Um Lugar Para Ficar
4 Capítulo 04 – Na Estrada
Notas iniciais
Após mais algumas batidas na porta, Rosalie e as crianças se afastaram desistindo de esperar. Sem saber pra onde ir, caminhavam a passos lentos.
Lutava contra o desespero para não assustar os filhos.
– Mãezinha – Noah pediu sua atenção, inclinando a cabeça para olhá-la.
Precisou piscar os olhos algumas vezes antes de olhar para ele, forçando as lágrimas irem embora.
– Oi, filho.
– Eu quero leite com biscoito.
– Mamãe não tem mais água mineral pra dissolver o leite em pó, amor. Só quando comprar agora. Desculpe.
Noah abaixou a cabeça, entristecido.
– Mamãe – Enrico chamou. – Me dá só o biscoito.
Rosalie quis sorrir pra ele, mas a vontade chorar era maior.
Abriu a mochila pequena, pendurada ao braço, da melhor forma que pôde, e retirou de lá os últimos biscoitos entregando ao filho. Deu alguns pra Amy, mas ela não aceitou.
– Você não quer um, mamãe?
– Não, Enrico, pode comer com seu irmão.
– Eu queria leite – Noah choramingou. Rosalie passou a mão em sua cabecinha loura, iniciando a caminhada outra vez.
Alguns passos à frente ele tornou a choramingar.
– Quero ir pra casa... Aqui não tem nada. Não tem comida... Nem brinquedo. E nem tem desenho.
– Você quer voltar pra casa de Royce?
Enrico se desesperou com a pergunta feita ao irmão.
– Não, mamãe, por favor – o menino olhava para ela em agonia.
– Não, mãezinha. Pra casa de Royce, não. Pra nossa casa – Noah se explicou.
– Que casa filho?
– Sua e minha, e dos irmãos; Enrico e Amy.
– Mamãe vai tentar dar um jeito. Agora parem de pensar nisso, e continuem andando.
No estacionamento, Emmett acabava de guardar a bagagem na carroceria da caminhonete preta, de cabine dupla, ford ranger. Foi nesse momento que os avistou, caminhando na calçada, ao longo dos quartos. Cabisbaixos, lhe dando a certeza de que não sabiam para onde ir.
Reparou que Rosalie tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo, e usava óculos escuros. Parecia ainda mais bonita que na noite passada quando a viu pela primeira vez.
Precipitou-se chamando pelo único nome que sabia.
– Noah! Noah!
O coração de Rosalie gelou subitamente no peito. Deu um tranco e passou a bater em um ritmo frenético. Pensando no pior, lamentou pelas crianças, mas, ao virar o rosto, percebeu que não tinha motivos para temer. Não era Royce quem os chamava, tampouco alguém enviado por ele. Era apenas o homem que os ofereceu carona, e que acreditavam já ter ido embora.
– Oi – disse Emmett, se aproximando devagar. – Vocês... – ele começou, mas foi interrompido por Rosalie.
– Eu aceito a carona. Quer dizer, se a oferta ainda estiver de pé.
– Mas é claro que sim. Estava justamente esperando por vocês.
– Estava?... – ela se surpreendeu, embora muito desconfiada.
– Imaginei que se atrasariam, por isso decidi esperar um pouco.
Mesmo que ainda estivesse receosa, chegou um pouco mais perto.
– Obrigada – disse.
– Me desculpe pelo susto que te dei ontem à noite. Novamente afirmo que não era minha intenção – Emmett se explicou mais uma vez.
– Desculpe-me por ter gritado... – ela pediu, um tanto sem jeito.
– Não a culpo por isso. Estava no seu direito. Queria apenas proteger seu filho. No seu lugar, faria o mesmo. Afinal, eu falava com seu filho a noite, em lugar como esses. Eu certamente teria reagido mal se encontrasse um estranho falando com um dos meus sobrinhos.
Ela concordou, meneando a cabeça.
– Eu me chamo Rosalie Hale – se apresentou brevemente, dando o nome de solteira.
– Eu te disse meu nome ontem à noite. Mas, caso tenha esquecido, sou Emmett McCarty.
– Eu me lembro, sim.
Gostou de saber que ela se lembrava de seu nome, mesmo depois de ter pensado mal a seu respeito. Um sorriso ameaçou surgir em seus lábios obrigando as covinhas quase aparecerem. E então olhou para as crianças.
– O Noah eu já conheço. Mas os outros dois ainda não. E aí, campeão?! – cumprimentou, bagunçando os cabelos de Noah com a mão. O garotinho lhe sorriu. E ele olhou então para os outros dois– Imagino que sejam Enrico e Amy.
– Como sabe o nome deles? – Rosalie sondou, desconfiada.
– Noah me disse ontem à noite.
– Ah – foi tudo o que ela conseguiu responder.
Emmett bagunçou os cabeços de Enrico da mesma forma que havia feito com Noah antes. Olhando-o agora de perto percebeu os hematomas que carregava pelo corpo.
– Vai ficar tudo bem, campeão – murmurou para o garoto. Depois tocou a mãozinha roliça de Amy, falando com ela. – Oi, princesa – Amy segurou seu dedo e sorriu. Ele retribuiu, sorrindo para ela também.
Rosalie, que estava com a filha no colo, ficou admirada com sua atitude. Nem mesmo o pai das crianças as tratava dessa forma. Inevitavelmente se viu fascinada com as covinhas que brincavam nas bochechas daquele homem. Podia jurar que eram idênticas as de seu filho Noah.
– Acho melhor sairmos logo daqui – avisou, olhando de Amy para Rosalie.
Por um instante, ela se esqueceu de que estava usando óculos escuros, desviando o olhar para longe dele.
Apesar de ter se encantado com a reação dela, não pôde deixar de notar que, assim como os filhos, ela também carregava marcas de violência.
– Quer que eu a leve a um hospital, ou a uma delegacia para denunciar o cara que fez isso?
– Se quer mesmo nos ajudar, nos leve para longe daqui como prometeu que faria.
Emmett não disse mais nada, tudo o que fez foi retirar as mochilas das costas de cada um deles e guardá-las junto a sua bagagem na carroceria da caminhonete. Depois abriu a porta traseira ajudando os garotos a entrarem no carro.
Antes disso, Enrico guardou o que restou dos biscoitos no bolso de sua mochila.
– Eu tenho que ir aqui atrás com as crianças – Rosalie avisou, vendo que ele se preparava para fechar a porta. Outra vez, ele nada disse. Apenas a ajudou subir na caminhonete, sustentando seu cotovelo com a mão. Não pôde deixar de notar que o simples movimento lhe causou dor.
Enquanto ele se posicionava no assento do motorista, Rosalie pediu para as crianças que pusessem o cinto de segurança. Como Noah teve dificuldades com o seu, precisou ajudá-lo.
Olhou para Emmett de canto de olho, e o viu fechar a porta.
– Estão todos prontos? – ele pediu de forma tão natural que parecia que se conheciam há anos.
Enrico e Noah olharam para a mãe sem saber se podiam responder.
– Sim, estamos prontos – ela confirmou, olhando para as crianças. Pensando “seja o que Deus quiser”.
Em seu colo, Amy brincava com a bonequinha de pano, o único brinquedo que conseguiu pegar pra ela durante a fuga.
– Ok – murmurou, girando a chave na ignição. – Não precisam ficar com medo, eu juro que sou gente boa. Podem ficar a vontade para conversar, também. Gostariam de ouvir música enquanto seguimos viagem?
– Não precisa se preocupar. Já está fazendo muito nos levando com você.
– Enrico gosta de música – Noah entregou.
– É mesmo? – com o carro em movimento, Emmett continuou falando com eles. – E, Enrico, qual estilo musical você mais gosta?
– Clássico – Enrico respondeu sem deixar de olhar para fora da janela. Não olhava nada em especial. Na verdade, tinha receio de falar sobre isso com qualquer pessoa que não fosse sua professora de música na escola, e a própria mãe. Royce sempre falava coisas horríveis a respeito de seu gosto musical.
– Algum instrumento em especial?
Enrico olhou para a mãe, como que buscando sua opinião. Ela fez um pequeno gesto com a cabeça e aquilo motivou o menino a falar.
– Violino – disse por fim. Pela primeira vez olhando diretamente para Emmett.
– Imagino que sua mãe tenha muito orgulho de você. Está criando um músico dedicado.
Rosalie olhou de Enrico para Emmett e novamente para Enrico.
– Sim. Meu pequeno violinista.
Ela havia retirado os óculos escuros. Embora usasse maquiagem para disfarçar o olho roxo ainda era possível perceber algo ali.
Emmett olhou brevemente para trás, encontrando nos olhos dela um amor imutável pelos filhos.
– Papai quebrou o violino do Enrico – revelou Noah. – E também deu uma surra.
Enrico juntou as mãozinhas sobre o colo, de repente entristecido.
Miserável, foi o que Emmett pensou a respeito do homem que os maltratava. Já o odiava apenas pelos relatos de Noah na noite anterior, agora havia encontrado um motivo a mais pra isso.
Rosalie estendeu o braço, alcançando com a mão o rosto de Enrico, ao percebe que ele chorava.
– Lembra-se do que a mamãe te falou? – sussurrou a ele.
O menino assentiu passando as mãos nos olhos molhados pelas lágrimas.
– Vamos fazer uma parada para tomar café – Emmett voltou a falar, quebrando um pouco o clima de tristeza que havia se formado.
– De forma alguma – recusou Rosalie rapidamente. – Não se incomode com a gente. Ainda temos pão na mochila.
– Não é incomodo algum. Quero que você e as crianças venham tomar café comigo. É um convite. Não aceito um não como resposta.
– Mesmo que aceitemos seu convite, não podemos ser vistos por aí. Não quando tem um louco a nossa procura.
– Ah, claro – concordou Emmett. – Então faremos o seguinte: Eu estaciono em local seguro e desço para comprar comida. Nesse caso tudo o que vocês têm que fazer é me esperar voltar.
Ele sorriu quando notou Rosalie suspirar. Poucos minutos depois estava estacionando em um local seguro, longe de muito movimento, como havia prometido.
– Pode ficar com a chave do carro – avisou. – Se precisar sair daqui... Você sabe dirigir, não sabe?
– Sim, eu sei. Mas... E você? Quero dizer, porque está fazendo isso? Mal nos conhecemos. Como pode me ceder à chave de seu carro?!
– O que há de errado em ser um cara legal? Não responda. Não sou como ele, pode ter certeza disso. E, além do mais, eu sei que você não vai me deixar pra trás. Não me parece o tipo que rouba – outra vez as covinhas surgiram em suas bochechas.
– E você não me parece o tipo de cara que se hospeda em hotel de beira de estrada como aquele? Só de olhar pra você e pro seu carro podemos perceber que tem dinheiro.
– Você também não se encaixa no perfil de quem se hospeda naquele lugar. Ainda mais com três crianças pequenas.
– Mas você já sabe o motivo de estarmos lá. Agora me diga, qual o seu motivo?
– Precisei parar para abastecer o tanque. E como já estava muito tarde, não quis voltar pra estrada. Aquele foi o local mais próximo que encontrei. Mais alguma pergunta?
– Porque está tão longe de casa?
– Eu gosto de pegar a estrada. Gosto de me sentir livre. Assim aproveito também pra comprar algumas coisas, em um preço mais em conta.
– Mas, alguém não poderia fazer isso pra você?
– Às vezes é bom sair, deixar pra trás os problemas... – e então novamente ele estava falando com as crianças. – Querem algo especial para comer?
– Donuts! – Enrico e Noah disseram ao mesmo tempo.
– E você, Rosalie?
– O que trouxer está bom pra mim.
As sobrancelhas dele se curvaram na esperança de ouvir uma resposta melhor.
– E para Amy?
– Ela já mamou. Apenas uma frutinha está bom.
– Certo – voltou-se pra frente novamente. – Eu volto em alguns minutos.
– Ah, Emmett!
– Sim? – ele a olhou outra vez.
– Pode me trazer uma garrafa de água mineral? – ela segura algumas notas amassadas, na direção dele.
– Por favor, guarde seu dinheiro – pediu. – Trarei a água sem precisar que e pague por ela.
– Não posso aceitar que, além de nos dar carona, fique gastando seu dinheiro conosco. Não é certo.
– Por favor, guarde seu dinheiro – mais uma vez ele pediu. – Eu vou trazer tudo o que for necessário e não precisa me dar nada em troca. Apenas aceite que quero ver você e as crianças bem.
Abriu a boca para falar, mas, antes que pudesse articular as palavras, Emmett saiu do carro levando no rosto um lindo sorriso de covinhas salientes. E foi inevitável o golpe de gentileza que elas lançaram em seu coração ferido.
Quinze minutos, esse foi o tempo que Emmett levou para retornar da cafeteria. Trazendo não só os donuts que os meninos pediram, como uma cesta repleta de coisas gostosas. Além do próprio café e da água mineral – essa, na verdade, foram várias garrafinhas.
Enrico e Noah conversavam um com o outro. Desenho animado havia se tornado o assunto do momento.
Amy estava um pouco impaciente no colo da mãe, ameaçando um chorinho a qualquer momento. Embora Rosalie estivesse sempre a mudando de posição em seu colo, já sem saber o que fazer. Talvez descer do carro e andar um pouco com ela fosse a melhor opção, mas estava com medo de que, de alguma forma, Royce ficasse sabendo de seu paradeiro.
Tomou um susto quando Emmett se aproximou do vidro da janela, bem pertinho de onde estava. Chegou até mesmo soltar um grito assustando as crianças também. Amy começou chorar no mesmo instante. Noah e Enrico agarram-se um ao outro, olhando assustados para a janela do carro, o mesmo local cuja mãe também olhava.
Rosalie sentia o corpo inteiro tremer. Em seu colo Amy também tremia, como se todo seu estresse emocional passasse para ela.
– Ai meu Deus! – exclamou, levando a mão à boca. Se acalmando, pouco a pouco, após reconhecer a figura masculina do lado de fora do carro.
– Abre aqui, por favor – Emmett pediu, batendo com o cotovelo no vidro.
Os garotos já não estavam mais tão assustados. Olhavam para Emmett agora com ansiedade e alivio no coração, que se acalmava aos poucos.
Rosalie respirou fundo, somente então destravou a porta. Empurrou devagar evitando acertá-lo com ela.
– Me desculpe – disse ele, assim que a porta foi aberta, chegando mais perto –, não queria assustá-los, mas parece que não faço outra coisa.
– Não é culpa sua – ela respondeu, ao mesmo tempo tentando acalmar a caçula.
– Trouxe café pra gente e achocolatado para as crianças – comunicou, erguendo um pouco a cesta farta de piquenique.
– Como assim? – questionou um tanto chocada. Mal se conheciam e ele estava sendo tão atencioso, na verdade, generoso. – Isso é praticamente uma compra inteira. E todas essas garrafinhas de água? Não precisava de tudo isso.
– Dessa forma não precisamos ficar parando sempre que uma acabar. Trouxe nas garrafinhas para facilitar o manuseio durante a viagem.
– É um piquenique – comentou Noah, seus olhinhos brilhando, achando aquilo muito legal.
– Ajudem a mãe de vocês com a cesta – pediu, passando a cesta para dentro do carro. – Eu vou deixar a água ali no banco da frente para não ficar muito apertado pra vocês aqui. Quando quiserem é só pegar ou pedir. Sintam-se a vontade. Rosalie – ele sondou –, você prefere que fiquemos aqui por um tempo, até que todos tenham se alimentado, ou prefere que leve o carro para um lugar onde possamos sair e comer sob alguma sombra?
– Seria como um piquenique – Noah se animou.
Mas Emmett viu no rosto dela confusão e medo.
– Tudo bem – disse para ela. – Ficaremos aqui mesmo no carro.
– Obrigado, Emmett. Por tudo que está fazendo.
Ele percebeu que ela havia se emocionado.
– Não estou fazendo nada demais. Estou apenas dando uma carona a uma família de amigos.
– Você sabe que sim... – passou a mão nos olhos forçando as lágrimas irem embora. Logo depois tornou da atenção a filha, que chorava. Pegou a chupeta e pôs na boquinha dela. – Não chore, meu amor – sussurrou, beijando seu rostinho molhado pelas lagrimas.
Foi inevitável não se lembrar das explosões de fúria de Royce a cada choro das crianças. Isso havia se tornado um de seus tormentos há anos.
Emmett estava sentado novamente no assento do motorista.
– Está tudo bem Rosalie. Crianças choram mesmo. Isso não me incomoda, de forma alguma. Acredite.
Ela notou no tom de voz dele que falava a verdade. Ainda assim custava assimilar que estivesse mesmo ouvindo aquelas palavras. Um desconhecido era mais provido de compreensão que seu próprio marido, pai das crianças.
– Mesmo assim, quero que me desculpe. Está acostumado a seguir viagem sozinho, e nós estamos aqui te incomodando e dando trabalho. Ela só está assim porque está com sono, daqui a pouco ela dorme.
– Não faça isso – ele pediu. Seu tom de voz carregado de uma leveza que a acalmava. Rosalie tinha certeza de que era a coisa mais estranha que já havia sentido na vida.
– Isso o que? – ela pediu.
– Se desculpar pelo choro de uma criança. Dessa forma me sinto como um carrasco.
– Desculpe... É só que... Não estou acostumada com isso.
– Isso o que, Rosalie? – dessa vez foi ele quem ficou na dúvida.
– Sua bondade e educação...
Emmett compreendeu seus sentimentos em relação a ser bem recebida. Jugando pelo histórico violento que ela e as crianças carregavam.
– Eu não sei de vocês, mas eu estou morrendo de fome – mudou de assunto, tentando confortá-la mesmo que apenas um pouco.
– A gente também – os meninos disseram em coro.
Inesperadamente Rosalie estava sorrindo. Emmett ficou tão fascinado com a suavidade e beleza de seu sorriso que se tornou difícil deixar de olhá-la.
Envergonhada, tímida a um nível que nem mesmo ela conhecia, desviou o olhar. Olhava para os meninos, e naquele momento, seu sorriso se tornou ainda mais cheio de vida.
Emmett os assistia sorrir, fascinado.
– Então vamos comer? – disse ele, com divertimento em seu tom de voz.
E lá estavam as crianças olhando-o como se fosse algum tipo de super-herói.
Os garotos levantaram a tampa da cesta e começaram pegar o que queriam. Aquilo de que mais gostavam.
– Amy gosta de suco de uva? – Emmett pediu.
– Sim, ela adora. Na verdade é o favorito dos três.
– Então acabei acertando sem querer. Porque trouxe várias caixinhas de suco de uva, além do achocolatado.
– Obá! – Enrico e Noah comemoraram. – Suco de uva é muito bom – o sorriso estava de volta em seus rostinhos.
– O que vocês devem falar pra ele agora? – a mãe incentivou.
– Obrigado, Emmett – eles tornaram a falar ao mesmo tempo.
Emmett sorriu, satisfeito.
– Amy sabe tomar no canudinho?
– Não. Mas, tudo bem, eu trouxe o copinho dela.
Dizendo isso, puxou a sacola com as coisas da filha para mais perto das pernas.
– Quer ajuda?
Concentrada no zíper da sacola, ela respondeu:
– Acho que agora consegui.
Remexeu dentro da sacola e retirou de lá o copinho.
Emmett recebeu o copinho já sem tampa, cortou a ponta da embalagem e transferiu o suco da caixinha para ele.
– Puco! – Amy gritou, animada, estendendo as mãozinhas. – Dá mamã. Puco.
– Ela quer o suco logo, mamãe – Noah comentou, achando graça.
Enrico, Rosalie e Emmett acabaram rindo dos dois. Mais uma vez Emmett se viu admirando o sorriso dela. Pensou no quanto reluzia suavidade quando não estava tensa ou com medo. Inexplicavelmente, quis lhe proporcionar essa sensação mais vezes, quantas fosse possível.
– Calma filha. Mamãe já vai te dar o suco – ela ainda sorria ao falar com Amy. – A mamãe só vai pôr a tampa. Espera um pouco.
– Puco. Puco. Puco – Amy repetia nervosa.
– Eita! – exclamou Enrico.
– Pronto bebê. Aqui está o seu “puco”.
Amy olhou do copinho para a mãe e sorriu.
– Puco.
– É. É o seu suco.
Segurou o copinho com as duas mãos pequeninas levando-o à boca. Sugou através dos furinhos do bico dosador, chegando a fazer um pequeno barulho. Tossiu um pouco, e os contornos de suas sobrancelhas ficaram avermelhados.
Rosalie logo tratou de afastar o copinho da boca dela, mesmo com resmungando e protesto.
– Mamã... Puco. Puco – fez beicinho, olhando para a mãe. Depois se jogou de encontro ao peito dela, com o rostinho no tecido da roupa, chorando.
Os meninos só sorriam.
– Ela gosta mesmo desse suco – Emmett comentou, sorrindo também.
– Ah, ela gosta mesmo – Rosalie afirmou, com um leve sorriso no rosto.
Afastou Amy um pouquinho e lhe devolveu o copo. Quando voltou erguer o olhar, se deparou com o olhar de Emmett vidrado no seu. O rubor inesperado a tingiu outra vez.
– Você deveria comer um pouco também – disse ele, forçando-se a desviar o olhar.
– E eu estou – ela lembrou, tomando um gole do café.
– Até agora você só bebericou o café. Isso não é comer.
– Tem razão.
Ele pegou uma fatia de bolo na cesta, com um guardanapo, entregando na mão dela.
– Obrigada.
Ela mordiscou a fatia de bolo. Logo depois alertou os garotos quanto a manter o carro sempre limpo.
– Tomem cuidado para não deixar cair nada no carro de Emmett. Vamos juntar o lixinho para dispensá-lo corretamente depois.
No mesmo instante, os dois estavam verificando se tinham deixado cair algo no banco, ou até mesmo no piso do carro.
Apenas alguns segundos depois, Noah olhou para a mãe com cara de choro. Desconfiado, ele se inclinou chegando mais perto, lhe sussurrando algumas palavras ao pé do ouvido.
– Caiu farelo, mãezinha. Ele vai me bater?
– Não tenha medo filho. Cata o farelinho de dá aqui na mão da mamãe.
– Tá – Noah respondeu ainda amedrontado evitando olhar para Emmett.
Ao perceber o que o irmão iria fazer Enrico logo tentou ajudar.
– Agora sim estou ofendido – disse Emmett, se posicionando novamente entre os bancos.
A expressão de seu rosto era a mesma de antes. Não havia sinal algum de irritação ou mau humor.
Noah se assustou, agarrando-se ao braço da mãe, com uma das mãozinhas fechadas, carregada com pouco do farelo que conseguiu pegar.
– Não brigue com ele, Emmett, por favor – Enrico pediu. – Pode deixar que eu limpo seu carro. Você vai ver, não vai ficar nenhuma sujeirinha.
– Não é necessário fazer nada disso, Enrico – olhando para Noah, estendeu a mão afagando seu bracinho.
– Ei, campeão, pensei que fossemos amigos.
Noah olhou para ele, ainda agarrado ao braço da mãe.
– Você não está bravo comigo?
– Porque eu estaria?
– Porque eu sujei seu carro com farelo.
– Eu não me importo Noah, de verdade. Esse é o tipo de coisa que acontecesse com qualquer um. E que se pode limpar facilmente. Depois o tio limpa. Não se preocupe.
O garotinho meneou a cabeça concordando.
– Abre a mãozinha – pediu.
A pequena mão foi aberta lentamente revelando o pouco farelo que conseguiu pegar. Emmett pegou um guardanapo e usou para limpar a mãozinha. Fez isso com todo cuidado e sem sinal algum de irritação.
Noah olhava o tempo inteiro de sua mãozinha para Emmett, e depois para mãe. Tanto ele quanto a mãe e o irmão estavam surpresos com a atitude daquele homem.
– Pode voltar a comer. E não se preocupe se voltar cair farelo. O carro pode ser facilmente limpo depois.
O rostinho de Noah suavizou. Mais confiante, conseguiu se afastar da mãe e pegar seu donuts na cesta. Os olhinhos brilharam à primeira mordida.
– Obrigada – murmurou Rosalie, com gratidão pelo que ele tinha acabado de fazer por seu filho.
Emmett olhou para ela com aquele olhar que dizia “não faça isso”.
Depois que todos haviam terminado de comer, Rosalie arrumou na cesta o que sobrou. Emmett conseguiu um saquinho de papel, onde foi dispensado todo o lixo.
Observou ela tomar um analgésico, mas nada questionou.
Em pouco tempo estavam na estrada novamente.
– Quanto tempo vai levar até chegarmos a sua cidade?
– Vou precisar fazer uma parada à noite.
– Ah – foi tudo o que ela disse. Uma nova preocupação se instalando.
– Não se preocupe Rosalie. Eu me encarrego de tudo. Só faço isso por que não acho seguro dirigir a noite. Mas, se preferir...
– De forma alguma – ela o interrompeu. – E não digo isso apenas pelas crianças ou por mim. Mas por você, também. Não vou fazê-lo mudar seus hábitos por nossa causa. Não dirigiu na noite em que estava sozinho. É sinal de que realmente presa por sua segurança. E que pensa em sua família, que deve estar esperando o seu regresso.
– Tudo bem então – concordou observando-a pelo espelho retrovisor.
Algumas horas depois os meninos disseram precisar fazer xixi.
Não teve outro jeito, senão parar no acostamento, na rodovia, e descer do carro com os dois. Rosalie permaneceu dentro do veículo com a caçula, mas sua atenção estava voltada para onde os meninos tinham ido.
Afastaram-se um pouco. Emmett foi para um lado e as crianças para outro. Pouco tempo depois, os dois voltaram se aproximar do carro. E estavam sorrindo.
Aos olhos da mãe, eles pareciam leve; livre do medo que os ameaçava constantemente.
Enrico ficou incomodado sobre como lavariam as mãos. Já que uma das regras básicas, que a mãe nunca deixava passar, era sempre lavar as mãos depois de usar o banheiro.
Não se surpreendeu nem um pouco quando viu a mãe, posicionada de frente para a porta aberta, segurando uma garrafinha de água já sem tampa.
Os dois se aproximaram, com as mãozinhas estendidas, ainda sorrindo. Enrico foi o primeiro, e quando Noah estava afastando as mãozinhas para secar em uma fralda da irmã, Emmett posicionou as mãos embaixo da garrafa, alegando que ainda faltavam as suas.
Verdade seja dita, sentiu-se um pouco desconfortável com o fato de saber onde aquelas grandes mão estiveram minutos antes.
– Obrigado, Rosalie – ele agradeceu indo secar as mãos na flanela que estava no painel.
As crianças deram a volta, e Emmett os ajudou subir no carro novamente. Rosalie se posicionou corretamente no assento e fechou a porta.
Seguiram viagem por toda a manhã. Por volta da hora do almoço, por não terem encontrado um local bacana que pudessem almoçar, fizeram apenas uma parada rápida e comeram o que ainda restava na cesta do café da manhã que, aliás, não era pouca coisa.
Rosalie preparou o leite de Amy, e ela adormeceu logo depois de mamar. Cerca de uma hora depois, Emmett parou em um posto de gasolina na rodovia para que ela pudesse usar o banheiro, aproveitou esse tempo, também, para encher o tanque de combustível.
Sua preocupação se dividiu entre ficar de olho nas crianças dentro do carro e proteger a mãe de qualquer assedio por parte de bêbados e drogados que pudessem cruzar seu caminho.
Um homem alto, de barba na cara, fumava um cigarro perto de onde ele havia estacionado o carro. E ao perceber Rosalie se aproximar, quando voltava do banheiro, fez um comentário que podia muito bem ser dispensado.
– Homem de sorte... Sua esposa é um mulherão.
Automaticamente, Emmett se posicionou ao lado dela, passando o braço em torno de sua cintura escoltando-a até a caminhonete. Ambos ignoraram a sensação estranha que a proximidade lhes causou.
– Apenas mantenha as aparências – sussurrou ao ouvido dela. E, estranhamente, o som de sua voz, aliada ao hálito quente, trouxe uma onda de arrepios a todo corpo de Rosalie.
Com ela em segurança novamente, acenou para o homem que ainda os encarava. Entrou na caminhonete com uma postura rígida, de peito inflado, como se estivesse pronto para assumir uma briga.
As crianças olhavam para fora, desconfiadas. Emmett saiu dali com o carro sem se preocupar em olhar para trás. Provavelmente, se dessem sorte, nunca mais o veriam.
Foram horas na estrada até o sol se pôr. Dessa vez também passariam a noite em um hotel de beira de estrada. Porém, diferente do anterior, esse estava em melhor condição.
O carro foi manobrado em uma das vagas, no estacionamento. As crianças já se mostravam impacientes para saltar.
Emmett foi o primeiro a sair. Esticando braços e pernas, como se estivesse se aquecendo. Depois ajudou Rosalie com Amy. Os garotos foram os próximos.
– Eu vou alugar dois quartos, não se preocupe com nada Rosalie – assegurou, notando um pouco de preocupação nos olhos dela.
– Você realmente não precisa fazer isso, Emmett. Talvez o dinheiro que tenho; como não me deixou comprar nada durante todo o dia, seja o suficiente para um pernoite. Caso não seja, podemos passar a noite em qualquer outro lugar.
– O que? – se precipitou incrédulo. – Acha que deixarei você e as crianças irem para qualquer outro lugar sem mim? Bem, se você não aceitar não me resta outra saída a não ser ir junto com vocês, seja lá para onde queira ir.
– Tem certeza de que você existe mesmo? Não seria a ficção brincando de realidade comigo. Seria você um anjo enviado por alguém lá em cima para nos ajudar? – então subitamente pensou na avó já falecida, Jocelyn.
De repente, Emmett viu muita confusão nos olhos dela. Rosalie parecia realmente não entender quem ele era. Se realmente existia. Nunca antes havia conhecido alguém igual a ele.
– Se sou um anjo isso não sei dizer. Agora, quanto a proteger você e seus filhos isso é certeza que irei fazer.
Seu olhar buscou o dela. No momento em que isso aconteceu, uma torrente de emoções conflitantes mexeu com ambos.
– Mamã – começou Amy.
Depois do que pareceram alguns segundos, Rosalie piscou e olhou para a filha. Segurou sua mãozinha roliça beijando várias vezes em seus dedinhos.
– Vamos lá! – Emmett incentivou.
Ela concordou com um simples menear de cabeça, olhando para ele.
E então uma coisa extraordinária aconteceu.
Emmett caminhava alguns passos à frente dos demais, quando Noah resolveu aumentar os passinhos. Mesmo com a mochila nas costas e o boneco do super-homem em uma das mãos, conseguiu alcançá-lo. Sua mãozinha livre foi erguida devagar, até bem perto da grande mão do homem que conhecia há tão pouco tempo.
Sem mencionar nada, Emmett segurou a pequena mão na sua. E quando Rosalie pensou que nada mais pudesse surpreendê-la, Enrico se juntou a eles. Seus dois filhos seguravam agora a mão daquele homem, e isso mexeu com seu coração de um jeito absurdo. Jamais os tinha visto segurar na mão do pai, nem mesmo quando ensaiavam seus primeiros passinhos. Tudo o que receberam das mãos de Royce foi violência e desprezo. Nunca um gesto de carinho.
Inevitavelmente se encontrou com os olhos cheios de lágrimas.
Emmett levava sua própria mochila nas costas e a de Rosalie em frente ao corpo, se tornando uma espécie de recheio entre as duas mochilas pesadas.
Não conseguia deixar de observá-los. Pareciam pai e filhos. O pai que aquelas crianças jamais tiveram.
Escondeu o rosto atrás do corpo pequeno de Amy, e permitiu as lágrimas rolarem. A garotinha lhe acariciou o rosto molhado como que entendesse que chorava.
– Mamã – murmurou, plantando um beijo babado na bochecha da mãe.
– Está tudo bem, meu amor. Olha só seus irmãozinhos como parecem confiantes e felizes – murmurou com a pequena mesmo sabendo que ela não entenderia. Contudo, o sentimento de admiração precisava ser sentido e posto pra fora de alguma maneira.
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