Um Lugar Para Ficar
43 Capítulo 43 – Resgate
Notas iniciais
Rosalie foi voltando a si aos poucos, a cabeça ainda latejava e uma leve tontura a incomodava. O cheiro de mofo estava em toda parte. Ela tentou se mover, mas não conseguiu. Abriu os olhos devagar, percebendo então que estava sentada numa das cadeiras velhas da cabana, presa a ela por cordas. A consciência disso lhe causou pânico. O coração tornando a bater forte dentro do peito. “Royce”, ela pensou. Estava com Royce. Não era mais um pesadelo, era real. E, pouco a pouco, foi recordando de tudo o que tinha acontecido desde o telefonema que recebera na livraria.
Seu pior pesadelo estava acontecendo.
Tinha certeza que se olhasse no espelho agora encontraria horror em seus olhos. Gritou por socorro, mas sua voz soou fraca, sem forças. Institivamente chamou por Emmett. Ele não respondeu. Claro, estava sozinha. Debateu-se tentando se soltar e o incomodo na cabeça a obrigou parar. Não fazia ideia há quanto tempo estava ali, atada aquela cadeira.
Royce entrou pela porta e com e ele veio à brisa de fim de tarde. Rosalie percebeu com tristeza que estava anoitecendo. Pensou na longa noite que teria de passar ao lado dele, e o nó lhe apertou o estômago.
“Meu Deus”, ela pensou. Quanto ainda teria de suportar. Sentiu os olhos arderem tendo a certeza de que lágrimas não demorariam a surgir.
Royce se aproximou, trazendo outra vez a arma na mão. Já não havia mais uma segunda arma presa à cintura, notou. Ele parecia ainda mais sujo e suado do que quando o viu na escola das crianças. Além de poeira e suor havia também sangue seco em suas roupas.
— Finalmente acordou – comentou, deslizando os dedos sobre a arma. – Já estava ficando chato isso aqui. – Andou em volta da cadeira onde ela se encontrava atada. Então, estalou a língua. – Você é muito fraca, Rosalie. Mal começamos a brincar e você, pah, apagou.
A dor de cabeça martelando dizendo a ela que estava ali. Quis levar a mão à cabeça, porém, presa como estava, não foi possível. Embora não tivesse tocado, tinha certeza de haver sangue seco no couro cabeludo. Sentia uma textura estranha na região da cabeça onde doía.
— Você é tão burra – Royce zombou. Foi aí que sentiu o cano da arma roçar seu pescoço, próximo a região da nuca. Ele iria matá-la, presumiu. Pensou nos filhos, não os veria crescer. Eles se tornariam adultos carregando uma dor infinita. Amy, a caçula, provavelmente não se lembraria dela. Um soluço lhe escapou da garganta, doía demais pensar que esse poderia ser o futuro deles.
Um futuro infeliz, marcado por uma grande tragédia.
— Você acreditou mesmo que pudesse viver longe de mim? – Como não respondeu Royce lhe deu um tapa no rosto. O impacto fez seu rosto virar para o lado oposto. O ouvido zuniu, e um filete de sangue escorreu no canto da boca quase que instantaneamente. – Quando eu fizer uma pergunta, você responde – grunhiu. – Vou repetir a pergunta – ele fez uma pausa, enrolando uma mecha do cabelo louro dela na mão. Aspirou ao aroma, chegando a fechar os olhos por um instante, aplacando a saudade do cheiro dela. Com um puxão concluiu: – Você acreditou mesmo que pudesse viver longe de mim?
Um gemido de dor deixou os lábios de Rosalie, enquanto se esforçava para não gritar. Recordava bem qual a punição para seus gritos.
— Não – ela finalmente respondeu. E sua voz soou débil. Estranha até mesmo aos seus ouvidos.
Royce forçou mais uma vez a mão que prendia a mecha de cabelo dela. Dessa vez, por pouco, ela não gritou.
— Não, eu não achei que poderia.
— E por que você achou que não poderia? Essa é fácil, vamos.
— Porque você é muito esperto.
— E? Continue... – Moveu a mão que segurava a arma, indicando que desse continuidade.
— E eu sou muito burra.
— Isso mesmo. Você é mesmo muito burra Rosalie. Você me faz querer estourar sua cabeça com essa arma. Tínhamos uma casa e três filhos. Por que me deixou? Por que fez isso, sua estupida?
— Você me obrigou a fazer isso.
— Como eu te obriguei? Explique-me isso.
— Você me machucava...
Ele parou diante dela, sacudindo a arma na mão. Devagar se abaixou.
— Como estou fazendo agora? – de repente a abraçou, forte o bastante para lhe doer os ossos. Medo, ela estava com muito medo. – Você me obriga a fazer isso. Você sabe que é verdade, não sabe? – por fim, afrouxou o aperto em volta dela e ficou olhando-a no rosto. – Diga que sabe.
Com um tremor, Rosalie moveu a cabeça, concordando.
— Eu quero ouvir você falando – ele ordenou. E o grito veio em seguida: – Quero ouvir a droga de sua voz.
“O que tenho de dizer, meu Deus?”, suplicou em pensamentos. A confusão demorou pouco, e finalmente ela conseguiu:
— E sei. Eu sei.
Royce sorriu. Em seguida, ergueu a mão, limpando o sangue no canto da boca dela. Rosalie não moveu um músculo enquanto ele fazia isso. Tinha medo até de respirar perto dele. Fechou os olhos com repulsa quando ele lambeu seu sangue no dedo.
— Você sabe que te amo, não sabe?
— Isso não é amor – sussurrou. Essa não era a resposta que ele queria ouvir e ela sabia bem disso, por esse motivo lhe disse em voz alta. – Sim.
— Você também me ama, não ama?
Ela olhou a arma, perigosamente perto.
— Sim, eu também te amo – e nunca lhe doeu tanto dizer essas palavras.
Royce se mostrou contente, abrindo o sorriso no qual ela detestava. Ela quis correr, mas, nas condições em que se encontrava, não passou apenas de um desejo.
— Eu sabia – ele deslizou a mão pela coxa dela. – Você é safada – cochichou. E Rosalie sentiu o corpo inteiro estremecer. – Nós vamos ficar juntos para sempre.
— R-Royce...
O sorriso cresceu no rosto quando a ouviu dizer seu nome.
—... Quanto tempo mais iremos ficar aqui? – “Não me sinto bem”, quis dizer. Mas quando foi a única vez que ele se importou com isso? Nunca.
— Sou eu quem faz as perguntas aqui. – Ele se levantou, deixando-a menos apavorada com o distanciamento, finalmente, tirando a mão de cima dela. Caminhou até a porta. Fez uma pausa para retirar um cigarro do bolso e o isqueiro. Pôs o cigarro na boca e em seguida aproximou o isqueiro, com uma forte tragada soltou a fumaça entre os lábios. – Precisamos dar um tempo, eu já lhe disse isso antes. A polícia está bloqueando a saída da cidade. Você é mesmo burra, hein?! – Deu alguns passos, parando na frente de Rosalie outra vez. Aproximou o cigarro da boca dela. Rosalie virou o rosto, se recusando aceitar. Ele insistiu.
— Eu não quero isso, Royce – murmurou.
Ele levantou a voz, mantendo o cigarro diante o rosto dela.
— Tire uma tragada dessa merda.
— Eu não quero.
Furioso por ter sido contrariado, apagou o cigarro no braço dela. Rosalie sentiu o ardor da pele derretendo, e o gemido escapou de seus lábios. Royce largou o resto do cigarro no chão e pisou em cima.
— Mas que droga – esbravejou. – Você precisa fazer o que eu mando, porque senão fizer sabe que terá um castigo.
— Não, Royce... – antes de terminar a frase, ele apertou sua garganta com a mão. Rosalie sentiu o ar lhe faltando. A lembrança a levou ao dia que ele a enforcou no chão da cozinha. Aquela tinha sido a última vez que fez isso. Enrico, seu garotinho, a tinha salvado. Voltou a pensar nos filhos; viu seus rostinhos sorridentes, uma imagem feliz do dia a dia na fazenda Recanto dos Ursos.
Quando Royce tirou a mão do pescoço dela, ela ficou tossindo. Sentindo os pulmões arderem enquanto recuperava o ar.
Ele se distanciou um pouco. Por um instante, teve esperança de que fosse deixá-la em paz. Mas, tudo caiu por terra quando o viu retirar a camisa e então o cinto. Ali, ela soube, outro tipo de terror estava para começar. Era um ritual sujo ao qual ele repetia sempre. Não quis pensar muito nisso. Não era justo. Não era possível que depois de ser amada, tocada por mãos gentis e carinhosas, fosse passar por todo aquele inferno outra vez. Seu corpo pertencia a um único homem, e ele não se chamava Royce King.
Quando se deu conta, estava suplicando.
— Não... Não... Por favor, não faça isso...
Royce tornou a se aproximar. E com um canivete cortou a corda que prendia os pés dela.
Rosalie continuou implorando que a deixasse em paz, e foi esbofeteada por isso. Seu rosto já estava tão marcado que mal sentiu a agressão.
Com o mesmo canivete, ele tentou rasgar as roupas dela. Mesmo fraca como estava, Rosalie o acertou no peito com o pé. Royce cambaleou para cair, os olhos cintilaram em fúria. E quando voltava para perto dela, percebeu, pelas brechas nas paredes da cabana, faróis de carro brilhando na escuridão da mata. O barulho de rodas no cascalho.
Agitado, correu até a janela. Mesmo na pouca luz reconheceu a viatura do xerife se aproximado pela trilha. Viu Emmett ao volante, a feição dura. Implacável. Afastou-se então da janela.
— Você transou com ele – atacou. – Você transou com ele, me responda? – Segurou o rosto dela na mão, apertando-o. Rosalie se viu incapaz de falar. – Quer ter um filho com ele? – Royce balançou a cabeça revelando descontrole. – Não vou permitir. Você é minha mulher. Se não for para ficar comigo, não ficará com mais ninguém.
[...]
Após um longo tempo dirigindo por estradas irregulares, com o cunhado no banco do carona, em busca de algum sinal que os levassem até Royce e Rosalie, Emmett entrou com o carro numa região arborizada. As rodas do carro fazendo barulho, esmagando folhas secas, prensando o cascalho a todo instante.
Finalmente avistou as cabanas protegidas por árvores altas. Viu um pedaço da lataria azul do carro de Royce brilhar atrás de uma das cabanas sob o farol da viatura. Eles tinham de estar em algum lugar por ali, pensou.
Alcançou a lanterna no porta-luvas, e saltou com o carro ainda em movimento. Garrett soltou um palavrão e rapidamente se lançou ao volante da viatura, tentando controlar o veículo.
Emmett disparou a pé pelo declive de terra, se aproximando da cabana próximo onde estava estacionado o carro de Royce. As janelas estavam quebradas, facilmente percebeu que não havia ninguém. Olhou no carro, no porta-malas aberto, e encontrou cordas, sacos de lixo preto e rolos de fitas adesivas do tipo silver tape o mesmo modelo encontrado encobrindo a boca de Noah. A consciência do que poderia acontecer se transformou em adrenalina em seu corpo.
A agonia o fez tropeçar no caminho até a segunda cabana. A respiração ruidosa. Ao aproximar, ouviu vozes. Era Rosalie, ele reconheceu. Ela falou algo no qual não conseguiu compreender. Estava chorando. Amedrontada. Talvez até mesmo ferida.
O instinto o guiou até a porta. E ele a derrubou com um pontapé. A madeira velha papocou no chão e a poeira subiu no ar.
O grito de Rosalie, alto demais, entregou o quanto estava assustada. Royce se virou num pulo, na direção da porta tombada. Um candeeiro enferrujado iluminava parcialmente o interior da cabana.
— Emmett – Rosalie soltou, desacreditada. – Meu Deus, é você mesmo. – Sentiu uma grande onda de alívio, mas também sentiu medo. Ele tanto poderia lhe salvar como poderia acabar mal. Royce tinha uma arma e estava cheio de ódio.
Emmett passou para o lado de dentro da velha cabana. A madeira destruída estalando embaixo de seus pés.
— Rose? – ele chamou. – Raio de Sol – apressou-se em ir até ela. E foi atingido fortemente no abdômen por uma pá. Ele se curvou, sentindo a dor atravessá-lo. Outra forte pancada o atingiu nas costas, e dessa vez ele tombou pra frente.
Rosalie ficou em choque.
Royce estava com a pá nas mãos, erguendo ameaçadoramente, pronto para acertar a cabeça de Emmett.
— Não faz isso – ela disparou, em meio à agonia e o medo. – Não faz isso, por favor, não faz isso.
Royce se limitou a olhar no rosto dela.
— Você está protegendo ele?
— Não – ela mentiu, consciente do que precisava fazer para manter Emmett a salvo. – Eu quero que você se acalme. Eu te amo – dizer essas palavras era como mutilar-se. Royce sorriu de maneira débil, sentindo-se vitorioso. – Eu sempre te amei – ela continuou mentindo. – Eu fugi porque queria que sentisse minha falta.
Pouco a pouco, Royce foi abaixando a pá. E Rosalie ganhado confiança.
— Eu nunca quis ficar longe de você.
— Você me ama? – ele pediu, e parecia tão desesperado.
— Sim, querido. Eu te amo. Agora me tire daqui. Vamos fugir juntos. Só nós dois.
Royce parecia convencido de suas palavras. E, acreditando nelas, deixou a par cair no chão.
— Sim – disse para ela. – Vamos embora. Vamos para longe daqui. Apenas você e eu.
Largado no chão empoeirado, Emmett gemeu de dor. Com muito esforço, apoiou os cotovelos no chão de madeira forçando o corpo a levantar.
Royce caminhou até Rosalie, sorrindo e cambaleante. Acreditando que havia vencido. Ela viu Emmett se levantar, logo atrás das costas de Royce, e presumiu uma chance.
— Só nós dois – Royce estava dizendo.
— Só nós dois – ela repetiu. Os olhos nos movimentos de Emmett atrás de Royce. Ele se lançou para frente, a feição contorcida em dor, agarrando Royce numa chave de pescoço, dando início a uma luta corporal.
Não levou muito tempo para que Royce estivesse com o nariz sangrando, destruído, e uma das mãos quebrada. Os dois esbarraram na mobília velha e nas paredes da cabana diversas vezes. Coisas caiam o tempo todo. O som do desespero de Rosalie ecoando entre as paredes de madeira podre.
A viatura do xerife colidiu com a primeira cabana, com Garrett ao volante, enquanto Emmett corria para a segunda. O carro ficou entalado embaixo de toda a madeira que despencou.
Emmett deixou Royce no chão após mais um golpe no rosto. E apressou-se em libertar Rosalie das cordas que mantinham presa a cadeira.
— Emmett, Emmett, Emmett – ela repetiu o tempo todo enquanto ele desfazia os nós. Ele tinha sangue no rosto, a aparência não era nada boa.
— Eu vou tirá-la daqui – prometeu. E mais de uma vez apertou os olhos por conta da dor.
— Emmett... – Rosalie avisou. Então ele se virou.
Royce acertou os ombros dele com um pedaço de madeira, embora o objetivo fosse sua cabeça.
— O único lugar para onde você vai é para o inferno – sentenciou cambaleante.
O grito desesperado de Rosalie ecoou. Emmett ficou caído aos pés dela.
Royce andou de um lado a outro, procurando algo no qual Rosalie não fazia ideia, até vê-lo pegar, num canto escuro, um galão com gasolina.
— Exatamente onde deixei depois que você apagou. – Ele arrancou a tampa. O sorriso no rosto ensanguentado, a pouca luz do candeeiro, tornava-o terrivelmente assustador. Ele respingou gasolina em toda a madeira ao redor e no chão.
— Vamos ficar juntos para sempre – continuou falando.
— Não, Royce, não faça isso. Não, Royce, não... – ela implorou, chorando. Se culpando por todos os problemas que trouxe a vida da família de Emmett. Pensando nas crianças. No próprio Emmett. – Não...
— No fundo você sempre soube que seria assim – Royce insistiu. E acendeu o isqueiro. As labaredas surgiram rapidamente, estalando na madeira velha. Tornando-se forte. Lambendo tudo o que estava ao alcance, com um zumbido, se erguendo no teto.
— Emmett – ela se esforçou para que ele a escutasse. – Emmett, acorda – chorando, implorou: – Você tem de levantar. Não pode morrer aqui por minha causa. Levanta. Levanta.
Royce ergueu os braços, rindo, olhando em volta, vendo o fogo crescer destruindo tudo ao redor. A fumaça se espalhando. Um pedaço do teto despencou soltando fagulhas. Rosalie gritou, e tossiu.
Emmett ouvia a voz dela como estivesse distante.
O passado e o presente se misturaram. Ele ouviu os gritos da mãe, na noite em que foi assassinada. Os gritos de Aimee tornaram-se os de gritos Rosalie. Não iria deixar acontecer outra vez. Rosalie não teria o mesmo fim que sua mãe.
Ele a ouviu. Ouviu Aimee tentando ajudá-lo.
– Leve-a para casa, Emmett.
— Mamãe... – ele murmurou, tossindo um pouco.
Ouviu Rosalie tossindo em algum lugar, em meio a fumaça.
— Você precisa levantar daí filho – a voz continuava incentivando. – Essa é sua única chance Emmett.
— Mamãe...
— Eu sei que consegue meu amor. Levanta. Vamos, levanta daí.
Emmett apertou os olhos com força. Com um esforço sobre-humano se pôs de pé. Sentia-se fraco. O calor insuportável em torno dele. As labaredas sibilando feito demônios acorrentados.
Olhou em volta, desesperado, em busca de Rosalie. A encontrou, tossindo, ainda presa a cadeira. A visibilidade no local estava comprometida pela fumaça. O suor lhe escorria no rosto se misturando ao sangue. Passou a mão na testa afastando a sujeira dos olhos.
— Rose? Amor? Aguenta firme. Eu vou levá-la daqui.
Rosalie olhou na direção do som de sua voz, enxergando-o com dificuldade por conta da fumaça. Ele tinha dificuldades para andar. Os olhos de ambos ardiam. Ouviu-o tossir, também.
Emmett quase caiu ao alcançar a cadeira onde ela era mantida atada.
— Afaste-se dela – ouviu Royce ordenando. Ele estava encurralado, no lado oposto da cabana, pelas labaredas. A arma apontada na direção de Emmett.
Sua ordem não teve efeito algum. Emmett continuou lutando para soltá-la.
— Eu vou desfazer os nós – avisou –, e você vai sair correndo daqui. Não importa o que aconteça, corra para longe. E não olhe para trás.
— Eu não consigo... – Rosalie lamentou.
— Você consegue. – Tentou fazê-la ficar de pé, mas, ela já não aguantava mais e acabou desmoronando em seus braços. Com todas as dores que sentia pelo corpo, segurá-la foi uma das coisas mais difíceis daquele dia. Desejou ter tempo para pensar numa saída.
No momento em que Royce efetuou o disparo, uma tora de madeira em chamas despencou do teto atingindo seu braço, a arma caiu obrigando o disparo mudar de direção. A bala atingiu a perna de Emmett de raspão. Ele sentiu a perna queimar no local atingido e o sangue molhar o jeans já sujo.
Pedaços de madeira começaram a cair do teto sucessivamente. Um deles atingiu as costas de Royce fazendo com que caísse de bruços no chão. Um nanosegundo foi o tempo que Emmett levou para pôr Rosalie nos ombros. Desviando das chamas, procurou por uma saída. Sentiu labaredas lamberem seu braço esquerdo. Não parou para olhar nem mesmo se deixou vencer pela dor. Tinha de salvá-la. Tinha de devolvê-la com vida aos filhos como prometeu.
“Essa é sua única chance”, ouviu a voz da mãe lhe sussurrando. Tomado por uma fúria impressionante, chutou um pedaço da parede de madeira podre abrindo espaço para passar por ela.
Quando chegou do outro lado, percebeu Garrett correndo em sua direção, chamando pelos dois com nítida preocupação. Emmett não se deu conta naquele momento, mas o cunhado tinha um pequeno corte na testa causado pela colisão do carro na cabana.
Emmett deu mais alguns passos ao encontro dele, quase se arrastando, levando Rosalie desacordada nos ombros. Garrett o alcançou e imediatamente retirou Rosalie dos ombros dele.
— Meu Deus, Emmett – se desesperou. – Ela...?
— Ela está viva – conseguiu dizer. Em seguida, caiu de joelhos no chão.
— Leve ela daqui – pediu. – Ela precisa de um médico.
Garrett olhou a cabana, nas chamas que se erguiam em direção ao céu, iluminando a noite.
— Minha nossa – deixou escapar. – Ele ficou lá dentro? – concluiu chocado.
Emmett virou o rosto em direção as chamas.
— Ficou – admitiu, pouco antes de cair de corpo inteiro no chão.
— Aguente firme, irmão – Garrett o encorajou. – A ambulância e os bombeiros já estão a caminho.
Não levou muito tempo, faróis iluminaram a área. Viaturas da polícia chegaram uma atrás da outra. A ambulância e o caminhão de bombeiros logo atrás.
Houve uma movimentação muito grande em torno da cabana em chamas.
Emmett e Rosalie finalmente estavam sendo levados ao hospital.
Rosalie acordou ainda na ambulância, quando recebia os primeiros socorros. Ainda assim, parecia fraca e confusa. Ambos recebiam oxigênio. Ela acabou fechando os olhos outra vez logo após perguntar por Emmett.
Era tarde da noite quando deram entrada no hospital da cidade. Depois de ser atendido, Garrett correu para telefonar para o resto da família.
Kate fez milhares de perguntas enquanto chorava. Garrett teve de pedir mais de uma vez que mante-se a calma. Ela só desligou depois de o marido garantir que o irmão e a cunhada não corriam risco de morte.
[...]
Rosalie teve traumatismo craniano com danos leves, recebeu tratamento adequado, incluindo injeções para evitar a formação de coágulos no cérebro. Permanecendo quarenta e oito horas em observação. A medicação por via oral seria mantida sob orientação do médico.
Agora que tinha recebido alta, a família estava indo a cidade para buscá-la. Emmett ainda permaneceria mais uns dois dias internado. Além do ferimento na perna, ele teve também três costelas quebradas e o antebraço esquerdo com queimaduras de segundo grau. E ambos receberam tratamento para a fumaça inalada.
Durante esse período de quarenta e oito horas, as crianças ficaram na fazenda aos cuidados da família de Emmett. A pedido da própria Rosalie, nenhum deles foi ao hospital visitá-los. Mas ela falou com eles por telefone uma vez.
Noah chorou antes de dormir. Durante a madrugada acordou gritando que estavam dando tiros nele, e correu para se esconder debaixo da cama, com o pijama molhado de xixi. Enrico teve pesadelos e acordou aos prantos perguntando pela mãe. Amy não fazia ideia do que tinha acontecido, mesmo assim, chorava a ausência da mãe.
Merci acabou ficando mais tempo na fazenda para ajudar com as crianças, que faltaram na escola.
Os pequenos tinham passado horas fazendo cartões coloridos para entregar aos dois no hospital. O quarto de Emmett, assim como o de Rosalie, estava decorado com cartões coloridos e flores.
Somente no dia seguinte ao incêndio, Rosalie ficou sabendo que Royce tinha falecido. O corpo foi encontrado carbonizado em meio aos destroços da cabana. Apesar de tudo o que lhe fizera, ficou chocada. Mesmo que Royce e as crianças nunca tenham criado um vínculo de amor e afeto, se preocupou em como veriam toda essa história.
Durante suas visitas aos dois no hospital, Alice sempre fez questão de dizer que Royce teve o fim que merecia.
O xerife a procurou, e Rosalie deixou claro que não queria saber sobre o destino final do ex-marido. Tampouco sabia qualquer coisa sobre parentes vivos dele. Ao final fez apenas um pedido; os restos mortais de Royce não deveriam ser enterrados no mesmo cemitério da cidade onde estavam a mãe e o avô de Emmett.
Como Emmett não podia estar andando pelo hospital, por conta das dores nas costelas quebradas, Rosalie pediu que a levassem até ele. Isso aconteceu duas vezes, apenas. Na primeira ambos choraram muito. Ela agradeceu por ter salvado sua vida e deixou claro o quanto o amava. Emmett disse que, na verdade, foi ela quem o salvou, quando entrou em sua vida.
Agora, estava guardando os presentes que enfeitavam o quarto, para voltar à fazenda. No fundo, não queria ter fazer isso, porque Emmett ainda não podia ir com ela.
Ainda carregava marcas escuras nos ombros, rosto e braços. E um pequeno curativo na parte de trás da cabeça. Esme e Alice estavam com ela, ajudando-a.
— Agora, sim, o pesadelo acabou – disse Alice. – Você nunca mais vai precisar sentir medo. Nem pensar em fugir. Acabou.
Rosalie meneou a cabeça, pondo o último cartão dentro na mala pequena.
— Eles já devem estar chegando – Esme mencionou as crianças. Rosalie sorriu pela primeira vez desde últimos acontecimentos.
— Estou morrendo de saudades. Nunca fiquei tanto tempo assim longe deles.
Uma batidinha na porta chamou atenção. As três olharam de uma para outra e então para a porta.
— Eles chegaram! – Alice mencionou com alegria.
A porta abriu devagar, e a cabeça loura de Kate surgiu no vão. Ela sorriu com vivacidade, assim como nas visitas anteriores.
— Você tem visitas – brincou. E Rosalie sorriu de volta. O coração se enchendo de amor, antevendo a presença dos filhos no quarto. E como era grande a vontade que tinha de abraçá-los. Aquele tinha sido o maior tempo longe deles. E cada minuto foi sofrido e arrastado.
Kate abriu um pouco mais a porta. O primeiro a aparecer foi Noah. Ele tinha uma pequena cicatriz recente na testa, mas seu cabelo a encobria. E ele usava a fantasia do Super-Homem.
— Mãezinha? – o pequeno chamou por ela, desconfiado.
Enrico apareceu logo atrás dele. Os olhinhos ansiosos.
— Mamãe? – chamou.
E quando a porta foi aberta por completo, avistou Amy no colo da irmã de Emmett. Sua bebê estava com a chupeta na boca, nos braços, a bonequinha de pano que um dia comprou de presente para ela sem que Royce soubesse.
Vê-los ali lhe encheu os olhos de lágrimas, mas eram lágrimas de felicidade. De saudade e alívio. O coração transbordando de amor. Ela abriu os braços, se abaixando para ficar na altura deles. Os meninos apressaram-se até ela. Enrico chorando.
— Eu estou aqui – garantiu, emocionada. – A mamãe está bem aqui.
Noah e Enrico agarram-se a ela com força. Ambos com lágrimas nos olhos. A mãe os apertou no calor de seus braços, aspirando ao cheirinho que sempre lhe acalmou, pensando o quanto era revigorante estar novamente ao lado deles.
— Não chore – ela pediu, limpando as lágrimas de Enrico. Beijou o rosto dos dois mais de uma vez.
— Você já está boa? – Noah quis ter certeza.
Rosalie moveu a cabeça, afirmando.
— Você não levou um tiro, né mãezinha?
— Não.
Kate entrou no quarto. E bem atrás dela estavam Abby, Logan, Garrett e Lena.
— Ele achou que você fosse gostar de ele estar vestindo a fantasia do Super-Homem – Kate esclareceu. – Não tive como negar isso.
Rosalie finalmente ficou de pé.
— Obrigada por cuidar tão bem deles – agradeceu, se aproximando para acarinhar a filha caçula nos braços da irmã de Emmett. Beijou todo o rostinho da menina, braços e mãozinhas. Amy sorriu para ela, antes de agarrar seu nariz com um beijo babado. Os dois meninos agarrado as pernas dela, com medo de se separarem outra vez.
— Tia – disseram Abby e Logan. – Tia Rose, você está bem?
A tia sorriu para eles, e foi abraçá-los.
— A tia está bem, sim, meus amores. E eu quero agradecer por serem primos tão legais. Sempre unidos.
As duas crianças sorriram em resposta.
Antes de deixar o hospital, Rosalie quis se despedir de Emmett. Deixando que entrassem primeiro no quarto a avó, a irmã, o cunhado e os sobrinhos. Por último, ela e as crianças. Esme e Alice já tinham visitado ele minutos atrás.
Kate empurrou a cadeira de rodas cedida pelo hospital, com Rosalie levando Amy no colo o tempo todo. Os meninos foram os primeiros a entrar, Noah na frente, depois Enrico, então ela com Amy.
Encontraram Emmett recostados aos travesseiros aguardando por eles. As costelas estavam encobertas pela roupa do hospital. O braço com a queimadura, enfaixado. O rosto ainda com um ou outro hematoma. A perna ferida escondida sob os lençóis.
— Papai? – disseram os dois meninos, receosos. Reparando em tudo em volta.
— Aproximem-se – Emmett pediu. E os meninos olharam para a mãe. Rosalie moveu a cabeça, incentivando-os.
Os dois se aproximaram e, juntos, dividiram a escadinha de três degraus ao lado da cama. As mãozinhas descansando no colchão ao lado dele.
— Papai sentiu saudades – Emmett contou aos dois. – Deem um abraço aqui – ele moveu o braço bom para recebê-los. Noah e Enrico se debruçaram sobre o corpo largo dele, com muito cuidado evitando causar danos.
Emmett acariciou as costas de ambos. E ao olhar para Rosalie, sentada na cadeira de rodas com a caçula no colo, percebeu que chorava.
— Vem cá amor – chamou.
Rosalie levantou da cadeira. Andando devagar, se aproximou da cama com Amy no colo, em seguida, se curvou para beijar nos lábios dele. Emmett acariciou a bochecha dela com a mão do braço bom.
— Pare de chorar – pediu.
— Está bem. Eu vou tentar.
— Me dá mais um beijo – ele pediu, e abriu um sorriso largo para ela, porque apesar de tudo estavam vivos.
Quando Rosalie se curvou para beijá-lo de novo, Amy pôs a mão gordinha na boca dele, e Emmett acabou beijando seus dedinhos.
— Sentiu saudades do papai, gatinha? – pediu risonho.
A menina concordou fazendo um gesto com a cabeça. Emmett acariciou o bracinho dela, e ela se esticou pedindo seu colo. Rosalie não deixou que fosse com ele por conta das costelas quebradas e do braço queimado, mas deixou sentadinha na cama enquanto mantinha as mãos nela.
— Papa – Amy choramingou, cheia de saudades do colo dele.
— Outro dia o papai segura você, gatinha.
— Você tomou injeção, papai? – Noah quis saber.
— Sim, eu tomei.
O rostinho de Noah se contorceu numa careta.
— A mãezinha também tomou, coitadinha dela. Eu não gosto de injeção, nem um pouquinho.
— Ah, eu sei disso – Emmett respondeu, recordando o dia que teve de segurá-lo para tomar injeção, e ele causou todo um dramalhão fazendo a mãe se sentir culpada. – Injeção é para você uma kriptonita.
Noah estufou o peito mostrando a ele o emblema em sua fantasia.
— Porque eu sou o Super-Homem. Só que eu não vi numa nave voando pelo espaço, eu vim mesmo foi da barriga da mãezinha, porque ela comeu a sementinha dos bebês.
— Obrigado, papai – Enrico falou, de repente.
— Pelo que está me agradecendo filho?
— Por trazer a mamãe de volta.
Emmett ergueu a mão acariciando o rosto dele.
— Uma promessa não deve jamais ser quebrada – contou-lhe. Enrico balançou a cabeça, compreendendo. – Agora vem cá, dá mais um abraço no papai. Eu preciso do carinho de vocês para me recuperar mais rápido. – Enrico se dobrou sobre ele, se deixando abraçar, porém, sem apertá-lo demais.
— Eu amo você, filho, com todo o meu coração. E amo que seja um violinista tão bom e dedicado. Mal posso esperar para ouvi-lo tocar de novo.
— Eu também amo você, papai Emmett. E vou tocar para você, assim que voltar para casa.
Noah abraçou as costas do irmão. E Emmett alcançou os cabelos louros dele com a mão.
— Papai ama você também – disse a Noah. – E a Amy.
— E a mãezinha?
— Com toda certeza do mundo, a mãezinha também.
Novamente, Rosalie estava chorando.
— Prometem que vão cuidar da mamãe e da irmãzinha de vocês até eu voltar?
— Ahã – ambos concordaram, olhando no rosto machucado dele.
— Vocês dois, junto com o Logan e o tio Garrett, são os homens da casa.
— Homens do bem – lembrou Noah. – Que não bate em meninas, nem na mãezinha. E nem fica dando tiro nas pessoas, porque pode matar. E dá muito medo.
— Isso mesmo campeão. Isso mesmo.
Rosalie passou a mão no rosto, sem deixar de olhar para eles um só instante.
— Lembrem-se, vocês devem sempre tratar aos outros da mesma forma como querem ser tratados. Gentileza atrai gentileza. Quem planta o bem jamais poderá colher o mal.
Os meninos tornaram a abraçá-lo dobrando-se sobre ele de maneira gentil. Emmett soube naquele momento que eles haviam compreendido.
Rosalie voltou a sentar na cadeira de rodas. A porta do quarto foi aberta e por ela entrou o médico, seguido por Kate. Era hora de ir.
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