Um Lugar Para Ficar
5 Capítulo 05 – A Chegada
Notas iniciais
Depois de pagar pelo pernoite, Emmett recebeu as chaves dos quartos dez e onze, e juntos se encaminharam para lá. Cansados, ansiando poder descansar.
Rosalie ficou no quarto de número dez. Assim que entraram Enrico e Noah largaram suas mochilas sobre um banco comprido e se jogaram imediatamente na cama que, por sinal, não era tão dura quanto à da noite anterior. E tinha até mesmo um jogo de cama limpo – cheirando a alvejante – e travesseiros.
– Obrigada, Emmett...
– Você tem que parar de me agradecer tanto.
– Isso é quase impossível – ela acrescentou se sentindo um pouco desconfortável.
– A propósito, quero avisar que não se preocupe com o jantar das crianças. Eu vou só tomar um banho antes, e então me informo com o carinha da recepção onde posso encontrar um local que a comida seja de boa qualidade.
– É sério, Emmett, você não deveria se preocupar tanto.
– Mas me preocupo, Rosalie. E tudo o que espero de você é que me permita ajudá-los.
Ela realmente não soube o que dizer.
Com a proximidade entre eles, Amy estendeu a mão pequenina até encostar ao peito largo de Emmett, esboçando algumas palavras confusas, na linguagem de bebês.
A mãe estremeceu recordando a forma bruta como Royce reagia a sua proximidade. Seus olhos reagiram demostrando pânico, e rapidamente Emmett a viu recolher a mão da filha segurando-a rente ao peito.
– Ei, está tudo bem – disse ele, preocupado com as duas. – Não vou machucá-la, Rosalie. Não vou machucar nenhum de vocês. Estão seguros comigo. Acredite.
– Eu já notei isso – ela comentou em um fio de voz. – Não é essa a razão... É só que...
– Eu entendo perfeitamente, mais do que você possa imaginar – ele deixou a frase se perder no ar enquanto ela refletia.
E então ergueu a mão com um movimento suave acariciando os fios dourados dos cabelos dela, em seguida, os de Amy. Sem mencionar nem mais uma palavra se retirou.
Após fechar a porta, ainda muito afetada por tudo que a bondade daquele homem lhe passava, dedicou-se inteiramente aos filhos.
Convidou os três ao banheiro para um banho. Depois dos meninos usarem o vaso sanitário, os levou para debaixo do chuveiro.
Enrico segurava na mãozinha da irmã enquanto a mãe se encarregava de lavar os cabelos de Noah, e esfregá-lo por inteiro arranco toda sujeira que pudesse estar grudada a ele.
– Você está parecendo um porquinho, sabia?! – ela brincou.
Noah sorriu e, em seguida, emitiu um grunhido que lembrava um porquinho.
– Eu sou que nem o George, irmão da Peppa Pig – outro grunhido, e uma risadinha. – Eu sou um porquinho. Noah porquinho – outro grunhido, seguido de uma risadinha.
– Você é cor-de-rosa? – Enrico perguntou.
– Saí fora, ô. Eu sou menino. Cor-de-rosa é de meninas.
– Então que cor que é de menino? – a mãe sondou.
– Azul mãezinha. Azul é de meninos. Só Amy que pode ser cor-de-rosa. Nem você Rico. Você é menino. Você tem pinto que nem eu. O pinto de Amy caiu quando ela nasceu da barriga da mãezinha, lá no hospital.
– Ai, meu Deus – o irmão comentou, caindo na gargalhada. Mesmo sem entender do que eles riam, Amy riu também.
– Mamãe – Noah voltou a falar. – Mãezinha, eu gosto dele – comentou.
– De quem filho? Do George?
– Não, do Emmett. Ele é muito bonzinho.
– É sim, amor. Ele é muito bonzinho – a mãe concordou pensativa, enquanto ainda esfregava seus cabelos.
Terminou de ensaboa-lo e o colocou embaixo do chuveiro. Recomeçando todo aquele mesmo processo com Amy. Depois a pegou no colo, e, com uma só mão, ajudou o filho Enrico. Como os cabelos dele eram pouco mais curtos que o de Noah, lhe dava menos trabalho para lavar.
– Desculpe filho. Em outro momento a mamãe faz isso direito.
– Tudo bem, mamãe. Eu posso fazer isso sozinho. Eu já sou grande.
– Eu sei que já é um rapazinho, mas a mamãe ainda prefere lavar seus cabelos – ela olhou para Noah. – Se enxague direito, mocinho. E pare de gracinha antes que acabe caindo.
– Eu estou enxaguando direito, mãezinha.
– É, e porque a mamãe ainda está vendo bastante espuma aqui atrás? – avisou, cutucando a nuca dele.
– Eu vou lavar ainda.
– Ah, tá. Enrico, filho, ajuda o seu irmão. Eu vou vestir a Amy, ela já está tremendo de tanto frio. Tomem cuidado pra não cair.
– Tudo bem, mamãe – ele concordou se posicionando ao lado do irmão. Mas antes quis retirar o sabão de seu próprio corpo.
Rosalie deixou o banheiro com a roupa completamente molhada. Deitou Amy na cama, secou seu corpinho e pôs uma fralda limpa. Depois a vestiu com uma roupinha quente.
Estava penteando os cabelos de Amy, quando os meninos apareceram no quarto dividindo a mesma toalha. Dessa forma mantinham apenas as costas encobertas.
Teve vontade de rir da cena a sua frente. Mas desistiu ao perceber que tremiam de frio.
Os dois se aproximaram da cama. Ela deixou Amy distraída com a bonequinha de pano e foi secá-los. Ambos se remexiam o tempo inteiro, tentando espantar o frio.
Pegou na mochila de cada um, uma cuequinha e um conjunto de malha com estampas de desenhos animados. Penteou seus cabelos e os mandou pra cama.
– Enrico, presta atenção no que a mamãe vai dizer, por que seu irmão é terrível.
– O que mamãe? – o menino pediu se remexendo na cama, virando-se para olhá-la.
– A mamãe vai tomar banho agora, e você, de maneira alguma, deve abrir aquela porta ou deixar que seu irmão abra, a menos que seja Emmett do outro lado pedindo para entrar.
– Tá.
– Porque o Enrico, mãezinha? – Noah se queixou, fazendo cara de bravo.
– Porque você me desobedeceu na outra noite. Por sorte não entramos numa bela de uma encrenca. Melhor nem pensar nisso. Sinto-me até mal.
A expressão em seu rostinho se entristeceu.
– Eu pedi desculpas... – sussurrou, envergonhado.
– Eu sei amor. E a mamãe já desculpou. Mas o fato de termos encontrado uma pessoa boa, não diminui o risco que você correu e o susto que me fez passar. Eu quase enfartei Noah.
– Mãezinha...? – ele gemeu choroso.
– O que meu gostoso?
– Dá um beijinho.
Embora estivesse deitado, estendeu os bracinhos para alcançá-la. A mãe não resistiu, acabou fazendo sua vontade. Curvou-se agarrando o garoto em seus braços, beijando todo seu rostinho e pescoço. Depois fez o mesmo em Enrico e Amy.
– Cuidem da Amy pra mamãe – avisou a caminho do banheiro, levando a toalha molhada na mão. Pensando que tivera muita sorte em encontrar o homem que estava os ajudando. Quantos teriam a mesma sorte em encontrar um ser humano de coração bondoso, compreensivo, em um hotel na beira da estrada?
E foi enquanto ainda tomava banho que Emmett retornou trazendo o jantar como havia prometido.
Bateu na porta com a mão livre, aguardando que alguém abrisse. Inicialmente os meninos ficaram assustados e apreensivos. Agarram-se um ao outro de maneira que a irmãzinha ficasse entre dos dois. Amy não entendia e tentava empurrá-los, se irritando por querer continuar brincando.
– Q-Quem é? – Enrico gaguejou ao tentar ser precavido.
– É o Emmett. Eu trouxe o jantar.
O garoto saiu da cama, devagar, ainda bastante desconfiado.
– Por favor, não me diz que sua mãe saiu como na noite em que encontrei vocês – sua voz soou preocupada demais, embora ganhasse um tom de raiva em pensar que fosse tão maluca a esse ponto, mesmo tendo avisado para não se preocupar com a comida.
Com a porta ainda fechada, Enrico respondeu:
– Não. A mamãe está tomando banho.
– Você pode abrir a porta pra mim?
– Tá. Espera um pouco.
Emmett ouviu a chave girar na fechadura, uma cadeira sendo arrastada, depois a tranca sendo afastada. Por fim a maçaneta girou e a porta foi aberta.
– Eu posso entrar e ficar um pouco com vocês?
Segurava a caixa de pizza em uma das mãos junto a uma sacola com refrigerante e copos descartáveis.
– Pode. Só que eu vou ter que fechar a porta outra vez, senão mamãe fica brava comigo.
– Tudo bem, campeão. Também acho uma excelente ideia que a mantenha bem fechada.
Emmett se encaminhou ao centro do quarto enquanto o garoto se encarregava de fechar a porta outra vez.
– Oba! – Noah comemorou, depois de soltar a irmã. – Pizza, pizza, pizza. Pizza é uma delicia.
Emmett sorriu satisfeito com a empolgação demonstrada por ele.
Ainda estava de pé no meio do quarto quando, de repente, Rosalie apareceu na porta do banheiro com apenas uma toalha enrolada ao corpo.
Muito desconfortável, ela parou abruptamente no umbral da porta dando um passo para trás, cambaleante. A cena atraiu o olhar de Emmett da mesma forma que ocorre a atração entre imãs. Ele a olhou dos pés a cabeça e, inesperadamente, o coração de ambos reagiu com galopes desenfreados.
Os hematomas no pescoço, braços e pernas não foram suficientes para ocultar toda sua beleza naquele traje, ou na falta dele.
De repente, ele se pegou pensando o como seria prazeroso tocar com suas grandes mãos, centímetro por centímetro, do corpo dela. Se pudesse cuidar e aliviar cada dor por trás de todos aqueles machucados com seus beijos.
Ao contrário dela que sentiu a maior vergonha de sua vida. Queria se esconder, fugir dos olhos dele. Sentia-se horrível e não estava preparada para que nenhum outro homem a visse vestida daquele jeito.
Desconfortável, ela passou a mão nos cabelos molhados.
Inevitavelmente, Emmett chegou à conclusão de que ela não usava nada por baixo da toalha de banho. Suspirou disfarçadamente a ansiedade que chegava rapidamente as partes íntimas.
– Desculpe-me – pediu, virando-se de costas para ela, lhe dando um pouco de privacidade.
Rosalie voltou correndo para dentro do banheiro, esbarando nas coisas, no pequeno espaço. Fechou a porta rapidamente e encostou-se a ela. Não entendia o porquê de estar tremendo tanto. Ele apenas a viu de toalha, e não era uma pessoa má, em todo caso.
– Enrico – ela chamou, com voz soando estranha –, traz a mochila com as coisas da mamãe, filho.
– Já estou indo, mamãe.
O garoto atravessou o quarto correndo. Recolheu a mochila com as coisas da mãe, mesmo com dificuldade por causa do peso, e levou até ela.
– Obrigada amor – Emmett a ouviu agradecer ao garoto.
Depois disso, Enrico voltou para perto da cama juntando-se aos irmãos menores.
Dentro do banheiro Rosalie resmungava consigo mesma por estar tremendo tanto por uma coisa tão boba como aquela.
Poucos minutos depois voltou aparecer na porta, trajando um short jeans e uma camisa branca de malha com uma grande estampa preta na parte da frente. Os cabelos úmidos, porém, bem penteados. Os pés estavam descalços, precisavam disso, por todas as bolhas adquiridas durante a longa caminhada do dia anterior.
– Oi – ela o cumprimentou mesmo que ainda envergonhada.
Emmett olhou para onde ela estava agora, erguendo um pouco a cabeça.
– Ah, oi. Aí está você. Eu trouxe uma pizza. Na verdade, essa foi a melhor coisa que encontrei nas redondezas. Os garotos e eu estávamos apenas te esperando para começar a comer.
– Obrigada, Emmett. Eu preciso dizer que, na verdade, já tinha sentido o cheiro. E confesso que fiquei ansiosa para saborear dessa delícia. Chegou a dar água na boca.
– Você agradece demais – resmungou.
– É que você tem sido muito bacana com a gente. Não dá simplesmente pra fingir que não é assim.
Ele meneou a cabeça, contendo um sorriso.
Rosalie sentou na beirada da cama, perto dos filhos. Noah saltou no chão, engatando outra conversa.
– Os dinossauros são legais. Mas eles podem te comer. Eles têm dentes afiados. Hulk também é legal, e o Batman, mas o Homem-Aranha é melhor porque uma aranha mordeu nele – Noah começou a pular, por pouco não pisando no pé de Emmett. – Nem mãezinha e nem Enrico gosta de aranha. Porque mãezinha disse que são horrorosas e tem veneno. O Super-Homem pode ir por espaço porque ele sabe voar, mas o Homem-Aranha não, porque ele precisa de uma teia, e no espaço não tem prédio pra ele atirar uma teia – seus pulos avançaram para saltos vigorosos. – Mesmo que todos eles sejam legais, eu gosto mais do Super-Homem.
– Juro que não dei açúcar pra ele.
– Tira a pilha dele, mamãe – Enrico comentou, achando graça.
– Eu gosto disso. É divertido – Emmett os tranquilizou.
– Eu não sou divertido. Eu sou faminto – Noah acrescentou.
– Então vem comer, senhor faminto.
Noah caiu na gargalhada.
– Mãezinha, eu sou o senhor faminto agora?
Rosalie o puxou pra perto e deu um beijo no rosto.
– Para de tanto falar e pular, senhor faminto.
– Mãezinha – ele sussurrou dengoso.
Emmett retirou a tampa da caixa de pizza e serviu o refrigerante nos copos descartáveis. Cada um serviu-se de um pedaço, e comeram enquanto conversavam sobre coisas que as próprias crianças incitavam como: música, beisebol, desenho animado e escola.
Rosalie fez uma pequena pausa para preparar a mamadeira de Amy. Permaneceu com a pequena no colo enquanto ela mamava. Ultimamente, Amy parecia não estar gostando muito de seu leite, porque, não estava mais mamando até que a mamadeira esvaziasse. A mãe sabia que isso se devia ao fato de o leite não estar morno.
Uma vez que todos estavam satisfeitos, pediu que Enrico e Noah fossem escovar os dentes. A caçula já dormia abraçada a sua bonequinha de pano.
Os dois adultos ficaram em silêncio, ouvindo apenas as vozes dos garotos no banheiro, até que Emmett decidiu falar.
– Bem, eu vou voltar meu quarto – avisou se pondo de pé. – Estaremos de volta à estrada amanhã bem cedo.
– Sim, estaremos.
Ela o acompanhou até a porta.
– Boa noite – Emmett desejou já do outro lado.
Rosalie ainda tinha a mão na maçaneta.
– Obrigada pelo jantar. Estava uma delícia.
– Qualquer coisa é só bater na porta ao lado. Ou pode gritar também. Não sou como os super-heróis de Noah, mas posso ajudá-los.
– Eu sei.
Emmett inseriu as mãos nos bolsos do jeans.
– Certo, então eu vou indo. Boa noite.
– Boa noite, Emmett.
– Mãezinha – a voz de Noah soou dengosa –, vem dormir.
Emmett inclinou a cabeça observando dentro do quarto por um instante.
– Eles precisam de você. Acho melhor você ir.
– É... Eu já estou indo.
– Durma bem... Rosalie – disse ele.
– Você também.
Virou-se para sair, enquanto ela ainda fechava a porta.
– Vem, mamãe. Mãezinha. Mãezinha linda.
– A mamãe vai escovar os dentes primeiro bebê.
– Vem, mãezinha – gemeu, resmungando.
– Calma, filho, mamãe já vai.
Ficou no banheiro ouvindo os resmungos dele enquanto escovava os dentes. Quando voltou, retirou o short jeans e o sutiã ficando apenas com a camisa de malha. Deitou-se ao lado deles como na outra noite, antes de aceitarem a carona e ajuda de Emmett. Beijou o rosto de cada um e desejou boa noite.
Um raio cruzou o céu e trovões ecoaram logo em seguida, estremecendo as janelas.
– Mamãe... – Noah choramingou assustado.
– Mamãe está aqui filho – ela murmurou em resposta, passando as pontas dos dedos levemente em seus cabelos.
Um raio voltou a cortar o céu, rompendo a escuridão da noite por breves segundos. Nesse momento Noah passou por sobre a irmã caçula se lançando em cima do corpo da mãe.
– Noah, olha a Amy! – avisou, preocupada com o bebê, olhando-a rapidamente, tentando fazer com que o irmão não a machucasse sem querer.
– Eu estou com medo, mãezinha.
– Eu já percebi que está com medo – ela se queixou, segurando nas laterais de seu pequeno corpo. – Caramba, Noah, está machucando meus seios. Tenha cuidado filho.
– Desculpe – ele pediu, agarrado a ela, evitando olhar na direção da janela, onde, através da parte em vidro, era possível enxergar raios quebrando a escuridão da noite.
– Fica quieto filho.
– Quero ficar aqui, mãezinha.
– Tá, mas fica quieto. Está me machucando.
Chegou um pouco mais pra beirada da cama, deixando Noah no colchão entre ela e Amy, que, assim como Enrico, dormia quietinhos. Amy apenas resmungou quando a chupeta caiu, mas a mãe logo lhe devolveu. Noah permaneceu agarrado à mãe, se borrando de medo da tempestade que se aproximava.
No quarto ao lado, deitado de barriga pra cima, com as mãos embaixo da cabeça, usando apenas uma cueca boxer preta, Emmett observava, através do vidro da janela, o céu clarear em intervalos cada vez mais curtos e os trovões ribombarem.
Pegou-se pensando se estariam com medo. Queria poder ter ficado com eles. Dormir com a certeza de que estavam seguros. Protegê-los de qualquer coisa que pudesse lhes causar temor. Mas estava ali, sozinho.
A tempestade chegou com força total, chicoteando com seus pingos grossos vidros e janelas.
Enquanto a tempestade caía, Rosalie adormeceu com Noah grudado a seu corpo.
Longe dali, na casa que fazia parte de um passado que ela e as crianças queriam esquecer, Royce alimentava sua ira destruindo coisas, rasgando as roupas dela, deixadas pras trás. Bebendo até seu corpo ceder aos efeitos do álcool.
A cozinha estava suja, a casa bagunçada. Latas de cervejas vazias estavam espalhadas por toda ela. Comidas estragadas tanto na pia da cozinha quanto na mesa, e na sala de estar. Os cinzeiros estavam cheios de cinzas de cigarro. A casa fedia a fumaça e álcool. E ele repetia sem parar, desde que recobrou a consciência, após deles terem partido.
– Não deveria ter feito isso Rosalie. Não deveria ter fugido. Eu vou te encontrar. E quando isso acontecer... Vai implorar que e eu a perdoe e a deixe viver. Aquelas crianças nojentas também irão pagar.
Rosalie acordou, sobressaltada, coração disparado e peito ofegante. Ficou encarando o teto com olhos de pânico. Tinha sonhado com Royce, e para seu terror, parecia tão real. Suas palavras, suas ameaças. Seu ódio.
Levou um tempo para conseguir voltar a dormir.
Ainda muito cedo, acordou com o braço direito doendo e um pouco dormente também.
Grudado a ela, Noah babava em sua camisa.
– Ai, Noah – se queixou em um murmúrio. Cautelosamente foi se afastando, retirando o garoto de cima de seu corpo.
Massageou o braço que incomodava. Depois olhou a camisa molhada com a baba do filho, bem na altura de um dos seios, fazendo parecer ser leite materno.
– Ah, filho – gemeu inconformada. – Desse jeito, em pouco tempo, não terei mais roupas limpas para vestir. Preciso dá um jeito de lavar nossas roupas em algum lugar. Na verdade, precisamos encontrar um lugar para ficar. E de um emprego, e rápido. Não podemos depender de Emmett por muito mais tempo. Apesar de ele ser um amor de pessoa, não acho justo – falava aos murmúrios, quem a visse assim pensaria que estava louca.
Vasculhou a mochila e pegou uma camisa de malha laranja. Retirou a que estava babada e juntou as outras roupas sujas. Pôs o sutiã de volta e por fim vestiu a camisa limpa.
Chegou mais perto da janela, observando como estava o tempo lá fora. Já não chovia mais, no entanto, havia poças de água por todos os lados. Foi nesse momento que percebeu alguém sentado no chão, no estacionamento, perto da caminhonete. Era Emmett, ela reconheceu.
– Ah, droga! – ralhou se afastando da janela rapidamente. – Há quanto tempo está ali nós esperando? – chegou ao lado da cama, apressada, acordando os meninos. – Enrico, Noah, acordem. Precisamos ir.
– Mamãe – Enrico falou muito rápido, como se tomasse um susto.
A mãe beijou seu rostinho amassado pela coberta, e passou a mão em seus cabelos.
– Levanta filho. Emmett está esperando pela gente lá fora.
Enrico se sentou, embora, confuso e sonolento.
– Tá, eu já estou indo – disse, sem muita motivação.
Deixou-o coçando os olhinhos, e voltou a mexer em Noah.
– Acorda bebê.
– Não quero – se queixou, virando para o outro lado, com a voz arrastada.
– Emmett está esperando pela gente lá fora. Anda filho, levanta.
– Mãezinha – ele gemeu –, porque você levantou? Eu tenho medo do trovão.
– A tempestade já passou. E já é dia. Anda, temos que ir.
– Ir pra onde?
– Ir com Emmett. Nossa única opção até agora. Nossa única ajuda.
– Mãezinha...
– O que filho?
– Meu bumbum tá coçando...
Rosalie sorriu meneando a cabeça. E Noah começou coçar o bumbum por cima da roupa.
– Deixa a mamãe ver o que tem aí – pediu, afastando a mão dele do local. Depois puxou o shortinho e a cuequinha como se fosse lhe aplicar uma injeção.
– Você não sentou naquela privada imunda do outro hotel, sentou?
– Eu fiz cocô no jornal. Já esqueceu, dona mãezinha?
Verificou novamente onde ele disse que coçava, mas, aos seus olhos, parecia tudo bem. Cobriu o bumbum dele novamente, em seguida, deu um tapinha de leve.
– Não tem nada no seu bumbum. Vamos, levanta!
– Mãezinha.
– O que filho?
– Eu te amo.
– A mamãe também te ama, amor. Mas, por favor, levanta dessa cama. Agora.
Noah se levantou, preguiçosamente, esfregando os olhos assim como o irmão havia feito.
– E a Amy, não vai acordar ela também?
– Não. A Amy não precisa. Ela vai no meu colo.
– Ah, mãezinha.
– Já chega Noah! Vamos escovar os dentes e guardar as coisas pra sairmos daqui.
– Mamãe, você vai sair assim? – esse foi Enrico, preocupado com o fato de a mãe ainda está sem o short.
– Não, filho. Eu vou colocar o short ainda.
– Minha mãezinha não vai sair pelada – Noah se queixou.
– Tá legal, eu já disse que vou vestir o short. Agora parem os dois de falar disso, e tratem de escovar logo esses dentes.
Os três dividiram o pequeno espaço na pia novamente enquanto escovavam os dentes. Penteou os cabelos dos filhos depois o seu. Enquanto os meninos guardavam as coisas, vestiu o short e preparou a mamadeira de Amy, e então guardou no bolso, na lateral da sacola.
Levou a mochila maior às costas antes de pegar a filha adormecida no colo. Os meninos também pegaram suas coisas, e ajudaram como pôde com as coisas da irmã.
De onde estava Emmett logo percebeu eles deixarem o quarto. Não havia deixado de olhar pra lá nem por um minuto desde que chegou ali. Apressou-se em ir ajudá-los.
– Eu ajudo você com isso – ofereceu, posicionando-se atrás das costas de Rosalie, rapidamente alcançando as alças da mochila pesada sobre os ombros delicados.
Mesmo com Amy dormindo em seus braços conseguiu liberar, um por vez, para a mochila ser retirada, trazendo grande alivio a dor nas costas e costelas.
– Desculpe-me pela demora... – pediu, envergonhada.
– Não se preocupe com isso. Eu é que não estava conseguindo dormir... Quando a tempestade passou, acabei vindo pra cá. Pelo menos aqui eu pude tomar um pouco de ar puro. De qualquer modo isso serviu para ficar de olho no quarto de vocês. Quero dizer, pro caso de algum estranho se aproximar. Só quis ter certeza de que ficariam bem.
– Mesmo assim obrigada.
Emmett meneou a cabeça, com um sorriso ameaçando surgir em seus lábios, lembrando-se de ter dito que ela agradecia demais.
– Não dá pra evitar – ela se defendeu.
– Vem, vamos sair daqui – ele inclinou a cabeça em direção à caminhonete. Pegou toda a bagagem, menos a sacola com as coisas de Amy, e guardou tudo na carroceria junto a suas coisas. Ajudou todos entrarem no carro e, em seguida, partiram.
Com pouco menos de uma hora de viagem a pequena Amy acordou. Rosalie trocou sua fralda e lhe deu a mamadeira que estava pronta.
Lá pelas dez da manhã, fizeram uma parada para tomar café. Diferente da primeira vez, todos desceram juntos e comeram sentados à mesa de uma cafeteria. Mesmo assim Rosalie não se sentia completamente à vontade, o medo de ser descoberta lhe causava a sensação de desconforto no estomago.
Como vinha acontecendo nas últimas horas, por onde passavam, as pessoas deduziam que era uma família.
Após o desjejum, e uma ida rápida ao banheiro, voltaram a seguir viagem.
Horas mais tarde o almoço foi pego em um drive thru. Os garotos vibraram. Já Rosalie, não parava de agradecer. Emmett agora apenas sorria de seu exagero.
No meio da tarde, depois de todos terem pegado no sono no banco de trás, Emmett se pegou falando sozinho.
Somente ao entardecer se atreveu acordá-la.
– Rosalie – o único som era o do motor do carro em movimento. Então, tentou mais uma vez. – Rosalie? – como novamente ela não demonstrou ter ouvido, estendeu o braço alcançando o joelho dela com a mão. E, por Deus, podia jurar que a palma de sua mão formigou. – Estamos quase chegando – completou.
Ela despertou sobressaltada, encolhendo os joelhos, como se recuasse ao ataque de um animal.
– Calma – ele ergueu a mão com a palma aberta, dando entender que não riria fazer nada. – Está tudo bem. É só que você não me ouvia chamar. Desculpe-me pelo susto. Eu não deveria ter tocado em você. Sinto muito... – voltou a segurar o volante com as duas mãos, se sentindo culpado, como se tivesse ultrapassado o limite da confiança.
Rosalie suspirou, penteando os cabelos louros com as pontas dos dedos. Olhou a filhinha dormindo em seu colo, em seguida, olhou para os meninos. Eles dormiam com as cabeças juntinhas apoiando-se um ao outro. A mãe se enterneceu com a cena. No mesmo instante, seus dedos finos estavam acariciando os cabelos deles.
Acomodou Amy melhor no colo, e voltou olhar para Emmett.
– Eu dormi muito?
– Cerca de duas horas, mais ou menos.
– Então, estamos mesmo chegando?
– Sim.
Nesse momento a caminhonete cruzou um enorme arco de pedras que parecia ter sido feito a mão. No alto dele havia uma placa onde estava escrito “Recanto dos Ursos”.
Rosalie olhou novamente para os meninos. Para sua surpresa, já estavam acordados e olhavam fascinados a paisagem com um lindo pôr do sol nas montanhas.
– Você vive em uma fazenda?! – disse ela, incrédula. – Eu podia imaginar qualquer coisa, menos isso. Porque não disse antes?
– Queria que fosse surpresa.
– Isso tudo é tão... Tão lindo. A natureza... Tudo a sua volta.
– A gente vai morar aqui? – os dois pareciam empolgados. Falando ao mesmo tempo.
– Não, bebês. A gente não vai morar aqui. Será apenas por alguns dias – a mãe explicou brevemente.
– Ah... – lamentaram, murchando um pouco.
Como que quisesse participar da conversa, Amy também acordou.
– Mamã.
– Oi, bebê – deu alguns beijinhos no rosto de Amy. E retirou a chupeta de sua boca.
– Mamã. Oah?
– Olha o Noah aqui, amor.
Amy apontou o dedinho roliço para os irmãos.
– Oah. Ico.
Os dois olharam para ela, cada um segurando uma mãozinha, enquanto brincavam com seus dedinhos.
– Bebezinha – murmurou Noah.
– Emmett? – Enrico voltou a falar.
– Oi, Enrico?
– Aqui tem ursos?
– Apenas eu – respondeu rindo.
– Por isso tem o nome de urso ali?
– Desde que eu tinha seu tamanho, os ursos chamam minha atenção. Você gosta de ursos também?
Enrico abriu um sorriso.
– É bonito.
– E perigoso, também – a mãe alertou.
– Como assim? Eu não sou perigoso – Emmett continuou brincando.
– Usô! – Amy gritou.
Os quatro caíram na risada.
A caminhonete parou de se movimentar e logo em seguida veio o aviso.
– Chegamos!
Diante deles havia agora uma grande casa, cercada de varandas, com algumas janelas brancas em veneziana, ouras em vidro. Toda propriedade era rodeada por cercas de madeira branca. Havia uma horta com um espantalho de braços abertos. Árvores, muitas delas. Também dava para ver parte do celeiro e do moinho de vento. Seus olhos não puderam alcançar, mas, ainda restavam os estábulos, os animais, o pomar e seus muitos hectares. E o rio.
Emmett foi o primeiro a sair do carro. Rosalie saiu logo depois dos meninos. Fechou os olhos respirando fundo, enchendo os pulmões com ar puro, ao pôr do sol. Ao abri-los novamente admirou, em silêncio, a imensidão de verde que os cercavam.
– Sejam bem-vindos ao Recanto dos Ursos – a voz de Emmett atraiu atenção de todos novamente. – Meu lar.
E foi tudo tão rápido, quando Rosalie se deu conta, dois cachorros da raça golden retriever, de pelo amarelo, corriam na direção deles. Faziam a maior festa, latindo e abanando os rabinhos, para o dono.
Enrico ficou com um pouco de medo, abraçando a mãe. O contrario do irmão que se lançou entre os cachorros tentando abraçá-los a qualquer custo. Tomando cabeçada pra tudo quanto foi lado. Amy dava gritinhos de entusiasmo, abrindo e fechando as mãozinhas, como se quisesse acariciá-los também.
– Pessoal – tornou Emmett a falar –, estes são Jujuba e Caramelo – a cara que Rosalie fez foi impagável. – Digamos que minha irmã não é muito boa em escolher nomes para os animais de estimação – se explicou. – Confesso que tive medo, quando ela ficou grávida, que desse aos filhos nomes de doces como: cocada e rocambole.
Admirada com a tranquilidade em seu rosto, e no tom de voz que usava, Rosalie sorriu imaginando duas crianças com nomes de doces. Pensando, ainda bem que isso havia ficado apenas nos animais de estimação.
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