Um Lugar Para Ficar
17 Capítulo 17 – Dor da Saudade
Notas iniciais
Na manhã do dia seguinte, antes de levar Rosalie ao trabalho, Emmett foi com ela deixar as crianças na escola. Os garotos estavam animados, e Rose se viu sorrindo enquanto os assistia entrar no prédio da escola primária aquela manhã.
Esme abria a livraria quando os avistou se despedindo ainda dentro do carro. Se ainda restava alguma dúvida quanto a ele estar gostando de sua nova funcionaria, ela tornava-se pequena cada vez que os via juntos.
Apesar de Amy ter chorado vez outra, e de todas as vezes que precisou parar para atendê-la, fosse numa troca de fralda ou horário de alimentação, o dia estava funcionando bem.
Enquanto Rosalie se dedicava ao trabalho, com uma chefe que a cada minuto se mostrava uma boa amiga, Emmett fazia seu serviço na fazenda Recanto dos Ursos; cuidando dos animais e da parte financeira.
Além de ser o responsável por receber toda medicação que chegava. Era responsável também de verificar se todas as vacinas necessárias haviam sido corretamente aplicadas.
Lena e Neva cuidavam da sede juntas, sempre entre uma conversa e outra, dando-se muito bem.
Na escola, as crianças também seguiam com a rotina de seu com seu dia.
Era intervalo, o pátio estava agitado e barulhento. Uma brisa morna soprava as folhas na relva levando-as até os pés das crianças.
Abby brincava no balanço, seu brinquedo favorito no parquinho da escola. Os meninos se penduravam no trepa-trepa, indo de um lado a outro do brinquedo, gastando toda energia acumulada na sala de aula.
A sobrinha de Emmett esticava as perninhas e pendia a cabeça loura pra trás, gostando do vento soprando seu rosto enquanto fingia voar. Mas seu momento de diversão foi interrompido com a chegada de um garotinho de cabelos cor de bronze, de grandes olhos num tom de chocolate.
Liam tinha o mesmo tamanho e idade que Logan. A diferença estava na aparência física e na personalidade. Liam era conhecido na escola por ser um encrenqueiro.
De propósito, Liam segurou na corrente que prendia o balanço ao arco de ferro, fazendo com que o brinquedo parasse bruscamente de se movimentar. Abby bateu com os pezinhos no chão assim que o brinquedo parou, chacoalhando.
— Sai do balanço! – Liam exigiu, com os dedos grudados em torno da corrente.
— Eu cheguei aqui primeiro.
— Acontece que eu quero ir nesse balanço agora. Sua boboca.
— Não vou sair. Eu cheguei aqui primeiro.
Enraivado, Liam chacoalhou o balanço pelas correntes outra vez.
— Sai, agora!
— Para, Liam – Abby pediu chorosa, assustada como a forma como o balanço se movia.
— Não irei parar até você sair. Sai logo!
— Para, eu vou contar tudo pra mamãe.
Liam afastou uma mão da corrente para poder puxar uma das tranças no cabelo de Abby, feita com todo cuidado pela mãe antes de saírem da fazenda pela manhã. E então a garotinha começou a chorar.
Enrico saltou do trepa-trepa ao perceber o que estava acontecendo. Antes que pudesse chagar ao local onde estavam, viu Liam derrubar Abby do balanço. Enrico correu até ela e a ajudou ficar de pé. As mãozinhas e o macacão cor-de-rosa ficaram sujos de terra e os joelhos, ralados.
— Chorona! – Liam debochou. – Boboca!
Enrico olhou o garoto atrás de Abby com raiva contida. Ignorou sua atitude estupida se dedicando limpar a terra nas mãozinhas e na roupa da sobrinha de Emmett. Por todo tempo Abby olhava pra ele. As lágrimas nunca deixando seu rosto.
Uma das crianças que brincavam perto dali, correu para avisar a Logan do que tinha acontecido.
— Porque está ajudando ela? – Liam perguntou, tomando posse do balanço onde antes Abby esteve brincando, sentido à brisa soprar seu rosto, contente. – Ela é uma garota. Garotas são chatas e choronas. – E o rosto dele se contorceu em uma careta.
— Porque ela é minha amiga – Enrico respondeu. – E, também, porque eu sou homem. Homem de verdade não machuca garotas. Não importa a idade que ela tenha. Nem mesmo com uma flor. Meninas merecem ser cuidas. Não é certo o que você fez a ela.
Mesmo com o choro de Abby, Enrico ouviu quando alguém atiçou.
— Ele bateu na sua irmã, Logan. O Liam – a voz do garotinho de rosto cheio de sardas especificou.
Quando Enrico tornou a olhar, foi para ver Logan derrubar Liam do balanço da mesma forma como havia derrubado sua irmã.
Liam ficou de pé, todo sujo de terra, e partiu pra cima de Logan. Uma roda de crianças se formou num piscar de olhos, todas gritando “briga, briga”.
Assustado, Noah chorava assistindo a tudo de longe.
Toda aquela gritaria e confusão duraram apenas até o momento que a diretora apareceu, e os levou pra sua sala.
Abby, Enrico e Noah ficaram aguardando no corredor, sentados no mesmo banco onde estiveram sentados dias atrás na companhia de Emmett.
Kate vinha à procura deles, correndo, quando enfim os avistou sentados. Estavam todos preocupados e de cabeça baixa. Desesperada, se agachou de frente a filha, limpando as lágrimas e as manchas de terra em seu rostinho corado.
— Oh, meu Deus, o que aconteceu amor? Fala pra mamãe, minha princesa. – Ela segurou nas duas mãozinhas limpando os resíduos de terra, depois as beijando.
— Foi o Liam – a garotinha respondeu, com o lábio tremendo. – Ele me derrubou do balanço, mamãe.
– E também puxou no cabelo dela, tia – pela primeira vez desde que a confusão começou, Noah estava falando.
— Ele machucou você também, bebê? – Kate pediu, notando que ele também havia chorado.
Enrico passou a mão pequena no rosto do irmão, limpando suas lágrimas.
— Não, tia. É que ele teve medo – explicou. – Logan brigou com o Liam. Eles estão agora lá dentro, na sala da diretora.
— Ela mandou me chamar. Fiquem os três aqui, quietinhos, que eu já volto. Não vão a lugar algum.
As três crianças concordaram movendo a cabeça devagar. Kate deu um beijinho na testa de cada um antes entrar na sala da diretora.
Noah se inclinou, olhando o machucado no joelho de Abby e, comovido, estendeu uma mãozinha e ficou a fazer carinho no braço dela.
Enrico se levantou e foi até a mesinha de pernas compridas, encostada a parede, onde havia um vaso de flores com crisântemos coloridos. Retirou cuidadosamente um crisântemo rosa e entregou a Abby. Sentou ao lado dela novamente e ficou a olhá-la com grande carinho.
A porta da diretoria voltou a ser aberta e Logan passou por ela, irritado. Kate logo atrás dele, demonstrando estar chateada. Decepcionada.
— Da próxima vez que você brigar, não importa onde ou com quem, eu juro Logan que vou deixá-lo por um mês inteirinho sem jogo de vídeo game. E sem andar a cavalo com seu tio.
— Mas você sempre disse que eu tinha que defender a minha irmã – Logan argumentou. Seu rosto estava muito vermelho e os cabelos, suados e grudados na testa.
— Sim, eu disse. Mas também não quero você se matando e levando advertência na escola. Da próxima vez que algo assim acontecer, seja com qualquer um de vocês, me procurem imediatamente. Eu saberei o que fazer. Nada de sair por aí querendo fazer justiça com as próprias mãos.
Ela chegou pertinho da filha e a pegou no colo.
— Vem, minha princesa.
— Mamãe – disse Abby, ainda chorosa –, meu joelho tá doendo.
— A mamãe vai te levar na enfermaria para cuidar disso, docinho. E vocês – ela falou para aos meninos – voltem agora mesmo para suas salas de aula. – Quando voltou olhar pra Abby, percebeu o crisântemo rosa que segurava com cuidado. – Quem deu essa flor pra você, amor?
— Foi o Rico – Mãe e filha olharam o garoto. Ele estava se pondo de pé, junto ao irmãozinho, de mãos dadas. Kate esticou o braço, acariciando os cabelos castanhos do filho mais velho de Rosalie. – Vá pra sua sala de aula, meu anjo. E leve seu irmãozinho pra dele, também.
— Tá bom, tia.
— E você, Logan, pra sua. Daqui a pouco eu passo por lá pra verificar se estão todos bem.
— Eu vou ficar de castigo quando chegar em casa? – Logan quis saber. Estava preocupado que pudesse ficar sem as coisas de mais gostava.
— Vou pensar no seu caso. Por sua culpa eu também fui advertida, Logan. Estou muito chateada com isso. Decepcionada é a palavra certa.
— Desculpe mamãe. Eu não queria que a diretora também te desse uma bronca.
— Sem mais, Logan. O intervalo já acabou.
— Eu vou contar ao papai, ao tio Emmett e a bisvovó que foi por ter defendido a Abby. Eles não vão deixar que me ponha de castigo. Eles vão ficar do meu lado. Todos eles.
— Logan, defender sua irmã foi correto. O que não foi correto foi agir feito um troglodita. Você tinha que ter procurado um adulto. Tinha que ter procurado a mim.
— E o Liam, ele não vai sair de lá não?
— Ele vai ficar lá até a mãe dele chegar. Você ouviu a diretora falando.
— Tomara que fique de castigo pelo resto da vida. Pra ele aprender não bater mais na irmã dos outros.
— Logan – Kate sibilou.
— Argh! – o menino grunhiu, batendo o pé, sem parar de andar.
Enquanto caminhavam para longe da sala da diretora, Kate reparou em Enrico, obedientemente levando o irmão menor pela mão. E uma velha lembrança lhe ocorreu: Emmett segurando sua mão, quando crianças, na fazenda, enquanto iam de um lado para o outro, fosse brincando ou se aventurando descobrindo o que havia ao redor da sede. Seu grande amigo. Seu protetor. Seu irmão. O companheiro da vida toda.
Deixou somente de observá-los ao virarem no corredor à esquerda.
Enrico parou para deixar o irmão na sala de aula dele. Logan continuou seguindo em frente.
Enrico deu duas batidinhas na porta da classe de Noah, no jardim de infância.
— Rico – Naoh chamou por ele, entristecido –, eu quero a mãezinha.
— Daqui a pouco a gente fica com ela, tá bom? – o mais velho respondeu.
— Aquele menino é mau. Ele parece até o Royce, porque ele gosta de bater em meninas. Né que não pode bater em meninas, Rico?
— É verdade, não pode – o irmão respondeu, com os olhos cheios de lágrimas, lembrando-se de todas as vezes que foi testemunha do sofrimento da própria mãe.
Noah ergueu o dedinho ao falar.
— Porque não pode bater nem na mãezinha e nem na Amy. E também não pode na Abby. Isso é muito veio. O papai do céu fica até triste. Chateado.
— Não pode nunca, Noah.
— Nem em você, irmão. Não quero que batam em você.
Enrico abraçava o irmãozinho no momento que a senhora Parker, a professora baixinha de cabelos ruivos, abriu a porta. Os lábios dela se curvaram em um sorriso, presenciando cena tão bonita de afeto entre irmãos tão pequenos.
Por já saber onde estavam não questionou o atraso.
Noah passou por ela ao ir juntar-se aos três coleguinhas à mesa de cadeiras coloridas. E Enrico voltou para a turma do segundo ano, no outro lado do corredor. A professora, senhorita Bridget, o aguardava na porta. Muito carinhosa, fez um afago no rosto do menino ao passar por ela.
No fim do horário letivo, Kate foi deixá-los com a mãe na livraria como havia feito no dia anterior.
Rosalie estava ao caixa atendo uma cliente, quando viu, através da vitrine, Kate estacionar o carro no meio-fio e as crianças saltarem do banco de trás, com mochilas nas costas e lancheiras nas mãos. Um sorriso largo chegou a seu rosto. Sua vontade foi de recebê-los na porta com um abraço, mas não podia simplesmente largar o que estava fazendo. Teve de se contentar e aguardar que fossem até ela.
Terminava de pôr as compras da cliente na sacola quando os meninos passaram pela porta, levando a sineta a tocar. Kate estava bem atrás das quatro crianças.
Rosalie entregou as sacolas à cliente com um agradecimento sincero, se dividindo entre olhar pra ela e olhar as crianças.
A mulher seguiu na direção da porta com uma expressão satisfeita no rosto.
Atrás do balcão, Esme estava sentada com Amy no colo. A pequena estava distraída mordiscando um dos brinquedinhos de borracha que havia ganhado anteriormente.
— Mãezinha.
— Mamãe.
Os dois meninos correram com as mochilas pesadas nas costas, levando as lancheira nas mãos. Embora não parecesse tão felizes quanto estavam pela manhã antes de deixá-los na escola. Rosalie passou pro outro lado do balcão, recebendo-os de braços abertos. Percebendo o como era bom abraçá-los depois de um dia inteiro separados.
— Oi, príncipes de minha vida. – Ela beijou na cabeça de cada um. – Como foi na escola hoje? Humm? Estão gostando?
Kate sorriu pra ela, mas não parecia um sorriso muito feliz. Não trouxe brilho aos seus olhos verde-esmeralda como sempre acontecia quando sorria.
— Mãezinha tem um menino lá que é mau. Até parece o Royce.
Ouvir o nome do marido, o homem de quem estava se escondendo, fez seu coração gelar. Tantas lembranças ruins estavam vinculadas aquele nome. Tantas eram suas dores.
— Ele bate nas pessoas – Noah continuou.
— Ele bateu em você, filho?
— Não, mãezinha.
O olhar da mãe imediatamente se voltou para Enrico.
— Bateu em você, príncipe?
— Não, mamãe. – Ouvir a negativa lhe trouxe certo alivio, mas as palavras de Noah a seguir voltaram a preocupá-la.
— Ele bateu na Abby. Coitadinha dela, mãezinha. Ficou com um dodói.
Rosalie olhou pra Kate, assustada. – O garoto a machucou? – pediu.
— Ele a derrubou do balanço, ela ralou os joelhos no momento da queda. Mas vai ficar tudo bem. A enfermeira da escola já limpou e passou um remedinho no local.
— Porque ele fez isso? – Rose olhou para Abby. – Oh, princesa, ele te machucou. Que maldade.
— Eu não gosto dele, tia. Liam é malvado.
— Eu bati nele, tia Rose – Logan declarou. – Só que agora a mamãe está chateada comigo por que levei uma advertência, e a diretora reclamou com ela, também.
Rose afagou o rosto do sobrinho de Emmett, depois voltou a falar com Abby outra vez.
— Deixa a titia ver o seu dodói, princesa.
Abby mostrou os joelhos ralados, magoada. Rosalie afagou suas perninhas roliças. De repente se viu pensando em Emmett; se o que tinha acontecido com Abby na escola hoje poderia aborrecê-lo. Abby tinha pai presente. Mas o tio era muito cuidadoso com todos, disso ela sabia.
Esme agora estava de pé atrás do balcão com Amy nos braços.
— Eles vão sarar logo, princesa. Mas, me diga uma coisa, esse tal de Liam é do seu tamanho ou maior?
— Ele é do tamanho do meu irmão.
— Ele tem a mesma idade que o Logan, oito anos – Kate esclareceu. – É o Liam, filho da Bella e do Edward.
— Mas eu não acredito que Liam fez uma coisa dessas com a Abby – Esme lamentou.
— Você o conhecesse? – Rosalie perguntou a Esme.
— Edward é sobrinho de meu marido, e também é amigo de Emmett. Os dois foram pra faculdade na mesma época, mas, diferente de Emmett que fez medicina veterinária, o sobrinho de meu marido fez agronomia.
“Oh, não, isso provavelmente o irritaria ainda mais”, Rosalie pensou.
— Mas porque ele fez isso? – pediu. – Pelo que disse as crianças se conhecessem desde sempre.
— Liam é um pouco implicante – Esme revelou. – Só espero que tenha recebido um bom castigo. Onde já se viu?! Bella e Edward já estão sabendo disso?
— Bella foi buscá-lo na escola mais cedo. Não cheguei a encontrar com ela, porque precisei levar Abby na enfermaria, depois pra sala de aula. E também porque meus alunos estavam sozinhos na sala. Tive voltar correndo.
— Conhecendo Edward como conheço, Liam deve estar de castigo agora. E certamente ouviu um longo sermão.
— Assim eu espero – disse Kate, chateada. Sua mão buscou pela mãozinha da filha. – Eu vou indo. Nos vemos mais tarde na fazenda, Rose.
— Sim. Até mais tarde, Kate. Obrigada por me trazer as crianças. – Ela deu um beijinho no rosto de Abby e outro no de Logan.
— Tchau, bonequinha! – Kate falou com Amy, mexendo a mão. – Espero por você em casa, pra te dar vários beijinhos e cheirinhos. Até logo, Esme. Tchau, crianças.
— Tchau, tia Kate – Enrico e Noah falaram ao mesmo tempo.
Assim que Kate deixou a livraria com os filhos, Rosalie pôs os dela para fazer a lição de casa, na mesma mesinha atrás do balcão, onde ficaram no dia anterior.
Esme se ofereceu para trocar a fralda de Amy, enquanto Rose cuidava da loja.
Alice entrou pela porta cantarolando, largando a mochila da escola num canto próximo ao balcão de atendimento.
— Oi, pessoas lindas! – Onde está a minha digníssima mãe?
Rosalie sorriu. – Sua digníssima mãe está lá em cima com a Amy. Trocando-lhe a fralda.
— Tudo bem, não faz mal. Eu não tenho ciúmes. Vou aproveitar pra escolher um livro pro meu melhor amigo. Ele fica me enchendo a paciência, falando que nunca dou nada pra ele. Aquele bastardo! Cabeça de macarrão sem sal.
— É assim que fala de seu melhor amigo?
— Ah, ele não liga. Ele me chama de tampinha e tantas outras coisas. – Seus olhos brilharam. – Quer me ajudar escolher um livro pra ele?
— Se eu puder ajudar. Será uma honra.
— Ele gosta de tudo que pareça nerd– explicou Alice.
Rosalie tornou a rir. Alice saiu saltitando dentro da livraria da mãe rumo à seção de livros que desejava.
— Mamãe.
— Oi, filho?
— Pode me ajudar aqui?
Rose esticou o pescoço, tentando enxergar Alice à distância. – Alice, você pode me dar só um minutinho, pra ver no que Enrico está tendo dúvidas? É que ele está fazendo a lição de casa com o Noah agora.
— Tuuuudo bem! Sem problemas – ela gritou de onde estava.
Esme voltou com Amy cochilando nos braços. Rosalie sugeriu que a pusesse dentro do cercadinho.
Depois que os meninos terminaram com a lição, Esme pediu que Rose fosse com eles lá pra cima servisse biscoitos com leite. Ela os deixou sozinhos enquanto comiam para poder voltar pra loja.
Atendeu apenas mais uma cliente antes da livraria fechar. E ficou aguardando que Emmett chegasse para levá-la com as crianças de volta pra fazenda.
Exatamente como imaginou, estava chateado por terem machucado sua sobrinha na escola hoje. E o fato de ter sido o filho de seu amigo, só agravou. Resmungou mais de uma vez a respeito disso, durante a viagem de volta a Recanto dos Ursos. Ainda assim fez questão de perguntar como havia sido seu dia de trabalho e o dia dos meninos na escola.
Quando saíram da caminhonete, já na fazenda, ele carregou os dois meninos ao mesmo tempo; Enrico nas costas e Noah no braço, levando-os para a varanda. Amy dormia sossegada nos braços da mãe.
Antes que Emmett pudesse alcançar a porta, alguém chamou por seu nome.
— Emmett!
Juntos, ele e Rosalie viraram para ver quem o chamava. Era Scott. Seu chapéu estava na mão, e o suor manchava suas roupas e rosto.
— É a Luar. Ela está em trabalho de parto, patrão. As coisas se complicaram. Precisa vir comigo. Meu pai está fazendo o que pode para ajudá-la. Ela está com muita dor. Arfando e vomitando, também.
— Tudo bem, Scott. Pegue minha bolsa médica no escritório, ao lado do galpão. Estou indo pra lá agora mesmo.
— Sim, senhor. Avisarei ao meu pai que o patrão está a caminho. Com licença, senhora – pediu, fazendo uma mesura a Rose.
— Nunca irei me acostumar com a forma como Scott, e todos os outros funcionários daqui da fazenda me tratam. Eles são muito polidos.
Emmett pôs os meninos no chão.
— Desculpe garotos, eu preciso ir até lá dá uma olhada na Luar. Vão com a mamãe de vocês pra dentro de casa. Quando eu voltar podemos assistir a um desenho animado juntos, ou brincar. Vocês escolhem.
— Ver desenho – disse Enrico.
— Brincar – alegrou-se Noah.
Emmett os guiou até a porta com cuidado.
— Vão pensando – disse. E, então, se virou para Rosalie. Passou a mão na cabecinha de Amy, adormecida no colo dela. Depois no braço que a segurava. – Volto pra ficar com vocês assim que puder. Sempre fico com saudades, não importa quanto tempo fiquem longe de mim, se um minuto ou hora inteira.
Rosalie abaixou o olhar e, sem querer, parou olhando a mão dele que acariciava seu braço, perto da cabecinha loura de Amy. Ele afastou a mão como que fosse pego fazendo algo errado.
— Quem é Luar? – ela pediu.
Emmett estava novamente olhando para ela com aquele brilho cintilante no azul impecável de seus olhos.
— É uma das éguas que temos aqui. Ela teve uma gestação cheia de complicações. Agora precisa de minha ajuda para trazer seu filhotinho ao mundo, ou poderão morrer os dois. Preciso correr.
— Boa sorte, então.
— Obrigado.
Amy se mexeu, e os dois olharam pra ela quase que ao mesmo tempo.
— Vou levá-la pra cama.
— Sim, faça isso – disse ele. E, com uma mão empurrou a porta para ela passar. – Volto assim que puder. Pode avisar onde estou pra minha avó?
— Claro. Pode ir tranquilo.
Passou por ele na porta. E antes de fechá-la, ele voltou a dizer.
— É bom tê-la em casa.
O sorriso que ela exibiu se refletiu no dele, com uma única diferença, no dele havia as covinhas que lhe davam o ar de menino sapeca.
Emmett fechou a porta, tendo o coração em paz. Eles estavam em casa e, o mais importante, em segurança.
Foi cumprir com sua obrigação, como médico veterinário, ajudar a égua da fazenda trazer o filhote ao mundo.
Rosalie se pegou olhando em volta, na grande e espaçosa sala, Garrett estava sentado no sofá maior com os dois filhos: Abby no colo, e Logan recostado a ele. Em uma das poltronas, no lado oposto, estavam Noah e Enrico, juntinhos. Como era de costume, a tevê estava sintonizada no canal infantil. A voz de Garrett se misturava a dos personagens do desenho animado.
— Eu vou tacar o terror naquela escola amanhã. Ninguém machuca minha garotinha e fica por isso mesmo – ele dizia.
— Eu ouvi isso, Garrett – a voz de Kate soou no cômodo ao lado, alertando-o do que dizia.
O riso de Rosalie acompanhou o das crianças. Garrett ficou com uma expressão no rosto que lembrava muito a de um garotinho pego fazendo algo errado.
Abby beijou o rosto do pai, e ele cochichou ao seu ouvido.
— Sua mãe não precisa saber. Shiiii...
A garotinha moveu a cabeça concordando, enquanto seu sorriso ia de orelha a orelha.
Rosalie meneou a cabeça achando graça. Ainda ouvindo suas vozes, ela seguiu pelo corredor que levava aos quartos, para deixar Amy na cama.
Uma vez que a filha estava acomodada e cercada de travesseiros na grande cama de casal que dividiam, deixou o quarto pensando em procurar por Lena.
Seguia pelo corredor espaçoso quando notou a porta do quarto dela aberta. Como tinha um recado a dar, decidiu ir até lá. Era um dos primeiros quartos, a esquerda do corredor.
Mesmo a porta entreaberta, estava erguendo a mão em punho a fim de avisar sua presença, no entanto, percebeu que alguém lá dentro chorava. Chegou mais perto do vão da porta e pôde notar a avó de Emmett sentada nos pés da cama de casal, de modelo antigo. Bonita. Mas certamente já haviam deixado de ser fabricá-la há algum tempo.
A decoração a fez lembrar-se das páginas de uma revista retrô que viu certa vez, muito tempo atrás. Absolutamente, lindo, limpo e aconchegante. Porém, algo na cena se destacou de todo o resto; o choro daquela senhora.
Desde que chegou a Recanto dos Ursos, Rosalie teve a impressão de que a avó de Emmett fosse uma senhora alegre e, até mesmo, espevitada. O que a fez imaginar que na juventude, Lena fosse um perigo. Certamente linda, pois mesmo com a idade ainda era dona de uma beleza singular. O tipo de senhora que quando você bate o olho pensa; essa, quando jovem, arrasava corações.
Agora começava pensar que estivesse enganada quanto sua alegria infinita. Nesse instante, Lena parecia muito frágil e triste. Uma tristeza muito grande habitava seu coração.
Arriscou-se chegar um pouco mais à frente, pondo um pé e a cabeça para o ado de dentro do quarto.
— Dona, Lena? – sondou, usando de um tom de voz suave e seguro, buscando atrair sua atenção sem causar susto. Como ela nada respondeu, deu mais alguns passos à frente. Foi nesse momento que percebeu a caixinha com flores entalhada na madeira, brilhando com uma demão de verniz. A caixinha estava aberta, e ao redor dela estavam alguns objetos e fotografias. Havia também um papel amarelado pelo tempo. Parecia muito com uma carta dobrada. – A senhora está bem?
A avó de Emmett ergueu a cabeça, passando no rosto as mãos de pele marcada pela idade. Os dedos finos pareciam trêmulos. Porém, não se virou para olhá-la.
— Dona Lena, a senhora quer que eu chame a Kate ou o Emmett? Vim lhe trazer um recado dele, mas se a senhora quiser posso ir buscá-lo agora mesmo.
Lena começou juntar as coisas uma a uma, com muita delicadeza, como que doesse o simples gesto de se fazer isso.
Rosalie repousou a mão direita nos ombros dela, fazendo um afago, e nesse momento sentiu o corpo frágil tremer com um soluço.
— Estou preocupada com a senhora...
— Ah, minha querida... – a voz de Lena soou carregada de tristeza e pesar. Ela moveu a mão pequena até encontrar a de Rosalie, que afaga seu ombro.
Ali, de pé atrás das costas dela, Rosalie pôde perceber melhor as fotografias. Na maioria delas havia uma moça de longos cabelos louros. Embora se parecessem muito, ficou claro que não se trava de Kate ou da própria Lena quando jovem. Era a mesma moça loura que havia nos porta-retratos, no console da lareira, junto às fotografias do resto da família. Em uma delas, a mesma moça sorria agarrada a duas crianças; uma menininha loura de olhos verde-esmeralda e um garotinho de cabelos escuros de olhos azuis.
— É a filha da senhora? – perguntou sem que pudesse conter as palavras.
Embora, nesse momento, nas mãos de Lena houvesse a fotografia de um homem, que lembrava muito Emmett. Poderia bem ser uma versão sua dentro de alguns poucos anos. Lena se limitou responder sua pergunta.
— Sim, minha querida. E este aqui – ela moveu a fotografia que segurava na direção do olhar de Rosalie – é o pai dela. Meu falecido marido Elliott. Os dois partiram muito cedo.
— Emmett se parece muito com ele – disse Rose, gostando de ver aquela semelhança entre avó e neto. E isso a fez pensar no próprio pai, que, pelas fotografias encontradas na casa da avó Jocelyn, quem a criou, Theodore e Noah, carregavam o mesmo tom de azul no olhar.
— Sim – Lena concordou. – Eles se parecem muito. Veja, até mesmo nas covinhas ao sorrir. Elliott tinha muito orgulho disso. Da semelhança que o neto tinha com ele. Mesmo quando Emmett era só garotinho já se notava a semelhança entre os dois. Com o passar do tempo foram ficando ainda mais parecidos um com o outro.
— A senhora teve apenas uma única filha?
— Somente a minha doce Aimee. Mãe de meus netos queridos.
Rosalie sentiu tanto amor na voz daquela senhora ao mencionar o nome da filha, e os próprios netos, que seu coração ficou apertado.
— Ela era tão jovem e cheia de vida. E era tão bonita quanto você, minha querida Rose – Lena abriu um pequeno sorriso, olhando agora para Rosalie. – Você lembra tanto ela...
Lena voltou a ficar em silêncio. A mão de Rosalie jamais deixando seu ombro. Depois de um tempo, ela voltou a falar.
— Minha menina... Quando criança vivia dizendo que queria ser médica veterinária. Ela amava os animais, todos eles. Não fazia distinção. E ela conseguiu entrar pra faculdade que tanto queria. Encheu-nos de orgulho.
Os dedos de Lena cutucaram a costura do jogo de cama. Os pensamentos estavam distantes.
— Foi nessa espoca que Aimee se apaixonou por um rapaz mais velho. Meu marido e eu não éramos a favor dessa relação. Não me entenda mal, minha querida. A diferença de idade não foi o fator negativo.
Lena parou de cutucar no lençol. E ficou olhando as mãos pequenas manchadas pela idade, parecendo ver nelas parte de seu passado.
— Ele era o tipo de pessoa que não inspira confiança. De repente, Aimee parou de nos dar notícias. Depois de vários dias recebemos um telefonema onde ela dizia estar vivendo com ele. E ter largado a faculdade. Foi um golpe e tanto pra gente. Só voltamos a vê-la quando já estava grávida do meu neto...
Lena fez uma pausa.
— Ela veio nos visitar, mas foi uma visita breve. Ele pedia o tempo inteiro para ela voltar. Depois disso só voltamos a vê-la quando meu neto já estava com dois anos. Ela chegou aqui sozinha. Disse que tinham se separado. Mas levou apenas alguns dias para ele aparecer, e minha filha ir embora outra vez. Ela engravidou de Kate logo em seguida. Elliott e eu pensamos em visitá-la quando minha neta nasceu, mas não sabíamos o endereço. Ele nunca permitiu ela nos dizer onde moravam– Lena emitiu um som que parecia o chiado, e Rose imaginou que fosse voltar a chorar.
— Quantos anos as crianças tinham quando ela faleceu? – se viu perguntando.
— Emmett estava com seis anos, e minha neta, três.
— Tão novinhos, meu Deus. Eu também fui criada pela minha avó. Meus pais morreram quando eu era ainda um bebê. Foi um acidente de trânsito. A pessoa no outro carro havia bebido muito, e acertou o carro deles em cheio num cruzamento. Tudo o que sei sobre eles, foi minha avó materna quem me contou.
— Minha querida, você e meu neto têm tanto em comum... – Lena soltou um longo suspiro de pesar. – Quando eles eram pequenos eu morria de medo de não viver o bastante para vê-los crescidos. Com a vida encaminhada. Fiquei doente quando minha neta chegou em casa, aos quinze anos, e disse que estava namorando. O irmão por pouco não enlouqueceu. Kate teve apenas dois namorados durante a vida toda. E um deles hoje é seu marido. Acho que isso se deve ao fato de o irmão ficar em cima. Emmett afugentava os rapazes. Graças ao bom Deus, Garrett é um bom homem. Ama minha neta e faz qualquer coisa para vê-la feliz. É também um ótimo pai pros meus bisnetos... – Mais uma pausa e ela voltou a falar. – Sabe por que minha neta se casou e nunca foi embora?
— Não, senhora.
— Emmett disse que a irmã só se casava se fosse pra viver na fazenda. Garrett não teve escolha, senão aceitar.
— Não fazia ideia.
— Essa foi à condição dele – novamente o silêncio. Lena suspirou, e outra vez afagou a mão de Rosalie. – Hoje quem me preocupa é meu neto. Ele é tão solitário, apesar de ter a gente. Teve uma ou outra namoradinha que não deu certo.
— Não entendo dona Lena. O neto da senhora é um homem tão bom, dono de uma doçura que cativa – por um instante Rose pensou ter visto um brilho diferente nos olhos de Lena; era o orgulho e o amor que sentia pelo neto. – É jovem, bonito, e tem uma boa condição financeira.
— Ah, minha querida... – Lena murmurou. – Meu neto tem aquelas mesmas covinhas que um dia me fez apaixonar por Elliott. Mas tem, também, um coração ferido. Ele vive um conflito pessoal desde que era apenas um garotinho. Leva no coração uma dor infinita.
— A senhora disse que seu marido e sua filha morreram jovens. Qual deles se foi primeiro?
— Elliott morreu um ano depois de nossa filha. Depois de sua morte prematura, meu marido nunca mais foi o mesmo. Ele ficou muito doente... Nunca mais se recuperou. Aimee era seu cristal. A menina de seus olhos. A culpa o consumiu até seus últimos dias...
— A senhora se incomoda de me dizer do que sua filha faleceu?
Um soluço de dor fez apertar a garganta de Lena, e, de repente, as palavras lhe fugiram. As lágrimas voltaram. E quando se preparava para começar a falar, Kate entrou no quarto. Ao encontrar a avó naquele estado, correu para abraçá-la.
— Vovó – murmurou, aflita.
Duas gerações de mulheres McCarty estavam abraçadas nesse momento. Miseravelmente, Rosalie teve inveja de sentir aquele contato. Queria tanto que sua avó estivesse viva para correr pros braços dela como Kate acabara de fazer com Lena. Sentia tanta falta de Jocelyn.
Uma batida na porta, já aberta, anunciou a chegada de Garrett.
— Kate, seu irmão está precisando de você – anunciou.
Kate olhou para o marido, sem se afastar da avó.
— Vai lá ajudar o seu irmão – disse Lena. – Anda minha querida. Sua velha só está saudosa com essas fotografias. Vá ver no que seu irmão precisa de ajuda.
A neta ficou de pé, ainda que hesitante.
— Onde o meu irmão está, Garrett?
— Está lá fora, na varanda da frente. Pediu se você pode levar uma toalha e uma muda de roupa limpa pra ele lá fora. Disse que vai tomar banho no banheiro dos fundos.
— E isso por quê?
— É que ele acabou de ajudar uma égua em trabalho de parto. Está com os braços e as roupas sujas.
Ouvir Garrett tocar nesse assunto fez Rosalie se lembrar do recado que acabou não dando a avó dele.
— Me desculpem – pediu, envergonhada. – Acabei me esquecendo de avisar: Emmett pediu pra dizer que não tinha hora pra voltar pra sede, porque iria ajudar uma égua em trabalho de parto. Parece que ela teve complicações.
— É Luar – constatou Lena, recordando de o neto ter falado em outras ocasiões sobre a gestação difícil daquela égua.
— Eu vou lá, então, levar a toalha e as roupas pra ele – a irmã avisou.
Kate deixou o quarto da avó, segurando na mão do marido. Rosalie viu o momento que Garrett beijou o pé do ouvido dela, e o amor com que se olhavam. Eles faziam o tipo de casal que Rosalie só tinha conhecimento nos livros.
Doía tanto pensar que nunca sentiu amor assim. Que se enganara tanto na escolha que fizera e hoje pagava seu preço. Royce foi e continuaria sendo a pior parte de sua vida.
E, então, se pegou pensando em Emmett. Achou que podia fazer aquilo por ele; levar suas roupas limpas e uma toalha ao banheiro nos fundos da casa. Pensar em mexer nas coisas dele e pegar uma cueca, lhe causou tremor. Um tipo de tremor gostoso de sentir. Obrigou-se jogar esse pensamento pra longe, movendo a cabeça.
— Onde estão as suas crianças, minha querida? – Lena ajudou mudar a rota de seus pensamentos mesmo sem querer.
— Amy está dormindo lá no quarto. Os meninos estão na sala vendo tevê com Abby e Logan.
— Então você mesma poderia levar as coisas pro meu neto lá fora.
Rosalie ruborizou.
— Melhor deixar que a Kate mesmo faça isso... – murmurou.
Outra vez a sombra da tristeza estava nas feições de Lena.
— Tenho medo de partir para outro plano espiritual e meu neto fique por aqui sozinho... Cada vez mais se afundando em sua dor. E na maldita culpa que carrega.
— A senhora não vai partir tão cedo, dona Lena. É uma mulher muito forte. Não deveria pensar nessas coisas. Seus netos e bisnetos a amam muito. Não os deixe te ouvir dizer isso. Eles ficariam muito tristes.
— Vocês devem cuidar um do outro... São almas gêmeas, no amor e na dor.
— Eu não entendo. Do que a senhora está falando, dona Lena?
— De você e de meu neto, ora. Do que mais seria – disse sem rodeios e, então, ficou de pé. – Vou ver os meus bisnetos, porque não os vejo desde que saíram hoje cedo para irem à escola.
Os lábios de Rosalie se curvaram em um sorriso, voltando a desfrutar da mesma sensação maravilhosa de amparo que sentira ao chegar A Recanto dos Ursos. Sabia bem que Lena estava falando de seus filhos, pois Logan e Abby já se encontravam na fazenda há algumas horas.
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