Um Lugar Para Ficar
36 Capítulo 36 – O Aviso Chega
Após alguns minutos, admirando o violino, se recuperando da forte emoção que a surpresa lhe causou, Enrico saiu do quarto, muito contente, e foi mostrar para todos na casa o presente. Sempre fazendo questão de dizer que era um presente da mamãe.
Mais tarde, pouco depois do jantar, quando as crianças já tinham tomado banho e colocado pijamas, Emmett sugeriu que Enrico experimentasse o violino novo, tocando para todos.
A família se reuniu na sala de estar. Emmett e Rosalie dividiram o sofá menor. Amy ficando no colo dele, e Noah no da mãe. Lena sempre optando pela poltrona reclinável. Kate e Garrett no sofá maior, com Abby sentada entre eles, e Logan ao lado do pai.
Enrico afinou o instrumento, e foi se posicionar de costas pra tevê, que se encontrava desligada.
Não havia partituras com ele naquele momento porque todas estavam na igreja. No entanto, havia canções as quais não precisava delas para recriá-la. E a favorita de sua mãe era uma dessas.
Ele olhou a família: a mãe, os irmãozinhos e o bom homem que acabou por se tornar seu pai. A tia junto ao tio. Primos e bisavó. Todos o olhando com afeição. Aguardando para ouvi-lo tocar violino.
Sorriu pra eles, com a sensação de estar diante da melhor plateia do mundo. Todos eles retribuíram com sorrisos calorosos. A mãe até piscou um olho pra ele, se mostrando orgulhosa e feliz.
Ele então, com cuidado, posicionou o violino ao queixo, movendo, com precisão e suavidade, o arco gerando a sinfonia predileta de Rosalie: Feels Like Home, de Edwina Hayes.
Rosalie não conseguia ouvir aquela melodia sem deixar de se emocionar. Dizia tanto sobre sua vida. E dizia muito sobre seu desejo, antes de chegar ali, e se sentir em casa. Se sentir amada.
Ao primeiro acorde, Enrico se entregou a canção. Era só ele e a melodia. Rosalie não podia imaginar todas as coisas que se passava pela cabecinha dele, como a libertação de estar na fazenda Recanto dos Ursos. De todo seu amor por ela.
Emmett passou o braço em volta dos ombros de Rosalie e, curvando a cabeça, beijou seus cabelos no alto da cabeça.
Durante a segunda melodia, Abby se levantou e foi praticar passos de ballet perto da porta da frente, ficando escondida pelo encosto do sofá onde estavam sentados seus pais e irmão. Apenas o pai e a mãe perceberam quando se levantou e foi para lá.
Conhecendo a filha como conhecia, Kate soube no mesmo instante que a menina havia buscado um lugar discreto para não atrapalhar o momento do primo com a família.
Ao final da pequena apresentação, Enrico abaixou o violino numa mão, na outra o arco. A expressão em seu rosto era a definição real da palavra satisfação e prazer.
A família aplaudiu com entusiasmo, fazendo-o sentir-se como numa apresentação real, diante de uma plateia exigente. Até mesmo a menorzinha estava batendo palmas, risonha, empolgada, embora fosse mais pela reação dos outros que pelo seu entendimento. A reação deles o deixou incrivelmente feliz.
Abby tinha parado de dançar e se pendurava ao encosto do sofá, onde os pais estavam sentados, batendo palmas com um pouco de atraso, porém, com o mesmo entusiasmo.
Enrico olhou pra ela, risonho. A garotinha se esticou, aparecendo entre os pais por detrás do sofá, exibindo um largo sorriso.
— Isso foi lindo, filho – Rosalie o elogiou, transbordando orgulho e amor em cada palavra.
— Por mim, eu ficaria aqui a noite inteirinha ouvindo meu bisneto tocar – Lena falou um momento depois. – É tão gostoso e relaxante. Sinto-me especial por tê-lo tocando aqui, tão pertinho.
Enrico sorriu para Lena, mas foi para os braços da mãe que ele correu, levando o violino junto.
Rosalie o abraçou, meio de lado por causa de Noah que ainda estava em seu colo. Beijou o rosto de Enrico e lhe disse, pertinho ao ouvido:
— Você não faz ideia do quanto à mamãe se orgulha de você, príncipe.
Ela percebeu Enrico olhar para Emmett, esperando sua aceitação, com ansiedade. E ela nunca se preocupou com o que poderia vir a dizer, porque ele sempre sabia a coisa certa a se dizer. No entanto, se preocupava com o fato de Enrico ansiar ser aceito. E isso por causa das exigências descontroladas de Royce. Da violência física e psicológica ao qual foi submetido nos primeiros anos de vida.
— Você é muito bom – Emmett falou para ele. – Muito bom mesmo, filho. E quer saber de uma coisa, eu adoro ouvir você tocar. – Emmett o abraçou. E os olhos do menino se encheram de felicidade, com um brilho singelo e puro. Então, Rosalie soube que ele não poderia ter dito nada melhor. Nem mais verdadeiro.
Amy bateu com a mãozinha no violino e gritou pelo irmão.
— Ico!
— Ela quer que eu toque mais um pouco – Enrico falou e deu risada.
Emmett beijou no rosto dele. – Até a Amy sabe o quanto é talentoso, filho – disse.
E Noah, se aninhando ao colo da mãe, falou sonolento.
— Mãezinha, eu tô com sono. Me leva pra cama. Eu quero o Felpudo comigo.
— Está bem, a mãezinha já vai fazer isso.
— Quer que eu o leve, amor? – Emmett se ofereceu.
— Não, não precisa. Mas, você poderia olhar a Amy pra mim enquanto isso?
— Nem precisava pedir.
Rosalie se retirou da sala com Noah nos braços, todo mole de sono e dengo. Enrico ficou mais um pouco com o restante da família, conversando e sendo elogiado por cada um deles.
Rosalie se deitou na caminha de solteiro com Noah agarradinho a ela. O menino abraçava também o coelho de pelúcia entre os dois. Ela leu um pouco pra ele, antes que finalmente pegasse no sono.
Passados uns minutinhos, Enrico abriu a porta. Parecia bem sonolento quando Rosalie ergueu a cabeça do travesseiro para olhá-lo. O viu guardar o estojo do violino com todo cuidado numa das prateleiras que pertencia ao seu lado do quarto.
— O papai está brincando de ser cavalinho pra Amy, lá na sala. – contou. – A bisvovó ficou rindo. Que Amy fica repetindo: tavaio, tavaio. E ela disse também que Amy é igual à mamãe do papai Emmett, que adorava cavalos.
Como já estava de pijama, ele apenas tirou os chinelinhos e se deitou na cama.
Rosalie ajeitou Noah com cuidado ao travesseiro. O beijou na testa, e, com muito cuidado, se afastou indo até a cama de Enrico. Puxando o cobertor se deitou ao lado dele, aconchegando o menino a um dos braços.
— Como se sente, meu anjo? – ela murmurou ao beijar no alto da cabeça dele, os lábios ainda roçando nos cabelos castanhos do filho.
Enrico virou o rosto, buscando ver o rosto dela enquanto falava.
— Feliz de monte – declarou. – Meu coração fica batendo forte até, mas não é como se eu estivesse com medo. Ele bate forte, e eu sei que é por uma coisa boa.
Rosalie aproveitou que o menino olhava pra ela, e tascou um beijinho na ponta de seu nariz.
— Acha que a senhorita Lenora vai ficar brava comigo porque não tenho mais o violino que ela me deu de presente, mamãe? – perguntou de repente.
Rosalie passou a mão na testa dele, afastando os cabelos para longe dos olhos, admirando sua feição bondosa.
— Eu tenho certeza que não. A senhorita Lenora era uma das poucas pessoas que conhecia seu amor pela música clássica. Ela nunca pensaria que destruiu o violino por descuido ou de propósito.
— Ela foi muito legal dando o violino para mim – um momento de silêncio, e ele então continuou: – Sinto saudades dela. E também da senhorita Dorothy, as duas eram muito boazinhas. Elas foram sempre muito legais comigo. Não quero magoá-la. Mas, agora eu gosto mais deste violino, porque foi você quem deu ele pra mim. E eu sei que deu um duro danado pra conseguir comprar. Deixou de fazer suas coisas por mim.
— E você sabe por que a mamãe fez isso?
— Porque você me ama desde que eu era só uma sementinha crescendo dentro de sua barriga. – Ele encostou a mão pequena e morna à barriga da mãe reforçando as palavras.
— Isso mesmo – Rosalie afirmou. E continuou acariciando os cabelos dele no alto da cabeça.
— Porque você estava sempre triste e sozinha antes de eu nascer. Você disse isso.
— Você lembra amor?
O menino balançou a cabeça, concordando.
— E o seu primeiro bebê, mamãe, o que foi pro céu? Ele era menino ou menina?
Rosalie sentiu um aperto no peito. As lembranças do que sofreu naquela época ainda maltratava. Royce tinha sido o culpado daquela perda. Jamais poderá esquecer todas as coisas ruins que viveu ao lado dele. Elas tinham deixado marcadas profundas e dolorosas.
— A mamãe não conseguiu saber. Ele era ainda muito pequeno quando isso aconteceu. Mas, quer saber de uma coisa?
Enrico inclinou o rosto outra vez, buscando o olhar dela, os olhinhos cheios de curiosidade e amor.
— Eu gosto de pensar que ele era você. Você tinha de ser o meu bebê, Enrico. Você tinha de ser meu menininho, bondoso, carinhoso e cheio de talento. E eu a mamãe designada por Deus a amá-lo e protegê-lo por toda a vida.
Enrico suspirou, gostando de ouvir aquela história.
— Quando eu for um menino crescido e forte, eu vou proteger você, a Amy e o Naoh. Não vou deixar que ninguém, nenhuma pessoa má, machuque vocês. Nunca.
— Eu sei – Rosalie murmurou, e deu um beijo estalado na testa dele. – E quer saber, você já é meu herói. Foi com sua ajuda que conseguimos sair daquela casa. Você me salvou duas vezes, filho. A primeira ao nascer me devolvendo a vontade de viver e ter pelo que lutar. A segunda quando o acertou com aquele taco de baseball.
— Eu queria muito que você fosse minha mamãe e foi por isso que papai do céu deixou que eu voltasse para dentro de sua barriga. – Ele sorriu, e Rosalie sentiu o coração transbordando amor pelo filho enquanto se olhavam.
— É, você voltou, sim. Pouco tempo depois a mamãe já estava novamente com você crescendo, bem aqui. – Então foi sua vez de acariciar a própria barriga.
— Na sua barriguinha – Enrico murmurou. – E quando eu estava nascendo você chorou e também sentiu dor, igualzinho quando o Noah e a Amy também nasceram.
— É, um pouco. Mas quando puseram você em meus braços e eu senti o calor de seu corpo pequeno e olhei no seu rostinho, meu amor por você superou qualquer dor. Assim como foi também quando seus irmãozinhos vieram ao mundo. Cada minuto de dor e de medo valeu a pena.
— A gente nunca mais vai voltar pra ele, não é mamãe?
— Nunca mais.
— Sinto saudades da senhorita Lenora e também da senhorita Dorothy, mas eu não quero voltar. Tenho medo.
— Não se preocupe, meu anjo. Nosso lugar é aqui. – Ela voltou a beijar no alto da cabeça dele. – Agora tente dormir um pouco.
Enrico fechou os olhos, um instante depois, já bem sonolento, surpreendeu a mãe com o que disse.
— Agora eu tenho o melhor papai do mundo todo. E também temos um lar de verdade, onde não há dor nem medo.
Emocionada, Rosalie capturou na palma da mão a lágrima que escapou no olho direito, depois no esquerdo. Apertou Enrico nos braços, fechando os olhos, sendo reconfortada pelo cheirinho típico dele e o xampu infantil.
A porta do quarto foi aberta com cautela, e Emmett surgiu no umbral trazendo Amy adormecida no colo.
— Amor? – Ele olhou de uma caminha para outra a procura de Rosalie embaixo dos lençóis. – Está tudo bem? Os meninos tiveram problemas para pegar no sono? Você podia ter me pedido ajuda. Eu teria vindo.
A essa altura, Rosalie já tinha aberto os olhos e tentava sair da cama sem acordar Enrico. Quando já estava de pé ao lado da cama, ajeitou o cobertor sobre ele. E ao virar-se para Emmett, falou em voz baixa:
— Depois de ler pro Noah, conversei um pouco com Enrico. Sabe o que ele me disse? – Quando Emmett negou com a cabeça, ela continuou: – Ele acha você o melhor papai do mundo todo. – Ela estendeu os braços para receber a caçula adormecida.
Para Emmett, ter o conhecimento daquelas palavras foi como um verdadeiro presente. Tendo o pai que teve, sempre soube que tentaria ao máximo ser o melhor pai possível para seus filhos.
— E você, também acha que sou? – não resistiu em perguntar.
Ele deixou que Amy fosse com ela. Então se encaminharam para fora do quarto dos meninos, apagando a luz do teto deixando que ficassem apenas os dois abajures ligados.
Emmett fechava a porta quando ela enfim respondeu sua pergunta.
— Não só o melhor pai. O melhor marido também.
Ele passou as mãos nas costas dela, enquanto a beijava nos lábios com leveza.
— Me esforçarei para ser cada dia melhor – disse um instante depois.
— Apenas continue assim, que está perfeito.
Apenas mais um beijo, e eles foram juntos pôr Amy na cama. Emmet foi quem abriu a porta do quarto que as duas garotinhas dividiam, para que Rosalie passasse com a filha nos braços.
Abby já dormia na caminha dela, por isso evitaram ao máximo fazer barulho.
Rosalie precisou trocar a fralda de Amy antes de colocá-la finalmente embaixo dos lençóis. Os dois deram beijinhos de boa-noite em ambas as meninas e saíram logo em seguida para o corredor.
— Está com sono? – ele pediu.
— Ainda não.
— Quer ir lá fora um pouco? Estava pensando se podíamos observar a noite, abraçadinhos.
— Irei com você a qualquer lugar.
— Então, vem comigo.
Emmett segurou na mão dela. E juntos seguiram pela casa, passando pela sala de estar, encontrando apenas Lena vendo tevê.
— Vovó, Rose e eu vamos lá fora um pouco. As crianças já estão dormindo em suas camas.
— Se eu fosse vocês, não iria lá pras bandas do galpão. Sua irmã e Garrett foram para lá agora a pouco.
— Não vamos – Rosalie foi quem falou.
— Não se afastem muito da sede, também. Já está tarde. Daqui a pouco vou me deitar, mas deixarei a porta da cozinha aberta. Então podem entrar por lá quando voltarem.
— Boa noite, dona Lena.
— Boa noite, minha querida. E fiquem tranquilos, se as crianças acordarem, eu estarei aqui.
— Obrigado, vovó.
Eles saíram pela a porta da frente. Emmett segurando na porta de tela para que Rosalie fosse à frente. Fechando-a logo depois de passar, sem deixar que batesse.
Desceram os degraus da varanda, de mãos dadas, notando que no galpão há poucos metros dali, havia uma luz acesa. Emmett meneou a cabeça, evitando pensar no que a irmã estaria fazendo trancada lá dentro uma hora daquelas com o marido.
Rosalie acertou um tapinha no braço dele com a mão livre.
— Bobo – disse, se divertindo com a expressão no rosto dele.
— Não sei do que está falando – ele se fez de desentendido.
— Ah, você sabe sim. Ela é linda, casada e mãe de dois filhos maravilhosos. E o marido é louco por ela. Qual o problema de eles quererem umas horinhas a sós? Eles trabalham tanto e estão sempre cercados de pessoas.
Emmett olhou no rosto dela, com uma expressão um tanto sem-vergonha.
— E você também quer ficar a sós comigo? – pediu.
— Por isso estou aqui. E imagino que pelo mesmo motivo me convidou.
— Você tem razão. Eu amo os nossos pequenos. Toda nossa família. Mas ficar umas horinhas a sós com você é uma delícia.
— Por que não vamos lá pro nosso cantinho no celeiro? – Rosalie foi quem convidou. – Podemos deixar a portinha lá de cima aberta e assim observamos à noite, tranquilos, lá do alto.
— É você quem manda, moça bonita.
A cada passo ficavam mais longe da sede e do galpão, e mais próximos do celeiro.
A brisa leve daquela noite soprou nos cabelos de Rosalie com delicadeza, enquanto Emmett abria a porta grande e pesada do celeiro. Os músculos nos braços dele tencionando. Rosalie não pôde deixar de notar. Ele era tão forte, tão viril. E ela adorava estar naqueles braços. E mais ainda sentir o peso do corpo dele sobre o seu enquanto faziam amor. Porque ele nuca a maltratava.
Ela foi a primeira a entrar no celeiro. Emmett terminou de fechar a porta pondo pelo lado de dentro a tranca larga de madeira que ia de um lado a outro da parede. Ignorando as pilhas de feno ao redor, ele pegou no armário antigo duas mantas limpas que vinham deixando ali desde que fizeram do celeiro um cantinho para estarem a sós. As mantas eram sempre levadas à sede e depois de lavadas trazidas de volta.
Subiram dois pequenos lances de madeira rústica indo até a parte mais alta do celeiro, um mezanino, com beiradas menores que rodeava todo o interior do celeiro.
Ali, dias atrás, na parte mais espaçosa, Emmett havia colocado um colchão sobre um lastro de madeira polida e envernizada, e também dois travesseiros macios.
Rosalie caminhou por todo o beiral, mantendo a mão na barra de proteção de madeira, indo até a parte da frente onde ficava a portinha de que tinha falado. Tentou abri-la, mas a tranca parecia emperrada.
Emmett foi até lá e abriu para ela. A lufada de ar fresco atingindo em cheio seu rosto. Soprando também nos cabelos de Rosalie, espalhando o aroma de maçãs que ele adorava.
A lua surgiu majestosa e prateada, e também algumas estrelas, emolduradas no pequeno espaço daquela portinha.
Emmett encobriu o chão com uma das mantas e se sentou encostado a parede de madeira do celeiro. Tendo uma imagem do céu num ângulo diferente. Rosalie sentou entre suas pernas, sendo envolvida pelo calor de seus braços e todos aqueles músculos. O rosto dele afundando na curvatura do pescoço dela, propositalmente, aspirando ao aroma.
— Eu amo você... – ele sussurrou ao seu ouvido.
Rosalie virou o rosto de lado, olhando no rosto dele. Eles então trocaram um beijo breve. Voltaram à posição anterior logo em seguida. Juntinhos, olhando a noite através da portinha que fazia a lua parecer uma pintura em tela.
Um tempo depois, Rosalie mudou de posição, sentando de frente, passando as pernas nas laterais do corpo de Emmett.
Emmett ficou admirando os lábios dela por um instante, enfeitiçado por aquela pinta que dava personalidade ao seu rosto, antes que suas mãos grandes se movessem até a barra da blusa dela. Rosalie ergueu os braços facilitando o trabalho e a blusa foi subindo com ajuda das mãos dele até que tivesse sido tirada completamente.
Ele aspirou ao aroma no pescoço dela mais uma vez. Depois beijou um dos seios, bem onde a renda do sutiã começava. Suas mãos grandes deslizaram pelas costas dela, encontrando o fecho do sutiã, abrindo-o com facilidade.
Deslizou as alças pelos ombros dela, depois pelos braços, e então o sutiã cor de vinho estava em cima da manta, ao lado das coxas dele. Dedicou-se um instante aos seios, primeiro acariciando e dando beijos breves, depois beliscando de leve os mamilos rosados, sentindo-os intumescer ao seu toque.
Rosalie jogou o pescoço para trás, se entregando as carícias dos lábios dele, os cabelos roçando na região lombar, em alguns momentos nas coxas dele.
As mãos dele foram tomando caminhos diferentes. Os lábios saboreando cada extensão de sua pele nua, deixando um rastro quente que parecia formigar e pagar fogo.
A camisa dele foi retirada pelas mãos dela e jogada no chão.
Tornaram a se beijar. As mãos de Rosalie no peito dele, ora acariciando, ora apertando os músculos nas pontas dos dedos. Sentia o desejo propagando nele, assim como acontecia a ela.
A excitação dele explodindo no apertado jeans embaixo das coxas dela.
As últimas peças de roupas foram retiradas num borrão. Voltando a mesma posição, ambos se encaixaram perfeitamente, ele indo fundo nela. Ela de frente para ele ditando os movimentos. Ambos deixando as emoções fluírem. Os instintos tomando a frente. O prazer os dominando.
A noite seguia emoldurada na pequena janela rústica no alto do celeiro. Os sons noturnos tornando-se audíveis na escuridão ao lado de fora. Tão audíveis quanto os sons que deixavam escapar entre os lábios, vindo em ondas, fruto do prazer que desfrutavam nos braços um do outro. As pernas de Rosalie se apertando ao redor da cintura dele quando o ápice se aproximava. Emmett grunhindo, mordiscando o ombro dela, apenas alguns segundos depois.
Deitaram-se, exauridos, no colchão, e cobriram-se com a outra manta, tão juntinhos quanto poderiam estar.
Pouco antes do amanhecer, se levantaram, vestiram-se e deixaram o celeiro, encobertos pela mesma manta.
Entraram na casa grande pela porta da cozinha, como Lena lhes disse que fizessem.
Assim, como havia acontecido outras vezes, estavam em casa quando as crianças começaram despertar pela manhã.
Amy sempre tirava um cochilo na cama junto a eles, depois da primeira mamadeira, poucos antes de Rosalie se levantar para arrumar os meninos para a escola, e ficar pronta para o trabalho na livraria.
Às vezes acontecia dos meninos se levantarem antes do horário da escola e invadirem a cama deles também. Exatamente como havia acontecido nessa manhã.
[...]
Passava do horário de almoço, quando Esme precisou deixar a livraria para ir a uma consulta no dentista. Deixando Rosalie sozinha na loja, encarregada de tudo.
Mais ou menos uma hora depois de ela ter saído à sineta tocou avisando da chegada de alguém a loja.
Rosalie ergueu os olhos do monitor, atrás do balcão onde estava sentada, disfarçando a frustração ao perceber quem era. Afinal, ela havia voltado.
America se aproximou do balcão, de queixo empinado. Trajando um vestido floral com mangas que chegavam aos cotovelos. Botas de cano curto e um chapéu estiloso, na cor palha, enfeitando a cabeça. Seus longos cabelos escuros e ondulados estavam soltos. O azul-acinzentado de seus olhos, realçado pela maquiagem.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-la? – Rosalie se mostrou o mais profissional que pôde diante o incômodo que a presença de America lhe causava. Não era um incômodo gratuito, a própria America havia gerado isso nos encontros anteriores.
— Ainda estou pensando... – ela disse isso de um jeito que Rosalie não gostou. – Talvez haja, sim, uma forma de você me ajudar. – Ela seguiu caminhando até parar diante uma das estantes de livros mais próximas da entrada da loja.
Rosalie a olhava sem entender tal atitude. Desviando o olhar quando America olhou de volta pra ela. De repente, quase matando Rosalie de susto com as palavras que disse.
— Seu marido sabe que está aqui...?
O coração de Rosalie esmurrou com fúria o peito reagindo àquela pergunta no mesmo instante. A cor em seu rosto se esvaiu. Não precisava olhar no espelho para saber que sua expressão adquirira algo parecido com pânico. Virando o rosto de lado muito rápido para que America não registrasse. Descobrindo que era trade demais.
— Nossa! Você precisa ver sua cara.
Rosalie não disse nada, apenas fingiu procurar algo na prateleira abaixo do balcão para não ter de olhá-la.
America permaneceu com um sorrisinho nos lábios. Satisfeita com a reação que estava causando a Rosalie. Correndo os dedos pela lombar dos livros na estante, continuou:
— De repente, ele pode descobrir onde você está. Alguém, não sei, pode contar pra ele...
Rosalie ergueu a cabeça, porém, ainda evitando olhar no rosto de America diretamente. Desejando não estar tão horrorizada quanto suspeitava estar.
— Não sei do que está falando – falou, na defensiva.
— É claro que você sabe Rosalie Hale. Ou devo chamá-la de Rosalie King?!
Naquele instante, Rosalie sentiu que poderia desmaiar. A cabeça ficou zonza de repente, o estômago embrulhou de tal maneira que ela chegou imaginar que fosse pôr pra fora o que comeu no almoço. Os batimentos cardíacos, disparando. A respiração ficando pesada. Os tremores se intensificando com a força do medo.
— O meu nome é Rosalie Hale.
America retirou um dos livros da prateleira, olhando de forma tranquila a contracapa. Até parecia estar lendo o resumo, mas, na verdade, estava longe de ser assim.
— Hale é seu nome de solteira – disse.
— Você não sabe o que está dizendo. Hale sempre foi parte do meu nome.
— É claro que sei. Eu andei por aí desvendando um pouco de sua vida.
— Você o quê?
— Você entrou no meu caminho. Eu precisava saber com quem estava lidando.
— Você não fez isso, America?!
— É claro que fiz. – America estalou a língua de um jeito que soava como provocação, e pôs o livro de volta à prateleira. – Você agiu muito mal, roubando as crianças do pai, vindo se esconder aqui. Egoísta você, não?!
— Você não sabe de nada, sua idiota.
— Ei, calminha. Eu posso ficar sentida. E, de repente, posso até dar um jeito de ele descobrir onde vocês estão.
— Ele não ama aquelas crianças – Rosalie contestou, transtornada, passando para o outro lado do balcão.
America recuou alguns passos adentrando um pouco mais o corredor de livros.
— Nunca amou – Rosalie voltou a dizer. – Ele não nós quer de volta. Tudo o que ele quer é nos fazer mal. – Havia lágrimas em seus olhos ao dizer isso. De repente, America pareceu um pouco preocupada.
— Se ele nos encontrar por sua causa, por causa de algo que você fez, será a única responsável pelo que possa acontecer aos meus filhos, a Emmett e a família dele. Você será a única responsável pelo que possa acontecer.
— Nesse caso, podemos negociar... Afinal, você mesma acabou de dizer que é uma ameaça a Emmett e a família dele.
— Do que está falando? Pode ser mais clara, por favor.
— Você sai da fazenda Recanto dos Ursos e se afasta definitivamente de Emmett e da família dele. Em troca não farei com que seu marido te encontre. Não me importa que fique trabalhando por aqui. – Ela moveu o dedo ao redor indicando a livraria. – Só quero que se afaste dos McCarty. Especialmente de Emmett.
— Isso não é um jogo, America. Não é como se estivéssemos no colegial disputando a atenção de um garoto. Você não faz ideia no que está se metendo. Royce não é flor que se cheire. Fique longe dele, pro seu próprio bem.
America se esforçou em mostrar um sorriso, sem querer demonstrar que ficou com um pouco de medo.
— Ele é um ser humano perverso. Está pondo a vida de todos em risco ao tentar localizá-lo, inclusive a sua.
Apesar de não mais esbanjar confiança, America não quis dar o braço a torcer.
— Você terá alguns dias para pensar no assunto.
— Você não pode nos dizer o que fazer. Emmett e eu nos amamos.
— Talvez eu não possa... Mas, seu marido sim.
A sineta da porta tocou quando duas adolescentes entraram na loja. Tanto Rosalie quanto America calaram-se imediatamente. Disfarçando o susto que tinham acabado de levar com a chegada das duas.
As duas adolescentes, uma de cabelos compridos, outra de cabelos bem curtinho, carregavam mochilas nas costas. Eram barulhentas, conversavam o tempo todo e riam sempre depois de finalizar uma frase.
As duas olharam de America para Rosalie, notando claramente que algo estava acontecendo antes de elas entrarem na loja.
Discretamente, Rosalie passou a mão no rosto, limpando uma lágrima que insistiu em cair.
As garotas se empurraram, desaparecendo no interior da livraria. As risadas tinham morrido.
— Você tem alguns dias... – America avisou, saindo depressa do estabelecimento.
— America? Por favor... – Rosalie suplicou, mas ela já havia saído.
Rosalie voltou para detrás do balcão, letárgica. Sentia como se a alma quisesse lhe deixar o corpo. Sentou na cadeira e abaixou a cabeça, descansando a testa sobre os braços dobrados. E já não tinha mais forças para segurar as lágrimas vindas do desespero que se assolou sobre ela.
Estava diante uma situação terrível. Manter-se segura junto às crianças ou perder o homem que ama. Insistir implicava grandes riscos. Mas, entre viver um amor e proteger os filhos, Rosalie não tinha dúvidas que escolheria proteger as crianças. Contudo, havia a promessa real de Emmett, que era protegê-los de qualquer coisa.
A razão estava lutando contra a emoção outra vez. Obrigando-a tomar uma decisão: Ficar ainda que correndo riscos ou fugir pelo resto da vida?
Passado um instante, as duas garotas se aproximaram do balcão, cada uma com um livro na mão. Falavam aos sussurros agora. Tinham percebido Rosalie chorar e estavam com medo de chamar por ela. Porém, precisavam pagar pelos livros.
— Moça? – a garota de cabelos curtos foi quem tomou a iniciativa.
Rosalie levantou a cabeça, afastando os braços do balcão. Imediatamente secando as lágrimas nas palmas das mãos. Seus olhos estavam inchados e também avermelhados. O nariz com a ponta rosada, e ela sentia que precisava de um lenço de papel.
— Me desculpem – ela pediu.
A outra garota perguntou.
— Você está bem?
— Eu vou ficar – ela falou em voz baixa. E tentou sorrir. – Vocês já escolheram o que vão levar?
— Ahã – a primeira menina voltou a falar.
Então, as duas puseram, simultaneamente, os livros em cima do balcão, ao lado do computador.
— Aquela moça que saiu daqui agora a pouco – a segunda garota falou novamente. – Ela fez alguma coisa com você? Ela te ameaçou ou coisa assim? Podemos chamar o xerife, se quiser.
Rosalie agradeceu ainda enquanto registrava a compra.
— Não é necessário. De toda forma, obrigada. O subxerife é casado com a irmã de meu namorado.
As garotas sorriram com simpatia.
— Podemos chamar ele, então?
— De verdade, não precisa. – Ela pôs os livros em sacolinhas diferentes e os entregou nas mãos nas garotas.
O pagamento foi realizado e as duas adolescentes se encaminharam a saída. E, antes de passarem pela porta, a de cabelos curtos disse:
— Se aquela mulher ainda estiver lá fora, nós iremos chamar o xerife.
[...]
Sentado numa mesa de bar, a alguns quilômetros de casa, com um copo de vodca na mão, estava Royce King.
O ambiente escuro e barulhento tornava sua presença insignificante. Numa mesa de bilhar homens de aparência mal-humorada disputavam uma partida. No balcão do bar, um rapaz tatuado, com a barba crescida, servia bebidas. Logo mais atrás dele, outro rapaz, com avental gorduroso, fritava hambúrgueres na chapa. O chiado da fritura e o barulho das bolas de bilhar se misturavam aos sons de conversa. O ambiente cheirava a fumaça de cigarro e frituras.
Não era o tipo de lugar que costumava frequentar. Mas, a essa altura, não tinha muitas escolhas.
Mesmo com o todo barulho, notou o celular tocando dentro do bolso da calça. Ele teve um pouco de dificuldades para retirá-lo de lá.
— Fala! – rosnou no instante que o pôs ao ouvido.
— Royce, cara, onde você está? – O amigo, e também colega de trabalho, perguntou.
— Não é de sua conta.
— A polícia está atrás de você. Que porra você fez? Eles estão achando que você tem algo a ver com o sumiço de Rosalie e das crianças. Por que não diz para eles que sua esposa e seus filhos foram visitar...
— Por que não para de me incomodar? – bradou.
— O chefe está furioso. Está acreditando que pediu licença para fugir da polícia e não para visitar essa tal parente terminal que você falou. Você está muito encrencado, cara. Estão todos desconfiando de você. Pensam que você fez mal a Rosalie e as crianças. Se você realmente fez isso, não vou ficar do seu lado. É horroroso pensar que foi capaz de algo assim.
— Você é patético – Royce o interrompeu. Desligando o telefone logo em seguida. – Aquela safada fugiu de mim levando os três pirralhos juntos. Não se importou como eu ficaria sozinho. Egoísta. – Ele se levantou da cadeira, jogando algumas notas sobre a mesa. Deu um último gole na bebida e bateu com o fundo do copo na mesa. – Por culpa dela minha vida está essa merda – resmungou. – Não irão me pegar, não antes de eu encontrá-los.
Ele pôs o boné azul-marinho na cabeça, e os óculos escuros. Movimentou-se pelo bar em direção à saída. Esbarrou em alguém, mas, não fez questão de pedir desculpas.
Ao sair para rua, olhou de um lado a outro. Seguiu pela rua de pedras sabendo o que tinha de fazer agora. Passando por uma caçamba de lixo, nos fundos de um restaurante chinês, descartou o telefone celular dentro dela.
[...]
Na fazenda, Emmett mostrava os cavalos para Amy. Estavam vendo se exercitarem na arena. Amy estava de pé no alto da cerca branca enquanto Emmett a segurava pela cintura roliça. Ela via os cavalos em movimento e batia palmas, sorrindo.
— Tavaio – repetia com gosto. Os pezinhos inquietos sobre a madeira da cerca branca. E Emmett ria de satisfação por vê-la tão feliz em sua companhia.
— Papa? Tavaio – falou para Emmett, mostrando com a mão gordinha o local onde ele deveria olhar.
— Isso mesmo, ursinha. São cavalos. O papai vai comprar para você um pônei quando for maior. E vou ensiná-la a montar. E você vai dar um nome para ele, não vai? – Amy não entendeu, por isso não respondeu.
Ela ficou enlouquecida quando um dos cavalos, trazido por um funcionário da fazenda, passou perto da cerca.
— Tavaio. Tavaio. Tavaio – ela repetia sem parar, batendo palmas, fazendo com que Emmett risse cada vez mais. Completamente alheio às coisas que America havia dito para atormentar Rosalie. Assombrando a relação limpa que compartilhavam.
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