Um Lugar Para Ficar

6 Capítulo 06 – Apresentando a Família


Notas iniciais
Oi, gente. Como vocês estão? Esse capítulo é dedicado a duas pessoinhas adoráveis, Pam e RebecaHarumi, que estão sempre me motivando com seus comentários, e que agora deixaram uma recomendação linda a Um Lugar Para Ficar. Obrigada, gatinhas, eu adorei o que cada uma escreveu. Simbora ler o/

Ainda estavam todos parados em frente a grande e bonita casa de fazenda. Emmett afagava os cachorros, Jujuba e Caramelo, que pareciam não se cansar de fazer festa com sua chegada. Noah estava entre eles, se aproveitando do momento para abraçá-los. Vez por outra, uma das lambidas acertava seu rosto e ele sorria. Amy prosseguia dando seus gritinhos desejando estar fazendo o mesmo que eles, acariciando o pelo macio dos cães. Enrico ainda se mostrava inseguro em relação ao contato com os animais.

– Mamã. Au, au. Au, au. Mamã – Amy repetia, se remexendo no colo da mãe.

Quando menos esperava, um garotinho, que aparentava ter a mesma idade de seu filho Enrico saiu de dentro da casa e veio correndo ao encontro deles, gritando.

– Tio Emmett. Tio. Tio...

Emmett parou de acariciar os cachorros, olhando na direção de onde vinha o garoto.

– Oi, Logan. O que houve? Está tudo bem em casa?

Rosalie logo percebeu que, diferente de Emmett, Logan tinha cabelos louros. Na verdade, muito louro, quase branco.

Naquele instante, Emmett olhou para Rosalie ao seu lado, esclarecendo.

– Meu sobrinho. Como disse, por sorte, ele tem um nome normal. Quero dizer, não é nome de doce nem dana.

Ela apenas lhe ofereceu um pequeno sorriso mostrando que havia entendido.

– Tio Emmett.

– Fala, campeão – respondeu, bagunçando propositalmente os cabelos do garoto.

– A bisa passou mal outra vez.

– A pressão? – pediu Emmett.

– Sim. O doutor Carlisle esteve aqui hoje mais cedo.

– E ela ficou o tempo todo resmungando que estava bem? Aposto que sim.

O garoto sorriu.

– É. Ela ficou sim.

– Vovó não tem jeito – acrescentou como que falasse consigo mesmo. E, então, segurou o ombro do garoto gentilmente com as duas mãos. – Logan, eu quero que conheça essas pessoas. Essa é Rosalie Hale. E esses são seus filhos: Enrico, Noah e Amy. Enrico é apenas um ano mais novo que você. Noah tem quatro anos. E Amy é a caçulinha, tem somente dezoito meses. Eles vão ficar aqui com a gente... – antes que pudesse concluir, o sobrinho interrompeu.

– Eles vão morar aqui?

Imediatamente Rosalie se pôs a esclarecer.

– Oh, não, querido. Será apenas por alguns dias.

Emmett a olhou como se dissesse “pare com isso, sabe que pode ficar por quanto tempo quiser e precisar”.

– Olá – Logan cumprimentou a todos, mexendo a mão como que desse tchau.

– Oi – disse Enrico, meio tímido.

– Esses cachorros são seus? – Noah perguntou.

– São do meu tio e da minha mãe. Acho que isso faz deles meus também – e sorriu.

Noah olhou depressa para a mãe.

– A gente também pode ter um cachorro, mamãe? Pode mãezinha?

– Talvez algum dia – ela propôs tentando não desapontá-lo. Quando na verdade, seus pensamentos diziam: “Como podemos ter um cachorro se ao menos temos uma casa para morar”.

Emmett notou a mudança na expressão do rosto dela. Que o pedido de Noah havia de certa forma, mexido com seu emocional. E então se virou para o pequeno e começou a falar.

– Você e seus irmãos podem brincar com Jujuba e Caramelo sempre que quiserem. Eles são bastante dóceis. Nunca irão machucar nenhum de vocês. E digo mais, irá tentar protegê-los se for preciso. Minha sobrinha Abby, de cinco anos, faz deles cavalinho. Acredite no que digo.

– É sério? – Noah pediu.

– Sim.

– Obá! Você ouviu isso mãezinha? Ele disse que a gente pode brincar com os cachorros dele. Jujuba e Caramelo. Eles têm nome de coisa gostosa.

– A mamãe ouviu sim amor.

Emmett sorriu, virando o rosto de maneira que pudesse olhá-la novamente, e a encontrou sorrindo também.

– Vou pegar as coisas no carro pra gente poder entrar – avisou.

– Eu ajudo.

– Não. Você vai apenas levar a Amy. Os meninos me ajudam com as coisas. Não é Logan?

– Sim, tio.

Em pouco tempo Emmett passou a retirar todas as coisas de dentro do carro. As crianças se aproximaram e pegaram o que puderam para ajudar.

Todos eles caminharam em direção a casa com mochilas e sacolas.

As estrelas no céu surgiam aos poucos. O barulho da vida noturna na floresta tomava seus acordes, mostrando-se acolhedor. Sons que Rosalie e as crianças só conheciam por historias e filmes.

Mas ao pisar na varanda à frente da casa, a insegurança bateu em cheio. Por um instante temeu a reação da família dele. A recepção de um garotinho de oito anos de idade era uma coisa, outra bem diferente era a de um adulto, que poderia pensar horrores a seu respeito. E quem sabe até destratar seus filhos.

Atento as reações dela desde a primeira vez que a viu Emmett reconheceu sua hesitação no primeiro instante.

– Vamos lá – encorajou. Só lamentou não poder tocá-la, mesmo que apenas em seu ombro, pois suas mãos estavam carregadas de coisas no momento. Ficando apenas na vontade.

– Talvez fosse melhor que as crianças e eu ficássemos em outro lugar... Uma cabana quem sabe. Ou até mesmo no celeiro. Já vi que tem um bem ali atrás.

– Não volte a repetir isso – pediu ofendido. – São meus convidados. Não os trouxe até aqui para que dormissem em um celeiro. Ninguém nessa casa vai tratá-los mal. Isso eu posso te garantir, Rosalie.

Ela soltou o ar devagar, querendo muito acreditar nas palavras dele. Por hora fez a única coisa que podia fazer, concordou com um leve movimentar de cabeça. Ainda que insegura.

Ele mexeu com o ombro, convidando-a ir junto.

– Vamos!

Deu um passo a frente esperando que ela fizesse o mesmo. As crianças estavam logo atrás, conversando. Puxou a tela, e empurrou a porta de vidro um pouco mais para o lado. Dentro da casa, uma garotinha de longos cabelos louros, olhos na cor de esmeraldas iguais aos de Logan, e lábios que lembravam o da branca de neve, saltou do sofá, vestida em um pijama com estampas de gatinhos.

Emmett deixou a bagagem perto da mesinha do telefone, e abriu os braços para recebê-la.

– Como está a gatinha linda do titio? – pediu ao mesmo tempo em que lhe dava um abraço de urso e beijava seu rostinho corado.

– Eu estava com saudades – respondeu agarrada ao pescoço dele. – Estava assistindo desenho e queria que você estivesse aqui, aí você chegou. Foi como se fosse mágica.

– É? – beijou o rostinho da sobrinha outra vez. – E aposto que o desenho era Scooby-Doo.

– Acertou – Abby concordou sorridente.

– Depois o tio assiste com você – disse pondo ela de volta no chão.

– Cadê sua mãe, seu pai e bisa?

– Estão todos na cozinha. A bisa disse que não está doente. Não quer deixar a mamãe e o papai fazerem o jantar no lugar dela. Mas o doutor disse que ela tinha que repousar. Mamãe disse que repousar quer dizer descansar. Então a bisvovó tinha que descansar, mas ela não obedece.

– É isso mesmo gatinha.

Emmett virou o rosto devagar procurando por Rosalie.

– Eu vou até lá chamá-los.

Rosalie assentiu com um movimento de cabeça. Assim que ele desapareceu no cômodo ao lado, ela pôde dar uma rápida olhada ao redor. A decoração era simples e combinava com estilo de vida que levavam na fazenda.

Em um ambiente mais afastado havia uma enorme lareira. Diante dela, um bonito tapete felpudo vermelho e uma poltrona de couro antiga. Havia muitos porta-retratos impecavelmente organizados sobre a lareira. Ela se pegou pensando o quanto seria prazeroso fazer a leitura de um livro, em um dia frio, enquanto a lenha crepitava sendo consumida pelas chamas. No quanto seria prazeroso viver naquele lugar.

[...]

­– Parem de me tratar como se fosse uma inválida. Já disse que estou bem – a mulher de cabelos grisalhos que um dia havia sido tão louros quanto o da neta, resmungava ofendida. – Me sinto perfeitamente bem.

– Parem com isso. Até parecem crianças – brincou Emmett, ao entrar na espaçosa cozinha, onde uma mesa enorme ficava localizada ao centro.

– Ah, meu querido neto, graças a Deus você chegou. Sua irmã e seu cunhado estavam me deixando louca.

Lena foi abraçá-lo como se não o visse há anos, quando na verdade fazia apenas alguns dias. Segurou o rosto do neto entre as mãos pequenas que carregavam as marcas do tempo, beijando as maçãs de seu rosto demoradamente.

– Meu neto querido.

– Vovó pare com isso – Emmett resmungou.

Kate e o marido Garrett sorriam de pé do outro lado da cozinha.

As rugas ao redor dos olhos de Lena não conseguiam diminuir a beleza da cor esmeralda que foi passada adiante com a neta e os bisnetos. Emmett foi o único a herdar a cor azul dos olhos da mãe e do avô.

– O quê? Agora vão dizer também que não posso beijar meu neto?

– Não vovó, não é nada disso – Emmett esclareceu. – É que tem visitas na sala.

– Visitas a essa hora? Quem pode ser? – olhou para a neta, sem afastar as mãos das bochechas de Emmett. – Algum de nossos amigos está doente?

– Não vó. Eles estão comigo. São meus convidados.

– Desde quando você tem convidados? Não que isso me incomode, é só que não me parece coisa sua. Você sempre foi tão reservado, eu diria mesmo, solitário, meu neto.

– Venham até a sala, por favor. Eles estão esperando.

– Nossa, que mistério – acrescentou Kate, indo abraçar o irmão.

E foi assim, cheios de curiosidade, que deixaram a cozinha.

– Agora sim é que não poderão me impedir de preparar o jantar. Os convidados não podem comer a comida que Kate faz. É muito insossa.

– Vovó! – exclamou Kate, chocada.

– Não se ofenda minha neta...

Rosalie olhou na mesma direção de onde vinha o som de vozes. A ansiedade só aumentou.

Lena parou de falar quando avistou a figura dos convidados do neto na sala. Todos ainda estavam perto da porta. Os dois cachorros sentados no capacho como se fossem telespectadores.

– Ela é muito bonita – Garrett cochichou ao ouvido de Kate, que o olhou desconfiada. – Não me olhe assim – ele pediu. – O que quero dizer é que seria perfeita para namorar seu irmão. Ele está sozinho há muito tempo.

– Ela deve ser casa – Kate cochichou de volta.

– Parem com isso – se queixou Emmett, falando tão baixo quanto eles.

– Olá, querida – todos pararam com o cochicho, surpreendidos pela voz da avó que se apresentava, abraçando Rosalie. – Seja-bem vinda. Eu me chamo Lena e aquela moça ali é minha neta Kate e o marido dela, Garrett. Esses dois – disse ao encostar a mão sobre a cabeça de Logan e Abby – são meus bisnetos, filhos do casal.

– Vovó – começou Emmett. – Eu era quem deveria estar fazendo isso. Apresentando a família.

Ignorando o comentário do irmão, Kate e o marido se aproximaram cumprimentando Rosalie e as crianças.

– Não seja tolo meu neto – Lena se queixou olhando para ele. E ao voltar olhar para Rosalie, completou. – Então querida, não é namorada dele é? Essas três crianças lindas tem chance de serem meus bisnetos também?

Rosalie ruborizou de tal maneira, que sentiu o fogo consumindo suas bochechas.

– Oh, não senhora. Emmett e eu somos apenas bons amigos.

– Oh, que lástima. Eu tinha esperança de que você diria que eram a família que meu neto escondia da gente – puxou Emmett pelo braço, um pouco mais para o lado de Rosalie. – O par perfeito. O Yin e Yang do outro, se é que esse troço existe mesmo.

– Vó, a senhora está deixando ela sem graça.

Lena fez pouco caso do aviso do neto.

– Querida, me diga uma coisa. Onde está o seu marido então?

Subitamente Rosalie teve vontade de pegar os filhos pela mão e sair correndo dali. Não queria ter que falar de Royce pra eles. Não ainda. Não quando tudo ainda estava latejando com o medo a insegurança e a dor.

Emmett voltou interceder por ela.

– Vovó, Rosalie e as crianças estão cansadas. Todos eles precisam de um banho antes do jantar.

Kate deu um passo à frente.

– Pode deixar que eu os acompanho até o quarto. E lhes mostro onde fica o banheiro.

– Eu vou junto para ajudar com as mochilas – Emmett acrescentou.

– Tudo bem – disse Lena. – Tome um banho querida, e depois volte para jantar conosco. Eu vou agora mesmo cuidar disso, devem estar famintos. Vou fazer algo saboroso.

Garrett sorriu pra Rosalie, se retirando do caminho para ela e Kate passarem com as crianças.

– Emmett? – Lena o chamou.

– Sim, vovó?

– Essa moça e essas crianças não são mesmo suas? Diga-me a verdade, mocinho. Eu sou sua avó, tenho o direito de saber.

– Não, vovó. Eu os conheci durante a viagem. É uma longa história... Ela falará sobre isso quando se sentir confortável. Por favor, não sejam apressados, Rosalie precisa de um tempo. As coisas andam bem difíceis pra ela.

– Essa moça, por um acaso, está fugindo de alguém?

– Do marido.

– Você quer protegê-los, não quer?

Ele apenas confirmou movimentando a cabeça.

– Pode deixar querido. Eu vou ajudar no que for preciso. Sua mãe sentiria orgulho de você... Oh, minha doce Aimee – murmurou, com os olhos cheios de lágrimas. – Bem, vai lá querido – passou as mãos nos olhos afastando as lágrimas. – Faremos por essa moça e suas crianças o que não fizeram por você e sua irmã. Vai. Vai lá e faça com que se sintam em casa.

– Obrigado, vovó.

– Não, você não tem que agradecer por isso. Agora, vai.

E então Emmett os seguiu pelo extenso corredor, levando as coisas de Rosalie para o quarto que ela e as crianças ocupariam.

[...]

Parados agora na metade do corredor, Kate falava com eles.

­– Você pode ficar nesse quarto com o bebê. Os garotos podem dividir o quarto ao lado. Têm duas camas de solteiro. Eles estarão bem acomodados lá.

– Não vai ser necessário, Kate. Eles podem ficar comigo. Vai ser melhor assim. Nenhum de nós está pronto para se afastar... Ainda que haja apenas uma parede entre nós. De qualquer forma, muito obrigada. Todos vocês estão sendo muito atenciosos e gentis comigo e com meus filhos. Nunca poderei agradecê-los o suficiente por tudo que estão fazendo.

– Ei – disse Emmett, chegando mais perto.

Kate voltou a falar. – Entendo... – e então se virou para olhar o irmão.

– Esse quarto é perfeito para você e as crianças – ele anunciou, em uma tentativa de tranquilizá-la. – A cama é grande e bastante confortável – passou pela irmã, levando a mão à maçaneta. A porta foi aberta sem pressa revelando aos poucos um quarto amplo e arejado. – Fiquem à vontade.

– Desculpe, a única suíte é a da vovó – Kate explicou. – A casa é antiga. A vovó não aceitou grandes mudanças quando a reformamos. O banheiro fica no fim do corredor. Mas, caso esteja ocupado, vocês podem usar o que fica entre a sala e a cozinha.

– Tudo bem. Não tem problema algum.

– Eu vou deixar toalhas limpas no banheiro. Dentro do armário tem produtos de higiene novos. Pode usar o que quiser.

– Obrigada, Kate. Será que teria algum lugar onde eu possa lavar nossas roupas. É que estamos ficando sem ter o que vestir... – sua voz diminuiu, ficando envergonhada em ter que dizer isso em voz alta.

– Claro que sim. Depois te mostro onde fica a área de serviço, e você pode usar a vontade tudo o que tem lá. Posso te trazer algo do Logan para os garotos e algo meu pra você, se não tiverem nada limpo para vestir agora.

– Acho que ainda deve ter algo limpo. Mas, mesmo assim, obrigada.

– Certo. Então eu vou preparar as toalhas limpas. Em um minuto estarão disponíveis no banheiro – com essas palavras, ela seguiu pelo corredor.

Emmett olhava para Rosalie quando ela se virou em sua direção.

– Quero que você e as crianças se sintam a vontade.

– Eu nem sei como agradecer pelo que estão fazendo...

Ele meneou a cabeça.

– Já disse para não agradecer a todo o momento. Apenas faça o que precisa, e descanse um pouco. Eu vou lá fora descarregar o carro. São coisas para uso na terra. Vejo você daqui a pouco, no jantar.

– Obri... – ele a olhou com uma sobrancelha erguida. – Certo, eu vou tentar não fazer isso a todo instante – ela se corrigiu.

Com um sorriso no rosto, Emmett se virou para os meninos. E Curvou-se um pouco para falar com eles.

– Cuidem da mãe e da irmãzinha de vocês. Nos vemos novamente daqui a pouco.

Tocou de leve na cabeça dos dois, e bagunçou seus cabelos. Como os de Noah era mais comprido que os do irmão, a desordem ficou mais a vista.

– Obrigado, Emmett – os dois agradeceram ao mesmo tempo.

– Não vão ficar igual à mãe de vocês, me agradecendo a cada segundo?! – os garotos abriram um sorriso. – De hoje em diante é assim que devem sempre estar. Felizes e tranquilos.

Voltou a sua postura correta. De frente pra Rosalie, segurou na mãozinha roliça de Amy beijando seus dedinhos. A pequena levou a outra mão ao rosto dele, mas afastou assim que sentiu a leve camada de barba pinicar sua mãozinha.

Emmett esfregou as próprias mãos no rosto enquanto olhava para ela.

– Você acha que preciso retirar a barba? – Amy falou alguma coisa em linguagem de bebê, e ele fingiu entendê-la. – É. Eu também acho. Preciso mesmo retirar essa barba.

– Baba – ela repetiu.

– É, barba.

Antes que pudesse voltar a dizer qualquer outra coisa, olhou para Rosalie. Pensou se talvez devesse beijar seu rosto. Mas lembrou de como ela reagiu só por ter tocado em seu joelho dentro do carro.

– Você leva jeito com crianças – ela comentou um pouco encantada com o modo como ele agia com seus filhos. – Quero dizer, seus sobrinhos são loucos por você.

– Aqueles dois ali tem toda a família nas mãos – revelou. – Bem, acho que falei demais. Melhor deixar você e as crianças se instalarem em paz. Vejo vocês daqui a pouco.

– Certo.

Assim que ele deixou o quarto, Rosalie e as crianças começaram desfazer as mochilas.

Emmett caminhava sem pressa, pensando nela e nas crianças, quando, de repente, foi surpreendido pela irmã que o puxou para dentro de seu quarto.

– Me conta – Kate exigiu –, o que você está fazendo?

– Como assim o que estou fazendo? – não entendia aonde a irmã queria chegar agindo daquele jeito.

Seu olhar preocupado foi em direção à porta aberta, e então Kate foi até ela e a fechou.

– Porque os trouxe pra cá? De onde os conhece? Estou com medo de que se meta em encrenca. Que faça alguma besteira. Meu Deus, quem são essas pessoas? Porque esse interesse todo a ponto de trazê-los para cá? Você jamais fez algo parecido antes.

– Não estou fazendo nenhuma besteira Kate. Estou apenas ajudando uma família, assim como um dia desejamos que alguém tivesse ajudado nossa mãe. Nos ajudado. Eu os conheci durante uma madrugada, no estacionamento de um hotel na beira da estrada – Kate o olhou exigindo saber mais. – Não. Eu não transei com ela, se é isso que quer saber. Noah, o garotinho do meio, estava sozinho no estacionamento. Estava chorando quando o encontrei. Aquela cena me fez lembrar a gente quando criança. Não pensei duas vezes. Eu tinha que ajudá-los. Você precisava ver. Ele ficou muito assustado no começo, mas depois relaxou. Perguntei onde estava sua mãe, e ele me respondeu que tinha ido comprar comida. Por sorte, eu tinha comigo um lanche e ofereci a ele. Mas aí a mãe apareceu e arrancou das mãos dele, quase tendo um troço.

– Não é pra menos. Você estava oferecendo comida ao filho dela. Uma criança que estava sozinha. Eu também reagiria da mesma forma. Mas, ela deixou o garotinho no estacionamento? Que tipo de mãe faz isso?

– Não, de forma alguma. Pelo que entendi ela tinha deixado os três dentro do quarto e pediu que só saíssem de lá se estivesse pegando fogo. Mas Noah desobedeceu.

– Você sabe de quem eles estão fugindo?

– Do pai das crianças. Ela e os dois garotos estão com marcas de violência pelo corpo. A bebê é a única que não foi agredida, e sabe porque?! Porque aquela mulher com seus os dois filhos pequenos lutaram pra evitar que isso acontecesse. Tem ideia do que foi isso? Duas crianças pequenas lutando com a mãe para proteger a irmã menor? Ela fugiu para proteger as crianças e a si mesma da ira de um monstro.

– Eu já tinha percebido os hematomas no pescoço dela. É como se ele tivesse tentado estrangulá-la. Também notei os dos braços. E, mesmo com a maquiagem, percebi o olho roxo. Por isso imaginei que você estivesse metido em encrenca.

– Ele tentou Kate. E as crianças viram... – Kate viu dor nos olhos do irmão ao relatar o sofrimento daquelas pessoas. – E foram eles que ajudaram se livrar do monstro que a atacava. Eu não os encontrei por acaso. E vou protegê-los, custe o que custar.

Com lágrimas nos olhos, Kate abraçou o irmão mais velho. Ele soluçou no ombro dela.

– Enrico conseguiu salvar a mãe dele. Eu... – outro soluço.

Kate o abraçou ainda mais forte. Desejando que o irmão pudesse esquecer o passado como ela havia feito.

– Não volte a pensar nisso, meu irmão. Isso só te faz mal. Por favor, Emm, esqueça isso.

– Eles são parte dessa família agora. Todos eles... Você entende?

– Você vai acabar se apaixonando por ela, e pelas aquelas crianças também.

– Acho que é tarde demais – confessou. – A viagem até aqui foi o bastante para perceber a mulher incrível que ela é. Não é apenas frágil e sozinha. É guerreira. É honesta. É verdadeira. E ama aquelas crianças como louca. E eles amam a ela.

Kate afagou o roto do irmão, preocupada com o quanto ele estava envolvido em tudo aquilo. E o quanto aquela historia poderia afetá-lo.

– E se eles precisarem partir...? Se ele os encontrar? Você vai se ferir de todas as formas, meu irmão. Não quero que isso aconteça. Tenho medo que tudo isso acabe mal.

– Não vou deixá-los partir. Não sem mim.

– Você nem sabe se ela sente o mesmo por você. Teria coragem de nos deixar pra ir com eles?

– Você está segura agora. Seu marido te ama. Garrett é bom para você e as crianças. E pra vovó, também. Eles precisam de mim. E se tiverem que partir, eu irei com eles.

As lágrimas estavam nos olhos de Kate. Sabia que o irmão havia tomado aquela família pra si. E que morreria tentando protegê-los.

– Então faremos de tudo para que não tenham que partir – garantiu a ele.

Os irmãos se abraçaram, emocionados. Aquela havia sido uma conversa cheia de reminiscências. Era difícil não se sentir atingido.

Emmett deixou o quarto da irmã pouco tempo depois. Kate saiu logo atrás, levando as toalhas limpas para o banheiro, no fim do corredor.

Passaram-se alguns minutos até Rosalie enfim sair do quarto com as crianças, levando todos para o banheiro. O corredor estava totalmente vazio. Mas era possível ouvir vozes, vindo da cozinha.

Depois de dar banho nos filhos e vesti-los, os deixou no quarto para que pudesse voltar ao banheiro e tomar seu próprio banho. Levou a roupa para se vestir lá mesmo, não tinha a menor chance de sair desfilando de tolha na casa dos outros. Não bastasse Emmett, ainda corria o risco de encontrar com o marido da irmã dele. Totalmente desnecessário essa situação.

Teve vontade de pôr o vestidinho simples – o único que conseguiu levar – fazia dias que não usava um. Mas por causa de todos os hematomas, entre outras marcas de violência, soube que não estava preparada para usar. Acabou vestindo um short jeans e uma camisa de malha preta.

Suas opções de roupas estavam bem precárias assim como a dos garotos, que tinham pegado apenas conjuntos de malha, claro, as roupas cujo seus personagens favoritos estampavam.

Voltou ao quarto e encontrou os filhos sentadinhos na cama, cercando a irmã menor de um lado a outro sempre que se movimentava, impedindo-a de cair no chão.

Estava penteando os cabelos quando leves batida atingiram a porta chamando sua atenção. No mesmo instante seus filhos lançaram o olhar naquela direção, parecendo assustados.

– Está tudo bem – ela os tranquilizou –, não é ele.

Caminhou para perto da porta, e ao abri-la se deparou com os sobrinhos de Emmett.

– Oi – disse, olhando os dois parados do outro lado da porta aberta. Reparando bem, percebeu que, apesar de Logan ser mais velho que Abby, pareciam gêmeos de tão parecidos que eram.

– Noah e Enrico podem vir brincar com a gente na sala? – pediu Logan. – A bisa ainda não terminou de preparar o jantar. Então a gente ainda pode brincar um pouco.

– Ah – um pequeno sorriso chegou aos seus lábios ao constatar o motivo de eles estarem ali. – Eles podem ir sim – ela se virou para olhar os filhos. – Meninos, Logan e Abby estão aqui para saber se vocês querem ir brincar com eles lá na sala.

Os dois se remexeram na cama, ansiosos para sair e poder brincar com outras crianças. Uma vez que isso raramente acontecia em seu dia a dia, na cidade onde vivam antes.

– Podemos mesmo, mamãe? – sondou Enrico.

– Se vocês quiserem.

– E a Amy? – Noah questionou.

– A Amy fica com a mamãe. Eu vou preparar uma mamadeira bem gostosinha lá na cozinha, e depois que ela mamar, vai pra dormir.

Os dois saíram da cama quase que ao mesmo tempo. E ao perceber que ficaria sem os irmãos, Amy logo começou chorar.

Rosalie deixou a porta aberta e foi ficar com ela.

– Oah... Ico – Amy pediu, apontando o dedinho roliço para os irmãos.

– Eles vão brincar bebê. Daqui a pouco eles voltam – a mãe explicou, beijando seu rostinho molhado de lágrimas. E Amy olhou para ela fazendo beicinho com uma bolha de baba na boca.

– Ela é tão bonitinha – a voz de Abby atraiu sua atenção. Ela segurava uma bonequinha da Turma da Moranguinho em uma das mãos. – Eu posso dar pra ela essa bonequinha? Posso?

– Sua mãe não vai achar ruim?

– Não. Não vai, não. Eu tenho outras lá no meu quarto – se esticando um pouco pra frente, estendeu a mão com a boneca para Amy, que parou de chorar na mesma hora.

– Mamã, ó – balbuciou, mostrando a bonequinha pra mãe.

– Você gostou amor?

– Tô – respondeu, balançando a cabeça. Depois abrindo um sorriso que mostrava os poucos e pequeninos dentes de leite. A baba ainda estava ali.

Abby gargalhou.

– Ela é tão lindinha.

– Você também é linda, Abby.

– Obrigada – respondeu, mexendo no pezinho de Amy. – Oh, que bonitinha. Bebê – brincou com Amy, arrancando sorrisos babado.

– Já podemos ir mamãe? – Enrico pediu.

– Podem. Mas, pelo amor de Deus, não mexam em nada a não ser no brinquedo que Logan vai deixar vocês brincarem.

– Tá.

– Ouviu o que a mamãe disse Noah?

– Ouvi dona mãezinha.

Logo depois que as crianças deixaram o quarto, ela pegou as latas dos pós para o preparo da mamadeira, e foi à cozinha com a filha no colo. Amy segurava a bonequinha que tinha acabado de ganhar, e parecia feliz com seu novo brinquedo.

– Com licença... – murmurou, na entrada da cozinha.

Garrett cortava cebolas de frente a pia. Lena verificava algo na panela em cima do fogão. O aroma delicioso fez a boca de Rosalie se encher de água. Não soube ao certo o que era, mas pelo cheiro devia ser muito bom.

– Oi, querida. Já se instalou? – Lena pediu, dispensando a colher dentro de uma tigela sobre a pia.

– Sim, dona Lena. Estava mesmo louca por um banho decente. Será que eu poderia usar o fogão de vocês para aquecer o leite – pediu, meio sem jeito, mostrando as coisas da filha que segurava junto a ela no colo.

– Primeiro, me chame apenas de Lena. Deixa esse negocio de dona pra lá. Pra que essas formalidades. Você pode fazer o que quiser aqui. Fique a vontade. Garrett, por favor, dê espaço para ela usar a pia. Chega pra lá.

Garrett abriu um sorriso, e chegou mais para o lado.

– Sempre acaba sobrando pra mim – comentou com Rosalie, quando ela se aproximou da pia.

– Eu ouvi isso – cantarolou Kate, entrando na cozinha.

– Eu não estava reclamando amor.

– Acho bom que não esteja mesmo – respondeu ao passar por ele, lhe dando um beliscão na cintura. E, então, se dirigiu a Rosalie. – Posso segurá-la enquanto você prepara a mamadeira? Ela não vai chorar, vai?

– Na verdade, eu não sei dizer. Ela nunca ficou com outra pessoa antes, tirando os meninos.

– Façam um teste – Lena recomendou.

– Posso? – Kate estendeu os braços em frente ao corpo. Desejando muito poder segurar Amy no colo.

Quando a mãe fez menção de entregá-la a Kate, Amy agarrou-se a sua camisa com as duas mãozinhas, sem querer se separar dela.

– Cuide da mamadeira, Kate – Lena voltou a falar.

– Não é necessário gente. Eu mesma posso fazer isso. Eu consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo, não se preocupem. Faço isso desde Enrico. Estou acostumada.

Foi enquanto ela falava que Emmett chegou à cozinha. Estava de banho tomado, cheirava a sabonete e loção pós-barba.

Os olhares se cruzaram no mesmo instante. Lena observa cada pequeno movimento e atitude. Seus olhos brilhavam na esperança de encontrar qualquer coisa que revelasse algo a mais entre eles.

Kate chegou mais perto de Garrett, cutucando suas costelas, dando a entender que deveria observar a cena.

Rosalie olhou para trás, tentando adivinhar para onde Emmett estava indo, imediatamente percebendo que atrás de suas costas havia apenas o fogão. Chegou para o lado, pensando que talvez ele quisesse beliscar algo nas panelas. Só não estava preparada para sentir o roçar da pele do braço dele no seu. Ele estendia os braços para pegar Amy no colo contrariando seus pensamentos.

– Posso segurá-la?

Ela o olhou sem acreditar no que estava acontecendo.

– O quê?...

Kate tentou alertá-lo.

– Ela só fica com a mãe ou os irmãos. Nem adianta tentar, ela não quis nem vir comigo.

Emmett ignorou seu aviso. Sorrindo para Amy, lhe estendendo os braços. Para a surpresa de todos, não só da mãe, a garotinha aceitou ir ao colo dele.

Rosalie ficou sem reação, e seus olhos marejados. Nem mesmo o pai se ofereceu para segurá-la um dia. Desde que nasceu Amy jamais soube o que era carinho e colo paterno.

Todos na cozinha trocaram olhares de grande surpresa, sem se importar em disfarçar.

– Não se preocupe, eu vou estar aqui o tempo inteiro – avisou para tranquilizá-la.

– Tá – Rosalie respondeu atônita.

– Baba – Amy falou, levando as duas mãos pequeninas ao rosto dele outra vez. Tocando onde a barba deveria estar.

– Não tem mais barba. A barba sumiu – ele disse, fazendo graça.

– Miu?

– Isso, sumiu.

– Qui – disse Amy, batendo de leve com a mãozinha no rosto dele. – Miu.

Disfarçadamente, Rosalie limpou uma lágrima que escapou no canto de seu olho direito.

– Eu vou me sentar ali perto da mesa com ela, tudo bem?

– Tudo bem.

Emmett ainda se movia pela cozinha quando Rosalie começou preparar a mamadeira pra filha. Apesar de ainda estar muito surpresa, tentava se concentrar no que estava fazendo, para não deixar derramar nada e ter ainda mais do que se envergonhar.

De costas para eles, derramou mais algumas lágrimas. Mas Kate, que estava ao seu lado, percebeu.

Levou a mão ao ombro de Rosalie, e sussurrou:

– Ficaram bem agora... Estão seguros aqui.

Ofereceu um sorriso compreensivo e então se afastou. Dando espaço para que pensasse um pouco. Encontrando um lugar para ficar ao lado do irmão, enquanto brincava com Amy.

Dois estranhos estavam brincando com sua filha. E ela se divertia, dava gritinhos e gargalhadas. Isso foi o bastante para que Rosalie secasse as lágrimas do rosto e deixasse de chorar, ao menos por aquela noite.

– Eu já terminei aqui – ouviu Garrett avisar.

Lena chegou ao lado dele e disse para se sentar. Garrett secou as mãos no pano de prato e fez como ela havia dito.

Naquele momento Rosalie sentiu a avó de Emmett chegar ao seu lado, em frente ao fogão, acrescentando as cebolas picadas ao molho.

– Querida, suas crianças gostam de macarrão com almondegas?

Isso a fez sorrir.

– Eles adoram.

– Então parece que acertei – Lena se gabou, abrindo um sorriso. – Nunca erro nos gostos de meus bisnetos – Rosalie a ouviu sussurrar de frente para as panelas.

Foi estranho, mas aquelas palavras sussurradas tiveram um efeito caloroso e positivo sobre seus sentimentos e coração de mãe. Nunca antes havia se sentido assim. Amparada.

Notas finais
Bem, é isso galerinha. Espero que tenham curtido :) Se sentir vontade, deixe algumas palavrinhas pra mim. Caso alguém se interesse, deixarei aqui o link de mais uma fic minha que acabei de postar. http://fanfiction.com.br/historia/631540/A_Dama_e_o_Vagabundo/ Beijo, beijo Sill