Um Lugar Para Ficar
44 Capítulo 44 – Passado e Presente
Rosalie deixou o hospital ainda naquela manhã acompanhada da família de Emmett, cercada de cuidados e atenção tanto da parte dos adultos quanto das crianças. A verdade é que eles eram sua família agora. Havia encontrado nos McCarty tudo aquilo que desejou um dia.
Esme e Alice fizeram questão de ir com eles até a fazenda. Lá havia mais alguns amigos a sua espera: Isabella e Edward com o filho Liam, Carmen e o marido Eleazar, a babá de Amy, Merci. Neva com o marido Jeremiah e o filho Scott.
Todos se mostraram bastante solícitos. Havia sempre alguém perguntando como se sentia, e se precisava de algo.
Seu passado já não era mais segredo. A notícia sobre Royce se espalhou na cidade com uma rapidez muito grande, depois da invasão na escola das crianças.
Família e amigos almoçaram todos juntos, na varanda dos fundos, à grande mesa de madeira. Só faltava Emmett para a felicidade estar completa. Mas logo ele estará de volta.
No decorrer da tarde, os amigos foram indo embora.
Rosalie foi até a varanda da frente onde sentou numa das cadeiras de vime. Grata a Emmett e a Deus pela chance de voltar à fazenda. E está novamente com os filhos. Distraiu-se olhando Amy brincar a sua volta. De tempos em tempos, a pequena ia até a mãe e era recebida por um carinho seu.
As crianças maiores brincavam no parquinho na parte dos fundos. De onde estava Rosalie podia ouvir o som de suas vozes e risos. Era grata por eles estarem reagindo bem aos últimos acontecimentos, pelo menos durante o dia esqueciam-se dos pesadelos que os atormentava.
Depois de descobrir o que tinha acontecido em sua ausência, Rosalie decidiu que encontraria apoio psicológico para as crianças. E isso ocorreria o mais breve possível.
Passado um momento, perdida em pensamentos, ouviu Amy falar.
— Ico.
Rosalie olhou para o lado e percebeu o filho mais velho se aproximando pela varanda na lateral direita da casa.
— Mamãe?
Ela sorriu para ele, em seguida, estendeu a mão convidando-o sentar-se em seu colo.
— Vem cá, senta um pouquinho aqui com a mamãe. Estou com saudades de ficar coladinha a esse presente maravilhoso que papai do céu me deu.
Enrico se aproximou, recebendo das mãos da irmãzinha um bloco colorido. A mãe o segurou pela cintura e colocou sentado no colo.
— Não vou te machucar se ficar no seu colo? – Enrico perguntou, preocupado com a recuperação da mãe. – Você acabou de chagar do hospital, não quero que volte.
— Não se preocupe. – Ela beijou no alto da cabeça dele. – Eu estou bem. Apenas um pouquinho dolorida, mas nada que me impeça de te mimar.
Enrico virou rosto de maneira que pudesse olhar no rosto dela. Rosalie sorriu mais uma vez, abertamente.
Amy estava aos pés dos dois, brincando de montar os blocos coloridos.
— Que bom que o papai Emmett trouxe você de volta – Enrico comentou, pegando-a de surpresa.
Ela beijou na bochecha dele mais de uma vez, amando aquele garotinho cada segundo um pouco mais.
— Como você se sente filho?
— Aliviado, eu acho. – Ele brincou com os dedos da mão da mãe. – E também muito feliz que você está aqui. – Se virou de frente para ela e a abraçou, recostando a cabeça em seu peito.
Rosalie deu um beijo demorado no alto de sua cabeça.
— A bisvovó, a tia Kate, Merci e também a Neva são muito legais, mas ter você de volta é a melhor coisa do mundo – a declaração do filho mais velho fez os olhos de Rosalie se encherem de lágrimas. Seu coração era só orgulho e amor. – Eu ajudei a cuidar da Amy e do Noah. Mas eu senti muito medo e saudades, também.
— Eu sei. Além de meu filho sempre foi meu cúmplice e meu melhor amigo. Eu te amo Rico, muito, muito, muito mesmo.
— Eu te amo mais.
— Amamos na mesma medida, você concorda com a mamãe?
Enrico meneou a cabeça de forma positiva.
— Uhum. O papai Emmett prometeu. Eu sabia que ele iria cumprir. Eu acreditei nele, mamãe, cada segundo.
— É? E o que o papai Emmett prometeu para você, amor?
— Que traria você de volta. Que a gente iria crescer ao seu lado.
— E ele cumpriu – ela confirmou, sabendo o quanto era importante para Emmett poder cumprir aquela promessa.
— Sim – Enrico concordou. – Agora só falta ele voltar para casa para tudo ficar perfeito. Eu sinto saudades dele também, mamãe.
— Logo, logo ele vai estar de volta. Bem pertinho da gente, para sempre.
– É. Mamãe?
— Sim, meu anjo?
— Não é verdade que sou igual a ele... – Enrico hesitou. E Rosalie sentiu que apertava um pouco mais os braços em torno dela.
— Igual a quem, filho?
— Eu não quero ter de falar. Parece que se eu falar ele vai voltar. E eu não quero que ele volte. Não quero.
— Ah, não, meu pequeno. – Rosalie o apertou no abraço como se o gesto fizesse qualquer sentimento ruim desaparecer. – Com toda certeza do mundo, você não é igual a ele. Nunca. Jamais. Nem por um segundo. – Ela o afastou por um instante, pondo a mão sobre o coração do menino. – Você é bom, Rico. Seu coração é puro e nobre. Você é lindo, tanto por fora quanto por dentro. Nunca mais volte a pensar nisso. Você é meu tesouro, assim como a Amy e o Noah também são.
— Eu sou igual ao papai Emmett?
Rosalie afagou o peito dele.
— Sim, você é igual ao o papai Emmett. E quer saber, quando for um rapazinho e tiver uma namorada, vai tratá-la como uma princesa, porque é isso que príncipes como você e o papai Emmett fazem.
— Você é uma princesa, mamãe. Eu sempre soube disso.
— Ah, Rico... – ela murmurou, voltando a abraçá-lo. – Meu amor por você e por seus irmãos é tão grande. Vocês são tudo para mim.
Enrico voltou a falar, após um instante em silêncio.
— Ele não vai voltar, não é mamãe?
— Você quer dizer o R...
— Não diz o nome dele – pediu sussurrando.
— Não precisa sentir medo, filho. Acabou. Para sempre.
— Para onde ele foi? A polícia o pegou?
— Não. Ele foi para um lugar de onde nunca mais vai poder voltar. Nós nunca mais vamos precisar fugir ou se esconder. Acabou.
— Ele morreu?
Rosalie deslizou as mãos pelas costas de Enrico reconfortando-o, sem ter certeza de como a notícia o afetaria.
— Sim. Eu sinto muito Rico.
— Como ele morreu? O papai Emmett o matou para te salvar, por que ele queria machucar você?
— Royce fez tudo isso sozinho. Ele quis nos destruir e acabou destruindo a si mesmo.
Houve uma breve pausa, então Enrico concluiu:
— Ele vai ter muito que se explicar com Deus. Ele não foi uma pessoa legal.
Rosalie encostou a cabeça de Enrico no peito, e o ninou como ninaria a filha caçula.
— Ele tem muito que explicar... – sussurrou ao menino.
— Mas eu ainda sonho com ele...
— Nós vamos cuidar disso, está bem?
Os gritos de Noah chegaram até eles na varanda da frente.
— Rico? Rico?
— Parece que seu irmão está procurando por você.
Enrico e ela olharam para os lados, procurando por Noah. Ele apareceu na lateral direita da casa, ainda vestindo a fantasia do Super-Homem.
— Mãezinha, você não está mais tão dodói, não é?! – questionou ao se aproximar.
— A mãezinha está bem melhor.
— Graças a Deus – Noah soltou. – Eu orei muito com a bisvovó e a titia para o papai do céu proteger você e o papai Emmett do homem mau. E curar os dodóis.
— Por que você estava me procurando, Noah? – o irmão pediu.
— Eu esqueci o que era que eu queria. – Ele coçou a testa. – Ah, já sei! Logan disse que vai ver Scott treinando os cavalos lá na arena. Vamos ver também? Vamos mãezinha? Vamos?
— Hummm... Eu não sei – Rosalie brincou.
— Vamos com a gente, por favorzinho? Eu tô com saudade, de tanto dia que você ficou longe. O meu coração estava tava até sofrendo. E era de monte.
— Seu coração estava sofrendo, bebê? De monte ainda? Que judiação.
— Eu achei que foi muito tempo, isso de você longe de mim.
Rosalie deu risada.
— Ok, você venceu. Eu vou com vocês, melhor dizendo, nós vamos, porque a Amy também vai.
— Isso! – Noah vibrou dando um salto com um braço erguido.
Enrico e Rosalie deram risadas juntos. Ela se levantou e pegou a caçula no colo.
— Onde estão Abby e Logan? – pediu.
— Eles já foram mãezinha. – Noah saiu correndo na frente, apressando-se em descer os degraus da varanda. – Rico, quem chegar por último é um sapo feio e gosmento – gritou para o irmão.
Rosalie viu os dois correrem pelo gramado e então no chão de terra, animados.
— Ei! – ela alertou. – Como assim, não vão esperar pela mamãe? Eu ainda não posso ir tão depressa.
Os meninos pararam de correr, dando risadinhas. Agitados, pulando sem sair do lugar.
— Nós esquecemos – disseram juntos. Mais calmos, voltaram para junto dela.
Rosalie pôs Amy para andar com eles, segurando na mãozinha dela. Enrico segurou na outra mão da irmã. E Noah, na da mãe.
— Agora é a Amy quem vai correr – Rosalie brincou. Ela incentivou a caçula, e todos correram devagarinho, no ritmo dos passinhos dela. Os quatro riram divertindo-se uns com os outros. Unidos como sempre foram.
[...]
Alguns dias depois...
Emmett estava de volta. Seu retorno foi comemorado com muita alegria. Família e amigos, todos juntos novamente para celebrar.
A sala de estar foi decorada com balões coloridos e cartazes de boas-vindas. Com direito a bolo e docinhos. Foram momentos divertidos e agradáveis ao de todos.
Agora, deitado na cama, ao lado de Rosalie, vestindo apenas um samba-canção, ainda se recuperando dos ferimentos, tinha acabado de contar a ela sobre ter ouvido a mãe na noite do incêndio na cabana. Ela disse que acreditava nele, porque também sentiu que havia mais alguém. Depois disso, ambos ficaram por um tempo em silêncio. Rosalie se dedicando acariciar o peito dele, bem acima da fratura.
— Pena que você vai ter de ir trabalhar hoje. Queria que ficasse aqui o dia inteiro, bem pertinho de mim – ele comentou. – Receber visitas não é a mesma coisa que ter você dormindo comigo. Estava contando os segundos para voltar para casa. Para você e para as crianças.
— Eu senti imenso a sua falta. E eu te amo demais. Mas, se eu faltar mais um dia no trabalho, Esme vai me mandar embora de vez – brincou.
— Você poderia vir trabalhar comigo. Aquela vaga ainda está disponível.
— Você nunca precisou de uma secretária – Rosalie cutucou.
— É que claro que sim. Eu preciso de você o tempo inteiro. Você é o meu sol particular. Nada faz sentido sem você.
— Você é um bobo, sabia?! – Ela empurrou a mão no peito dele, esquecendo-se que não deveria. Emmett gemeu um pouco. – Desculpe, eu não queria te machucar. Foi sem querer, amor, eu juro. – Então se inclinou sobre ele e lhe deu um beijo. – Desculpe.
— Estou brincando com você, não doeu. Mas eu vou querer mais um beijinho, antes de você sair e me deixar aqui abandonado.
— Você está parecendo o Noah falando desse jeito. Todo dramático.
— É porque ele puxou a mim.
Rosalie sorriu. E o beijou novamente.
– As sessões com a psicóloga estão ajudando, não estão?
— Os pesadelos estão diminuindo. Espero tirar as fraldas do Noah, de novo.
— Na outra noite ele não fez xixi na cama, as fraldas estavam secas quando acordou. E essa madrugada eles não acordaram – Emmett lembrou.
— Não sabe o quanto isso me alivia. Vê-los tão mal a noite, me faz mal. Tudo o que eu quero é que eles fiquem totalmente bem.
Quando já estava saindo da cama, Emmett comentou.
— Como vai chegar ao trabalho, moça bonita?
— Humm... Acho que de carona com sua irmã.
— Você não vai com ela.
— Por que não?
— Kate volta antes de você. Pegue a chave do meu carro.
— E para quê? Você ainda não pode dirigir moço bonito – ela o imitou.
— Eu não, mas você sim.
Rosalie olhou para ele com a expressão de total surpresa.
— Está dizendo que posso ir com seu carro?
— Por que o espanto?
— Eu... Ah, deixa pra lá. – Ela voltou correndo para junto da cama e, ao se abaixar, beijou nos lábios dele mais uma vez. – Obrigada, amor. Obrigada.
— Só me promete uma coisa.
— Não aranhar seu carro?
— Não. Eu não estou nem ai para o carro. Estou preocupado é com você. Quero que volte inteira para mim.
Rosalie quase gargalhou. E como uma menina que ganhara a liberdade, se debruçou sobre ele lhe dando um abraço agradecido. Emmett gemeu.
— Desculpe, eu preciso ser mais cuidadosa. Vou ver as crianças e depois volto para me arrumar. Os meninos não vão acreditar... Eu vou dirigir sua caminhonete.
— Isso até eu comprar a sua.
Rosalie arregalou os olhos, antes de sair saltitante do quarto. Emmett sorriu ao vê-la tão livre e feliz como nunca viu antes.
[...]
Uma semana se passou, e o dia da apresentação do show de talentos na escola primária chegou. A família inteira estava na plateia aguardando a apresentação de cada uma das crianças.
Isabella e Edward aguardavam a apresentação de Liam ao lado deles. Alice e Jasper estavam lá como convidados.
Logan fez o pequeno príncipe numa apresentação de teatro com outros colegas. Abby, uma apresentação de ballet. Liam mostrou seu talento para desenhar. Noah interpretou o Leão Covarde na peça de teatro O Mágico de OZ, junto com os colegas de classe, arrancando risos da plateia. Enrico fez uma belíssima apresentação num solo de violino.
Rosalie assistia a apresentação, emocionada, entregue a paz que a música de Enrico lhe trazia quando, de repente, Emmett se inclinou a ponto de quase encostar os lábios em seu ouvido, sussurrando.
— Casa comigo?
A princípio, foi tomada pelo susto. O coração reagiu com batimentos acelerados. Então, veio a surpresa. Ela olhou para o lado, no rosto dele, com ambas as mãos encobrindo a boca. A afirmação escancarada nos olhos dele. Finalmente a compreensão a atingiu. Ela olhou para o filho ainda no palco, no meio da apresentação, e novamente para Emmett ao seu lado.
— Sim – respondeu, emocionada. Era o momento perfeito, ao som do violino do primogênito, ela reconheceu. Passou os braços em volta do pescoço de Emmett, e ele envolveu sua cintura com os dele. Encostando os lábios ao pescoço dela, plantou um beijo. – É claro que eu quero me casar com você – Rosalie completou.
Algumas pessoas na fileira de trás olhavam para eles. Outros na fileira da frente voltaram-se para trás fazendo o mesmo. Todos querendo saber o que acontecia.
— Desculpe – Rosalie pediu, acreditando que estava incomodando. Afastou-se de Emmett, olhando no rosto do restante da família e dos amigos. Viu Amy no colo da irmã de Emmett, sequer tinha reparado no momento que ele entregou a menina a ela.
Emmett enfiou a mão no bolso do jeans retirando de lá uma caixinha preta.
— Vocês sabiam? Todos vocês sabiam – ela se referiu à família e amigos. E todos responderam que sim.
Emmett abriu a caixinha diante o olhar surpreso dela. A pedrinha de cristal brilhou, acomodada ao circulo prateado no veludo escuro, na pouca luz do salão de apresentações da escola primária.
— Senhora, McCarty? – arriscou. E Rosalie abriu um largo sorriso, deixando de olhar para Emmett para olhar o anel na caixinha.
— Sim, sim, sim – ela cantarolou com alegria. – Mil vezes sim.
Com cuidado, Emmett retirou o anel do veludo que o protegia e pôs no dedo dela. Beijou-lhe os dedos da mão, por fim, os lábios. O beijo foi lento e carregado de promessas.
Quando se voltaram novamente para o palco, Enrico estava no final de sua apresentação. O menino fez uma mesura tímida agradecendo as pessoas na plateia. Buscou o olhar da mãe entre todas aquelas pessoas. Rosalie acenou para ele, e ele sorriu. Ovacionado, seu sorriso tímido logo se tornou grandioso, revelando os dentinhos novos e o espaço vazio de outros. Então ele precisou deixar o palco para o próximo aluno se apresentar.
[...]
À noite, quando se preparava para dormir, Rosalie se sentou na cama e ficou pensando na conversa que teve com Esme mais cedo, logo após a apresentação das crianças, quando comemoravam o noivado num restaurante no centro da cidade.
Emmett notou o silêncio. Tinha terminado de sair do banho. Vestiu um samba-canção e foi até ela, segurou sua mão com sutileza, por fim, perguntou.
— O que há de errado, Raio de Sol? Não está feliz com nosso noivado?
Rosalie repousou a mão livre sobre suas mãos entrelaçadas. Ainda olhando em suas mãos unidas, começou a falar:
— Eu quero te pedir uma coisa, mas não sei como fazer isso.
— Peça o que quiser. Você sabe que não medirei esforços para conceder um pedido seu. – Ele ergueu a mão livre para afastar uma mecha dos cabelos dela que encobria uma parte do rosto.
— Preciso voltar a minha antiga casa – mesmo surpreso Emmett continuou ouvindo. – Acontece que não posso fazer isso sozinha. – Ele afagou o braço dela.
— Nem eu a deixaria voltar lá sozinha. Mas, eu gostaria de saber o que quer lá?
— Preciso recuperar as lembranças de minha família. As fotografias dos meus pais e avós que ficaram para trás. E também das crianças. Não são muitas, mas são muito importantes para mim. Sempre lamentei não ter conseguido pegá-las quando fugi.
— Está tudo bem. Nós vamos recuperá-las. Só tem uma coisa, será uma viagem cansativa, tanto emocional quanto fisicamente. Por isso prefiro que as crianças fiquem aqui.
— Sim, eu concordo com você. Não seria bom para eles voltarem lá, reacenderia muitas memórias ruins agora que estão se recuperando. Quero privá-los o máximo de tudo isso.
— E o seu trabalho na livraria?
— Não vai ser problema. Alice já vai estar de férias. Ela decidiu que esse ano não vai para o acampamento de verão. Jasper não vai poder ir então ela decidiu que também não irá. – Ela fez uma pausa. – Você sabe, eles estão namorando agora. Esme disse que ela vai trabalhar na livraria durante esse período. Disse que tudo bem eu fazer essa viagem para recuperar a parte boa do meu passado. Foi ideia dela que eu recuperasse as lembranças de minha família. Eu já perdi tanta coisa, gostaria de poder recuperar ao menos essa.
— Eu vou com você – Emmett afirmou. – As crianças vão ficar bem. Elas estarão cercadas de cuidados. Tenho certeza de que a vovó, Kate, Neva e Merci vão cuidar muito bem delas. Só não digo melhor que você, porque você é a mãe e ninguém fará isso melhor.
Rosalie ergueu uma das mãos, fazendo um carinho no rosto dele, sentindo a fina camada de barba pinicar seus dedos.
— Obrigada.
— Vem cá – ele pediu, abrindo os braços para acolhê-la. – Você terá de volta todas as lembranças de sua família, mas, enquanto isso não acontece... – Ele sorriu. Finalmente guiando ela para o centro da cama – A gente pode fazer outra coisa... Como me deixar cuidar de você. Te mimar. Te cobrir de beijos e carinhos – murmurou, curvando-se sobre ela, permitindo uma mão ampará-la pela nuca enquanto lhe beijava o pescoço.
— Me parece uma excelente ideia – Rosalie sussurrou, enlaçando os braços em volta do pescoço dele, seus lábios se tocando num beijo promissor.
[...]
Poucos dias depois...
Na primeira semana do verão, eles entram na caminhonete e partiram em busca das poucas lembranças da família Hale que ainda restava. Um dia antes de partirem, Rosalie recebeu a visita do xerife que lhe trouxe a chave de sua antiga casa, encontrada junto aos pertences de Royce no carro dele.
Foi uma viagem cansativa e cheia de lembranças. Tudo no trajeto lembrava os primeiros dias em que se conheceram. Cada parada para descansar ou se alimentar era uma viagem de volta ao passado. Mas também o início de uma história de amor.
Chegaram ao antigo bairro residencial onde Rosalie viveu os piores anos de sua vida, aprisionada a um amor cruel, numa tarde ensolarada.
Ela ensinou a Emmett como chegar lá. Recordava cada trajeto que havia feito quando deixou àquela maldita vida para trás.
Emmett ficou tenso quando se aproximaram do lugar onde ela e as crianças foram tão maltratadas.
Rosalie não conseguiu conter as lágrimas ao chegar à rua onde viveu como prisioneira por tantos anos. Recordações penosas. Não havia um só dia que saísse na rua sem receber uma ameaça do marido. Os avisos frequentes para ficar longe dos vizinhos. E o quanto desesperada dirigiu o carro dele, carregando três crianças assustadas no banco traseiro, para salvar suas vidas. Em busca da libertação.
Mostrou a Emmett a casa, e ele encostou a caminhonete ao meio-fio. Não precisaram sair do carro para perceber o abandono no jardim; a grama alta dividindo espaço com ervas daninha.
O motor do carro foi desligado. Emmett estendeu a mão para segurar na dela.
— Tem certeza de quer mesmo fazer isso? Mesmo que tenhamos chegado até aqui, você não precisa entrar lá se não quiser.
Ela olhou a casa, tomada por sentimentos dolorosos. Ficou em silêncio por muito tempo. Houve o tempo que acreditou nunca mais voltar a li. Secou então as lágrimas no rosto, falando, decidida.
— Ele não pode mais me fazer mal. Eu vou entrar lá. Farei isso pela minha família.
Emmett anuiu.
— Está bem.
Ambos puseram os pés fora do carro ao mesmo tempo. Rosalie olhou mais uma vez a casa enquanto ainda fechava a porta da caminhonete. Sobrepondo o barulho da porta se fechando, ouviu o som de uma voz que parecia tanto feliz quanto surpresa.
— Rosalie? Jesus seja louvado! Rosalie. É você mesmo?!
Surpresa demais para entender o que estava acontecendo, Rosalie virou o rosto na direção de onde vinha à voz. No jardim da casa ao lado, reconheceu a figura idosa com quem nunca pôde trocar mais que duas palavras. Realmente surpresa por ainda se lembrar de seu nome.
— Olá, senhora... – sentiu-se envergonhada por não ser capaz de lembrar o nome da vizinha de tantos anos.
Emmett prestava atenção em silêncio.
A senhora de cabelos brancos cruzou o jardim. Quando estava perto o bastante a abraçou. Tomada pela surpresa, Rosalie não conseguiu retribuir ao abraço. Sentia-se estranha. Confusa.
— Jesus seja louvado – continuou a senhora. Finalmente olhou Rosalie de corpo inteiro. – Está tão bonita. Olha só essa pele – Tocou no rosto de Rosalie com cuidado. – O brilho desses cabelos. Até ganhou mais um tiquinho de carne nos ossos.
Ambas se olharam e riram.
— Nunca conversamos muito, não é querida? Aquele cretino nunca permitiu. Você nem deve se lembrar do meu nome. Mas não tem problema. Eu me chamo Genevieve.
Rosalie e Emmett se olharam.
— Me diga, onde estão suas crianças? Por onde andou esse tempo todo? As professoras dos meninos estão se acabando de preocupação. A professora do seu garoto mais velho veio até aqui por mais de uma vez. Ela chegou até mesmo fazer uma denúncia.
— A professora de Enrico denunciou Royce? – Novamente ela olhou para Emmett, surpresa com as coisas que Genevieve dizia.
— Sim. Aquela moça foi muito persistente. E corajosa.
Assim, Genevieve fez um resumo de tudo o que aconteceu no período em que Rosalie e as crianças se ausentaram sem dar notícias. Rosalie contou que Royce havia morrido ao tentar pegá-la de volta. Contou também que as crianças estavam bem. Que estavam adorando o novo lar. Esclareceu que estava ali apenas para buscar alguns pertences de valor emocional.
Pediu que contasse as ex-professoras de seus filhos que eles estavam bem. Estavam frequentando uma escola nova. Enrico continuava tocando violino com a mesma paixão. E Noah inventado de querer ser ator desde a apresentação na escola. Falou também sobre Emmett e o quanto eram felizes juntos.
Finalmente Genevieve os deixou. Rosalie e Emmett se encaminharam então até a porta da frente da casa, pisando em folhas mortas e na grama alta no curto trajeto.
Emmett usou a cópia da chave que o xerife conseguiu. A porta foi aberta e Rosalie logo foi tomada pela angustia e pelo temor. O cheiro de comida estragada era pungente. Havia muita sujeira e objetos quebrados para qualquer lugar que olhasse. Estava muito diferente da casa bem cuidada que foi um dia.
Emmett olhou o cenário com inquietação.
Lágrimas molharam o rosto de Rosalie.
Ele a abraçou, apoiando o queixo ao alto da cabeça dela.
— Você não precisa fazer isso se achar que é demais – lembrou.
— Preciso pegar as fotografias... Preciso que meus filhos cresçam conhecendo meus pais e avós, ainda que por fotografias. Não tivemos o trabalho de vir aqui para desistir agora.
— Eu entendo o quanto é importante para você poder recuperá-las. Apenas lembre-se, você pode desistir a qualquer momento.
Rosalie anuiu, porém, sem afastar o rosto do peito dele. Emmett segurou firme sua mão. Finalmente, entraram na sala de estar. Sempre tomando cuidado com objetos quebrados e latas de cervejas vazias que encontravam pelo caminho.
— Você se lembra de onde deixou as fotografias?
— Estão no quarto...
Emmett a sentiu estremecer com a mão na sua.
— Eu vou com você até lá. Não se preocupe, não vou deixá-la sozinha, a menos que me peça para fazer isso. – Ele beijou na têmpora direita dela. – Tente não focar muito na destruição e nas memórias ruins. Pense em nós dois. Nas crianças. Pense na vida feliz longe daqui. Não permita o mal vencer.
Ela moveu a cabeça, concordando. Eles seguiram em frente. Rosalie lutando contra as memórias ruins, contra os fantasmas de seu passado ao lado de Royce.
Passaram pelo carrinho de Amy, abandonado no corredor que dava acesso aos quartos, com fraldas e cobertores dentro. Por um momento, Rosalie pensou em voltar.
Continuaram seguindo em frente, passando direto pela porta do quarto das crianças. Parou diante a porta da suíte, incapaz de abri-la. Era como se ao fazer isso fosse encontrar Royce esperando por ela lá dentro.
— É aqui? – Emmett se certificou.
— Uhum...
Ele beijou na testa dela.
— Sei como dói voltar ao passado que nos atormenta. Então, se preferir não seguir adiante, respeitarei sua decisão.
— Não. Eu preciso recuperar as fotografias.
— Se concentre apenas nas fotografias. Tente bloquear qualquer imagem de Royce de sua mente. Não permita ele vencer.
Assim, Emmett abriu a para ela.
Mesmo que não desejasse, a primeira imagem que se formou na mente dela foi de Royce sem roupas na cama, depois de violentá-la. Muito abalada, agarrou-se a Emmett. Levou um tempo até que tivesse coragem de olhar no quarto outra vez. Então, na segunda vez enxergou apenas Emmett e a desordem que estavam todas as coisas lá dentro.
Suas roupas e pertences pessoais estavam completamente destruídos. A sujeira ali não era muito diferente do restante da casa. O cheiro de mofo e fumaça de cigarro estava impregnado nos tecidos e cobertores. Suas fotografias recortadas e coladas no espelho. Assustada com o que viu, acabou tropeçando num emaranhado de roupas destruídas no chão. Enquanto tentava se livrar delas, descobriu as fotografias das crianças rasgadas embaixo da bagunça de tecidos.
— Oh, não... – lamentou atirando-se de joelhos no chão, recolhendo pedaço por pedaço. Um soluço lhe escapou na garganta. – Todas as fotografias dos meus bebês, destruídas. – Ela estava realmente chorando dessa vez.
Emmett se agachou ao lado dela, pondo as mãos em seus ombros.
— As fotografias dos seus pais e avós estão destruídas também?
Ela negou com a cabeça.
— Só a dos meus pequenos – ela fungou, arrasada.
— Certo – Emmett anunciou, recolhendo ele mesmo todos os pedaços das fotografias. – Vá pegar as de seus pais e avós. Eu cuido dessas aqui – como ela hesitou, ele reforçou. – Não deixarei um só pedaço delas para trás.
Rosalie balançou a cabeça. Ainda muito triste, se levantou e foi até o guarda-roupa pegando num fundo falso uma caixinha de madeira.
Emmett ficou de pé. As mãos cheias de pedaços de fotografias.
— Estão todas aí? – pediu.
— Sim – ela respondeu depois de olhar dentro da caixinha.
— Quer pegar mais alguma coisa?
Rosalie negou com um movimento de cabeça.
— Estão tudo aqui. As fotografias de minha família. Os desenhos dos meninos e as cartinhas que faziam na escola, em datas especiais. Resta somente uma coisa que quero fazer.
— É só dizer o que.
— Quero destruir esse álbum inteiro. – Ela mostrou um grosso álbum de fotografias ao lado da caixinha.
— É do...?
— Sim.
Eles voltaram à sala de estar onde Rosalie queimou na lareira todas as fotografias do álbum de seu casamento com Royce. Emmett aguardou em silêncio enquanto ela se desfazia de parte do passado ruim.
— Vou contratar uma equipe de limpeza para deixar tudo aqui em ordem. E uma imobiliária para se encarregar da venda – Emmett comentou quando já estavam deixando a casa. – O dinheiro da venda, você decide o que será feito.
Rosalie concordou, apertando junto ao peito a caixinha com as recordações de família que conseguiu resgatar. As fotografias rasgadas de seus filhos foram colocadas dentro de um saquinho plástico e guardadas junto às outras.
Ela olhou para trás apenas uma única vez antes de entrar na caminhonete.
Nunca mais, pensou. Nunca mais.
Eles saíram com o carro devagar, seguindo próximo ao meio-fio. Rosalie reparando em cada detalhe na rua sendo deixado para trás, mantendo a caixinha de recordações sobre o colo presa as mãos como um tesouro.
Fale com o autor