Um Lugar Para Ficar

22 Capítulo 22 – Um Bom Pai Participa


Notas iniciais
Oi, gente. Antes que vocês iniciem a leitura eu quero deixar meu agradecimento a Gracii Cullen por ter presenteado a fic com uma recomendação linda. Obrigada, coração. Superamei :) esse capítulo é dedicado a você. Espero que goste.

Naquela mesma noite, Alice e Jasper voltaram à cidade de carona com os pais dela, muito depois do jantar para qual foram convidados.

Exaustos, após um longo dia de trabalho, não demorou que todos se preparassem para dormir.

Rosalie se encontrava no quarto dela com as crianças. As três deitadas na cama ouvindo-a ler uma historinha. Amy foi a primeira a dormir, e os meninos não estavam longe de seguirem seu exemplo. Noah já esfregava a orelhas moles de seu coelhinho de pelúcia nos olhos fechados. Num instante virou-se de lado e se aquietou.

Com os olhos sonolentos, Enrico murmurou para Rose. – Amo você, mamãe. – Seus dedinhos da mão direita trabalhavam enrolando uma mecha de cabelos, que em seu comprimento lhe cobriam a testa.

— A mamãe também te ama querido – Rosalie respondeu num tom de voz suave e tranquilo. E, então, fechou as paginas do livro ilustrado sabendo que, por aquela noite, a historinha tinha tido seu fim. Beijou no rosto de Enrico, em seguida, se afastou.

Estava de frente a penteadeira, onde havia acabado de deixar o livro, quando ouviu duas leves batidas na porta. Caminhou até lá, despreocupada, mas, antes de abri-la, certificou-se em saber quem a procurava.

— Quem é?

— Sou eu, Emmett.

Ela levou a mão à maçaneta fazendo um breve movimento no processo de girá-la para abrir.

— Oi – Emmett cumprimentou, quando seus olhos se encontraram e se demoraram um no outro.

— Oi – ela respondeu de volta, com a sombra de um pequeno sorriso no rosto.

— Vim lhe desejar boa-noite – ele começou, usando um tom de voz ameno. – E pra lhe dar um beijo também. – Estendeu uma das mãos para ela, com a intenção de trazê-la para mais perto. E Rosalie se deixou levar, aproveitando a proximidade, quando seus corpos se tocaram, para enlaçar os braços na cintura dele.

Emmett apertou o corpo dela contra o seu, aspirando ao leve aroma de maçãs de seus cabelos.

— Mesmo tendo ficado pouco tempo longe de você, já foi suficiente para sentir saudades – sussurrou ao pé do ouvido.

— Não brinca... – ela sussurrou em resposta.

— Não estou brincando... – a conversa havia adquirido a forma sussurrada, e ele aproveitava para roçar os lábios nos fios dourados dos cabelos dela, na região da têmpora. Um momento depois, segurou o rosto dela entre as mãos. – As crianças estão dormindo?

— Sim. Estavam exaustas. Divertiram-se a valer hoje. Primeiro com nossa ida a igreja. Depois as brincadeiras no quintal; guerra de bexigas e banho de mangueira. Isso tudo foi incrivelmente novo e divertido pra eles. Não sabe o bem que me fez vê-los tão felizes, se divertindo, tão à vontade.

Emmett a beijou na testa. – Eu sei – respondeu a seguir. – E também fico contente que esteja acontecendo. Porque, acredite querida, os amo com todo meu coração.

Ele ainda segurava o rosto de Rose entre as mãos quando uniu seus lábios aos dela. Rosalie ficou nas pontas dos pés entregando-se por completo ao beijo, até que ele chegou ao fim, deixando-os com a respiração oscilante.

— Vou deixá-la descansar agora. Só peço que antes me permita dar um beijo de boa-noite nas crianças.

Rose chegou um pouco para o lado, movendo a mão em incentivo. – Fique à vontade.

Ele a segurou pela mão e juntos se aproximou da cama. Antes de soltar da mão dela, beijou o dorso devagar. No instante seguinte, curvou-se cuidadosamente sobre a cama de maneira a alcançar as crianças e beijar, uma a uma, suas testas. Depois se voltou para Rosalie, movendo o braço a envolver sua cintura.

— Qualquer coisa que precisar, é só me chamar. Sabe disso, não sabe?

Rosalie moveu a cabeça concordando. – Vai ficar bem? – ela pediu, lembrando-se das noites ruins que ele tinha, de tempos em tempos.

— Vou – respondeu, com um beijo na têmpora esquerda dela. – Não se preocupe comigo.

Ela deixou que os dedos deslizassem sobre o tecido da camisa de botões que ele usava, na altura do abdômen. – Como pede que não me preocupe com você, quando isso é praticamente impossível?

Emmett a abraçou, deixando que seu rosto encostasse ao topo da cabeça dela.

— Se minha avó te vir falando assim, certamente queimará fogos de artificio. Capaz até de ela se ariscar com umas cambalhotas.

Rosalie controlou a vontade de rir, imaginando em Lena fazendo o que disse. – É – respondeu. – Sua avó é muito gente boa. Assim como todos nessa família.

— Temos de contar pra eles...

— Eu sei... – E ela brincou com os botões da camisa dele. – Só peço que espere um pouco mais. Sinto-me tão... errada. Você sabe... ainda sou casada com...

Cautelosamente, Emmett a interrompeu. – Não quero que fale nele. Pense que você é livre para amar e viver com quem decidir. Mas, assim, prefiro que essa pessoa seja eu – completou com um ar brincalhão, mas, no fundo, cheio de esperança e verdade.

A curva de um sorriso marcou os lábios de Rosalie sutilmente. Emmett deu somente mais um beijo nela e se foi.

Naquela madrugada nenhum som de lamúria ou dor foi ouvido do quarto de Emmett. Em compensação à própria Rosalie mergulhou no limbo de seus temores, acordando bruscamente com um som sofrido saindo se sua própria garganta, em terror. No instante seguinte, sentou-se na cama com os olhos arregalados. O peito arfando enquanto levava as mãos ao pescoço como que em uma inspeção.

— Mamãe? Mamãe? – Enrico chamou por ela, preocupado depois de tê-la ouvido. Nas sombras, o menino saiu da cama, tropeçando nos chinelos ao chão.

Rosalie imediatamente acendeu a luz do abajur sobre a mesinha de cabeceira do seu lado da cama a fim de ver onde ele estava.

— Mamãe?

— Aqui filho – ela falou baixinho. – A mamãe está aqui amor. Dá a volta, vem ficar aqui pertinho de mim. Cuidado para não esbarrar na cama. Mamãe precisa sentir o seu abraço agora. Vem, minha vida.

— Por que você fez aquele barulho? – o menino pediu, indo até ela. – Alguém machucou você?

— Não, foi apenas um pesadelo. A mamãe está bem.

Enrico subiu novamente na cama, aninhando-se a ela dessa vez.

— Você sonhou com ele? – perguntou com hesitação.

— É – ela respondeu, sabendo que, no fundo, o filho não queria ouvir. Beijou seus cabelos castanhos no alto da cabeça. Depois, encostando a bochecha ao local, sentiu o cheirinho de xampu infantil.

— Não tenha medo mamãe. Eu vou te abraçar até que esteja dormindo outra vez.

— Vai? – ela pediu nitidamente orgulhosa de seu primogênito.

— Vou. E se sentir medo outra vez, pode falar comigo. Pode falar comigo assim como sempre me pede pra falar com você.

Os braços dela tornaram o abraço mais aconchegante, transbordando afeto.

— Mamãe te ama muito, meu príncipe – sussurrou. – Muito, muito, muito, pra vida toda.

Pouco tempo depois, os dois dormiam outra vez.

[...]

Longe dali, Royce pagava uma garota de programa para ir pra cama com ele.

No motel onde estava, enquanto movia-se sobre a loura artificial, viu-se pensando em Rosalie. A verdade é o fato de a mulher ser loura era intencional. Sentia imensa falta da mulher a quem maltratou constantemente, por anos seguidos.

A raiva foi ganhando forças e seus gestos tornaram-se violentos obrigando a loura desconhecida se queixar. Entretanto suas queixas só serviram para piorar o que já estava ruim. Diante o olhar perverso dele era Rosalie quem estava e não a garota de programa exigindo que parasse de machucá-la.

Ainda durante a madrugada ele se foi, deixando algumas notas de dinheiro ao lado do corpo dela que, por sua culpa, carregava alguns hematomas.

Chegou a casa, agora sempre suja e bagunçada, e foi direto servisse de um copo de uísque. Tomou alguns goles, até se concentrar na cor âmbar da bebida, o que o fez lembrar-se novamente de Rosalie. Âmbar era a cor dos seus olhos. O copo com o resto da bebida foi arremessado do outro lado da sala, antes de ele se levantar e ir para o quarto.

A bagunça naquele cômodo não era menor que o resto da casa. Parte das roupas e objetos que Rosalie deixou pra trás estavam espalhadas. Algumas peças de roupas rasgadas, objetos quebrados.

Pegou no chão uma camisola de seda preta, encosto-a ao nariz buscando pelo perfume dela. Seu olhar era doentio e cheio de maldade.

— Maldita! – gritou de repente. – Aonde você e aquelas crianças melequentas se enfiaram? Você é minha Rosalie. Minha. Somente minha. Ai de você se estiver com outro homem. Ai de você se for pra cama com ele. Vadia desgraçada! Eu vou te encontrar. – Lançou-se sobre a cama, mantendo a camisola dela sob o corpo. Ainda usava as roupas que chegara da rua, contendo o cheiro do perfume de outra mulher. Sequer teve coragem para retirar os sapatos.

[...]

Quando a manhã chegou, Rosalie relutou em deixar Amy com a babá contratada por Emmett, mesmo sabendo que era a mesma mulher que cuidou dos filhos de Kate um tempo atrás. E essa insegurança resultou em atraso no dia de trabalho na livraria.

Morrendo de medo, deixou uma lista enorme com recomendações e pedidos. Chorou ao virar as costas, enquanto a filha chorava com sua partida. Foi difícil para ambas o momento da separação, ainda que por um curto período de tempo. Uma nunca antes havia ficado longe da outra.

Depois de deixar os meninos na escola aquela manhã, Emmett foi deixá-la na livraria para mais um dia de trabalho. No momento da despedida garantiu a Rosalie que verificaria como Amy estava assim que chegasse de volta à fazenda. E que se houvesse algo fora do comum telefonaria para livraria pra falar com ela.

Pediu um beijo, e ela lhe disse que alguém poderia vê-los. Sua resposta foi que não se importava com o que o povo pensasse. A amava e queria que todos soubessem de seus sentimentos. Enquanto ela ria de sua resposta teve um beijo roubado. Sua primeira reação foi olhar em volta para ter certeza de que ninguém os tinha visto.

Emmett entrou no carro com um sorriso que fazia suas covinhas dançarem no rosto. Acenou para ela, satisfeito, antes de manobrar a caminhonete para longe da calçada.

Rosalie empurrou a porta para entrar, a sineta soando com sua chegada. Dando alguns passos ao interior da loja percebeu Esme a olhá-la, risonha. Olhou para a vitrine espaçosa pensando em Emmett e novamente para Esme, sabendo que ela muito provavelmente tinha visto a cena que eles protagonizaram lá fora momentos antes.

— Eu... é... bem... nós... só... quero dizer...

Ainda com aquele ar risonho, Esme se aproximou dela tocando de leve seu braço.

— Não precisa dizer nada, Rose. Eu já esperava por isso. Desde a primeira vez que os vi chegar juntos percebi o olhar de amor dele direcionado a você. – Ela viu Rose passar uma mecha dos cabelos para detrás da orelha buscando um ponto de fuga. – Apenas quero dizer que se você sente o mesmo por ele, – tornou a tocar no braço dela – e eu sei que sente. Não tenha medo de se dar a chance de ser feliz. – Rosalie assentiu. – A família inteira já sabe de vocês? – perguntou com cautela.

— Não – Rose respondeu. – Estamos juntos, como um casal, somente há algumas horas. Pedi a ele que esperasse um pouco. Sinto-me tão errada, porque, você sabe... – ela olhou Esme com hesitação. – Legalmente ainda sou casada com Royce. Meu Deus o que estou prestes a afazer é horrível.

— Ah, querida, afaste esses pensamentos. Não se prive de ser feliz ao lado de um homem que vale a pena por causa desse desgraçado que só te fez sofrer. Não seja tola. Não desperdice a chance de uma vida feliz ao lado de um homem bom por causa do que diz um pedaço de papel. Esse pedaço de papel não muda o que sente. Nem mesmo o que Emmett sente por você. Como não pode procurá-lo para lhe pedir o divórcio deixe que o tempo se encarregue de separá-los. Esse homem, que tanto te fez sofrer, não merece consideração alguma. Agora você, minha querida, merece, sim, ser muito amada.

Quando alcançou a última palavra, os olhos de Rosalie estavam cheios de lágrimas. Ela soluçou enquanto o peito tremia.

— Não se sinta culpada a cada vez que Emmett te beijar. Nem mesmo quando fizerem amor. Você merece esse homem e todas as coisas boas que ele tem a lhe oferecer. Agarre essa chance com unhas e dentes. Lute pela chance de ser feliz. Lute por ele. Suas crianças merecem um pai como Emmett. Você merece um homem como Emmett.

Após uma fungada e uma passada de mão no rosto, Rosalie falou.

— Amy, pela primeira vez, falou a palavra papai. Foi ontem... com Emmett. Estávamos apenas nós três quando ela balbuciou. E, meu Deus, eu fiquei tão sem palavras.

— Está vendo?! Quer prova maior de que ele é o pai ideal para essas crianças. Não se negue. Não negue a seus filhos a chance de serem felizes por cauda do que diz um papel. Um pedaço de papel que não garantiu sua felicidade, nem mesmo sua integridade física e de seus filhos.

Rosalie passou a mão no rosto mais uma vez, afastando as lágrimas que insistiam em cair. – Você tem toda razão...

— Sim. Claro que eu tenho – Esme se gabou propositalmente. – Agora vamos trabalhar. O serviço nos chama. Chega de chorar, mulher.

Com uma risadinha, Rosalie concordou. – Vamos. Vamos, sim.

E quando começou se mover Esme chamou por seu nome.

— Rose?

— Sim? – pediu, tornando a olhar pra ela.

— O futuro a Deus pertence. Deixe que ele se encarregue de tudo. Permita que ele trabalhe em sua vida.

Rosalie assentiu e foi fazer seu trabalho.

[...]

De volta à fazenda, Emmett encontrou Amy chorando nos braços de Merci, a babá. Sua avó Lena rondando as duas, tentando ajudar de alguma forma. Ele passou pela porta com passos largos indo até elas.

— O que ela tem? – perguntou a babá.

— Ela quer a mãe. Vai demorar um pouco para que se acostume comigo – Merci se explicou. – Como Amy nunca antes tinha estado com outra pessoa que não a mãe, é normal que reaja desse jeito. Tudo bem, uma hora isso passa. Ela acostuma.

Emmett meneou a cabeça enquanto estendia as mãos para pegar a criança no colo. – Me dá ela aqui – pediu gentilmente.

Amy parou de chorar assim que ele a pegou, deixando a babá completamente surpresa. Lena, claro, sorriu satisfeita.

— Na ausência da mãe, nada melhor que o pai para consolá-la – se glorificou.

Merci achou graça de seu comentário, mas nada disse.

— Papa – Amy balbuciou chorosa, olhando pra ele com os olhinhos cheios de lágrimas. Os lábios rosados pendendo em um beicinho molhado.

— É. É o papai – ele repetiu orgulhoso, lhe dando um beijinho de esquimó. Depois olhou para Merci. – Eu tenho algumas coisas para resolver ainda hoje, mas antes ficarei um pouquinho com ela.

— Isso meu neto – bradou Lena – fique com a minha bisnetinha um pouco. Merci e eu tentamos dar pra ela uma bananinha amassada com farinha láctea, mas não conseguimos. Quem sabe você não consegue com que ela aceite nem que seja um pouco.

— Tudo bem. Podem trazer que eu dou pra ela. Tragam umas uvas também e uma faquinha de mesa.

E ele foi sentar-se no sofá com Amy no colo, enquanto as duas mulheres seguiam em direção à cozinha. Apenas um instante despois a babá entregou pra ele o pratinho com a banana amassada e uma colherinha de plástico. Lena trouxe as uvas e a faquinha como ele pediu. E se pôs sentada ao lado deles no sofá. De colherinha em colherinha Amy acabou comendo toda a banana amassada. Depois Emmett cortou as uvas em quatro pequenas metades e foi dando para ela.

Lena se afastou levando o prato para a cozinha quando terminou todo o conteúdo.

Emmett ligou a tevê no canal infantil e ficou assistindo desenho animado com Amy. Depois de um tempo assim, nesse cuidado paterno, Amy adormeceu no colo dele.

Merci foi pegá-la para pôr na cama, mas ele se mostrou disposto a fazer isso.

— Pode deixar, eu mesmo faço – disse. E antes de ficar de pé posicionou Amy melhor nos braços. A babá os seguiu pela casa a caminho do quarto.

Parada num canto da sala, Lena sorriu orgulhosa do homem que o neto havia se tornado. Do pai cuidadoso e dedicado que estava predestinado a ser.

Uma vez no quarto, ele pôs Amy na cama da mãe cuidadosamente e fez questão de deixar a bonequinha de pano ao seu lado. Cobriu seu copo pequenino parcialmente com a manta, e então falou em voz baixa com a babá.

— Preciso fazer umas coisas agora. Mas virei vê-la assim que encontrar uma brecha. Qualquer coisa busque a ajuda de minha avó ou peça que alguém me procure.

— Pode deixar – garantiu Merci. – Como já prometi a mãe mais cedo, cuidarei direitinho desse pequeno tesouro.

Emmett anuiu, em seguida, caminhou até a porta do quarto.

— Essa garotinha tem muita sorte – lançou Merci. – É um excelente pai. – E Emmett lhe presenteou com um sorriso de covinhas enquanto passava pela porta.

Assim como Rosalie esteve ocupada com o trabalho na livraria, Emmett também esteve ocupado com o trabalho na fazenda.

Na hora do almoço deu um jeito de voltar à sede pra ficar Amy. Aproveitando para lhe servir o almoço em pequenas porções com ajuda da colherinha. Para seu desgosto, na hora de voltar ao trabalho, Amy ficou chorando. Por isso retornou minutos depois e a levou com ele para ver os cavalos nos estábulos.

Merci os seguiu o tempo todo, levando algumas coisas que Amy pudesse precisar; como água, toalhinha e chupeta.

Ele cumprimentou os funcionários da fazenda que encontrou pelo caminho, fazendo questão de dizer a todos que Amy era sua filha. Todos eles demonstravam gostar que o patrão tivesse arrumado alguém com quem dividir a vida. Alguns até diziam que a criança era a cara da mãe. Enquanto outros diziam já saber que ele era o pai.

Emmett entrou com ela no estábulo, indo de baia em baia enquanto lhes mostrava alguns dos cavalos que estavam ali. Amy sorria, às vezes batendo palmas. E ele então beijava seu rostinho. Depois pedia que dissesse:

— Cavalo. Fala para o papai; cavalo. Cavalo. Fala bebê.

Amy arregalou os olhos âmbar quando um dos animais relinchou alto. Sua expressão fez Emmett rir. E ela, vendo que ele ria, acabou rindo também.

— Tavaio! – Amy conseguiu balbuciar. – Tavaio – repetiu com o dedinho indicador em riste.

Seu jeitinho de falar o fez gargalhar. – Você ouviu isso, Scott? – falou com o funcionário que cuidava dos cavalos, mais adiante. – Minha filha já sabe dizer a palavra cavalo.

— Ouvi, sim, patrão. Aposto que ela vai gostar muito desses bichos, igualzinho o senhor.

— Ela já gosta meu amigo. Ela já gosta – repetiu orgulhoso. E, olhando para Amy, pediu que falasse outra vez. – Cavalo. Fala pro papai ouvir outra vez.

Amy se esticou nos braços dele, mostrando o cavalo na baia. – Tavaio. Papa. Tavaio – gritou.

Estava risonho quando ouviu a voz da avó chamar seu nome. – Emmett? – a seguir ela se dirigiu a alguém lá fora. – Sabe onde meu neto está?

— Ele está lá dentro mostrando os cavalos para a filha – uma voz masculina respondeu.

Ouviu a avó agradecer pela informação e novamente chamar seu nome.

— Emmett? – dessa vez mais perto de onde estava com Amy.

Ele deu alguns passos seguindo o som da voz e avistou a avó ainda perto da entrada do estábulo.

— Aconteceu alguma coisa vovó? – Ele caminhou em direção a ela, diminuindo a distância entre os dois. Amy brincava com aba de seu chapéu. – Vovó...?

— Sua irmã telefonou da escola – declarou Lena. – Onde está o seu celular? Ela disse que ligou no seu número e ninguém atende.

Emmett chegou mais perto da avó, mostrando-se preocupado. – Houve alguma coisa com os meninos? Eu devo ter esquecido meu celular no sofá quando fui buscar a Amy. O que houve com os meus garotos?

— É o Noah. Sua irmã disse que ele está com uma febre muito alta. E que a enfermeira da escola aconselhou levá-lo ao Pronto Atendimento. Disse que precisa ser examinado por um médico. Parece que é a garganta.

— Estou indo pra lá agora mesmo – avisou, passando pela avó. – Alguém já avisou pra Rose no trabalho?

— Sim. Sua irmã já telefonou pra livraria. Esme a liberou pelo resto do dia.

— Então Rose já está com o Noah?

— Sim, ela está com o menino. Acontece que na escola não liberaram sua irmã para acompanhá-la. Então Kate pediu se você pode encontrá-los no hospital e trazê-los de volta pra fazenda.

— Mas nem precisa pedir. Já estou pra lá. Merci...? – ele se virou buscando a presença da babá. Ela estava alguns metros atrás de suas costas. Imediatamente se aproximou.

— Estou aqui – disse.

— Fique com a Amy – ele avisou, lhe entregando a criança. – Preciso ir até a cidade encontrar com a Rose.

— Pode deixar – disse a babá.

Amy se inclinou pedindo o colo dele de volta. – Papa!

Ele segurou sua mãozinha roliça e beijou no dorso com carinho. – Eu volto logo, ursinha – se explicou um tanto apressado. – Cuidem dela!

— Vá tranquilo – disse Lena. – E lembre-se de avisar sobre meu bisneto estar bem ou não.

— Farei isso vovó.

Dizendo isso, ele partiu. Amy ameaçou um chorinho quando o perdeu de vista.

Antes de pegar a caminhonete, ele precisou buscar as chaves sobre a mesa do escritório, ao lado do galpão.

Lena acariciou a perninha gorducha de Amy, tentando consolá-la. – O papai volta já, minha bisnetinha linda. E trará com ele sua mamãe e seus irmãozinhos. Só tenha um tiquinho de paciência. Ele volta logo.

[...]

Emmett chegou à cidade pouco tempo depois. Localizou uma vaga no estacionamento do hospital e foi à procura deles; mãe e filho. Teria telefonado para Rosalie pra saber onde encontrá-la, mas ela continuava sem ter um telefone celular. E, de toda forma, o seu continuava na fazenda.

Entrou no hospital a procura deles. Falou com a moça no balcão de informações e descobriu que Rosalie tinha sido chamada com a criança ao consultório do médico havia alguns minutos.

Disse ser o pai da criança para a moça liberar sua entrada. Depois de receber autorização, recebeu também instruções de como chegar à sala de pediatria do hospital.

Estava a uma curva, ao fim de um corredor, quando ouviu o desespero de Noah em meio a tanto choro.

— Mãezinha... Não quero. Não! Você não me ama. Você não me ama – o menino repetia. – Você não me ama.

A voz angustiada da mãe dizia o contrário.

— Se tudo o que sinto por você não é amor o que pode ser então, Noah?!

— Não quero essa injeção, mãezinha. Não quero. Você não me ama. Não me ama.

Então, ao virar no corredor, avistou o menino correndo com a mãe e uma enfermeira em sua cola. Nesse momento, reconheceu nos olhos de Rosalie que estava prestes a chorar assim como o filho já chorava.

— Ô... mãezinha. Isso dói... A injeção dói. Dói muito.

Rosalie parou de correr ao avistar a figura de Emmett no corredor, percebendo imediatamente que ele pegaria seu filho fujão. A enfermeira fez o mesmo, embora não soubesse quem ele era.

Noah chorava tanto que sequer o viu chegar. Acabou esbarrando nas pernas dele. E, quando Emmett tentou pegá-lo, ameaçou fugir outra vez.

— Ei, campeão, sou eu – alertou, pegando-o no colo.

— Papai! – Noah falou no automático, movido pelo verdadeiro sentimento que os unia; o amor entre pai e filho. Sua voz infantil, agora rouca por conta da garganta inflamada, chamando-o. – Papai. Papai.

Emmett acomodou o corpo pequeno no colo tentando acalmá-lo. – Ei papai, – falou com o menino usando um tom de voz afetuoso – o que foi?

— A injeção – Noah se queixou, esticando o pescoço, buscando aqueles que o perseguia. – Não quero. Vai doer no bumbum. De monte.

— Eu sei que dói, bebê. Mas acontecesse que é pro seu bem. Você quer ficar bom para poder brincar com Enrico, Abby e Logan e até a Amy? Humm? E também andar a cavalo com o papai.

Emmett lançou um olhar a Rosalie, ao lado da enfermeira, com as duas mãos encostada ao peito no lado do coração. Percebendo que milhares de emoções passavam na mente e coração dela.

Mais um de seus filhos o chamava de pai e a emoção era a mesma. Pois Emmett retribuía ao amor deles da mesma maneira, com o mesmo grau de carinho e afeto.

Com a voz rouca, Noah tornou a falar. – Eu quero brincar... – um soluço o atrapalhou. – Mas a injeção vai doer no bumbum. A injeção... – Ele parecia em pânico toda vez que mencionava a palavra injeção. – Fala pra mãezinha. Fala papai.

— Está bem, eu falo. – Emmett buscou o olhar de Rosalie outra vez. – Mãezinha vai doer no bumbum dele – disse, trazendo a ameaça de um sorriso aos lábios de Rose. A enfermeira também achou graça da forma como ele falou.

Ele caminhou com Noah nos braços para dentro do consultório do pediatra. Beijou brevemente nos lábios de Rosalie ao passar por ela.

Lá dentro, ele segurou Noah enquanto Rosalie abaixava a roupinha dele para a enfermeira aplicar a Benzetacil. Noah se esticou, chorou, berrou e voltou a repetir que a mãe não o amava por aceitar que lhe aplicassem a injeção.

Depois de tudo, foi o colo da mãe que ele pediu ao deixarem o hospital. Rosalie o cobriu de beijos e carinhos enquanto seguiam rumo ao estacionamento.

— Você não me ama... – Noah voltou a falar com a cabeça descansando no ombro dela.

— Amo, sim – ela repetia sempre depois de um beijinho. E voltando a atenção a Emmett pediu: – Como soube que estávamos aqui?

— Kate telefonou pra fazenda – explicou. – Você quer me dar ele um pouco?

— Não, tudo bem. Ele sempre fica desse jeito quando é pra tomar injeção, não importa qual seja. É um tormento.

Emmett chegou pertinho para beijar no rosto do menino. Noah estava fechando os olhos querendo dormir. Tanto choro o tinha deixado exausto.

— Mas essa injeção dói mesmo – concordou, passando a mão nos cabelos louros do menino. Em seguida, afagando o rosto de Rosalie. – Não fique triste com o que ele disse. Ele sabe que você o ama muito.

— Eu sei... – ela respondeu com a voz suave. – Ele é meu filho mais dramático. – Emmett roçou o nariz a bochecha dela bem devagar. – Ele te chamou de pai – ela sussurrou como que fosse tomada por uma insegurança repentina.

— Eu sou o pai deles, Rose. Já disse isso. E vou cuidar de vocês para sempre. Aliás, meu amor, você precisa de um celular. Não pode estar incomunicável quando tem três crianças a seus cuidados.

Ouvi-lo dizer aquilo a fez pensar em Royce, porque, mesmo com as três crianças, jamais permitiu que voltasse a ter outro celular depois do incidente na lua de mel, envolvendo o aparelho telefônico.

— Você é especial, Emmett. Muito. Muito mesmo.

— Eu amo você, Rose. E amo também nossas três crianças.

No estacionamento do hospital, eles alcançaram o carro e Rosalie pôde então colocar Noah em sua cadeirinha. Embora sonolento, ele ainda se queixava, com gemidos e muxoxos, do incomodo causado pela injeção.

— Mãezinha, você me ama? – Rosalie foi pega de surpresa com sua pergunta, acreditava que ele fosse deixar o ocorrido pra trás.

Ainda prendendo-o a cadeirinha lhe respondeu. – Com todo o meu coração.

— Ai, mãezinha. Tá dodói no meu bumbum... – gemeu. Depois tornou lhe perguntar. – E o papai Emmett? Ele também me ama?

Ela olhou do filho para Emmett, que o tempo inteiro prestava atenção neles, e novamente para o filho.

— O papai, Emmett, também te ama. – Ela afagou o rostinho quente do menino. – Dorme um pouquinho bebê. Mamãe ainda vai estar ao seu lado quando acordar.

— Eu quero o Felpudo, mãezinha.

— Felpudo ficou na mochila. Lá na escola com a tia Kate. Ela vai levá-lo pra casa, não se preocupe.

— E o Rico?

— O Rico também. A gente se encontra com eles lá na fazenda. Agora tente dormir um pouquinho.

— Meu bumbum tá muito doendo – gemeu outra vez, seguido de muxoxos de choro.

— Eu sei filho. Desculpa a mãezinha por isso.

— Ei, campeão – disse Emmett. – Sua mãezinha vai sentar lá na frente comigo, tudo bem? Com os assentos de seus irmãos aqui não tem como ela ficar do seu lado.

— Tá bom.

Rosalie se afastou do filho depois de lhe dar um beijinho na testa. Emmett fechou a porta traseira da caminhonete devagar.

— O médico passou alguma receita? – ele pediu indo abrir a porta do carona pra Rosalie.

— Sim. Está aqui na minha bolsa.

Ele fechou a porta ainda enquanto falava. – Certo. Vamos passar na farmácia entes de deixarmos a cidade.

Momentos depois estacionou o carro perto da farmácia mais próxima e, com a receita na mão, foi buscar os remédios de Noah. Rosalie ficou no carro cuidando do menino.

Enquanto aguardava o retorno de Emmett com a medicação, viu que do outro lado da rua havia uma lojinha de fantasias. Imediatamente soube o que fazer.

Saiu do carro e esperou na calçada ele voltar.

Quando ele voltou com a sacola da farmácia nas mãos, ficou intrigado olhando dela para o menino sonolento dentro do carro.

— O que houve? Noah está bem? – pediu.

— Sim. Eu só queria ir até ali, do outro lado da rua. Importa-se de ficar com ele enquanto dou um pulinho até lá?

Emmett olhou na direção para onde ela mostrava com a mão.

— Estou devendo pra ele uma fantasia do Super-Homem – explicou.

— Sem problemas, vai lá. – Ele levou a mão ao bolso, e ela o impediu barrando sutilmente seu gesto com a mão.

— Não. Isso eu posso comprar. Esme me adiantou um dinheirinho. Não é grande coisa, mas, ao menos não fico lisa até o dia de receber.

A sombra de um sorriso chegou aos lábios de Emmett, permitindo as covinhas se mostrarem sutilmente.

— Então vai! Eu cuido dele – disse. Com um beijo breve, ele a deixou ir.

Rosalie lanceou um olhar ao banco traseiro da caminhonete antes de atravessar a rua correndo e entrar na lojinha de fantasias.

Emmett entrou na caminhonete e guardou os remédios dentro do porta-luvas. Seu olhar o tempo inteiro dividido entre olhar o menino doente na cadeirinha e a entrada da loja onde Rosalie havia sumido de vista.

Apenas alguns minutos depois, ela saiu do estabelecimento com uma sacola na mão. Olhando para os dois lados da rua antes de atravessar.

Dentro do carro, Noah voltou a resmungar. – Mãezinha... Mãezinha?

— Ei – Emmett tocou com a mão na perninha dele. – Sua mãezinha já está vindo aí.

— Quero água – o menino pediu com a voz rouca, quando Rosalie parava ao lado da porta traseira para falar com ele. Depois de abrir a porta ela disse:

— Olha o que a mamãe comprou para você.

— Um presente? – ele quis vibrar, mas a rouquidão o impediu. Seu rostinho, no entanto, se iluminou com alegria. – E é o que, mãezinha?

— Por que você mesmo não descobre? – ela incentivou, piscando um olho. – Põe a mãozinha dentro da sacola e puxa seu presente.

Assim Noah o fez. E quando percebeu o que era um sorriso de covinhas brincou em seu rosto pequeno.

— É uma fantasia do Super-Homem ­– admirou-se. – Mãezinha você comprou?! Comprou mesmo. Agora você já tem dinheiro? Tem?

— Tenho. Não muito, mas deu para comprar a fantasia que você tanto queria.

— Põe em mim, mãezinha. Põe.

Emmett se encontrava com o corpo inclinado entre os dois bancos da frente, olhando os dois com afeição.

— Agora que você já está aqui, eu vou ver se encontro uma garrafinha de água pra ele tomar. Ele me pediu agora a pouco – explicou a ela.

— Obrigada – ela agradeceu, lançando a ele um olhar breve antes de voltar à atenção ao filho.

— Você me ama mesmo – Noah declarou em voz rouca.

— Você não tem ideia do quanto te amo. Agora vem, deixa a mamãe te ajudar pôr a fantasia.

Rosalie desafivelou os cintos e o tirou da cadeirinha.

— Mãezinha eu preciso fazer xixi.

— Agora filho?

— Agora. Agora mesmo. Ligeirinho.

— Está bem. Já quem não tem outro jeito. – E o pegou no colo tirando-o de dentro do carro, levando-o para fazer xixi ali mesmo atrás da caminhonete de Emmett.

Quando estava baixando a roupinha dele, o menino se queixou.

— As pessoas vão ver meu pinto.

— Não. Elas não vão. Não tem ninguém olhando pra cá. Ninguém vai ver seu pinto.

— Só você?

— É. Só a mãezinha.

Ele anuiu e se pôs a segurar o pintinho enquanto fazia xixi atrás da caminhonete.

Ao retornar, Emmett não os viu. – Rose? – sondou achando estranho que não estivessem ali.

— Aqui, Emmett.

Emmett caminhou até onde eles estavam.

— Eu tô fazendo xixi, papai.

— Manda vê garotão.

— Foi mãezinha quem mandou fazer xixi aqui na rua.

Rosalie se pegou dando risada de seu comentário.

— Foi? – ele pediu, fingindo estar surpreso.

— Foi sim.

— Tudo bem, não tem problema. Sacode o pintinho antes de guardar.

— Pra cair o resto do xixi?

— Isso papai – concordou Emmett.

— Ah – disse Noah, satisfeito com a resposta. Após fazer como Emmett sugeriu, escondeu o pintinho novamente na cueca. Depois mostrou as mãozinhas em frente ao corpo. – Agora lava minhas mãos, papai – pediu.

Emmett abriu a garrafinha de água usando um pouco para lavar as mãozinhas dele. Rosalie o pegou no colo e lhe deu um pouco de água pra beber, encostando a garrafa em sua boca pequena. Novamente com ele dentro do carro o ajudou com a fantasia.

— Agora eu sou um Super-Homem – se gabou contente, olhando-se por inteiro. – Obrigado, mãezinha. Obrigado. Agora, sim, eu sou um Super-Homem.

O casal achou graça de seu comentário. A fantasia de fato o tinha feito esquecer-se um pouco do incomodo causado pela injeção, e da dorzinha na garganta que ainda não tinha desaparecido por completo.

Notas finais
Bem, é isso pessoal. Apesar de muito grande, espero que vocês tenham gostado :) *Pra quem ainda não viu, vou deixar aqui o link de minha nova short-fic: https://fanfiction.com.br/historia/695276/Dois_Solteiroes_e_Uma_Pequena_Dama/ Beijo, beijo Sill