Um Lugar Para Ficar
12 Capítulo 12 – Um Contato a Mais
Notas iniciais
O casal ainda tentava disfarçar o momento quase beijo, quando Kate saiu do carro, com os braços carregados de coisas entre as quais estavam as mochilas dos dois filhos. Desviou das crianças quando elas surgiam de repente a sua frente. Lançou um olhar na direção de onde o irmão estava. Depois a Rosalie, com um breve aceno de cabeça, seguindo em direção à varanda.
– Ei, Rose – disse Kate. – Como foi na cidade? Depois que saíram da escola.
Rosalie pegou Amy no colo. – Foi bem. Ocorreu tudo bem. Obrigada por perguntar.
– Certo. Bom, eu vou guardar essas coisas lá dentro, e depois tomar um banho. Mais tarde conversamos melhor.
Ela piscou um olho para o irmão, que ainda segurava as rédeas do cavalo. Foi estranho, porque, naquele momento, Emmett sentiu como se a irmã pudesse entrar em sua mente desvendando seus maiores anseios e temores. Por isso se atreveu desviar o olhar, enquanto acariciava o pescoço do animal.
As crianças ainda corriam de um lado para o outro, na companhia de Jujuba e Caramelo, e davam risadas.
– Logan e Abby – Kate gritou por seus nomes. – Os dois, fazer a lição de casa, anda.
– Ah, mamãe – os gemidos de desagrado dos dois foram ouvidos por todos. – Deixa a gente brincar com Enrico e Noah, só mais um pouquinho. Faremos a lição de casa depois. – Abby e Logan falaram ao mesmo tempo.
Kate rolou os olhos, meio desapontada. Ainda assim concordado.
– Tudo bem. – As crianças vibraram animadíssimas. – Mas não pensem que vão escapar. Vão fazer a lição antes de dormir, mesmo que ainda estejam caindo de sono.
As crianças não responderam. Antes mesmo de ela terminar de falar os dois estavam correndo pela propriedade. Na pressa de acompanhá-los, Noah se embolou em Jujuba por pouco não caiu de cara no chão.
– Tenham cuidado! – Rosalie gritou.
– Não precisa ficar com medo – Kate interviu. – Eles vão ficar bem.
– Nunca os vi correndo desse jeito – confessou Rosalie, segurando na mãozinha de Amy, às vezes beijando seus dedinhos.
– Logo você se acostuma – dizia Kate, chegando à varanda onde estava Lena, sentada com a cesta de tricô aos seus pés, empenhada em tricotar um casaquinho de criança. – Oi, vovó.
– Oi, meu bem. Como foi na escola hoje? As crianças deram muito trabalho?
– Não. Elas se comportaram muito bem. Foram uns anjinhos.
– Quer ajuda com todas essas coisas?
– Não se preocupe vovó, não estão tão pesadas assim. Volto pra falar com a senhora daqui a pouco.
– Tudo bem, eu vou entrar um pouco. Está na hora de meu programa de tevê favorito. Aquele de culinária. E também preciso organizar as sobras de tecido para a colcha patchwork que prometi fazer pra Abby. Sabe, estava pensando em fazer outra pra minha bisnetinha caçula, a Amy.
– Que ótimo. Aposto que as duas irão adorar. E a Rose vai ficar muito contente, também.
– Acha que ela gostaria de ganhar uma também?
– Claro. Eu adoro a minha.
Lena concordou meneando a cabeça. Uma atrás da outra entraram na casa permitindo que a porta de tela batesse atrás de suas costas.
Emmett voltou a olhar para Rosalie, sorrateiramente, imaginando o quanto teria sido maravilhoso poder sentir os lábios dela nos seus. Comparando-os, estranhamente, a suavidade de uma pétala de rosa.
Assistiu ela passar uma mecha de cabelos dourados para detrás da orelha. E quase pode sentir o cheiro de maçãs novamente. Só não imaginava o quanto se sentia tímida e muito estranha. Apesar de tudo, desejando estar perto dele outra vez. Mesmo que, em seu intimo, algo a alertasse para se manter longe.
Amy resmungou, se remexendo no colo dela. – Mamã! – Sua mãozinha estendida na direção de onde as crianças tinham desaparecido em toda aquela correria segundos antes. – Mamã.
– Não pode meu bebê. É ainda muito pequenina pra ir brincar com eles por aí. Vai brincar com a mamãe. Mamãe está aqui pra brincar com você.
Emmett abriu um sorriso apreciando cada gesto dela, e a voz suave usada para falar com a filha pequena.
Ainda assim, Amy olhou para ela com carinha de choro.
– Não chore meu amor.
– Mamã. Ico. Oah.
– Eles foram brincar. Daqui a pouco eles voltam – ela explicou, com Amy querendo ir para o chão a todo custo.
– Rose, eu preciso levar Noturno de volta para o estabulo – disse Emmett. – Volto daqui a pouco.
Amy estava chorando agora.
– Tudo bem. Não precisa ter pressa.
Ele tocou na aba do chapéu, em seguida, começando andar devagar, guiando o cavalo pela rédea na direção dos estábulos.
Rosalie ficou ninando a bebê, sem desviar o olhar da caminhada tranquila dele. Por mais que tentasse, era impossível não admirar, apreciar, aquelas costas largas. Aqueles músculos rígidos que se moviam com o flexionar de braço. O brilho da pele dele sob o sol de fim de tarde.
Forçou-se a desviar o olhar. Pegou o copinho antivazamento com água dentro oferecendo pra Amy um gole. Ela se recusou virando o rostinho pro outro lado, já vermelha de tanto chorar.
Antes do esperado, Emmett estava de volta, de pé bem a sua frente, com o chapéu de couro na mão. Um pouco suado e os músculos brilhando a luz ofuscante do entardecer.
– Foi rápido – comentou, claramente surpresa.
– Encontrei com Scott no caminho. Ele se encarregou de levar Noturno pros estábulos e lhe dar água pra beber.
– Ah, isso explica.
– Não queria ter de ficar muito tempo longe de você... – ele sussurrou.
– O quê? – ela pediu, não tendo entendido bem o que disse.
Naquele momento, uma lufada de ar soprou os galhos nas árvores ao redor da sede, alcançando seus cabelos também. Levando o aroma dos fios louros ao olfato de Emmett sem pedir permissão. Lembrando-o do cheiro de maçãs outra vez.
– Posso segurá-la um pouco? – pediu, com os braços estendidos para Amy. Disfarçando o fato de ter apreciado sentir mais uma vez o aroma que ela exalava, já que não sabia se iria gostar de saber o quanto deseja tê-la por perto.
– Não sei... Acho que ela não vai querer. Ela quer ficar com os meninos. Não entende que é muito pequenina pra correr por aí com eles. Aí fica assim, mal-humorada.
Ele esticou os braços um pouco mais, e suas grandes mãos se puseram nas laterais do corpo pequenino de Amy. A garotinha sorria agora revelando os poucos dentinhos de leite que tinha.
O chapéu dele se encontrava agora sobre a manta, à sombra da árvore. Rosalie sequer teve consciência de quando ele foi posto ali. Abriu um sorriso, admirada. Na verdade, encantada por Amy se dar tão bem com ele, e ele com ela.
Emmett brincava fazendo expressões em seu rosto que levavam Amy a gargalhadas. E quando fingiu morder sua barriguinha, ela deixou um gritinho fino escapar. Gargalhou novamente, chegando até mesmo a tossir.
A mãe ficou ainda mais encantada quando a gargalhada sonora se juntou a gargalhada doce de sua bebê. E Amy, sem querer, bater a mãozinha no nariz dele levando-o a rir ainda mais.
– Posso me sentar aqui com você? – ele ainda tinha um sorriso nos lábios quando se dirigiu a Rosalie.
– Claro que sim. Nem precisa perguntar isso, Emmett.
Satisfeito, piscou um olho, e as borboletas no estomago dela, antes adormecidas, entraram em agitação.
Ele sentou-se na manta e pôs Amy de pé ao seu lado. Quando voltou olhar pra cima, encontrou o olhar de Rosalie fixo em cada gesto seu.
– Não vai se sentar também? – pediu.
– Ah, sim, claro – ela respondeu constrangida ao ser flagrada observando-o. Em seguida, se abaixou sentando-se na manta ao lado deles. Ainda que sem jeito. Desconfiada.
Amy pegou sua bonequinha de pano sobre a manta amarrotada e entregou na mão de Emmett. Ele sorriu segurando a boneca, olhando para Rosalie.
– Acho que isso é um convite a brincar com ela – disse ele, risonho.
– E eu acho que você acertou – ela também sorria ao afirmar o desejo da filha.
A garotinha correu a passinhos trôpegos para junto da mãe. Depois de receber beijinhos e afagados maternos voltou para perto de Emmett e lhe entregou outro brinquedo, após pegá-lo sobre a manta. Cambaleou pra trás, com os bracinhos erguidos no ar. Automaticamente as mãos de Rosalie foram pra suas costas pequenas, cruzando com as de Emmett no caminho, uma vez que ele havia tomado à mesma decisão de ampará-la.
Suas mãos repousaram juntas nas costas de Amy. O olhar fixo um no outro. A sensação estranha de frio repentino e formigamento correndo de um pro outro, em ondas repetitivas.
Rosalie se perguntava o porquê disso toda vez que se tocavam por acidente. Tinha total consciência de que isso jamais aconteceu com Royce. Nem mesmo na fase de namoro, quando fingia ser um bom homem. E acreditava que ele a amava. Poderia tê-lo amado se ele tivesse sabido como amar.
Amy soltou um gritinho, agitando as mãos pequeninas, enquanto seu corpo tombava pra frente dessa vez. Emmett a segurou com a mão livre. No mesmo instante sentiu a mão de Rosalie se afastar da sua, nas costas de Amy.
O grito das crianças, ali perto, chegou aos ouvidos de ambos. Quando viraram na direção do som, os avistou correndo de volta bastante agitados.
Noah chorava, e isso deixou a mãe em alerta. Imediatamente ela se pôs de pé esperando por ele, que corria ao seu encontro.
Abby caiu de bruços na terra seca. Enrico voltou e a ajudou ficar de pé novamente. Logan passou por eles gargalhando. O único entre as quatro crianças a achar graça, seja lá o que tinha acontecido antes de chegarem ali.
Enrico ficou de mãos dadas com Abby até chegarem onde os adultos estavam.
– Mãezinha – Noah pedia em meio ao choro. – Mãezinha. – Seus bracinhos foram erguidos, pedindo colo. A mãe se curvou erguendo-o do chão, embora ainda sentisse algumas dores no corpo. – Mãezinha.
– O que foi filho? Fala pra mamãe?
Mas a voz que Rosalie ouviu explicar foi a de Abby.
– As galinhas correram atrás da gente.
– Galinhas fazem isso? – pediu, olhando de Abby para Emmett. – Quero dizer, elas correm atrás de pessoas? – Noah ainda chorava em seus braços.
A voz de Emmett se juntou a conversa com uma breve explicação. – Alguém deve ter mexido nos Pintinhos. Vocês entraram no galinheiro?
– Foi o Noah quem pegou tio – declarou Logan. – Ele pegou dois filhotinhos – o menino gargalhou –, e as galinhas ficaram enlouquecidas. Pareciam como em um filme; Galinhas Furiosas – outra gargalhada e o corpo pequeno se dobrou com espasmos.
– E porque você não os alertou sobre isso? Você é o mais velho, Logan, e sabe que as galinhas não gostam que mexam com os Pintinhos.
O menino parou de rir aos poucos. – Mas eu falei tio Emmett. Ele que não me deu ouvidos. Aí a galinhas ficaram malucas.
Emmett meneou a cabeça, se mostrando incomodado.
Ainda chorando, Noah voltou a falar com a mãe. – Mãezinha, a galinha queria morder no meu pinto.
No primeiro momento a mãe até achou graça. – Galinhas não têm dentes filho – tentou explicar.
– Mas é verdade, mamãe – Enrico falou em defesa do irmão. – A galinha apertou no pinto dele com o bico.
Com essa amfirmação a mãe não estava mais achando graça. Estava com dó. Afagou as costas de Noah, e beijou seu rostinho molhado pelas lágrimas que não cessavam.
– Doeu muito foi bebê? – Noah afirmou com um movimento de cabeça, tendo os lábios pendendo em um beicinho. – Deixa a mamãe ver se machucou muito.
Depois de colocá-lo de pé sobre a manta, abaixou sua roupinha verificando se a bicada da galinha não o tinha ferido.
– Nunca mais eu quero ver aquela galinha – Noah se queixou, após uma fungada. – Aquela feiosa, cheia de pena. Ousada!
Abby e Logan gargalharam juntos.
– Pelo menos você aprendeu que não deve pegar nos filhotinhos dela.
– Eu queria um, mãezinha... Eu queria. Queria muito.
– Mas eles vão crescer filho. E podem até bicar seu pinto. Você quer?
– Não! Não quero. Mas é bonitinho. Eu queria um... – Ele soluçou inconformado.
– E se por acaso alguém quisesse te levar pra longe da mamãe, você iria querer?
Ele encostou as duas mãozinhas no rosto de Rosalie e olhou sério pra ela.
– Não, não pode mãezinha. Não quero.
A mãe beijou a ponta de seu pequeno nariz, em seguida, limpou as lágrimas de seu rosto com as mãos.
– Então bebê?! Eles também não querem ficar longe da mãezinha deles.
– Não?
– Não, amor. Por isso ela ficou brava e reagiu daquele jeito. Bicando no seu pintinho.
– Não gosto de galinhas. Elas são do mal, igualzinho o Royce.
Rosalie estremeceu a menção do nome do marido, e ao olhar pra Enrico percebeu que ele também havia se assustado com o comentário do irmão.
– Tá bom – ela disse ainda se recuperando das lembranças ruins. – Agora pega seus brinquedinhos que a gente já vai entrar. Daqui a pouco começa escurecer e vocês ainda nem tomaram banho. E está na hora da mamadeira da Amy, também.
Noah concordou. Virou de costas pra mãe e começou recolher os brinquedos; o boneco do super-homem e o carrinho de corrida.
– Enrico, pega o seu também filho.
– Tá, mamãe.
Emmett se pôs de pé com Amy no colo, enquanto os meninos recolhiam os brinquedos.
– Dá! Dá! Dá! – Amy balbuciou abrindo e fechando a mãozinha. Se agitando ao ver os cachorros se aproximarem. – Au, au. Dá! Au, au.
Rosalie sacudiu a manta antes dobrá-la. De canto de olho, viu Emmett sorrindo pra Amy. E Logan se aproximar de onde estava.
– Precisa de ajuda? – O menino ofereceu.
– Não, querido. De qualquer forma, obrigada.
Na varanda da casa, Kate apareceu. E usava uma roupa diferente da de quando chegou da escola com as crianças.
– Logan e Abby, banho e lição de casa. Não pensem que esqueci, mocinhos.
– Eu vou tomar banho primeiro – Abby gritou.
– Sou eu quem vai – Logan rebateu. – Você demora muito. É igual à mamãe.
– Como assim, mocinho? Que comentário foi esse? – Kate se queixou da varanda. – Isso é jeito de falar com a sua irmã?! E de mim, ainda por cima.
Abby mostrou a língua pro irmão.
– Só por isso você não vai ser a primeira a tomar banho, Abby – a mãe alertou.
– Porque, mamãe?
– Porque não gosto disso. Agora anda, passa pra dentro os dois. – Ela gesticulou com a mão na direção de onde ficava a porta. – Olha só pra você? – falou com a garotinha. – Toda suja! O que aconteceu?
– Eu caí.
– Machucou?
– Não, só ficou suja.
– Tudo bem. Vai indo para o banheiro que a mamãe já vai – disse, mantendo a porta aberta pros filhos passarem.
– Mas a tia Rose vai dar banho nos meninos. Ela disse mamãe.
Rosalie se enterneceu com a forma como Abby se referiu a sua pessoa. Sua vontade foi de abraçá-la apertado, mas a garotinha se encontrava um pouco afastada dela.
Kate abriu um sorriso, assim como o irmão havia feito.
– Vai pro outro então, deixa o do corredor pra tia Rose e o tio Emmett – avisou, desviando o olhar, piscando para o irmão, que demonstrava gostar muito de tudo aquilo.
– Tá bom! – Abby respondeu, correndo para dentro de casa.
– Vai cair outra vez, Abby – a mãe se queixou.
A garotinha parou de correr no mesmo instante, e antes de sair andando olhou para a mãe. Ao virar o rosto novamente, a cascata de cabelos louros seguiu o movimento, e ela precisou afastá-los do rosto com a mão.
– Qual dos dois estava chorando? – Já estavam dentro de casa quando Kate perguntou a Rosalie.
– Era o Noah. A galinha bicou no pintinho dele.
– Oh, coitadinho.
– Ele disse que não gosta mais de galinhas, mamãe – Logan acrescentou.
– Que dó.
– Pelo menos ele aprendeu a não mexer no que está quieto – Rosalie comentou. Em seguida, estendeu os braços para pegar Amy de volta. – Eu vou dar banho nela, e depois a mamadeira – explicou pra Emmett, que estava com sua filha no colo.
– E depois ela vai dormir? – ele perguntou.
– Provavelmente.
Ele assentiu e foi sentar-se em uma das poltronas, na sala. Lena estava lá, assistindo a seu programa de tevê favorito; um programa de culinária onde uma Chefe de Cozinha simpática ensinava como fazer pratos saborosos.
Estavam apenas os dois, quando Lena começou a falar.
– Como foi?
– Como foi o quê? – ele pediu, deixando de olhar a tevê para olhar a avó.
– Montar a cavalo com ela.
– Normal.
– Normal? Você chama aquilo de normal? Como se eu não te conhecesse, Emmett. Você estava hipnotizado nela. Eu podia jurar que queria permanecer naquele momento por muito, muito tempo.
– A senhora anda assistindo ou lendo romances demais.
Lena gargalhou, e sua gargalhada foi cheia de vivacidade e entendimento.
– A beijou, depois que entrei com sua irmã?
– Claro que não, vovó.
– Pois eu digo que está perdendo tempo. Ela gosta de você.
– Claro, somos amigos.
– Certo – respondeu Lena, se pondo de pé, deixando o controle da tevê sobre a mesinha de centro –, então continue bancando o amigo até que outro apareça na vida dela e a leve, junto com as crianças, para longe de você.
– Vovó!...
– Ela é uma jovem muito bonita. Não vai demorar pros rapazes solteiros da cidade percebê-la. E então convites surgirão.
– Ela não está procurando por um encontro, vovó – resmungou de repente mal-humorado.
– Claro que não. E nem vai procurar. Ela tem medo. Ela já foi machucada demais. Mas isso não impede que os rapazes queiram convidá-la pra sair.
Emmett grunhiu, alcançando o controle da tevê com a mão, desligando-a imediatamente. Soltando o controle ao lado do corpo, na poltrona, em seguida.
Lena deixava a sala quando a porta da frente foi aberta e Garrett passou por ela, trajando suas roupas de trabalho, e o coldre onde a arma descansava. Em suas mãos, um embrulho da padaria com rosquinhas açucaradas dentro.
– Que cara é essa? – falou com o cunhado. – Aconteceu alguma coisa enquanto estive fora?
– Ninguém vai convidá-la pra sair – Emmett afirmou, se mostrando raivoso.
– Convidar quem pra sair? Do que está falando cara-pálida?
Emmett sacudiu a mão no ar, inconformado. – Nada, esquece. Só esquece.
– Tá legal. Kate e as crianças já estão em casa?
– Estão – respondeu sem muita vontade. – Acho que Kate está dando banho em Abby. E Logan deve estar esperando pra tomar o dele também.
Garrett assentiu e seguiu casa adentro. Passando pela cozinha para deixar o saco de rosquinhas açucaradas. As crianças cuidariam de fazê-las sumir assim que as encontrasse.
Novamente sozinho na sala, as palavras de Lena voltaram a martelar em sua cabeça.
– Ela não vai sair com ninguém – começou falar sozinho. – Não está procurando um namorado. E eu estarei sempre cuidando dela e das crianças. Não vai precisar de mais ninguém. Serei para ela o que precisar. O que quiser que eu seja.
Lá fora o sol se pôs fazia alguns minutos. A noite começava estrelada no céu. A brisa noturna farfalhando a vegetação ao redor da sede. Os grilos começavam sua cantoria.
Enquanto pensava em Rosalie, ela estava trancada no banheiro dando banho nas crianças.
Fechou os olhos se permitindo lembrar a sensação que sentiu ao tê-la tão perto durante a cavalgada. Do seu cheio e frescor. A maciez de sua pele clarinha, ainda que marcada pela violência que sofrera em anos, num casamento brutal. Daqueles seus cabelos dourados. E como era bom mergulhar na imensidão âmbar que eram aqueles olhos.
Nunca antes havia estado assim, tão ligado a uma mulher. Houve uma ou outra em épocas diferentes de sua vida. Permaneceram por um tempo e então partiram.
Acabou tendo uma ideia; iria ensiná-la a montar.
[...]
Mais tarde, depois do jantar, Rosalie foi para o quarto arrumar o material escolar dos meninos em suas respectivas mochilas. E preparar as roupas que usariam para irem à escola. Como Noah estaria ainda na pré-escola roupas extras tinham de ser acrescentadas a sua mochila.
As crianças brincavam na sala, enquanto os adultos assistiam a um programa de tevê: Kate empoleirada no sofá maior ao lado do marido e Lena no outro.
Ainda no quarto, Amy não parava de mexer nas coisas que a mãe arrumava. Foram muitas as vezes que precisou retirar das mãozinhas dela os objetos. Sempre ameaçava um chorinho, mas logo se distraia com outro, e tudo recomeçava.
Quando Rosalie enfim terminou de organizar tudo, Amy dormia de bruços sobre algumas embalagens vazias. Com muito cuidado a pegou e a levou para descansar com a cabecinha no travesseiro. Ela chorou quando sentiu a mãe se afastar. Rosalie retirou tudo de cima da cama. Deixando as mochilas prontas sobre a poltrona, junto às roupas. Deitou-se ao lado dela e lhe deu a chupeta. Como ela continuou a chorar a trouxe para descansar sobre o peito, deitada de bruços.
– Shhhhh – murmurava, embalando o corpo pequenino junto ao seu. – O que foi mamãe? – dizia, e Amy continuava chorando. – Que choro é esse? Shhhhh. Não chora meu anjinho. Shhhhh... Olha a mamãe aqui.
A porta do quarto foi aberta. Ela ergueu um pouco a cabeça para ver quem chegava. Se de parou com Enrico com uma tremenda cara de sono.
– Veio dormir filho?
– Mamãe.
– Oi, amor?
– Estou cansado. Quero dormir... – Ele passou a mão na testa afastando alguns fios castanhos dos olhos.
– Vem deitar aqui com a mamãe. Vem.
Amy estava mais calma agora, quase dormindo outra vez.
Com passinhos curtos Enrico se aproximou da cama e subiu devagar no colchão, arrastando o lençol nos joelhos.
– Onde está o seu irmão?
– Ele está brincando com o Logan ainda – o menino respondeu preguiçosamente.
Rosalie esticou um braço para acolhê-lo, e ele se encostou a ela. O abraçou bem juntinho, sentindo o calor de seu corpo pequeno. Beijou os cabelos inalando o aroma de xampu de bebê. Inevitavelmente lembrou-se de como ele havia ficado triste por achar que gostaria menos dele por ser o único a não ter herdado muito de seus traços físicos.
Amy ergueu a cabeça, como que querendo conferir quem estava ao lado da mãe. Abriu um sorriso, ainda que com a chupeta na boca, para o irmão. Em seguida deitou a cabeça novamente no peito da mãe. Enrico lhe acariciou o rostinho corado, marcado pela fralda que a irmã usava junto à chupeta.
– Amy, bebezinha – ele falou baixinho. – Bebezinha linda – Amy tornou a levantar a cabeça, abaixando novamente muito rápido, sorrindo.
Um sorriso chegou aos lábios da mãe, que a cada segundo se tornava mais apaixonada pela maternidade. Dentre todas as coisas que recebeu de Royce, a única que jamais negaria. Beijou o rosto de Enrico, depois o de Amy. Enrico começou enrolar uma mecha dos cabelos castanhos no dedo ficando ainda mais sonolento. Em pouco tempo, ele e a irmã estavam dormindo aninhados a mãe.
Deu um pouco de trabalho para Rosalie se afastar de Enrico e deitar Amy na cama, tudo ao mesmo tempo, sem acordar nenhum deles. Mas conseguiu.
E quando abriu a porta para ir atrás de Noah o avistou vindo, no corredor.
– Mãezinha... – falou com a voz dengosa ao vê-la na porta do quarto. – Já estou com sono, tá bom?! Já estou com muito sono.
– Mamãe já estava indo te buscar.
Noah estendeu os braços assim que chegou perto dela. E ela o pegou no colo, passando as perninhas ao redor do corpo. Os bracinhos em volta do pescoço.
– Estava indo, mãezinha? Buscar eu?
A mãe beijou seus cabelos louros no alto da cabeça.
– Mamãe estava indo mesmo atrás do meu gostoso.
O menino abriu um sorriso ainda que se encolhesse de dengo.
– Cadê o Rico e a Amy?
– Eles já estão dormindo.
– Só você e eu que tá acordado, né?
– É. Só você e a mamãe.
Chegou mais perto da cama e o pôs sentado no colchão. Retirou seus chinelinhos e o fez deitar-se. Seus bracinhos logo foram erguidos, pedindo que a mãe se juntasse a ele na cama.
– Mamãe já volta, espera um pouco.
Ela se movimentou pelo quarto, apagando as luzes. Deixando apenas a luz de um abajur acesa. Voltou para a cama deitando-se ao lado de Noah, abraçando-o bem juntinho ao corpo. Quase sussurrando contou para ele parte de um conto infantil que já havia decorado.
Ele estava quase dormindo quando voltou a falar. – Mamãe.
– O que amor?
– Quero o Felpudo.
A mãe se afastou um pouco, tateando com a mão os lençóis, em busca do bichinho de pelúcia do filho até que o encontrou.
– Aqui está seu coelhinho – disse, passando o bichinho de pelúcia de orelhas mole pra ele.
Noah se remexeu nos lençóis até encontrar a posição correta de seu sono. Esfregou a orelha do coelhinho nos olhos fechados algumas vezes, parando somente quando o sono ficou incontrolável.
– Mãezinha... Eu te amo.
Rosalie massageou suas costas e beijou seu pescoço em seguida. – Mamãe também te ama. Agora dorme bebê... Dorme – sussurrou, contribuindo para que ficasse ainda mais sonolento.
Aguardou um tempinho até ter certeza de que estava realmente dormindo, para somente então deixar o quarto. Ainda era cedo pra ela estar na cama.
Ajeitou o cobertor sobre os três filhos pequenos. Verificou se a janela estava bem fechada. E ao deixar o quarto, encostou a porta.
Seus olhos pararam na porta do quarto de Emmett, quando já estava no corredor. Ouviu a voz de Logan falando com o pai, provavelmente no seu quarto. Imaginou que Garrett estivesse dando boa-noite ao filho antes de ele dormir.
Kate abriu um sorriso ao vê-la chegar à sala. Lena também pareceu bastante satisfeita em vê-la, jamais escondendo o sorriso conspiratório.
– As crianças já dormiram? – pediu Kate.
– Já, sim. Só a Amy que deu um pouquinho de trabalho. Chorou depois que a tirei da posição que estava dormindo antes. Mas como poderia deixá-la dormir sobre um monte de embalagens vazias. Tive que tirá-la, e ela não gostou nada do que fiz.
– Conseguiu deixar tudo pronto pra amanhã cedo?
– Com ela mexendo em tudo, mas consegui – seus lábios ameaçaram um sorriso.
– Imaginei que diria isso.
Rosalie olhou a sala de um canto a outro, sem sair do lugar, buscando por alguém em especial.
Respondendo a sua pergunta não feita, Lena disse:
– Ele está lá fora. – Seus olhos estavam na tevê quando falou. – Porque não vai lá fora também? Está uma noite linda. Já viu a lua como brilha essa noite?
Rosalie enfiou as mãos nos bolsos do jeans. – Na verdade, ainda não – disse.
– Então porque não vai até lá?!
Ela olhou pra porta sem saber se deveria ir lá fora. Não queria ficar muito tempo longe das crianças. Mas parecia tentador ver a noite, e ouvir os sons da vida noturna naquele lugar. Sem contar que Emmett estava em algum lugar lá fora. Esse pensamento a fez sentir-se estranha. Sim, queria ir ate lá. Queria vê-lo, também.
– Talvez seja bom um pouco de ar puro – falou por fim. – Com licença – pediu ao se encaminhar rumo à porta da frente.
Atrás de suas costas, avó e neta trocaram sorrisos.
Do lado de fora, o ar estava agradável. A brisa noturna soprava a vegetação ao redor em um ritmo lento e constante. Como Lena havia dito; a lua estava linda no alto do céu, como uma verdadeira obra de arte.
Olhou em volta buscando algum sinal que indicasse a presença de Emmett. Mas tudo o que viu foi um guaxinim cortando a estrada em frente da casa.
O cricrilar dos grilos, o coaxar dos sapos chegando aos seus ouvidos em uma sinfonia noturna simplória. Tinha de admitir, aquele lugar, aquela tranquilidade, era algo com que sempre sonhou.
Notou uma luz acesa no celeiro. Imaginou que alguém estivesse lá; algum dos empregos da fazenda ainda cuidando do feno que foi entregue mais cedo.
Deu a volta seguindo pela varanda que rodeava toda a casa. Logo pôde avistar a figura grande e masculina encostada a balaustrada de madeira branca. Olhando para além da escuridão, na direção de onde o rio passava.
Mexeu as mãos dentro dos bolsos e caminhou até lá. Parou ao chegar perto, se posicionando ao lado dele. Retirou as mãos do bolso encostando-se a balaustrada também.
– Oi – disse ela. A voz suave e temerosa, olhando a escuridão à frente, da mesma forma que ele fazia.
– Oi – ele respondeu surpreso com sua presença. – As crianças já dormiram?
Sem olhar de fato para ele, respondeu:
– Já. Estavam fadigados de tanto brincar. Foi o dia inteiro assim – acrescentou gostando da lembrança recente de seus filhos brincando felizes pela propriedade da família McCarty.
Nesse momento teve certeza de que ele havia aberto um sorriso, e aquelas covinhas voltavam a aparecer em suas bochechas lhe dando um ar de menino levado.
– E você, o que está fazendo aqui? – ele quis saber.
“Queria te ver”, essa foi a resposta que passou pela mente dela, no entanto, limitou-se em responder com outras palavras.
– Sua avó me disse que estava fazendo uma noite linda... E...
– E você ficou curiosa – arriscou ele.
– É, acho que sim.
– Consegue ouvir? – ele perguntou.
– O quê? – ela pediu, sem entender.
– O barulho do rio. Ouça... – ele fez silêncio indicando com a mão a direção de onde o rio passava, muito embora nenhum dos dois pudesse de fato vê-lo aquela distância com toda vegetação à frente.
Ela moveu a cabeça afirmativamente. – É tão...
–... Tranquilizador? – ele completou a frase pra ela.
– Isso. É tão tranquilizador. – Ela olhou para o lado e novamente para frente, seus olhos alcançando a escuridão adiante. – Porque veio pra cá? – tomou coragem por fim de perguntar.
– Meus pensamentos estavam agitados...
Ao longe, ambos notaram a vegetação farfalhar. Um momento depois, ela perguntou.
– O que é aquilo? Aquelas luzes flutuantes piscando.
Emmett a olhou, dando a entender que não acreditava no que tinha acabado de ouvir.
– Nunca viu um pirilampo?
– Piri o quê?
– Vaga-lume.
– Então esses são vaga-lumes?! Nunca tinha visto pessoalmente. Apenas em desenho animado.
– Quando Kate e eu éramos crianças costumávamos prendê-los em um pote de vidro e deixá-los ao lado de nossa cama. Vovó era quem sempre nós levava para a caça a vaga-lumes. Mas eles tinham a vida curta dentro da garrafa, apenas alguns dias. – Sua expressão ficou nostálgica ao relembrar parte do passado. E Rosalie se viu imaginando um Emmett pequenino com uma rede de caçar borboletas capturando vaga-lumes ao lado de uma garotinha loura.
– São lindos de se ver.
– Não tanto quanto você – ele sussurrou. E mudou o olhar de direção, sustentando na figura ao seu lado. – Não está com frio?
– Um pouco – ela respondeu, não dando muita importância.
Então, pouco a pouco, ele passou o braço esquerdo ao redor do corpo dela. A primeira reação dela foi medo. No entanto, foi extremamente cuidado ao encostá-la a seu corpo. A tranquilidade chegando aos poucos não dando vazão ao medo.
Ela sentiu o perfume que ele exalava, na camisa. Teve vontade de encostar o rosto a ela e ali ficar.
Emmett aspirou o perfume nos cabelos dourados dela, bem devagar, como que desejando prolongar o momento. Recordando outras vezes em que esteve tão perto. E novamente o cheiro de maçãs estava lá.
Atreveu-se beijar a cabeça dela, em seguida, a têmpora direita.
Rosalie estava agora como que anestesiada pelo contato físico entre eles. Seu corpo tinha reações nunca sentidas antes. Estava gostando do toque dos lábios dele em seu cabelo e têmpora. Há muito não se lembrava do que era ser tocada por um homem com tamanho cuidado e carinho. A relação com Royce era na base do medo, da dor. Ameaças e submissão.
Virou o roso e seus olhos encontram-se com os dele. Naquela imensidão de azul, no brilho que refletia, havia tanto amor que a deixou tonta. Foi fisgada de tal maneira que não soube reagir.
Apenas por um instante, olhou para os lábios dele. O rosto dele se aproximando a ponto da barba rala roçar na pele lisa de seu rosto. A respiração morna em sua pele, contradizendo a brisa noturna.
Emmett a olhou no fundo dos olhos sustentando seu olhar por um tempo infindável, e uma de suas mãos alcançou de leve o rosto dela lhe acariciando a bochecha com o polegar. Seus rostos cada vez mais próximos. Os lábios dele se moveram até encobrir os dela; macio e suave. E então uma certeza lhe ocorreu; se existia paraíso esse lugar era ali, nos lábios dela.
O beijo foi tão suave, apaixonado, que a emocionou. Não se lembrava de ter sido beijada assim jamais. Entre lágrimas, ela retribuiu a demonstração de afeto. O coração pulsando forte, o corpo inteiro tremendo. Em uma luta entre o desejo e o medo.
Para ele, beijá-la foi como mergulhar em águas mornas. Como ter ficado em terras inférteis por muito, muito tempo, e de repente mergulhar no azul mais límpido, mergulhar nela.
Rosalie sentiu as mãos grandes lhe tocarem o rosto como quem toca pétalas de uma flor. Buscando amenizar o medo que pulsava nela. Reafirmando que ali era o seu lugar.
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