Um Lugar Para Ficar
26 Capitulo 26 – Uma Noite Diferente
Notas iniciais
Os dias que se seguiram foram uma rotina de trabalho, escola e consultas médicas.
Rosalie foi à consulta com a ginecologista indicada pela irmã de Emmett, ainda no meio da semana. E ele foi levá-la. E esteve o tempo inteiro esperando por ela do lado de fora do consultório, sentado dentro do carro usando o celular. Surpreendendo a ela quando deixavam a clínica, pedindo que lhe contasse como havia sido lá dentro. Rose ficou dividida entre a felicidade e a surpresa. E então, pensando na forma atenciosa como ele se portava, contou-lhe tudo o que quis saber.
Voltaram à fazenda para almoçar com Lena. Retornando a cidade com Amy logo depois para pegar os meninos na escola e levarem a consulta com o pediatra. Merci foi dispensada mais cedo naquele por conta disso.
Convencer a Noah de que ele não tomaria injeção foi um trabalho e tanto. No final, todos eles deixaram o consultório médico com um sorriso no rosto. Tinha cada um ganhado um pirulito colorido.
Rosalie tinha se mudado de vez pro quarto de Emmett. Em momento algum as crianças demonstraram inquietação ou até mesmo desagrado. Exceto na hora de dormir quando pediam que ficasse com eles até que pegassem todos no sono, coisa que Rose fez de bom grado. As três crianças ainda dividam a cama de casal, a mesma onde a mãe também dormia até pouco tempo.
Depois de muita insistência, Emmett conseguiu convencê-la aceitar a redecorarão do quarto ao lado, onde havia duas camas de solteiro. Por esse motivo o quarto agora passava por uma mudança completa. Móveis novos foram comprados. Mas esses só seriam entregues quando as paredes e o piso estivessem prontos.
Depois de Abby muito pedir todos concordaram que Amy dividiria o quarto com ela. Assim compraram apenas os móveis que caberiam a ela. Como no quarto de Abby já era tudo em tons de rosa e lilás, não teriam o mesmo trabalho que no quarto dos meninos. Aguardavam apenas a entrega dos móveis para fazer as mudanças necessárias.
Rosalie andou dando uma pesquisada no preço de mercado dos violinos acústicos. Já pensava em guardar dinheiro para muito em breve presentear seu pequeno artista.
Há três dias Enrico pedira a Emmett para ensiná-lo andar de bicicleta sem as rodinhas. Pensando em deixá-lo feliz, Emmett retirou as rodinhas da bicicleta. E sempre que eles chegavam da cidade levavam a bicicleta para o lado de fora onde ficavam até o sol se pôr, praticando. Enrico caiu algumas vezes, mas em nenhuma delas chegou a se machucar. Estava sempre equipado com joelheiras, capacete e cotoveleiras. Apenas se mostrou frustrado, chegando a dizer que nunca conseguiria. Mas Emmett toda vez insistia que daria certo.
Rosalie assistia a tudo da varanda, com Amy ao seu lado brincando no triciclo, o quanto aquele homem era dedicado a seus filhos. E sempre insistiam para que nunca desistissem de suas metas, nem de seus sonhos. Foram muitas às vezes que se pegou chorando assistindo-os dividir momentos e memórias.
Noah, em sua bicicleta de rodinhas, já percorria todo o gramado sem se deixar intimidar pelos prováveis tombos.
Entre o trabalho na fazenda, na livraria e também o cuidado com as crianças, o casal sempre conseguia um tempo a sós. Algumas vezes aproveitando esse tempo para um passeio a cavalo pela propriedade.
Durante esse período Emmett sofreu com os terrores noturnos apenas duas vezes. Nas duas ocasiões Rosalie esteve ao seu lado, cuidando e confortando. Ainda assim, quando a manhã chegava, ele se mostrava abatido e pouco motivado. Já nas noites que dormia bem, acordava cheio de energia e eles quase sempre faziam amor antes de ela ir buscar Amy no outro quarto para lhe dar mamadeira.
[...]
Tinham chegado há pouco tempo à fazenda. Emmett estava com as crianças do lado de fora, mas sua atenção estava totalmente em Enrico. O menino correu para pegar a bicicleta, a fim de treinar sem as rodinhas, logo que saiu do carro.
As demais crianças, motivadas por ele, foram buscar também suas bicicletas. Abby e Noah, em suas bicicletas com rodinhas, com capacetes na cabeça, pedalavam lado a lado no gramado. Logan se movimentava muito rápido já que era o único a não precisar mais das tais rodinhas de aprender.
Kate estava dentro de casa com a avó ajudando-a com as colchas patchwork, que vinha tralhando já há algum tempo para, Abby e Amy.
Como Amy estava cheia de energia e cada vez mais querendo andar com as próprias pernas, Rosalie ficou indo de um lado a outro, a seguindo, no gramado na parte da frente da casa. Seus passinhos curtos e trôpegos muitas vezes ocasionavam em uma queda. Como o gramado amortecia, ela parecia não se importar. Houve apenas uma ocasião em que quis chorar, mas bastou ver Jujuba e Caramelo, do outro lado, perseguindo um esquilo, se embrenhando no meio das árvores ao redor da sede, o choro foi esquecido e seus gritos empolgados preencheram os ouvidos de Rosalie.
— Isso! – Rosalie ouviu Emmett vibrar. Olhando para ele, percebeu uma mão erguida no alto. Mais adiante, reconheceu Enrico andando de bicicleta, sozinho, ainda que parecendo um bêbado pilotando uma motocicleta. O menino não tinha controle sobre o guidão. Rosalie fechou os olhos se preparando para a queda, mas as palavras que ouviu a seguir fizeram acelerar seu coração e seus olhos se abrirem no ímpeto.
— Eu consegui papai! Eu consegui! – foram essas as palavras de seu primogênito. Enrico vibrava muito, pondo os dois pés na grama. – Eu consegui! – voltou a dizer em voz alta. – Consegui.
— Isso filhão! – Emmett repetia tão entusiasmo quanto o menino. – Isso. É isso aí filho. Você conseguiu. Você conseguiu Enrico.
Enrico saltou da bicicleta deixando que caísse de lado no gramado. E saiu em disparada ao encontro de Emmett, lançando-se sobre ele quando a distância se fez pequena. E Emmett segurou seu corpo pequeno ainda no ar.
Quando Rosalie se deu conta, estava chorando. Nunca tinha visto o filho tão solto, tão feliz quanto naquele momento. Era a primeira vez que chamava Emmett de pai. Certamente o bloqueio que a figura de Royce lhe causou estava sendo quebrado. Enrico estava finalmente se livrando das amarras que fez parte de seus primeiros anos de vida.
— Consegui papai! Eu consegui. – E seus braços pequenos apertaram o pescoço largo de Emmett com fervor. – Poxa vida, eu consegui mesmo.
— Esse é o meu garoto – Emmett elogiou. – O papai sempre soube que conseguiria. – Ele o pôs de volta no chão e juntos fizeram um cumprimento com as mãos. – Agora vai lá, filho. Manda ver.
Antes de voltar ao local onde deixou a bicicleta, Enrico correu até a mãe e abraçou suas pernas.
— Você me viu lá, mamãe? Eu consegui andar sem as rodinhas.
Lágrimas rolaram apressadas no rosto da mãe, caindo nos cabelos do menino quando se abaixou para beijar sua cabeça.
— Sim, você conseguiu – ela falou, com os lábios nos cabelos dele. – Você conseguiu. Mamãe está tão orgulhosa de você, príncipe.
— Rico, você conseguiu – Noah gritou de onde estava. – Irmão, você conseguiu mesmo. O irmão mais velho vibrou sem sair do lugar. Ao lado de Noah, Abby sorria para Enrico.
— Agora sim terei um parceiro de pedaladas – Logan declarou, com um sorriso no rosto.
— Ele ainda não pode pedalar no seu pique, Logan. É muito cedo pra ele.
— Quando então, tio?
— Ele precisa praticar mais um pouco. Ter total controle da bicicleta.
— Tá legal – Logan concordou ainda sorridente.
E Erico voltou a falar com a mãe.
— Eu vou de novo, mamãe. – Ele pulou diante dela. – Posso?
— Pode amor. Mas toma cuidado.
— Fique olhando, mamãe.
— A mamãe fica, pode ir.
Emmett tocou o capacete na cabeça do menino quando ele passou ao seu lado. – Pedala de volta até o papai, filhão. Vai lá.
Enrico lhe ofertou um sorriso, e seu dente incisivo central superior se mostrou mole. Dois novos incisivos inferiores em fase de crescimento. E correu para montar outra vez sua bicicleta.
Emmett pegou Amy no colo quando sentiu suas mãozinhas lhe segurarem as pernas da calça.
— Ele conseguiu – soprou a Rose, assistindo Enrico voltar pedalando, menos cambaleante, para juntos deles. O sorriso de satisfação jamais deixando o rosto do menino.
Rosalie olhou para Emmett, pondo a mão em seu ombro. – Você é o único responsável por aquele sorriso. Obrigada por fazê-lo tão feliz hoje. Por fazê-lo feliz todos os dias desde que chegamos aqui.
Ele inclinou o corpo grande pra frente beijando nos lábios dela bem devagar. – Os amo, e essa é a mais pura verdade – disse. – Mas eu quero lembrar que aquele dente mole não foi culpa minha – brincou, e Rosalie sorriu.
— Alguém perderá seu terceiro dente em alguns dias – ela respondeu. – Não demora o vizinho também cairá.
Enrico pedalou em círculos ao redor deles antes de parar e descer da bicicleta.
Emmett se deitou na grama e no instante seguinte todas as cinco crianças estavam ao redor, rindo e interagindo umas com as outras. Rosalie se juntou a eles na relva e teve alguns beijos roubados por todos eles.
O céu tomava tonalidades escuras e alaranjadas com o cair da noite. As luzes começavam a serem acesas.
[...]
Royce chegou do trabalho. Encontrando pela segunda vez a professora de Enrico em frente a sua casa. O carro de Dorothy estava estacionado próximo à entrada da garagem, enquanto ela insistia em tocar a campainha.
Rapidamente tomou a decisão de não parar com o carro, passando pela própria casa como se não a conhecesse. Dando a volta no quarteirão para ganhar tempo.
— Maldita intrometida! – praguejou ele. – E tudo isso é culpa sua, Rosalie. Sua desgraçada. Espere só até eu te encontrar. Não vou descansar até ter você de volta. – Um momento depois ele voltou a falar. – Não aguento mais essa merda. Onde diabos você se enfiou com aquelas crianças nojentas?! Burra. Cedo ou tarde irei te encontrar. Está mesmo achando que se livrou de mim? – e então ele deu risada. E mais adiante, dobrou a esquina.
[...]
Garrett estacionou ao lado o galpão há alguns metros de onde estavam. As crianças levaram um tempo para percebê-lo, mas quando isso aconteceu, Abby e Logan correram ao encontro dele. Os dois abraçaram as pernas do pai, um em cada lado do corpo. Até Garrett pegar Abby no colo.
— A gente estava brincando com a tia Rose e o tio Emmett – disse a garotinha.
— É? – o pai falou, beijando na bochecha corada dela. – Se divertiram? A tia e o tio foram legais com vocês?
— Ahã. O Rico já consegue até andar de bicicleta sem precisar das rodinhas, papai.
— Quando você for maior o papai tira as rodinhas da sua também. – Ele então bagunçou os cabelos louros do filho, de pé ao seu lado. – E a mamãe, onde está? – perguntou ao menino.
— Está lá dentro com a bisvovó – o garoto respondeu.
Rosalie estava agora sentada no gramado, com Amy em seu colo. Enrico sentado nas pernas de Emmett e Noah mexendo nas orelhas de Jujuba, ao lado deles. Caramelo descansava na varanda.
Garrett deu alguns passos à frente se dirigindo a Enrico. – Ei garotão, Abby me disse que você já está andando de bicicleta sem as rodinhas de aprender.
Enrico lhe mostrou um sorriso, satisfeito. Abby sorria de volta, orgulhosa do amigo.
— Vamos entrar? – Rose convidou as crianças, se pondo de pé com Amy nos braços. – Daqui a pouco estaremos todos sendo comidos por mosquitos que farão um banquete com nosso sangue.
Enrico ficou de pé. E Emmett fez o mesmo.
— Mãezinha eles são que nem rampiro? – perguntou Noah.
— Bom, os dois gostam de sangue. Mas isso não faz deles parentes, não.
— Eu tenho medo de rampiro. Porque ele morde no pecoço.
— Se diz vampiro e pescoço, filho. E, sim, o pescoço é onde eles preferem morder.
Noah encobriu o próprio pescoço com as mãozinhas. – Papai, tem rampiro aqui na sua fazenda? Tem? Que chupa sangue no pecoço das pessoas?
— Não.
— Por que tem urso?
— É. Tem o papai urso.
O garotinho gargalhou. E todos eles se encaminharam a varanda, e, antes entrar na casa, Garrett se lembrou de que tinha algo a dizer.
— Encontrei com Eleazer. Ele nos convidou para ir ao bar hoje. Disse que é a noite de cover country. Vou levar sua irmã para se distrair um pouco. Por que não leva a Rose também? Podemos ir os quatro juntos.
— É uma ótima ideia – respondeu Emmett, chegando à sala de estar. – O que você me diz, Rose? Gostaria de ir à noite de cover country no bar de um amigo nosso?
Ela o olhou, parecendo incerta. – Eu não sei... Tem as crianças.
— Merci está vindo ficar com elas – Kate avisou, entrando na conversa, depois de devolver o telefone sem fio a base. – Acabei de falar com ela. Garrett me ligou da cidade falando do convite de Eleazer pra essa noite, então já liguei pra saber se ela estava disponível.
— Ela saiu daqui nem faz tanto tempo.
— Não tem problema, vamos pagar hora extra.
— Eu posso muito bem ficar com meus bisnetos – Lena se queixou, sentada em sua poltrona favorita. – De toda forma, eles vão dormir. Que trabalho poderão me dar?
— Vovó é apenas para o caso de uma emergência. Não ficaríamos tranquilos deixando a senhora sozinha com cinco crianças à noite. Moramos longe da cidade. Não podemos fazer isso quando todos os funcionários estão em suas casas. Mesmo quando era apenas Abby e Logan, jamais gostamos de fazer isso. Nem mesmo a senhora sozinha deixaríamos.
— A verdade é que você e seu irmão acham que também preciso de uma babá.
Emmett foi até ela, apertando seus ombros com as mãos em uma massagem leve, passando os braços sobre o encosto da poltrona.
— É claro que não achamos isso, vovó. Só não gostamos que fique sozinha.
De pé ao lado do sofá, Logan também resmungou. – Eu não gosto de ter uma babá, mamãe. Eu sou grande, posso ficar sozinho.
— Não comece Logan – a mãe avisou. – Não o deixaria sozinho nem por decreto. Você acha o que, que sou doida? E, além do mais, mocinho, a babá não é exclusivamente para você. E que negócio é esse de que “já sou grande”?! Até ontem ainda limpava seu bumbum.
— Mamãe! – Logan se queixou. E logo depois deixou a sala, envergonhado. – Isso não é verdade. Já tem bastante tempo – reclamou a caminho do quarto.
Kate esticou o pescoço buscando vê-lo. – Estou brincando filho. Volta aqui! Vem falar com a mamãe. – Ela foi atrás dele. – Me desculpa Logan. Logan?
— E então, Rose? – insistiu Emmett. – Você topa?
— Eu não me lembro de quando foi a última noite que saí de casa. Pelo menos depois que... – Ela olhou para os filhos, refreando o impulso de tocar no nome do marido.
— Esse é mais um motivo para você sair. Quero que se divirta um pouco. Você não precisa ficar da livraria pra casa apenas. Precisa sair. Viver novas experiências.
Ela abaixou o olhar recordando a vida maldita que teve ao lado de Royce. Quase nunca saía de casa. E ainda sofria abusos e era submetida a todo tipo de humilhação. Cada dia era uma luta, em defesa das crianças e de sua própria vida.
— Eu não saberia como agir... Nem mesmo que roupa usar.
Emmett caminhou até ela, passando o braço sobre seus ombros.
— Estarei com você o tempo todo. Me encarregarei que essa seja uma noite divertida. Quanto à roupa, Kate vai te dizer o que usar.
Um momento em silêncio e ela finalmente respondeu:
— Está bem, eu vou.
Emmett a beijou na testa brevemente. – Era tudo o que queria ouvir – disse, e as covinhas dançaram em seu rosto com satisfação.
— Não, mãezinha – Noah resmungou, agarrando-se as pernas dela. – Não quero que você vá.
— A mamãe não vai a lugar algum.
— Você vai sair, eu ouvi você falando que ia. Eu não quero que você vai... mãezinha. Eu não quero.
— Noah, vem ficar aqui com a bisvovó – Lena o chamou.
— Bisvovó, a mãezinha vai sair. Mas eu não quero que ela vai.
Rosalie entregou Amy a Emmett e pegou Noah no colo.
— A mãezinha não vai sair – disse novamente ao menino.
— De verdade que não vai? – ele pediu.
Antes de responder ao menino, ela piscou um olho pra Emmett.
— Ahã. Agora vamos tomar um banho e depois vamos jantar. – Ela o pôs de volta no chão e pegou Amy outra vez.
Noah e Enrico foram andando na frente, a caminho do quarto.
[...]
Mais tarde, Rosalie estava deitada na cama, aguardando que as crianças dormissem para poder se trocar sem causar choro.
Garrett e Emmett já estavam prontos e guardavam por ela e Kate na sala de estar.
Abby e Logan dormiam em suas camas, em seus respectivos quartos.
Após uma leve batida na porta do quarto onde as crianças dormiam, Kate abriu a porta. – Eles já dormiram? – perguntou em voz baixa, surgindo na brecha.
Rosalie ergueu a cabeça do travesseiro para olhá-la. Não foi surpresa alguma vê-la tão linda naqueles trajes no estilo country; calça preta apertadinha, com uma camisa de mangas compridas em xadrez branco, cinza e preto. Coletinho marrom, cinto de fivela grande e botas também na cor marrom. E como não podia faltar, um belo chapéu creme todo trabalho em detalhes abertos com suas abas laterais curvadas propositalmente para cima. Os longos cabelos louros caindo sobre os ombros. A maquiagem fazia o tom ver-esmeralda de seus olhos se destacarem lindamente.
Rosalie saiu da cama sem fazer movimentos bruscos, desviando a atenção da irmã de Emmett, verificando como as crianças estavam.
— Já estou indo me vestir – sussurrou a Kate.
As duas saíram juntas do quarto onde as crianças dormiam. Mas Rosalie entrou no quarto de Emmett, agora também seu. E Kate foi esperá-la na sala junto com os outros.
Merci já tinha chegado à fazenda, o marido a trouxera de carro junto com o filho de treze anos e depois voltaram para a cidade. Ela e Lena assistiam a um programa de tevê enquanto os outros se preparavam para sair.
— E Rose? – Emmett perguntou a irmã.
— Ficou se vestindo. As crianças dormiram somente agora.
Ele fez menção de ficar de pé. – Vou vê-la.
— Nada disso. Você fica bem aqui. Não quero chegar atrasada. Por tanto, se quer beijá-la, espere para fazer isso depois.
— Eu disse que iria vê-la e não beijá-la.
— Ah, tá! Até parece que não sei como funcionam essas coisas.
— Me prive dos detalhes de sua intimidade – o irmão resmungou.
Kate riu, e o cutucou na costela dele. – Bobo, eu sou uma mulher casada. E meu marido está bem aqui. – Ela virou de lado e estendeu a mão apertando a perna de Garrett.
— Minha potranca – disse Garrett em resposta a seu gesto. E, então, a puxou para sentar-se em seu colo.
— Olha a sem-vergonhice aí vocês dois – Lena advertiu. E o casal deu risada juntos.
No instante que Rosalie chegou à sala, Emmett sentiu a pulsação acelerar. Olhando-a de cima a baixo, com a certeza de que partes de seu corpo se aqueciam ansiando um momento íntimo.
Os jeans de lavagem escura, justinho, delineando as curvas do corpo dela. Uma camisa de mangas compridas em xadrez vermelho, vinho e branco. As bostas e o chapéu caramelo que ele lhe dera de presente dias atrás. Dessa vez havia também um cinto largo de fivela cravejada de brilhantes. Esse, último presente dele pra ela. Os cabelos louros estavam levemente ondulados lhe caindo aos ombros com leveza. A maquiagem bem feita realçava a cor de seus olhos. O cheiro de seu perfume, ah, isso sem dúvida o perturbava, o fazia pensar nos momentos a sós entre dois. E o quanto era bom estar com ela.
— Então, como estou? – ela parecia nervosa ao perguntar, seu olhar se dividia entre Emmett e o restante da família. Enquanto aguardava a resposta, suas mãos deslizaram pela lateral do corpo. Embora não tivesse ciente do gesto, Emmett reparava em tudo o que fazia.
— Linda! – ele elogiou e imediatamente se pôs de pé. – E então já podemos ir? – pediu.
— Acho que sim. Se estiver tudo ok pra vocês.
Emmett segurou na mão dela enquanto lhe beijava o rosto.
— Não seja boba, Rose. Você está linda – comentou Kate. Em seguida, lançou um olhar ao irmão. – Vamos com seu carro ou com o nosso? Sim, porque não há necessidade de irmos em carros diferentes se vamos todos para o mesmo lugar.
— No meu. Tiro o assento das crianças e então cabemos todos.
Depois de ele retirar as cadeirinhas, Garrett e Kate se acomodaram no banco de trás da caminhonete preta.
Rosalie o olhava quando ele se posicionou atrás do volante. Com os jeans novos, camisa preta de botões com as mangas arregaçadas até os cotovelos, chapéu e botas na cor café, e cinto de fivela larga. Um cowboy de tirar o folego.
— O que foi? – ele pediu enquanto punha o cinto de segurança. Desistindo, chegou um pouco mais na direção dela alcançando seus lábios com um beijo.
Kate pigarreou. – Será que já podemos ir? – Deixem esses beijinhos para mais tarde. Vão ter tempo de... – ela não pôde terminar, pois foi surpreendida por um beijo apertando seus lábios. Segundos depois, aturdida, disse:
— O que foi isso?
— Um beijo – o marido respondeu.
— Jura?! – ela abriu um sorriso largo.
— Quer outro?
— Podem parar vocês – Emmett alertou. – Se não posso beijar minha mulher agora, vocês também não podem ficar de beijinhos aí atrás, não.
— Muito justo – concordou a irmã. – Deixe de assanhamento, Garrett.
— Amor, assim você parece sua avó falando.
— E qual o problema?
— Nenhum, foi apenas um comentário.
Kate estava prestes a beijar o marido, quando Emmett voltou a falar.
— Se não pararem com isso, deixo os dois na estrada.
— Já parei! – Kate alertou em voz alta. – Agora dirija esse carro. Eu só quero aproveitar a noite de sexta-feira em boa companhia.
[...]
Royce se encontrava em um barzinho, não muito longe de sua residência, sentado ao balcão, tomando uma cerveja. Um de seus colegas de trabalho estava ao lado e tomava uma dose de uísque.
— E então, cara, sua esposa ainda não voltou de viagem?
— Não.
— Se eu fosse você pedia ao chefe uns dias de folga para ir vê-la. Não sente saudades dela e das crianças?
O fundo do copo bateu com força no balcão. Irritado, Royce respondeu:
— Talvez eu faça isso – e então se levantou.
— Ei, cara, aonde vai?
— Por aí...
[...]
Emmett teve dificuldades em encontrar uma vaga no estacionamento ao lado do bar de Eleazar. A demora em deixarem a fazenda tinha um pouco de culpa nisso. Era óbvio que muitos jovens da cidade estariam ali àquela noite. Todos queriam se divertir.
Garrett segurou na mão de Kate. Emmett, na de Rosalie. Ambos cruzando o estacionamento rumo à porta principal do bar, onde a fachada de madeira rústica e sua placa no alto em forma de circulo, com a silhueta de um cowboy de costas, chamava atenção.
Depois de cruzarem a porta do estabelecimento, Rosalie olhou de um lado a outro. O local estava lotado de jovens e adultos.
O espaço era grande e limpo. A decoração escura com luzes quentes. Mesas com cadeiras de espaldar alto. Uma grande pista de dança diante de um tablado. Piso lustroso de madeira. Um bar bem equipado onde dois homens e uma mulher atendiam atrás do balcão.
No tablado, os rapazes da banda cover preparavam os instrumentos.
— Nossa! Isso aqui está ainda mais lotado do que imaginei que estaria – surpreendeu-se Kate.
— Vamos até o bar falar com Eleazar – sugeriu Garrett, indo na frente de mãos dadas com a esposa.
Emmett ia logo atrás de mãos dada com Rosalie, que olhava a tudo com a mesma curiosidade de uma criança. Até se imaginou em uma convenção onde todos se vestiam no mesmo estilo.
O local estava barulhento e as pessoas pareciam felizes.
Enquanto aguardavam que Eleazar atendesse a um cliente, Emmett sondou os pensamentos de Rosalie.
— O que foi? Em que está pensando? Não gostou do lugar? Se não estiver se sentindo confortável, podemos voltar para a fazenda.
— Não. – Ela abriu um sorriso. – Não é isso. Eu quero ficar. Quero mesmo. É só que é tudo diferente do que já vivi. Há muito tempo eu não saía à noite. Minhas saídas resumiam-se apenas a consultas médicas, idas ao mercado ou a escola das crianças.
— Você se acostuma.
— Sim.
Ele se inclinava alcançando os lábios dela para um beijo quando, então, ouviu Eleazar falar.
— Que bom que vieram. Já estava achando que iriam recusar meu convite.
— Kate nem pensou duas vezes quando falei – contou Garrett.
Carmen chegou um pouco mais perto do balcão onde eles estavam conversando e os cumprimentou.
— Olá, pessoal.
— Isso aqui está lotado – Kate disse pra ela. – Não esperava que estivesse assim.
— Faz tempo que vocês não aparecem por aqui. Precisam vir mais vezes.
— Estou sempre cansada. Mas prometo tentar vir mais vezes. Já conhecessem a namorada de meu irmão? – Ela moveu a mão na direção de Rosalie.
A mão de Emmett descansava nas costas dela enquanto falava. – Rosalie Hale, minha namorada, futura esposa e mãe de meus filhos.
— Mas já estão assim? – brincou Carmen. – Você pegou o cowboy no laço, garota. Muito bem.
— Domou o cavalo arisco – acrescentou Eleazar fazendo graça.
— Não sou um cavalo arisco – Emmett negou, arqueando uma sobrancelha com divertimento.
— Mas era bem solitário – Carmen lembrou. – Rose, querida, você é uma heroína por tirar esse moço da solidão em que vivia antes.
— Na verdade, eu diria que ele é quem é o herói dessa história.
— Não vou questionar – disse Carmen. E então lançou as mãos sobre o balcão a fim de segurar as de Rosalie. – Seja bem-vinda, querida. Não só ao nosso bar, mas a cidade e ao coração desse homem também. Porque de uma coisa eu tenho certeza, ele fará o que puder para fazer você feliz.
Rosalie olhou o homem alto e forte ao seu lado. Ele olhava para o lado oposto, reparando no casal que se aproximava.
— Ele já está sendo – disse ela, com satisfação e a vontade enorme de viver para sempre ao lado dele.
Carmen lhe sorriu. – Saiba que tem em mim uma amiga para o que precisar.
Eleazar completou, novamente fazendo graça. – Eu não sou uma amiga, mas posso ser um amigo.
Rosalie sorriu, gostando realmente daquelas pessoas. Contente por ter aceitado o convite para se juntar a eles aquela noite. Viveu tanto tempo isolada, a mercê de um monstro, que havia se esquecido de como é bom ter amigos. E ali, naquela pequena cidade situada no condado de Vermont, encontrou os melhores.
Ela olhou para o lado a tempo de ver Emmett cumprimentando Edward. Eles davam tapinhas nas costas um do outro. E não tardou para o amigo provocá-lo.
— Eu sabia que tinha.
— Tinha o quê?
— Um lance entre vocês. E você com aquele papinho de que era só uma amiga da família.
Emmett socou de leve o braço do amigo. – Você é muito enxerido. Parece até uma mulherzinha.
— Escondendo o jogo de mim, seu parceiro. O único que aturou seu mau humor na escola por anos e depois na faculdade.
— Você não foi o único – disse Kate.
— O quê? Ele escondeu de vocês também?
— Acredite.
Isabella cumprimentou Rosalie e ficou ao seu lado, rindo vez ou outra das coisas que os outros falavam.
— E o Liam? – Rose perguntou.
— Ficou com minha mãe. Ela sempre fica com ele quando precisamos sair. Liam a adora. Ela o deixa, digamos, bem à vontade.
Rosalie anuiu, abrindo um sorriso.
— E os de vocês?
— Ficaram com a dona Lena e a Merci.
— Merci é a babá?
— Sim. Na verdade, ficaram os cinco dormindo.
— Ai, quem dera o Liam fosse fácil assim. Às vezes ele me enlouquece.
— Vocês já tem uma mesa? – Rose ouviu Edward perguntar a Emmett.
— Na verdade, não. Acabamos de chegar.
— Então venham sentar-se conosco. Nossa mesa fica logo ali, a margem esquerda do tablado.
Emmett lançou um olhar aos outros. – Vocês estão de acordo? – Todos concordaram. E despediram-se de Carmen e Eleazar, que prometeram dar atenção especial a mesa deles.
— Pena que Esme e Alice não estejam aqui – comentou Rosalie, depois que cada um ocupou seu lugar à mesa.
— Provavelmente meu tio está trabalhando no hospital agora – Edward esclareceu. – Minha tia não gosta muito de sair sem ele.
Rose anuiu. Tomou um gole de Gin Tônica que o garçom tinha acabado de servir. Recebeu de Emmett um beijo ao pé do ouvido nos minutos que antecederam o show da banda cover de country.
Pouco a pouco as pessoas foram se aglomerando na pista de dança, começando a se mover no mesmo ritmo, em uma só dança. Era como se houvessem ensaiado há meses por aquele momento. Botas batendo no chão num ritmo alegre, numa multidão de chapéus de couro.
A irmã de Emmett se animou tanto que chegou ao ponto de parecer uma criança.
— Vem, Rose! – segurou em suas mãos e a puxou. – Vamos dançar com eles. – No lado oposto da mesma, Isabella fez o mesmo.
— Gente, eu não sei... – Sua frase ficou incompleta, pois era arrastada para o meio da multidão de botas barulhentas no ritmo da música que tocava.
As duas começaram com passos iguais. Rosalie começou devagar e tímida. A confusão inicial a fez rir de si mesma.
Emmett não parava de olhá-la. E sempre com um sorriso no rosto. Fascinado pela mulher que tinha ao seu lado. Riu com ela algumas vezes. Depois de muito errar, Rosalie enfim conseguiu acompanhar os passos de dança. E ficou ainda melhor quando Emmett se juntou a dança, bem ao lado dela. Surpreendendo-a por fazer cada passo no ritmo certo.
Os outros dois rapazes também e pôs a dançar no mesmo ritmo.
Algumas vezes gargalhava com Emmett lhe dizendo como executar o próximo movimento com o pé. Era seu momento de felicidade. Mas, bastou virar o rosto na direção contraria para encontrar America encarando-a com aquele par de olhos acinzentados sem se preocupar em esconder a raiva ao vê-la ao lado dele e dos amigos.
Ela estava linda numa calça de lavagem clara, camisa xadrez na cor vinho e preto, coletinho preto que modelava a cintura e botas na mesma cor. O chapéu vermelho descansava em suas mãos. A forma como olhava deixou Rosalie desconfortável. Talvez America pudesse se tornar um problema, pensou.
— Ei – disse Emmett, com as mãos em sua cintura. – O que foi? Já se cansou?
Rosalie abriu um sorriso fraco, desviando o olhar da mulher de cabelos negros, no outro lado do salão, para olhar para Emmett.
— Acho que alguém não está muito feliz com minha presença.
— É? – questionou Emmett, buscando pela presença da pessoa a quem ela se referia. Percebendo America, acenou com a mão. Ela sorriu engolindo o ciúme ao vê-lo ao lado de Rosalie.
Isabella e Kate incentivaram Rose a continuar dançando no ritmo da música com a galera. Não demorou todos eles esqueceram a presença de America.
Mais tarde, depois que a multidão se espalhou pelo bar, Emmett acompanhou Rosalie ao banheiro feminino, aguardando seu retorno do lado de fora.
Ela deixou a cabine e se dirigiu a pia para lavar as mãos. Pelo reflexo no espelho, percebeu que quem estava ao seu lado era America. Ela retocava o batom.
— Você deveria voltar para o lugar de onde veio – falou com naturalidade, fechando a embalagem do batom antes guardá-lo de volta na bolsa.
Rosalie ignorou seu comentário virando-se para secar as mãos nas toalhas de papel.
— Você vai descobrir que aqui não é o seu lugar – continuou America.
— Bem, isso não é você quem vai dizer – Rose respondeu.
A porta do banheiro foi aberta e uma Kate sorridente passou por ela. Logo atrás dela surgiu Isabella.
— Meu irmão mandou dizer que se você demorar um pouco mais, ele vem te buscar.
— Eu já estou indo – disse Rose, passando por ela a caminho da porta.
— Preciso usar o banheiro, já encontro com vocês do lado de fora – avisou Kate.
America abriu um sorriso forçado para a ex-colega de escola, que entrou apressada em uma das cabines.
Isabella estudou a expressão no rosto de America por um instante.
— Algum problema? – perguntou por fim.
— Nenhum – America respondeu e então fechou a bolsa. – Eu preciso ir – e foi com essas palavras que deixou o banheiro feminino.
Emmett e Rosalie estavam no corredor, quando America passou eles e esbarrou nela sem querer.
— Ei – disse ele – tenha mais cuidado. – America o olhou, confusa. – Você acabou de esbarrar nela – Emmett lhe explicou. E suas mãos se moveram sobre as costas de Rosalie, de um jeito protetor e carinhoso.
— Me desculpe. Não foi minha intenção – a voz de America saiu forçada, e ela sumiu no meio da multidão. Se esforçando para sorrir para alguns dos conhecidos.
Momentos depois, Isabella e Kate deixavam o banheiro feminino rindo de algo que tinham falado lá dentro.
Outra vez todos juntos, despediram-se dos amigos e se encaminharam para fora do bar. Entrando na caminhonete, prontos para refazerem todo o caminho de volta até a fazenda.
Fale com o autor