligar pra dizer que levaria os dois comigo pra fazenda, mas Noah começou dizer que queria a mãezinha dele. Que queria vir no seu trabalho. Quando perguntei a Enrico se ele queria ir, me respondeu o mesmo que o irmão.

Após beijar seus rostinhos radiantes, Rosalie olhou para Kate.

— Está tudo bem. Não teria me incomodado que os levassem pra fazenda. Confio em você para cuidar deles. Sei que lá eles estariam bem. Mas foi bom você trazê-los, eu estava morrendo de saudades, também.

— A gente queria vir ficar com você – os dois disseram ao mesmo tempo.

— Mas tudo bem se vocês fossem pra fazenda com Kate, a Abby e o Logan. Por falar nisso, onde estão Abby e Logan?

— Eles ficaram me esperando dentro do carro. Agora que esses pequenos já estão entregues; estão com a mamãe como era de seu desejo, eu vou indo. Tenho um longo caminho até chegar em casa.

— Obrigada, Kate. Encontro todos vocês daqui pouco, na fazenda.

— Meu irmão vem te buscar?

— Sim. Ele disse que estaria aqui às dezessete horas em ponto.

— Então tudo certo. Caso ele não viesse pediria a Garrett pra levar você e as crianças de volta.

— Mas nesse horário Garrett ainda estaria no trabalho, não?

— Ah, mas se eu pedisse, ele daria um jeitinho – e sorriu. – Bom, até logo crianças. Comportassem. E ajudem a mamãe.

— Tchau tia Kate – os meninos disseram juntos.

— Até mais, Esme. Depois volto com mais tempo, pra escolher um bom livro.

— Até, querida. Dá um abraço na sua avó por mim. Diz a ela que estou pensando em ir fazer uma visita qualquer dia desses. Pode esperar.

— Digo, sim. Ela vai ficar muito contente.

A sineta voltou a tocar assim que Kate passou pela porta deixando o estabelecimento.

— Como foi o seu primeiro dia de trabalho, mamãe? – Enrico perguntou, despertando o olhar surpreso da mãe. Parecia tão interessado em saber sobre seu dia. O coração dela se encheu de puro amor.

— Oh, meu anjo, está sendo maravilhoso. Mamãe ainda não acabou por hoje. Mas, sim, está sendo perfeito.

— Já ganhou muito dinheiro? Já pode comprar a minha fantasia de Super-Homem? – Noah se precipitou.

Apesar de constrangida, a mãe explicou pra ele.

— Ainda não, filho. É preciso mais que um dia de trabalho. Não dá pra receber adiantado. Não é certo.

— Então não pode comprar minha fantasia do Super-Homem? – pediu entristecido, com a cabecinha baixa.

— Não, amor. Mas a mamãe vai comprar assim que der. Prometo.

Ele fez beicinho, quase chorando. E isso apertou o coração da mãe.

— Mãezinha, eu queria... Queria minha fantasia do Super-Homem. Pra eu ficar de superpoderes...

— Mãezinha sabe que você queria – enquanto falava retirou a mochila das costas dele. – Vem. Senta lá no cantinho da leitura com o seu irmão, porque a mamãe tem que trabalhar. Enrico vem sentar com ele, amor. Vem.

— Eu posso ajudar no seu trabalho, mamãe? Diz o que eu tenho que fazer que eu faço.

— Não, príncipe. Tudo o que você tem que fazer é sua lição de casa. Concentre-se nela, apenas isso.

— E se estiver muito difícil?

— O que você não souber, a mamãe ajuda depois. Quando estivermos na fazenda.

Amy estava acordada, de pé dentro do cercadinho.

— Mamã. Ma-ma. Mamã.

— Bebezinha! – Noah brincou.

— Rose, eles podem vir ficar aqui comigo. Eu ajudo no que precisarem.

— Tem certeza, Esme? Não quero dar mais trabalho do que já venho dando.

— Não seja boba. Anda, deixa os meninos ficarem aqui comigo. Crianças jamais foram motivos de incomodo pra mim.

Rosalie olhou dela para os meninos.

— Sejam bonzinhos.

— Tá bom – eles responderam, e foram se juntar a Esme, do outro lado do balcão.

Rosalie deu a chupeta pra Amy, e, apesar de ela pedir colo, não pode pegá-la. Precisava terminar o que estava fazendo antes de America aparecer.

Esme acomodou os meninos em um cantinho perto dela, numa mesinha de plástico vermelha com duas cadeiras. Dedicando-se ajudá-los sempre que tinham alguma dúvida com a lição de casa.

Rosalie se dedicou ao trabalho.

Amy jogou um a um, todos os brinquedos, a chupeta e o paninho, para fora do cercadinho. Tentou por mais de uma vez sair de lá. Quando notou que não daria certo, disparou a chorar.

A mãe pediu milhares de desculpas a Esme. Pediu, também, que Enrico catasse os brinquedos e fosse passar uma água na chupeta antes de devolver pra irmã.

Esme garantiu que tudo bem. Já estava quase na hora de fechar, que ficasse calma.

Depois de conseguir com que Amy ficasse com a chupeta na boca, terminou de arrumar a estante com ela enganchada no quadril. Foi então que começou analisar se a ideia de levá-la ao trabalho, mesmo com Esme dizendo que podia, era mesmo uma boa opção.

Estava certa de que, no começo, o dinheiro que ganharia não seria suficiente para manter as crianças e a si mesma, tendo de pagar uma babá ou uma boa creche. Se optasse por uma dessas soluções, não conseguiria deixar a fazenda tão cedo. Sem contar que não conseguiria guardar dinheiro algum, pois tudo o que ganharia já teria destino certo antes mesmo de receber. E, com a sombra de Royce pairando suas vidas, ter um pé-de-meia não era opção era questão de segurança.

Estava exausta quando terminou. Guardou também as coisas das crianças, deixando tudo pronto para quando Emmett chegasse pra buscá-los. Apesar de tudo, nada comparado ao inferno que vivia com Royce King. Ali ela era livre pra viver. E tinha bons amigos. E o mais importante de tudo, seus filhos não eram alvo de ameaças e agressões constantes.

Enquanto aguardava a chegada de Emmett, preparou uma mamadeira e deu pra Amy tomar. Noah estava morrendo de sono, e cochilava encostado a seu ombro. Mesmo Esme tendo sugerido que dormisse no sofá, lá no cantinho da leitura, ele se negou sair de perto da mãe.

Alice não apareceu na livraria durante todo o dia, nem mesmo depois da escola.

Enrico lia um exemplar de Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm – presente de Esme naquela tarde – atrás do balcão, no cantinho que ela havia arrumado pra eles fazerem a lição de casa. Noah também ganhara um livro; O Gato de Botas, de Perrault. Mas como ainda não sabia ler, guardou para que alguém lesse pra ele depois.

— Esme – Rosalie começou –, eu vou entender se quiser me demitir...

— Eu te demitir?! Porque faria isso? Acha que só porque a Amy chorou, eu vou dispensá-la. De jeito nenhum. Ainda mais quando sei que precisa desse trabalho. Pensa mesmo que sou tão ruim assim? Não, não responda querida.

— Muito obrigada, Esme. Você tem sido um amor de pessoa, assim como todos na fazenda Recanto dos Ursos tem sido. Sabe... Realmente preciso do dinheiro que vou ganhar aqui – um pensamento lhe ocorreu. “Não sei onde estaria agora, não tivesse encontrado Emmett aquela noite, naquela estrada”. “E de forma tão inesperada”.

Esme percebeu a caminhonete de Emmett parar em frente à livraria. O relógio grande, no alto da parede, marcava exatamente 17h05. Ele saltou do carro ansioso, como se tivesse esperado o dia inteiro por isso. E ela não duvidava que o tivesse.

— Olha só quem chegou – disse a Rose, que estava distraída acariciando os cabelos finos de Amy, ora dando um cheirinho, ora apenas roçando o nariz. A garotinha brincava com a mamadeira vazia em seu colo.

Rosalie ergueu a cabeça a tempo de vê-lo com a mão na porta de vidro, empurrando para chegar ao outro lado. A sineta fez seu trabalho, anunciando a chegada do novo visitante.

Emmett imediatamente buscou a presença dela, varrendo o espaço em volta com o olhar. Um sorriso cheio de magnificência brotou em seus lábios. As covinhas estavam ali para lembrá-la do quanto era doce seu sorriso.

Inevitavelmente, os lábios de Rosalie se curvaram retribuindo todo o afeto resplandecente nele. Quis levantar, ir até ele, mas Noah cochilava agarrado de pé, agarrado a ela.

Outra vez Esme percebeu neles a mesma sintonia de quando chegaram ali hoje pela manhã.

— Estou atrasado... – ele se entregou, dando mais alguns passos à frente.

Não acreditando que estivesse mesmo atrasado, Rosalie deu uma rápida olhada em seu velho e inseparável relógio de pulso.

— Eu não diria que cinco minutos seja um atraso significativo... Diria que você chegou bem na hora.

— Não gosto de me atrasar, ainda mais quando se trata de estar com alguém importante pra mim.

Ela desviou o olhar no mesmo instante, sentindo-se ligeiramente envergonhada. Esme meneou a cabeça, sabendo que estava certa em sua conclusão. Um sentimento muito forte os unia.

Emmett chegou mais pertinho deles.

— E esse pequeno, está mesmo dormindo assim? – ele se curvou, pegando Noah no colo. Sentindo o perfume de Rose na proximidade – Não posso acreditar que dormiu mesmo de pé.

— E quem foi que disse que ele queria sair de perto da mãe – Esme esclareceu. – Não houve quem o fizesse.

Noah passou os bracinhos ao redor do pescoço dele sem reclamar. Sequer abriu os olhos, era como se soubesse quem o pegava. E o quão protetores eram aqueles braços. A mãe não conseguia deixar de olhar. Como um homem com todo aquele tamanho podia ser tão cuidadoso e gentil? , ela não conseguia afastar esses pensamentos.

De repente, se viu desejando ferozmente que, quando adultos, seus filhos preservassem a doçura do menino que foram um dia, da mesma forma que Emmett preservara o garoto dentro dele.

— Aconteceu algo na escola? – ele pediu, ajeitando Noah nos braços.

E dessa vez foi Rosalie quem respondeu.

— Ocorreu tudo bem na escola. É só dengo mesmo. Ele fica muito grudento quando quer dormir. Se deixar, mal consigo respirar com ele em cima de mim.

— Ah, bom. Mas ele está certo em querer ficar perto da mãezinha dele. Ela cuida tão bem. E é tão carinhosa.

Esme estava radiante com as palavras de Emmett. Rosalie, porém, parecia morrer de vergonha.

— E o Enrico, onde está?

— Está bem aqui – Esme indicou com a mão, atrás do balcão.

Emmett se aproximou levando o mais novo no colo, olhando por sobre a bancada.

— Ei, campeão, vamos para casa. Já está na hora.

O menino afastou o livro do rosto, e um sorriso logo apareceu por detrás das páginas que guardavam um mundo imaginário e maravilhoso.

— Já, chegou! – exclamou, animado.

— Parece que a leitura estava mesmo muito boa. Desculpa ter te atrapalhado, amigão.

— Tá tudo bem – disse Enrico, com os olhinhos brilhando, feliz em vê-lo. Rapidamente se pôs de pé. Deixou o livro sobre a mesinha, com um marcador de páginas, e foi encontrar com Emmett do outro lado. Abraçando suas pernas sem hesitar.

— Senti saudades – o menino confidenciou em voz baixa. Ainda assim todos conseguiram entender, especialmente a mãe. E uma estranha nostalgia fez apertar seu coração.

Emmett se abaixou, com Noah adormecido nos braços, sussurrando ao ouvido de Enrico.

— Eu também senti saudades. De todos vocês. – O menino sorriu pra ele. – E, então, vamos para casa?

Rosalie se pôs de pé. Esme começou se preparar para fechar a livraria.

Todas as coisas de Rosalie, e isso incluíam as de Amy, já estavam na entrada da loja. Prontas para voltarem para aquele que era seu lar temporário.

— Pega a mochila, filho – ela orientou Enrico.

O menino correu para pegar sua mochila atrás do balcão, sem reclamar.

— Consegue pegar a do seu irmão também, amor?

— Consigo, sim, mamãe.

— Ótimo! Então faz esse favor pra mamãe, traz a mochilinha do seu irmão também.

— Já estou pegando.

— Obrigada, filho.

— Dá. Dá – Amy repetia. – Chila – e sorriu.

Rosalie pegou a bolsa, e Emmett ajudou com as outras coisas.

Colocaram as crianças no carro, enquanto Esme terminava de fechar a livraria.

O sol estava se pondo no horizonte, além das montanhas, dando a impressão de ser uma pintura em tela, feita pelos melhores artistas. E ela podia jurar jamais se cansar de apreciar tamanha beleza.

— Até amanhã, Esme.

— Até amanhã, querida.

— Novamente obrigada por sua paciência e carinho.

— Já disse que não precisa agradecer.

— Vivo falando isso pra ela, Esme – Emmett se pronunciou – Mas quem disse que ela me ouve.

Ele tinha acabado de fechar a porta traseira da caminhonete por onde Enrico entrara.

— Esteja aqui amanhã no mesmo horário. E pode trazer a Amy outra vez. Isso é uma ordem, senhorita.

— Eu estarei.

— Acho bom. Até logo, Emmett.

— Até logo, Esme. E muito obrigado por cuidar tão bem deles.

Esme sorriu já se virando para ir buscar seu carro.

[...]

Enquanto dirigia, Emmett puxou assunto.

— Então, como foi o seu dia de trabalho?

— Foi bom. E muito cansativo, também. Cuidar da Amy e da loja ao mesmo tempo, é meio complicado. Posso dizer que Esme é um anjo. Foi tão paciente e generosa. Quantos patrões teriam a mesma atitude? Só tenho que agradecer.

Emmett desviou a atenção da estrada apenas por um segundo, para poder verificar a reação dela.

— Eu permitiria. Permitiria que levasse os três.

— Ah, mas você não conta. Já permite que fiquemos em sua casa. Em sua fazenda.

— Eu gosto de ficar na casa dele, mamãe.

As covinhas se agitaram nas bochechas de Emmett, ao ouvir as palavras sinceras de Enrico.

— Viu só – ele disse, movendo a cabeça em direção as crianças no banco de trás.

— É filho? – disse Rose, com um brilho de felicidade no olhar.

— Ahan.

— E o que você acha da mamãe trabalhar comigo, Enrico?

— Legal, mas a mamãe não sabe como cuidar dos dodóis dos animais.

— Ela seria como uma secretaria. Cuidaria da agenda de funcionamento da fazenda. A chegada e saída dos animais. Dos alimentos, da medicação entre outras coisinhas necessárias.

— Mas a mamãe é quem sabe.

Rosalie olhou pra trás piscando um olho pro menino.

— Tá certo. Mas não vou desistir totalmente, não. A oferta estará sempre de pé. E eu quero te pedir que, por favor, aceite que eu contrate uma pessoa pra cuidar da Amy enquanto você estiver tralhando na livraria. Eu sei que já me disse que não. Mas veja bem Rose, seria, também, uma forma de deixar alguém na sede com a vovó todos os dias, o tempo todo. Cuidaria de Amy, mas seria uma forma de eu ter alguém de olho na vovó sem ela reclamar.

— Tenho medo de que a machuque e eu não esteja por perto para defendê-la. Eu nunca me perdoaria se algo assim acontecesse.

— Eu jamais faria algo que pusesse a segurança e a integridade física das crianças em risco. A pessoa que cuidaria dela, é de total confiança. Foi babá de meus sobrinhos até eles terem idade suficiente para frequentar a escola.

— Prometo pensar. Vou levá-la comigo por mais alguns dias e, senão der certo, aceitarei sua oferta.

[...]

No restante do trajeto de volta à fazenda, eles falaram com Enrico sobre a escola. E o menino contou tudo o que havia feito grande prazer.

Noah acordou somente quando Emmett estacionava a caminhonete ao lado do galpão.

— Mãezinha! – ele gritou confuso, sem saber onde estava.

A mãe se moveu, estendo a mão entre os bancos, acariciando um de seus bracinhos.

— Ei, olha a mãezinha aqui.

Noah riu, preguiçosamente, reconhecendo a figura materna com olhos miúdos.

— Onde a gente tá?

— No carro de Emmett. Acabamos de chegar à fazenda.

Ele olhou para Emmett e sorriu, com as mesmas covinhas salpicando suas bochechas.

— Acordou campeão? Que soninho gostoso, hein?!

— Acordei. E agora eu quero brincar com Jujuba e Caramelo.

— Primeiro você vai ter que tomar um banho – Rose avisou.

— Depois eu posso brincar?

— Vai depender se Jujuba e Caramelo estiverem a fim de serem massacrados.

— Massadocrado? O que isso, mãezinha?

— Massacrados, filho. Diz-se massacrados.

— E o que é isso?

— Tudo o que você precisa saber é que se trata de uma coisa ruim; como judiar. Fazer dodói.

— Não quero fazer isso, do massadocrado. Eu quero só brincar tá bom? E abraçar e beijar, só isso.

— Que bom amor. Mas não os abrace tão apertado, eles podem não gostar.

— Eles gostam, sim, mãezinha. Eles gostam. Todo mundo gosta de abraço.

— Tá bom.

E assim saíram do carro. Os dois cachorros apareceram na varanda da frente, abanando os rabinhos. Noah disparou para lá, e Enrico foi andando logo atrás.

— Cuidado, Noah! – Rose alertou. – Desse jeito você vai cair.

Enrico parou no primeiro degrau, esperando pela mãe. Noah se embrenhou no meio dos dois cachorros, rindo e recebendo lambidas enquanto tentava abraçá-los.

Os latidos felizes entregaram a chegada de todos eles.

— Au, au. Mamã. Au, au – Amy balbuciou. E sua mãozinha se moveu naquela direção. – Oah, lá.

— É, amor. É o au, au. Você quer ir lá com o Noah? Não, fica aqui com a mamãe.

Emmett riu. – Você deveria deixá-la ir lá também.

— Tenho medo de que eles a derrubem.

— Quando eles estiverem menos agitados, então.

— Prometo que vou tentar.

Emmett se mostrou incrédulo. – Rose, eles não vão machucá-la.

— É sério, não me olhe assim. Amy quer montar, e se bobear enfiar os dedinhos nos olhos deles. Não vou deixar fazer isso, coitados. Já basta Noah judiando deles. Acho que ela pensa que é um brinquedo que se mexe.

— Mas é isso que eles são pra eles. Brinquedos fofinhos que se mexem. Abby cansou de fazer isso. Até hoje, ela ainda monta neles. Kate reclama que ela é pesada agora.

— E ela tem razão.

Lena apareceu na porta, enquanto eles subiam os degraus da varanda.

— Aí estão vocês. Bem desconfiei que com essa animação toda de Jujuba e Caramelo só podiam ser vocês chegando – disse. – E então, querida, como foi o primeiro dia de trabalho? Minha comadre foi gentil com você? Gostou do ambiente? Venha, entre, e conte-me tudo.

Rosalie sorriu pra senhora de cabelos grisalhos, terminando de subir os degraus com Emmett levando Enrico nas costas, bem ao seu lado.

Lena empurrou um pouco mais a porta de vidro para que eles pudessem passar. Noah foi o último, junto com Jujuba e Caramelo, ainda salientes e barulhentos.

Ela fechou a porta atrás de suas costas, após uma breve olhada no horizonte, imaginando se choveria aquela noite, com Rosalie já começando a narrar parte de como fora seu dia na livraria Refúgio.

Lá fora, a luz do dia cedia passagem à escuridão da noite e seus acordes, com intensa calmaria. O som da vida noturna se iniciando mais uma vez na fazenda Recanto dos Ursos. Enquanto o restante de seus moradores se preparava para se recolher.

Notas finais
Muito obrigada pelos comentários no capítulo anterior. Rose está se estabelecendo, é um processo necessário. As coisas realmente vão acontecer. Espero que tenham curtido. Vou aproveitar pra perguntar uma coisa a vocês; bem, eu tenho alguns capítulos prontos (faltando apenas revisão) e alguns deles ultrapassam a marca de 6 mil palavras. O que gostaria de saber de vocês é se preferem lê-los ( quando chegar o momento) como está ou se preferem que os divida. Farei como a maioria decidir. Beijo, beijo Sill