Um Lugar Para Ficar

38 Capítulo 38 – Buscas e Aflição


Notas iniciais
Oi, pessoal! Eu sinto muito pela demora, queria ter postado bem antes, mas aconteceu do abençoado – pra não dizer outro nome – do meu notebook resolver que era hora de dar chilique. Acabou indo pra assistência técnica, aí já viu... E eu também peguei uma gripe danada que me derrubou. Espero que compreendam. E vamos à leitura do capítulo o/

Enrico havia paralisado, no umbral da porta, ao ouvir Rosalie dizer que teria de ir embora da fazenda com eles, seus três filhos. Seu maior medo foi que voltassem para Royce. A tristeza por ter de deixar Emmett para trás e toda sua família, fez doer seu coração. Somando isso a magoa de ter de ouvir da mãe que iriam embora do único lugar no mundo onde foram finalmente felizes, onde não sofriam violência alguma, fizeram seus pensamentos confusos.

Quis chorar, porém, o choro ficou retido em algum lugar de sua garganta. Então pensou que se não estivesse em casa a mamãe não iria a lugar algum. Ela sempre disse que nunca deixaria nenhum deles para trás. Assim, seus irmãos, Noah e Amy, deixariam de chorar e todos eles permaneceriam na fazenda do papai Emmett. Porque ele, sim, sabia como amar de verdade. Tinha dito isso à mãe certa vez durante uma conversa e continuava pensando da mesma maneira.

Acreditou que sua decisão manteria a mamãe em segurança. E ele nunca mais teria de vê-la machucada, sangrando em algum canto da casa, abandonada como não tivesse valor algum. O que não era verdade, porque, para ele, a mamãe era o que tinha de mais valioso no mundo todo.

Iria se abrigar na casinha da árvore e depois encontraria um lugar para se esconder, quando não estivesse tão escuro como agora.

Tomado por esses pensamentos, Enrico correu, correu como nunca. Quando alcançou a porta que dava pra lateral da varanda, encontrou Garrett, que tentou detê-lo. Desvencilhando-se das mãos dele, correu em direção à porta na da frente.

Caiu de joelhos no chão antes de alcançar os degraus, sentindo uma dor que quase o fez gritar. Só não chorou porque o choro continuava retido em algum lugar de sua garganta. Ainda pensando que sem ele na casa grande, a mamãe não iria embora. Noah e Amy ficariam felizes. Por isso, ignorou a dor e se pôs de pé outra vez.

A escuridão lá fora o assustava. Mas nada no mundo o assustava mais do que ter de voltar morar na mesma casa que Royce King. O coração batia muito rápido no peito, a respiração acelerada, quase sufocante. Estava com muito medo. Mas, se era para manter a mamãe longe de Royce, então, não desistiria.

Terminou de descer os degraus da varanda na agonia da correria, se embrenhando na noite escura. Ouviu o chirriar de uma coruja não muito distante dali e seu corpo inteiro estremeceu com pavor. Logo depois um latido. Percebeu que algo se movimentava atrás de suas costas, muito rápido, assim como ele, na escuridão. E então essa coisa que o perseguia bateu em suas pernas, e os dois caíram no chão de terra com folhas e galhos estalando abaixo de ambos.

Enrico sentiu algo grande e peludo embaixo de seu corpo trêmulo. Outro latido, e ele soube que era um dos cachorros da fazenda. Com a pouca luz e o fato de os dois cachorros terem a mesma tonalidade de amarelo no pelo, não soube dizer se era Jujuba ou Caramelo. Não importava. Ele levantou e continuou a correr. Na queda, acabou perdendo a direção da trilha que terminava na casinha da árvore. Acabou indo para o lado errado. O lado do rio.

Agora, ele caminhava, e, mesmo assim ainda caía, de tempos em tempos ao tropeçar em galos secos e raízes expostas. O cachorro caminhava paralelamente a ele o tempo todo.

— Volte para casa – Enrico pediu ao cachorro, que ficou olhando para ele como não estivesse nem aí. – Para casa – repetiu o menino. – Você tem de voltar para sua casa. Eu quero ficar sozinho. – Mas o cachorro não obedeceu ao seu comando, em vez disso, lhe cutucou a mão com o focinho.

E, pela mata, sob um céu estrelado e copas de árvores que farfalhavam com a brisa, os dois foram se distanciando cada vez mais da sede. O cachorro ficou agitado ao perceber que o menino seguia na direção das margens do rio. Mordeu na perna da calça dele, puxando pelos dentes, fazendo-o recuar. Enrico se desesperou imaginando que o cachorro o estivesse atacando, mas, algo, um som, o fez parar e recuar. Percebendo que tinha sido o barulho das águas do rio, seguindo seu curso até o lago.

Depois do susto, Enrico e o companheiro de quatro patas acabaram seguindo na direção contraria ao barulho das águas. Não muito certo de onde aquela escolha os levaria.

[...]

A porta de tela bateu com força quando Emmett passou por ela, na correria que vinha do quarto. Tornando a bater segundos depois com a saída abrupta de Rosalie.

Dentro de casa, Abby tinha começado a chorar. Assustada, com tudo o que estava acontecendo envolvendo seu tio Emmett, Rosalie e as crianças deles. Seu irmão, Logan, olhava de um lado para o outro, assustado e confuso. E ele segurou na mão de Abby, tentando acalmá-la.

Lá fora, sem deixar de correr, Rosalie gritou:

— Emmett, eu vou com você – Mais adiante, tropeçou numa raiz exposta e acabou tombando pra frente. No reflexo, apoiou-se com as palmas das mãos abertas evitando dar de cara no chão. Ofegante e despenteada, aprumou-se e continuou a correr.

Ouviu Emmett falar com alguém, num tom de voz acelerado, deixando evidente toda sua preocupação. Uma luz branca brilhou diante de seus olhos. Reconheceu a voz de Garrett, e, então, soube que era ele quem falava com Emmett. E trazia uma lanterna com ele. Ele também procurava por Enrico.

— Viu para que lado ele foi? – Emmett pediu ofegante.

— Achei que estivesse indo para casa da árvore. Infelizmente, acabei perdendo-o de vista.

— Ele não está na casa da árvore? – outra vez Emmett pediu em aflição. Rosalie estava bem mais perto deles agora. E sua respiração doía no peito.

— Acredito que essa era a intenção dele. Mas, por alguma razão, acabou saindo da trilha. Creio que tenha se perdido.

— Droga! – Emmett esbravejou sem pensar. – Se ele seguia a trilha para casinha na árvore e se perdeu isso elimina as chances de ele estar nos estábulos, celeiro, galpão ou qualquer outra construção que lhe possa servir de abrigo. – Nesse momento, Rosalie parou ao lado dele; os olhos angustiados, o medo consumindo-a por dentro.

— Volte para sede – ele pediu a Garrett. – Chame Scott e Jeremiah, peça que montem uma equipe de buscas com o pessoal que estiver disponível. Precisamos encontrá-lo. Meu filho não pode passar a noite aqui fora, e sozinho. Ele não sabe para onde está indo, pode estar se afastando demais. Precisamos ser rápidos.

— As montanhas... Ursos – Garrett deixou escapar. E Rosalie soluçou, sentindo medo e o peso da culpa. Seu garotinho estava no meio da escuridão, sozinho, com medo e angustiado. Correndo perigo.

— Pegue! – bradou Garrett. – Fique com isso. – Ele entregou a lanterna que carregava na mão de Emmett. – Pegarei outra na sede, antes de me reunir com o pessoal nas buscas.

Emmett se voltou para Rosalie.

— Vá com Garrett...

— Não – ela negou, movendo a cabeça.

— Espere por notícias em casa com os outros.

— Não – voltou a dizer. – Eu vou com você.

— Vou ficar mais tranquilo se estiver em casa.

— É meu filho quem está perdido por aí. É minha culpa que isso tenha acontecido. Não vou voltar sem ele. Ainda que para isso eu tenha de ir procurar por ele sozinha. Lutei para protegê-lo a vida inteira, não vou parar agora. Não importa o que diga.

— Tudo bem – Emmett cedeu. – Mas fique perto de mim. E, por favor, não quero ser autoritário, nem nada parecido, mas, preciso que faça o que eu disser. Não quero que se perca ou se machuque. Você precisa acreditar que irei encontrar nosso filho.

— Ok – ela afirmou, balançando a cabeça, decidida, embora com os olhos banhados em lágrimas. – O que você disser desde que não seja para eu voltar.

Garrett voltou correndo para sede.

Emmett segurou firme na mão de Rosalie, erguendo a outra com a lanterna para iluminar a trilha. Folhas secas estalavam sob seus pés a cada passo adiante. Ouvindo também o som de grilos, sapos e corujas. O vento que balançava a copa das árvores. Suas respirações pesadas. E o palpitar forte do coração.

À medida que avançavam nas buscas, chamavam pelo nome do menino. Algumas vezes pedindo, silenciosamente, que ficasse bem, onde quer que estivesse.

— Enrico? Enrico? É o papai e a mamãe, filho.

— Enrico? – Rosalie também chamava por ele. – Se estiver ouvindo a mamãe, dê algum sinal. Não precisa ter medo. Não vamos brigar com você. Vai ficar tudo bem. Dá um sinal, filho, qualquer coisa. Não deixe a mamãe nessa agonia.

— Vai ficar tudo bem, Enrico. Está me ouvindo, filho? – Emmett tornou a falar em voz alta. – Vamos ficar todos juntos. – Ao dizer essas palavras, sentiu Rosalie apertar sua mão. E, mesmo na pouca luz, soube que ela tinha voltado a chorar.

Enquanto isso, Garrett chamou Scott e o pai dele, como Emmett havia sugerido que fizesse. Juntos reuniram outros funcionários numa equipe de buscas. Dentro de pouco tempo outros quatro funcionários da fazenda estavam reunidos, se dividindo em duplas, portando rádios e lanternas.

Na sede, depois de muito chorar, ainda que não entendesse o que acontecia, Amy voltou a dormir. Noah ainda fungava, enroscado no colo de Lena, na poltrona ao lado da cama. Logan e Abby tinham pegado no sono na cama do tio, ao lado de Amy. Todos juntos ali, aguardando por notícias.

Kate ficou o tempo todo na janela, olhando o lado de fora da casa, aflita. Pedindo a Deus que eles encontrassem o menino logo, e bem.

— Vovó – começou Kate, num tom de tristeza. – Eu estava aqui pensando, e, acho que, talvez, Caramelo tenha ido com Enrico. Jujuba está aqui e ele não.

— Vamos torcer para que ele esteja com Enrico. Assim, o menino terá uma companhia – Lena comentou num tom de fadiga.

— Mãezinha... – Noah fungou. – Rico... O Rico fugiu. Foi embora...

Lena afagou os cabelos dele. Ajeitou o corpinho dele no colo e lhe beijou o topo da cabeça loura. Noah abraça seu coelhinho de orelhas moles, encardido, recostado ao peito dela.

— Eles vão voltar logo. Tem muita gente procurando por ele agora. Logo, logo estaremos todos juntos outra vez. Você vai ver. Acredite no que a bisvovó diz.

E Noah esfregou a orelha do coelhinho no olho. Querendo muito acreditar no que a bisvovó dizia.

Abby se remexeu na cama, chamando pela mãe.

— Oi, princesa? – Kate se afastou da janela e foi se sentar ao lado da filha, na cama do irmão.

— Eu sonhei com o Rico – Abby lhe revelou. – Ele estava com medo.

Kate abraçou a menina, aconchegando-a ao peito. – O seu pai e o seu tio irão encontrá-lo, meu bem.

— Quero que o Rico volte logo.

Kate beijou nos cabelos louros da filha. – Ele vai estar aqui logo. Vai ficar tudo bem. Agora volte a dormir. Vamos, anjinho, você precisa descansar.

A menina fechou os olhos devagar. Voltando ao sono em pouco tempo.

A madrugada tinha caído e eles ainda estavam lá fora procurando por Enrico.

Dois dos funcionários da fazenda cruzaram com Emmett e Rosalie durante as buscas.

— Alguma pista? – Emmett se precipitou, chegado um pouco mais perto dos funcionários que o ajudavam. – O encontraram?

Um dos capazes, com chapéu de couro marrom na cabeça, foi quem falou primeiro.

— Nada ainda, patrão. Nenhum sinal do garoto.

Emmett ouviu Rosalie gemer atrás de suas costas, encobrindo a boca com a mão livre. Podia sentir toda sua angustia e aflição só em olhá-la ou ouvir sua voz.

Apertou gentilmente na mão dela.

— Vamos encontrá-lo – garantiu. – Acredite em mim.

— As horas estão avançando – ela lamentou. – Além de assustado e triste, ele pode estar com frio. E se...

Emmett firmou o olhar no dela. – Ei, não pense nisso. Vamos encontrá-lo. Enrico é inteligente e precavido. E nós temos uma coisa a nosso favor, não é inverno. Ele não terá de enfrentar baixas temperaturas. Será mais fácil tanto para ele quanto para nós.

— Estou apavorada, Emmett. É o meu bebê que está perdido por aí. Meu menininho. Só consigo pensar no quanto ele está apavorado.

— Eu sei. – Ele tornou apertar a mão dela com gentileza e afeto. – Temos de dar continuidade às buscas. – Rosalie meneou a cabeça, decidida. Iria encontrar Enrico ainda que tivesse de fazer isso sozinha.

Eles continuaram a caminhar. Os outros dois rapazes a poucos metros, tomando distância ainda. E então houve um momento que, se sobressaindo ao barulho de galhos estalando e os chamados pelo nome da criança, todos eles perceberam um latido de cachorro. E vinha na direção contraria ao rio.

— É Caramelo – Soltou Emmett, imediatamente. E olhou na direção dos dois rapazes. – Sabem se alguém trouxe algum cachorro para participar das buscas?

— Não – o outro rapaz, de bigode e cabelos negros, foi quem respondeu dessa vez. – Ninguém trouxe cachorro, patrão.

Rosalie olhava para Emmett, confusa, porém, esperançosa.

— Então é mesmo Caramelo – comunicou Emmett. – E posso apostar que está com Enrico. Vamos! Por aqui – Ele sinalizou com a mão que levava a lanterna.

E todos eles avançaram pela mata. Emmett abrindo caminho, levando Rosalie pela mão. À medida que avançavam, os latidos se tornavam mais altos. Estavam chegando perto. Aquela altura estavam todos cansados, porém, esperançosos.

Emmett parou a caminhada de repente. Os outros pararam logo atrás dele. Iluminando com lanternas a vegetação à frente. E, bem ali, na mira das lanternas, estava Caramelo, mantendo Enrico atrás dele enquanto latia para afugentar uma cobra que ameaçava atacá-los.

Levou poucos segundos para que todos entendessem o que acontecia. Porém, não ficou claro a qual espécie a cobra pertencia. Havia muita folhagem em torno dela e a polca luz também não ajudava.

Caramelo latia ferozmente, ameaçando, defendendo o garoto.

— Oh, meu Deus – Rosalie sibilou, cobrindo a boca com as mãos, prendendo o grito.

Enrico olhou para eles, apertando os olhos por causa da luz da lanterna apontada em sua direção. Reconhecendo-os imediatamente.

— Mamãe – ele chamou. O tom de sua voz tão apavorado quanto demonstrava a feição de seu rosto. – Papai Emmett.

O cachorro continuava latindo pra cobra.

— Não se mexa Enrico – Emmett pediu. – Fique onde está, filho.

— Estou com medo, papai... – o menino falou num chiado. Um olho no local onde estava a cobra, o outro, neles dois.

— Eu sei que está com medo – Emmett falou com cautela. – Mas você precisa ficar onde está... Eu vou te tirar daí, filho.

— Mamãe...

— Escuta o papai, Enrico... Faz o que ele disser.

Apenas um instante, somente pelo tempo que Emmett se abaixou para pegar um galho seco, Caramelo pulou para trás e depois para frente. Então todos eles ouviram um gruindo seguido por um gemido. E Caramelo caiu, gemendo de dor. O grito de Enrico veio em seguida, forte e desesperado. O lamento de Emmett logo depois.

A cobra fugindo. Os funcionários da fazenda golpeando o local em vão. Rosalie correndo até o filho. Enrico agarrando-se a ela, quase a escalando. O menino chorava e tremia muito. As mãos de Rosalie alisando a ele todo. Acalentando.

— Você está bem? – Emmett pediu ao menino. Enrico apenas meneou a cabeça, afirmando. Emmett correu para junto de Caramelo. Iluminando com a lanterna até encontrar o ferimento na pata dianteira do animal.

Caramelo gemeu, olhando no rosto dele com olhos tristes. Claramente sofrendo.

— Você vai ficar bem, amigão – Emmett falou com o cachorro. – Eu vou cuidar de você. – Então, ergueu a cabeça. – Ele foi picado. Preciso levá-lo de volta a sede, e rápido. Lá eu tenho como tratá-lo.

Ouvindo isso, Enrico se soltou da mãe e foi para junto do cachorro. Afagando com a mão pequena e suja de terra o pelo amarelo do animal. Ele ainda chorava. E uma lágrima pingou de sua bochecha no pelo do cachorro.

Quando Emmett olhou para Enrico, o encontrou com o rosto banhando em lágrimas. Num instante, rasgou um pedaço da manga da camisa fazendo um torniquete para que o veneno não circulasse.

— Salve ele, papai... – Enrico implorou. – Ele é meu amigo.

— Eu sei, filho. – Emmett ajeitou o cachorro ferido nos braços e se pôs de pé. Caramelo gemeu. – Vá com sua mãe, Enrico. E não se afaste dela. Eu preciso carregá-lo agora.

O menino correu para junto da mãe, chorando muito. Rosalie o pegou no colo sem se importar com o quanto ele pesava. Era seu menininho e estava apavorado. Enrico ficou com as pernas em volta da cintura dela, os braços, do pescoço.

Quando Emmett passou por eles levando o cachorro ferido, Enrico esticou o braço até encostar a mão na cabeça de Caramelo, fazendo um afago.

— Salve ele, papai... – voltou a pedir o menino.

— Farei isso filho. Fique calmo.

Eles se puseram a caminhar num ritmo rápido de volta a sede.

— Foi minha culpa, mamãe... – Enrico lamentou. – Salve ele... Caramelo é meu amigo.

Foi quando Rosalie percebeu que estava, também, chorando. E enxergou em Emmett, mesmo através das lágrimas, seu nervosismo. No modo como ele caminhava, nas palavras sussurradas que dizia ao animal ferido que levava nos braços.

O barulho de seus pés na vegetação seca à medida que avançavam de volta a sede. O choro de Enrico. Um dos rapazes falando ao rádio comunicando que haviam encontrado o garoto. Falando também do animal ferido, essas coisas zuniam na cabeça de Rosalie.

Emmett teria corrido, não fosse por eles, ela sabia disso.

Quando alcançaram a sede, poucos minutos depois, o restante do pessoal que participou das buscas já estava todos lá, na varanda, aguardando por eles.

Scott e Garrett desceram os degraus, apressados.

— Em que posso ajudar, patrão? – ofereceu Scott. Seu olhar indo depressa do menino no colo da mãe para o cachorro nos braços de Emmett.

— Venha comigo até o consultório. Vou precisar de sua ajuda por lá. Caramelo foi picado. Preciso aplicar o soro polivalente. Não consegui perceber qual era a espécie da cobra. Mas, acredito que não era das piores, do contrário ele não teria chegado vivo aqui. Vamos, depressa.

E eles se puseram a caminhar no mesmo ritmo, apressado, as margens esquerda da casa grande, onde ficava o galpão, o escritório e o consultório veterinário que ele usava quando preciso para atender animais de pequeno porte.

Scott abriu a porta e acendeu todas as luzes. Chegou para o lado, deixando que Emmett fosse à frente.

— O garoto está bem? – Jeremiah, pai de Scott, perguntou. Ele olhava Enrico chorando no colo da mãe. Somente nesse momento Emmett percebeu que Rosalie ainda estava com eles.

— Vá para casa, Raio e Sol – ele pediu. – Leve Enrico com você. Eu vou ficar por aqui e cuidar de Caramelo.

Antes que Rosalie dissesse qualquer coisa, Enrico se impôs.

— Não, eu quero ficar.

— Precisamos ter certeza de que ele vai ficar bem – Rosalie falou, por fim.

Emmett se apressou pondo o cachorro em cima da mesa inox, no centro do consultório. – Tudo bem – disse, sem reparar neles, apressando-se até a pia.

Scott trouxe as coisas de que iria precisar para junto dele, na bandeja de aço inoxidável. Emmett lavou as mãos e as secou antes de pôr as luvas de procedimento.

Rosalie percebeu que não aguentava mais dar nenhum passo segurando Enrico no colo. Estava com os braços mortos. As pernas pesadas demais. Ofegante e suada. Deixou-se desmoronar, com o menino no colo, no banco acolchoado encostado à parede branca do consultório.

Enrico deitou a cabeça no braço dela. Em nenhum momento ele havia deixado de chorar. Rosalie segurou o rosto dele entre as mãos, olhando diretamente em seus olhos.

— Vai ficar tudo bem. – E beijou na testa dele, sentindo gosto de terra em seus lábios. Se dando conta de que o menino tinha o rosto sujo de terra, assim como as roupas que vestia. Uma folha seca no cabelo. Rosalie retirou a folha nas pontas dos dedos e deixou ali no banco, ao lado deles. Não tinha coragem, nem forças nas pernas, para levantar agora e ir até a lata de lixo.

Ouvia as vozes de Emmett, Scott e Jeremiah enquanto todos eles, juntos, se encarregam de tratar do cachorro ferido.

Somente um tempo depois, conseguiu coragem para olhar. Caramelo já tinha recebido o soro polivalente, a ferida em sua pata tinha sido limpa e medicada para evitar infecções. Uma atadura envolvia sua patinha.

Enrico se levantou do colo dela, caminhando devagar para junto da mesa de inox, assustado. Parecendo analisar onde pisava.

Jeremiah olhou para ele com carinho, quando o menino passou ao seu lado.

Emmett e Scott olhavam para ele agora. Vendo-o se aproximar, subindo nos degrau aos pés da mesa, para poder ver o cachorro melhor. Enrico se dobrou pra frente até alcançar a cabeça de Caramelo, lhe dando um beijo perto da orelha. Caramelo gemeu baixinho, abrindo os olhos numa fenda para vê-lo ao seu lado.

— Por favor, não morre – Enrico murmurou, afagando com os dedos sujos de terra o pelo amarelo do animal. Então, levantou as vistas buscando o olhar de Emmett. – Ele não pode morrer papai. Ele é meu amigão – As lágrimas correram livremente nas bochechas de Enrico novamente, deixando um caminho em meio à sujeira.

Emmett passou o braço em volta dele. Enrico encostou a cabeça em seu abdômen.

— Eu sei que sim, filho. E ele sabe que você o ama muito. Ele vai lutar para ficar bem. Caramelo é um guerreiro.

Enrico soluçou. – Ele me salvou por duas vezes... Uma vez foi de cair no rio. Estava escuro e eu não vi para onde estava indo... – outro soluço e ele continuou dizendo: – E depois foi da cobra.

Aquele relato fez o medo percorrer o corpo de Rosalie inteiro. Ela se levantou do banco, lutando contra o peso nas pernas e caminhou devagar, de ombros encolhidos, para junto deles. Afagou gentilmente o pelo macio de Caramelo. Sentiu o cachorro reagir com fraqueza ao seu carinho.

— Nós te amamos, Caramelo – ela começou. – Seja forte amigão. Nunca poderei agradecer o suficiente. Você salvou meu menino por duas vezes. Ficou perto dele, mesmo quando ele tinha medo de você. E, eu soube, naquele dia, um tempo atrás, quando o encontrei vigiando Enrico sentado embaixo da árvore, que você já cuidava dele. Hoje você nos provou isso.

— Ele é meu amigo, mamãe – Enrico, choroso, falou para ela.

— Sim, ele é seu amigo. É quase como um anjo da guarda, também.

— Era por isso que Royce me batia. Caramelo não estava comigo.

Aquelas palavras inocentes vindas de seu filho mais velho, tornou inevitável o peso que sentiu no coração. Não era justo o que a vida tinha feito a eles todos esses anos. Não era justo que seu garotinho carregasse tanta dor. Não era justo submetê-los a mais sofrimentos. Se Emmett dizia que iria protegê-los de Royce, não importava o que America fizesse, ou dissesse, pelo seu próprio bem e pelo bem de seus filhos, tinha de confiar que ali era o melhor lugar.

Ela chegou mais para o lado, passando o braço em volta da cintura larga de Emmett. Ele suspirou, com alívio imediato. O coração se renovando com esperança de que ela ficasse na fazenda. Beijou nos cabelos louros dela, se perguntando se tal gesto significava que a história que os levara ali tinha sido deixada de lado.

Então, ele afastou o braço que envolvia Enrico para segurar no queixo dela, desejando encontrar a resposta em seus olhos. E ela estava lá, clara como a luz do dia. Ela ficaria na fazenda. Ficaria com ele.

Estava a ponto de beijá-la, com a alegria renovada, quando foi interrompido pela chegada de Garrett ao consultório veterinário.

— Já dispensei o pessoal – comunicou ele.

Rosalie se afastou de Emmett, sutilmente. E segurou na mão de Enrico, que ainda estava olhando o cachorro convalescendo.

— Como está Caramelo? – continuou Garrett.

— Ele é forte, vai sair dessa. Conseguimos aplicar o soro a tempo.

Garrett assentiu, olhando com carinho o animal deitado de lado sobre a mesa.

— Precisam que eu faça alguma coisa para ajudar?

— Só volte para casa e avise ao pessoal que Enrico foi encontrado e que está bem. Rose e eu estamos com ele aqui. Diga que Caramelo foi picado por uma cobra, mas que já está se recuperando. Eu vou ficar aqui cuidando dele. – Emmett olhou para Scott e o pai dele. – Vocês também já podem ir para casa. Vão descansar. Muito obrigado por terem ajudado nas buscas. – E ele se voltou para Rosalie outra vez. – Rose, você e Enrico também podem ir descansar.

— Eu quero dormir aqui com Caramelo – Enrico avisou. – Por favor, mamãe. Por favor, papai – ele olhou de um para o outro. – Por favor... Eu não vou mexer em nada, prometo.

— Você pode ficar. – Emmett lhe disse. – Mas sua mãe tem de concordar.

— Tudo bem, ele pode ficar. Eu vou com Garrett para ver como estão Noah e Amy. Depois eu volto. – Ela beijou no rosto de Enrico e, ao erguer a cabeça, percebeu que Emmett esperava pelo beijo dele. Ela se inclinou pra frente até, finalmente, seus lábios se encontrarem. O beijo foi breve, mas trazia toda a maravilha de um retorno.

— Tem certeza de que quer mesmo ficar, filho? – ela pediu ao menino, um instante depois.

— Ele não me abandonou quando eu estava em perigo. Não posso abandoná-lo agora.

Rosalie sentiu a onda crescente de orgulho invadi-la. Seu menininho, que algumas vezes se sentia inseguro por não se parecer tanto com ela quanto os dois irmãos mais novos, tinha o coração bondoso além da conta. Enrico não herdara a maldade de Royce. E, ainda que em seus traços físicos lembrassem a ele, Rosalie o amaria para sempre. E lutaria por ele, não importa o que tivesse de enfrentar.

— Eu amo você, meu príncipe. Nunca mais me dê um susto desses – Ao relembrar os momentos de angustia sem saber onde ele estava seus olhos se encheram de lágrimas. A dor em seu coração voltou. Puxou o menino para um abraço apertado. Então fez um último pedido a Emmett, antes deixá-los.

— Cuide dele.

— Pode deixar. Enrico não vai a lugar algum sem mim. E... Amo você, Raio de Sol – ele lhe disse, quando já se virava para sair.

Rosalie alcançou Garrett na porta e juntos seguiram para a casa grande. Caminhando lado a lado sem nada a dizer. Estava cansada demais, envergonhada demais, por tudo o que causou aquela noite. Certa que a conversa interrompida, seria em algum momento retomada.

A madrugada estava avançando, não demoraria o lusco-fusco estaria no horizonte.

Enquanto Garrett contava para Kate e para Lena o que tinha acontecido lá fora, Rosalie acariciava o rostinho dos dois filhos mais novos, adormecidos na cama que ela e Emmett dividiam. Os lençóis tinham o cheiro deles dois. Aquela cama tinha infinitos momentos de amor a contar, se pudesse falar.

Ao final do relato, Kate saiu do quarto, chorosa, dizendo que iria ver o cachorro, não importava que já fosse tão tarde, ou tão cedo. Garrett foi com ela.

Rosalie e Lena trocaram umas poucas palavras antes de ela recolher uma muda de roupa limpa e ir ao banheiro tomar um banho. Precisava se livrar da terra e do suor em seu corpo. Esperando que as dores no corpo diminuíssem. Imaginando Emmett agora tendo de tranquilizar a irmã por causa de Caramelo, que se feriu tentando proteger seu filho.

[...]

— Ele vai ficar bem – Emmett disse pela segunda vez a irmã chorosa. – Conseguimos aplicar o soro a tempo. Caramelo é forte – Kate estava curvada sobre o cachorro na mesa, acariciando o pelo nos dedos finos.

Enrico estava caindo de sono, mas se recusava a sair de perto do cachorro.

— Vai. Volte para casa com Garrett. Vá descansar. Não se esqueça de que você vai dar aula daqui a pouco para um monte de crianças cheias de energia.

Kate enxugou o nariz num lenço de papel.

— Tem certeza de que Caramelo vai ficar bem? Você não mentiria pra mim, mentiria?

— Quando foi que menti pra você? – disse o irmão.

— Eu não sei.

Emmett abraçou a irmã, beijando no alto de sua cabeça loura, sentindo seu cheiro familiar.

— Vá para casa. – Ele olhou para o cunhado. – Leve ela, Garrett, e tente fazê-la dormir um pouco. As últimas horas foram difíceis para todos nós.

O cunhado anuiu, pegando a esposa pela mão.

— Eu vou ficar aqui com o papai cuidando do Caramelo, tia Kate – Enrico lhe assegurou.

A tia abriu um fraco sorrio, encostando o lenço de papel ao nariz.

— Oh, obrigada, querido. Caramelo tem sorte, você é um bom amigo.

Enrico ficou contente com suas palavras, embora não tivesse conseguido sorrir como desejava ter feito.

Garrett e Kate deixaram o consultório de mãos dadas.

Emmett afagou os cabelos de Enrico, orgulhoso do garoto. Ele era, sim, um bom amigo. Logo depois verificou como estava Caramelo; o soro ligado a ele, e a bandagem em sua pata ferida.

— Ele vai ficar bem, não vai papai Emmett?

— Vai, sim.

Emmett continuou fazendo seu trabalho.

O menino ficou silencioso demais, quando, então, se deu conta de que tinha adormecido debruçado na mesa ao lado do cachorro. Emmett o pegou no colo e o levou para descansar no banco acolchoado encostado à parede. Retirou seus tênis sujos de terra, e o menino se virou de lado, ficando de frente pra parede branca do consultório.

Esgotado, Emmett se sentou ao lado dele. No silêncio que se seguiu, acabou cochilando. A cabeça tombando pra trás até encostar-se à parede. Se permitindo descansar até que tivesse de verificar o animal ferido mais uma vez.

Notas finais
Muito obrigada pelos comentários no capítulo anterior. Um beijo grande Sill