Um Lugar Para Ficar

2 Capítulo 02 – Futuro Incerto


Notas iniciais
Oi, galerinha. Antes de qualquer coisa, quero agradecer pelos comentários recebidos no capítulo anterior. Valeu meninas. Capítulo especialmente para vocês. Simbora ler mais um pouco o/

Depois de tudo o que aconteceu, após a chegada de Royce naquela noite, seria impossível conseguir dormir bem. Com irregularidade os cochilos vieram e se foram. Por vezes, Rosalie abriu os olhos, sobressaltada, respirando com dificuldade, como se alguém apertasse forte sua garganta.

Em um desses cochilos perturbados sonhou também que Royce machucava as crianças.

As fortes dores em seu corpo não permitiam esquecer-se da desgraça que era sua vida ao lado daquele homem.

Ao seu lado, os garotos dormiam. Enrico tinha uma expressão sofrida no rosto. Sabia que, assim como ela, ele também deveria estar cheio de dores pelo corpo. Já Noah, passou a noite inteira inquieto. Houve um momento em que a mãe precisou segurá-lo para não cair do colchão inflável.

Antes mesmo de o sol nascer, ela estava fazendo planos de levantar. Planejava tomar um banho, na esperança de que as dores no corpo diminuíssem. Tinha em mente que seria um banho frio, esperava apenas ter coragem o suficiente para isso.

Fez um baita esforço para se levantar, engoliu o gemido que chegou a garganta, preocupada em não acordar as crianças ainda tão cedo. Beijou a cabecinha de cada um dos meninos, depois se dirigiu ao berço e fez o mesmo com a caçula.

Amy dormia de bruços, com a chupeta pendendo no canto da boca, a fralda por baixo do pijaminha lhe dava um pequeno volume bumbum, onde a mãe encostou a mão dando uma leve sacodida.

Ao sair do quarto, fechou a porta devagar. Olhou para baixo verificando o estado de suas roupas e corpo, inevitavelmente sentiu vontade de chorar. Nada tinha a ver com suas roupas dilaceradas, mas sim por toda humilhação que aquilo refletia em sua vida.

Seus filhos, crianças inocentes, haviam a encontrado naquele estado, largada no linóleo da cozinha no meio da noite. De repente, se viu desejando ser engolida da face da terra.

Não queria, de forma alguma, ter que entrar no quarto que, supostamente, seria do casal. Temia acordar o marido e o inferno recomeçar outra vez. Porém, precisava pegar uma muda de roupa limpa, e se vestir antes que as crianças estivessem de pé.

Caminhou descalça pelo corredor ainda envolto pelas sombras, se pegou imaginando em uma cena de filme de terror. Só que, nesse caso, a assombração que vagava pela casa era ela. Jugando por sua aparência e trajes qualquer um acreditaria.

No instante em que encostou a mão à maçaneta da porta do quarto que deveria ser do casal, seu coração bateu tão rápido que mal conseguia respirar. A pulsação sanguínea latejava forte em seus próprios ouvidos. Medo percorrendo sua corrente sanguínea como uma droga que enfraquecia seu corpo e mente. Mas precisava fazer isso. Precisava enfrentar o medo e ir atrás daquilo que necessitava.

Pelas crianças, firmou isso no pensamento. Somente então conseguiu a coragem de que precisava para entrar naquele quarto. Abriu a porta lentamente, praguejando em pensamentos por cada ruído que ela emitia. Praguejou até mesmo os batimentos exagerados de seu coração.

Olhou em volta, e até mesmo atrás da porta, como que querendo confirmar que ele não estava a sua espera tramando algo muito cruel. E se estivesse, nada poderia fazer. Há muito tempo havia entrado na cova dos leões.

Certa vez sua avó havia lhe dito para não confiar demais em quem esbanja simpatia e interesse, e ela errou feio quando ignorou esse conselho.

O monstro ali dormia deitado de bruços sem roupa alguma. A imagem lhe causou náusea. Cautelosamente pegou a ponta do cobertor pendurado e lançou sobre ele escondendo parte de sua nudez.

Caminhou para o closet onde pegou uma muda de roupa confortável e que pudesse disfarçar a maior parte dos machucados em seu corpo. Voltou ao quarto com todas as coisas nos braços pronta para sair dali o quanto antes. Pensou que fosse desmaiar quando viu Royce se mexer, e, em seguida, pronunciar se nome. Por sorte, ele estava apenas sonhando.

Como a porta já estava aberta tomou cuidado apenas em fechá-la ao deixar o quarto. De forma alguma iria tomar banho na suíte, fora de cogitação. Trancou-se no banheiro do corredor, e devagar arrancou os trapos, que um dia foram suas roupas, largando dentro de em um saco de lixo.

Olhou-se no espelho e mais uma vez sentiu vontade de chorar. Sua imagem refletida só fez confirmar aquilo que já sabia, estava horrível. Vários hematomas e escoriações. O maior deles estava em suas costelas, no lado esquerdo do corpo, que doía horrores.

Após abrir o chuveiro, regulou a temperatura deixando fria. Preferiu não pensar muito a respeito, do contrario, acabaria desistindo. Mas não passou disso, medo. A sensação da água fria escorrendo em sua pele quente, de músculos doloridos, foi quase como um bálsamo. Doeu de imediato, mas logo cedeu lugar ao alívio.

E quando enfiou a cabeça embaixo do chuveiro, seu couro cabeludo ardeu. Foram tantos os puxões que recebeu que estava altamente sensibilizado. Embora quisesse permanecer mais tempo embaixo d’água o banho não levou mais que alguns minutos.

Passou anti-inflamatório nos machucados. Depois de se vestir penteou os cabelos com o máximo de cuidado que pode, ainda assim lhe rendeu alguns gemidos e cara feia.

Foi para a cozinha preparar a mamadeira de Amy antes de se ocupar com o café da manhã de todos. Aproveitou também para tomar algo que aliviasse as dores no corpo.

Em pouco tempo voltou ao quartinho onde as crianças estavam, e teve muita dificuldade para retirar Amy do bercinho devido às dores nas costas e costelas.

Amy se remexeu e abriu os olhinhos enquanto a mãe ainda se sentava na cadeira de balanço, ao pé da janela, com ela no colo.

– Mamã – murmurou sonolenta.

– Shhhh. Dorme mais um pouquinho amor – sussurrou, beijando a cabecinha dela. Logo depois substituiu a chupeta pela mamadeira.

Amy começou sugar o leite com avidez. Uma de suas mãozinhas encostada à mamadeira e a outra na mão da mãe. Os olhinhos fechando e abrindo em um curto espaço de tempo, até que adormeceu outra vez.

Rosalie esperou uns minutinhos, com ela no colo, para que arrotasse antes de deixá-la no colchão com os irmãos.

Retornou a cozinha e deu início ao preparo do café da manhã. Mas não sem antes diminuir a bagunça que Royce fizera na noite passada.

Os garotos tinham aula, mas, assim como em outras ocasiões, não iriam hoje. Enrico tinha hematomas por todo o corpo e Noah, nos braços. Não correria o risco de a professora ver e chamar o Conselho Tutelar e lhe tirarem as crianças. Não era sua culpa, era tão vitima quanto os filhos. Mesmo assim não conseguia confiar, tinha medo de perdê-los. Morreria se isso acontecesse. Essa era a maior certeza que tinha na vida.

Perdida em pensamentos, estava de frente a pia, quando Noah entrou na cozinha ainda de pijama, pés descalço, arrastando o coelhinho de pelúcia marrom. Os cabelos louros, desgrenhados. Coçava o olhinho esquerdo com a mão livre. Colidiu nas pernas da mãe sem querer, e ela tomou um susto deixando cair dentro da pia alguns talheres que lavava.

– Mamãe... – ele gemeu, ainda coçando o olhinho. Ela se apressou em secar as mãos no pano de prato. – Mãezinha.

– Oi, filho – disse ela.

Noah estendeu os bracinhos pedindo colo. Era costume seu, todas as manhãs, buscar o colo da mãe, dengando. Somente depois disso ia pra sala assistir desenho animado na tevê, caso não fosse à escola.

Tinha certeza de que não iria aguentar segurá-lo, se com Amy já foi difícil quem dirá com Noah que era uma criança maior. Ficou sem saber o que fazer. Queria pegá-lo e acariciá-lo como sempre fazia, salvo dias como esse que estava muito machucada.

Ainda de bracinhos estendidos, ele tornou gemer, porém, meio que resmungando dessa vez.

A mãe ficou com pena, e, mesmo se ferrando de dor pegou o filho no colo. Ele enlaçou os bracinhos no pescoço dela, repousando a cabeça ao ombro. Fechou os olhos e deixou a pequena mão vagar acariciando o rosto da mãe com suavidade.

Rosalie afagou suas costas, beijou sua testa, depois o colocou de volta no chão.

– Mamãe – ele gemeu.

– O que amor? – ela pediu, deslizando os dedos por entre os fios bagunçados dos cabelos dele.

– Eu te amo.

O coração da mãe quase flutuou com tamanha doçura. Todo esforço que fez para segurá-lo valeu a pena.

– Eu também te amo, bebê.

Noah deu a volta e saiu da cozinha arrastando seu coelhinho de pelúcia.

Rosalie ficou observando o caminho por onde ele saiu, logo depois ouviu o barulho da tevê sendo ligada na sala, e os canais pularem muito rápido, até encontrar o canal infantil.

Minutos depois, outra vozinha se juntou ao barulho da tevê.

– Oah, Oah. Mamã? Mamã, Oah? Mamã.

Ao sentir que Amy iria chorar Rosalie logo apareceu na porta.

– Olha a mamãe aqui filha. Vem! Vem pra mamãe.

– Mamã! – Amy gritou feliz, estendendo os bracinhos enquanto corria até ela, em passos curtos e trôpegos. Tropeçou na fralda que arrastava, mas a mãe a segurou a tempo.

– Vamos trocar essa fralda cheia de xixi – comentou, roçando o nariz na bochechinha amassada pela fralda que Amy usava como paninho.

– Oah – ela falou, apontando o dedinho roliço para o irmão deitado no sofá.

– É. O Noah está vendo desenho.

– Enho – ela repetiu olhando para a mãe. – Oah. Ico?

– Enrico? Enrico está dormindo ainda, amor.

– Mino. Ico, mino.

Rosalie a levou direto para o banheiro onde tinha tomado banho mais cedo. Deu banho em Amy, e quando estava enrolando-a na tolha, viu Royce parar no umbral da porta. Aquilo bastou para fazer seu coração gelar.

Tentou disfarçar buscando algo o que dizer.

– O café já está pronto. Vou só vestir a Amy e já volto para servir.

– Vê se não demora – ele resmungou.

– Não demorarei – avisou, indo em direção à porta do banheiro, mesmo não querendo passar tão perto assim dele.

Amy estendeu as mãozinhas roliças para tocá-lo no rosto, mas ele recuou como se a filha fosse um inseto asqueroso. Notando sua indiferença, Rosalie segurou as mãozinhas de Amy e as beijou varias vezes.

Já no quarto, deito-a no trocador, colocou uma fralda limpa e uma roupinha em algodão. Penteou seus cabelinhos louros suavemente. Depois de deixá-la no chão, distraída com alguns brinquedos, foi ver como Enrico estava.

Lançou um olhar a Amy, no outro lado do quarto, e sentou no colchão inflável ao lado do filho. Acariciou seu rostinho, afastando os cabelos dos olhos, foi quando o sentiu quente demais. Estava com febre.

– Enrico...? Filho. Acorda amor.

Passou a mão no rosto dele outra vez enquanto o assistia abrir os olhos preguiçosamente.

– Mamãe, eu quero água – ele pediu, com a voz rouca.

– Você está com febre amor. Vem, levanta. Eu vou te dar água, mas você precisa de um banho frio também.

– Eu vou pra escola?

– Não, de forma alguma. É apenas para ajudar baixar a febre. Vem. Vamos para o banheiro – pediu, afastando o cobertor que o cobria.

Enrico se levantou meio que se arrastando. Rosalie pegou Amy no colo, e estendeu a mão livre para ele.

– Vem filho.

Estavam se aproximando da porta quando Noah apareceu assustado.

– O que foi Noah? – ela pediu, preocupada.

– Ele foi pra lá... – sussurrou.

– Está bem, então fica aqui com a mamãe.

Foram os quatro para o banheiro do corredor. Rosalie ajudou Enrico retirar o pijama. Todos os hematomas no corpo pequeno se exibiram, assim como os da mãe fizeram antes. Porém, ver o corpo do filho marcado daquele jeito era mil vezes pior do que em si mesma.

No lado oposto, Noah retirava seu pijama sozinho. Ela os deixou tomando banho, mesmo sabendo que seria mal tomado, e foi servir o café de Royce antes que ele começasse agir como na noite anterior.

– Demorou demais... – ele se queixou, estalando a língua, quando ela entrou na cozinha com a filha no colo.

– Me desculpe... – ela murmurou, sem olhar pra ele, enquanto deixava Amy na cadeira de alimentação. – Deixei as crianças no banho. Voltei o mais rápido que pude.

Deu um brinquedinho a Amy, em seguida, se movimentou pela cozinha dando início a seus afazeres domésticos.

Royce estava de olho nas manchetes do jornal quando ela se aproximou com a jarra de vidro da cafeteira, carregada do liquido preto fumegante, pronto para ser servido.

Apesar de o medo que sentia, tentou não demonstrar.

Encheu a xícara dele, fazendo um comentário.

– Enrico está com febre.

– Cuide disso – respondeu com descaso, levando a xícara à boca.

Ela assentiu. Custava acreditar que tinha mesmo se casado com aquilo. Um lixo de ser humano.

– Já estou fazendo isso – esclareceu, ao deixar a jarra de vidro de volta no lugar. – Eles não irão à escola hoje.

Royce bateu na mesa com o punho cerrado. O coração de Rosalie gelou outra vez dentro do peito. Suas mãos tremeram. Rapidamente olhou para Amy na cadeirinha. Ela estava com cara de quem iria chorar. Certamente tomara um grande susto.

– Faça o que tiver que fazer. Só não enche meu saco. Você é retardada ou o que? Não sabe cuidar de seus filhos? Pra que engravidou?

Rosalie sentiu uma súbita vontade de socá-lo até não lhe restar mais forças. Incrível sua capacidade de ser cretino.

“Você me engravidou, seu merda.”, pensou ela.

Aproximou-se de Amy, e sacudiu um brinquedinho na frente dela, murmurando palavras bobas para distraí-la. A carinha de choro foi logo substituída por um lindo sorriso de poucos dentinhos. Somente então a mãe se sentiu segura a voltar o que estava fazendo antes.

Pouco tempo depois, os meninos entraram juntos na cozinha. Ambos usavam roupinhas de malha com estampas de desenho animado, e os cabelos estavam úmidos e mal penteados.

Rosalie os percebeu olhar o pai de canto de olho antes de olhar para ela.

– Vão pro seus lugares – pediu em voz baixa. – Por favor – implorou em pensamento, ao perceber o que estava acontecendo, eles estavam com medo de se sentar à mesa.

Outra vez Royce reagiu batendo com punho na mesa.

– Senta já aí seus moleques. Maricas.

E quando a cadeira que ele ocupava foi empurrada para trás com o corpo, Rosalie intercedeu pelos filhos, apavorada.

– Não Royce – alertou, puxando os dois para perto. – Eles já estão indo sentar – e então olhou para os meninos, curvando-se um pouco para falar com eles. – Por favor, sentem.

Os dois abaixaram a cabeça e foram para seus lugares à mesa, em silêncio.

O tempo inteiro Amy esteve à beira do choro, olhando a cena, e, inevitavelmente começou chorar.

– Faça essa criança calar a boca, ou eu mesmo farei – Royce ameaçou.

Rosalie não esperou por outro aviso, foi logo retirando Amy da cadeirinha, tentando fazer com que parasse de chorar. Mas ela parecia chorar ainda mais.

Foi ai que Royce deu alguns passos na direção onde Rosalie se encontrava com a criança. Assim que percebeu o que ele pretendia fazer, se desesperou, tentando sair de lá com Amy.

Para seu desespero Royce foi mais rápido, agarrou seu braço com força, tentando pegar a filha a todo custo.

A mãe, desesperada, continuava se esquivando buscando uma forma de proteger a filha. Implorando que a deixasse em paz.

– Não. Não, Royce. Não. Meu Deus, por favor, para. Para com isso. Não a machuque. Não.

Amy chorava ainda mais, engasgando-se. E agora não era a única, os garotos e a própria Rosalie também choravam.

Achando que pudessem ajudar a mãe proteger a irmãzinha, Enrico e Noah se lançaram no meio da confusão. Noah logo caiu e por pouco não foi pisoteado por Royce.

– Isso não é vida, meu Deus – soluçou Rosalie, em meio toda aquela agonia. Como que por milagre conseguiu se desvencilhar das garras do marido violento e entregar Amy ao irmão mais velho. – Tire ela daqui, Enrico! – gritou para o menino. – Vai. Tira ela daqui.

Enrico chorava, segurando a irmã, que também chorava. Todo desajeitado se esquivou para sair do olho do furacão. Royce tentou agarrá-lo. Rosalie o impediu de fazer isso, lançando-se sobre ele, cravando as unhas na pele de seus braços.

– Os deixe irem – gritou.

Através de lágrimas viu Enrico deixar a cozinha levando a irmã nos braços. E Noah, onde estava? Em meio toda aquela luta, ela conseguiu varrer a cozinha com os olhos. O garoto rastejava para debaixo da mesa, aos prantos. Era nítido seu desespero.

O casal foi parar no chão, enfrentando-se. E quando Rosalie tentou ficar de pé, Royce a agarrou pelo pescoço forçando-a contra o linóleo. Ela se debatia, tentando se soltar, enquanto buscava respirar desesperadamente.

Viu o momento em que Noah deixou o esconderijo. Somente se deu conta do que ele iria fazer quando o viu pulando nas costas do pai. Tentava salvá-la, não pôde acreditar. Seus dedinhos foram inseridos nos olhos de Royce, que perdeu o foco por conta da dor.

Os olhos de Rosalie se arregalaram, preocupada a um nível louco. De repente, Noah não estava mais nas costas do pai. Havia sido arremessado no chão.

Royce voltou a enforcá-la.

Rosalie estava quase aceitando seu fim, quando o som de uma pancada forte chegou aos seus ouvidos, e, no minuto seguinte, seu agressor tombou sobre seu corpo dolorido.

Assim que sua garganta foi liberada, deu uma puxada de ar com força. Começou a tossir forte. Por Deus, a sensação era desesperadora.

Levou alguns segundos para perceber o que realmente tinha acontecido: Enrico estava parado no meio da cozinha, tremendo, segurando um taco de baseball entre as duas mãos. Noah continuava no mesmo lugar onde havia sido lançado. Amy estava agora parada na entrada da cozinha. Todos chorando. Uma verdadeira sinfonia de choro aterrorizado.

Ela lutou para empurrar Royce para o lado. Puxou a respiração com força algumas vezes, até conseguir se sentar. A garganta estava doendo. As marcas dos dedos dele estavam estampadas em sua pele.

Exausta, andou de joelhos até onde Enrico estava. Tentou retirar o taco de baseball das mãos dele, mas o menino segurava o objeto com tanta força que o nó de seus dedos estavam esbranquiçados.

– Solta isso, filho – pediu, cautelosamente, forçando para retirar o objeto das mãos dele.

– Minha mãe. Ela é minha mãe – ele soluçou, olhando Royce desacordado no chão. – Tem que parar de machucá-la. Tem que parar.

– Solta, filho. Por favor, amor, solte isso. Vamos. Temos que sair daqui. Não podemos estar aqui quando ele acordar. Não quero nem pensar no que ele pode fazer...

Enrico deixou que o taco caísse no chão com um estrondo. O barulho fez Noah e Amy estremecerem.

Rosalie o segurou pela mão. Apressada, foi ajudar Noah se levantar.

– Está machucado filho?

Noah negou com a cabeça. Ela os empurrou para fora da cozinha, no trajeto, pegou Amy no colo.

– Vão para o quarto, e peguem tudo o que conseguirem pôr nas mochilas. Menos brinquedos – ressaltou, olhando especificamente para Noah.

– Mais e os meus brinquedos, mamãe? – ele lamentou, soluçando.

– Quando a mamãe puder compra outros – explicou, com o coração apertado.

– Só um, mãezinha – pediu aos prantos.

– Está bem. Pega um. Pega o seu favorito. Pode pegar um também Enrico. Agora vão. Rápido!

Os dois saíram correndo para o quarto, como se estivessem disputando uma maratona. Pegaram as mochilas no armário e despejaram o material escolar no chão. Logo estavam ocupando o espaço outra vez só que com roupas e outros itens básicos.

Rosalie fez o mesmo, porém, indo para seu quarto, levando a filha caçula no colo. Pegou uma mochila no armário do corredor e encheu com roupas, produtos de higiene e um cobertor. Vasculhou as gavetas em busca dos documentos, seus e das crianças. Enfiou tudo dentro de uma bolsa pequena e guardou na mochila também. Pegou as economias que conseguiu guardar durantes anos retirando da carteira de Royce sem que ele percebesse.

Em pouco tempo estava no quartinho de Amy, guardando as coisinhas dela na sacola de bebê, por sorte já havia algumas coisas dentro. Saiu correndo e apressou os meninos ao passar pelo quarto deles. Voltou à cozinha, tentando não chegar muito perto de Royce, temendo que ele acordasse, e pegou o leite em pó, duas mamadeiras, metade de um pacote de pão de forma, e alguns biscoitos, enfiando em uma mochila pequena junto com os remédios das crianças que, por sorte, estavam no armário ao lado.

Daria um jeito de conseguir o que faltava em breve, pensou ao deixar a cozinha.

Colocou os óculos escuros para disfarçar o olho roxo. Encontrou com os meninos no corredor, ambos com cara de pânico. Cada um com sua mochila nas costas. Apesar de Noah segurar um boneco do super-homem nas mãos, um bicho de pelúcia tinha a cabeça pra fora da sua mochila. Embora tenha dito pra pegar apenas um, a mãe sabia que o coelhinho era mais que um brinquedo, era um amigo.

– Para onde a gente vai? – Noah pediu.

– Para algum lugar bem longe daqui filho. Para algum lugar bem longe daqui... – ela repetiu com a voz sumindo.

– Eu não quero morar embaixo da ponte.

– Não sei de onde você tirou isso. Mas você não vai morar embaixo da ponte. Está me ouvindo?! Eu farei qualquer coisa para mantê-los em segurança. Agora segura na mão de seu irmão, e me acompanhem.

– Mamãe, eu não quero ir pra cadeia – esse foi Enrico, soluçando.

– Você não vai pra cadeia filho. Royce só está desmaiado.

Eles se apressaram porta a fora, levando o que puderam. Rosalie pegou a chave do carro no aparador e pediu que os meninos entrassem no veículo.

– É o carro dele – Noah comentou, alarmado.

– Não vamos ficar com ele. É só para nos distanciarmos. Depois eu deixo em algum lugar. Agora entra no carro.

– Não. Não quero mamãe.

– Eu não estou pedindo, Noah, estou mandando. Se estivermos aqui quando ele acordar, um de nós dois vai acabar morrendo, porque ele vai querer pegar seu irmão e eu não vou deixar.

No mesmo instante os garotos correram para dentro do carro. Ela entregou Amy a Enrico e exigiu que colocassem o cinto de segurança. Não havia tempo para pegar as cadeirinhas de Amy e Noah.

Rapidamente sentou-se no assento do motorista.

– Mamãe, você sabe como se dirigi? – o mais velho perguntou.

– Há muito tempo atrás eu sabia. Deve ser como andar de bicicleta, uma vez que se aprende não se esquece.

Com mãos trêmulas inseriu a chave na ignição. Deu marcha à ré e bateu em um latão de lixo, que caiu e fez um barulho terrível. Com o carro fora de alinhamento chegou ao meio da rua e saiu cantando pneu.

Fazia tanto tempo que não dirigia. Isso reforçava seu nervosismo, pensando na segurança das crianças.

Dirigiu por cerca de quarenta minutos. Talvez Royce ainda não estivesse procurando pelo carro. Em todo caso, não estava acreditando que ele fosse a polícia para se queixar do carro tão cedo. Já que era o culpado de tudo. E tanto ela quanto as crianças estavam machucados, o que não bateria com sua versão.

Abandonou o veículo em uma rua sem saída, que ficava aos fundos de um restaurante japonês, onde havia várias caçambas de lixo e caixa de papelão.

Dali em diante eles seguiram a pé. Sempre atenta a todos que passavam por eles.

A única certeza que tinha era que não iria para a rodoviária. Era muito óbvio. Ele facilmente obteria notícias suas por lá, mesmo que se disfarçasse. Não era difícil esquecer o destino de uma mulher com três crianças.

Pararam para descansar em um posto de gasolina. As crianças estavam cansadas, suadas e suas bochechas bastante coradas. Deu água para eles tomarem. E como estavam sem comer a muitas horas, deixou que comessem algumas fatias do pão que guardou na mochila menor.

Em pouco tempo estavam outra vez com o pé na estrada. Caminharam por horas até Enrico dizer que não aguentava mais.

Rosalie parou e olhou para trás ainda a tempo de vê-lo cair de joelhos. Noah estava bem ao lado do irmão, lhe dando apoio.

Recuou alguns passos, apavorada, com Amy no colo. Afagou o rosto de Enrico, se demorando um pouco mais na testa. O garoto queimava em febre. Sua agonia em tirá-los da rua só aumentou. Implorou ajuda divina, em pensamentos.

Os cabelos dos dois estavam pingando de suor, e ela sabia que em parte o de Enrico era por causa da febre.

– Enrico fala com a mamãe – pediu, agoniada. – Está sentindo alguma dor? Consegue respirar direito?

– Eu quero deitar – ele falou, com a voz arrastada.

“Meu Deus, por favor, me ajuda”, ela voltou a pedir em pensamentos. Depois olhou em volta. – Eu vou conseguir um lugar pra gente passar a noite. Aguenta firme, meu amor – pegou a garrafinha de água do bolso da mochila, retirou a tampa, e encostou à boca dele. – Bebe um pouquinho filho.

Enrico se recusou. Desesperada, acabou gritando com ele.

– Bebe logo!

Ao lado deles, Noah reagiu demonstrando medo, agarrando as pernas da mãe. Enrico, muito fraco, começou a chorar. Foi aí que ela se deu conta do que tinha feito. Havia gritado com ele pela primeira vez.

Imediatamente o abraçou, com apenas um dos braços, agachada ao lado dele, na beira da estrada.

– Desculpe-me, filho. Desculpe. Desculpe – beijou sua testa suada mais de uma vez. –Desculpe. Foi sem querer...

– Tá – ele murmurou em resposta.

Quando fez menção de se pôr de pé, a mãe o ajudou. Noah ainda estava agarrado a ela, apenas se afastou quando retomaram a caminhada, cedendo seu lugar ao lado da mãe ao irmão febril.

O sol estava se pondo no horizonte. O tempo estava abafado.

Rosalie já estava contendo as lágrimas, xingando, mentalmente, por não haver um lugar para descansar com as crianças. Após mais alguns minutos de caminhada, avistou por fim um hotel vagabundo de beira de estrada.

Era aquilo ou nada, foi o que pensou enquanto os conduzia até lá. Os deixou sentados em um banco velho de madeira recostado a uma parede suja da recepção abafada que cheirava a fumaça de cigarro.

Uma mulher corpulenta, de uns quarenta anos, que usava uma camisa de uma banda de rock, foi quem os atendeu. Não era de muita conversa e Rosalie gostou disso.

Não precisou preencher nenhuma ficha. Apenas pagou por uma noite, recebendo em troca a chave do quarto de número dezenove. Não se arriscou pagar por mais noites, não podia ficar muito tempo, nem mesmo se arriscar a gastar o pouco dinheiro que tinha. Talvez precisasse sair dali às pressas.

Agarrou a mão de Enrico que, por sua vez, segurava na mão de Noah, e os levou dali. Caminharam em direção reta por um estacionamento quase vazio, sem olhar para trás. Amy estava sonolenta em seus braços agora.

Havia poucas luzes nos postes de iluminação pública, alguns letreiros luminosos chamavam atenção na rodovia. Ao avistar o número que buscava, apressou o passo.

Abriu a porta deixando que os garotos entrassem primeiro. Todos, de repente, adquiriram expressões de nojo. Aquele lugar parecia imundo. Também não tinha muitos móveis, exceto pela cama velha, com um colchão cheio de ácaros, sem forro de cama. Uma cômoda caindo os pedaços, localizada na parede oposta, e uma cadeira ao lado da grande janela de vidro encardido que mal se podia ver o que estava do outro lado dela.

Rosalie retirou a mochila grande das costas, o que lhe proporcionou grande alivio, e deixou junto a sacola de Amy e a outra mochila menor, que estava pendurada em seu braço, sobre a única cadeira do quarto. Voltou, pegou as mochilas dos meninos e levou para juntos das outras.

– Tá legal – disse ela. – Eu vou ver se tem água no chuveiro pra gente poder tomar um banho – os meninos olhavam pra ela como se tivessem sidos levados a outro planeta. Ela suspirou. – Eu sei que esse lugar é horrível, mas nós vamos conseguir algo melhor.

Eu prometo. Enquanto vou ver se tem água no chuveiro, não peguem em nada que não seja nosso, muito menos encoste as mãos na boca sem lavá-las antes.

– Preciso fazer xixi – avisou Noah.

– Eu também – Enrico sussurrou.

– Venham os dois com a mamãe.

Os quatro se aproximaram do banheiro e antes de deixá-los entrar verificou o estado daquilo. Não era diferente do resto do quarto. Mas, pelo menos, não havia dejetos humanos.

– Tudo bem. Vocês podem fazer xixi. Mas se for fazer cocô, de forma alguma, sentem no vaso. Não vou correr o risco que peguem uma doença venérea.

– Doença de que? – Noah perguntou, sem entender nada.

– Esquece filho, só não sente no vaso.

– E como que faz para fazer cocô, mamãe?

– Deve ter alguma revista ou jornal velho ali no quarto. É só forrar o chão e vocês fazem cocô em cima delas, depois a mamãe joga fora.

– Eca – disse ele.

– Isso parece nojento – comentou Enrico.

– É o único jeito. Não vou deixar vocês sentarem ai nem a pau. Aliás, já vou deixar a tampa sempre levantada pra vocês nem precisarem encostar nela antes de pegar no pintinho.

– Tá bom – os dois responderam olhando-a, menos assustados agora.

– Esperem um pouco – avisou, deixando o banheiro, retornando logo em seguida com um lencinho umedecido, encontrado nas coisas de Amy, e o usou para segurar na tampa do vaso ao levantá-la. Depois dispensou na lata de lixo.

Os dois se apressaram, indo até o vaso pondo o pintinho pra fora.

Em seu colo, Amy ameaçou um chorinho.

– O que foi amor, humm? A mamãe vai te dar um banho e depois a mamadeira. Está estressadinha, né filha?! Também pudera, com o dia que tivemos.

Ela deu alguns passos para o lado, erguendo a mão até encontrar o registro do chuveiro. Girou até que a água surgisse e verificou sua temperatura. Ao menos estava morna.

– Mamãe, o Noah me molhou com o xixi dele – Enrico se queixou.

– Foi sem querer, mãezinha. É que tinha muito xixi, daí fez o jato grande.

– Foi sem querer filho – ela falou, olhando Enrico agora.

– Desculpe irmão – ela ouviu Noah pedindo.

– Tirem as roupas, os dois, pra mamãe dar um banho em vocês.

Enquanto retirava as roupinhas de Amy, que ainda resmungava impaciente, os meninos retiraram suas próprias roupas. Noah recolheu todas e levou para perto das mochilas.

Rosalie já ensaboava Amy quando Noah voltou ao banheiro. Com o mesmo sabonete infantil ensaboou os meninos também. Lavou os cabelos de todos com o shampoo de Amy. O único que conseguiu pegar a tempo. Como tinha apenas uma toalha, secou a bebê primeiro, depois os meninos.

Pegou uma roupinha limpa para cada um deles e juntou as usadas em um compartimento da mochila. Penteou os cabelos dos três. Depois usou o único lençol que levou para forrar o colchão encardido.

Vasculhou a mochila menor em busca dos remédios. Pingou algumas gotinhas de tylenol na boca de Enrico para ver se a febre baixava. E usou uma fralda úmida para pôr na testa dele, outra na nuca.

Pegou a bonequinha de pano de Amy e deu para ela. Com os três na cama agora, foi tomar seu banho.

Do banheiro ainda podia ouvir Amy resmungando querendo pegar o brinquedo de Noah, o boneco do super-homem. Enrico permaneceu o tempo inteiro encolhidinho em um lado do colchão. E quando Amy ameaçou chorar, Noah deixou que ficasse com o brinquedo. Ficando apenas com seu coelhinho de pelúcia.

Quando voltou, já de roupa trocada e cabelos úmidos, preparou a mamadeira de Amy com água mineral. Usou o único copinho que tinha levado para preparar um pouco de leite para os meninos, também.

Primeiro serviu Enrico, depois Noah. Quanto a ela, tomou apenas um pouco de água e se deu por satisfeita. Eram tantas suas preocupações que nada, além de água, lhe descia a garganta.

Tinha chorado embaixo do chuveiro. Preocupada com o que iriam fazer se não encontrassem um lugar para ficar. Chorou, também, por todas as dores que sentia pelo corpo, dores causadas pela agressão que sofrera. Outras, por ter caminhado por quase todo o dia. Seus pés estavam cheios de bolhas e aquilo ardia pra caramba. No banho foi uma tortura.

Deu mamadeira a Amy e a ninou até que dormisse. Deitou-se ao lado dos filhos, que já cochilavam, apesar de ainda estar cedo. Não era de se estranhar que estivessem tão cansados, nunca tinham andado tanto na vida. Sem falar em toda pressão psicológica que viveram nas últimas 24 horas.

Com eles dormindo não teve motivos para esconder as lágrimas. Estava perdida na vida com três crianças pra criar. Não havia ninguém a quem recorrer. Não confiava nem mesmo na justiça.

Dali em diante era apenas os quatro. E com muita sorte Royce não os encontraria jamais.

Tudo o que precisava era de um lugar seguro para ficar. Um emprego que ganhasse suficiente para sustentar as crianças e a si mesma. Deus sabe o quanto precisava disso.

Se sentiria miserável caso não conseguisse.

Por volta das 23h15 Noah despertou faminto.

Rosalie estava de olhos inchados de tanto chorar. O olho que sofrera a agressão estava muito incomodo, e ainda muito roxo, assim como parte de seu corpo.

– Mamãe. Mãezinha.

Ela abriu os olhos, sobressaltada, tentando trazer os três para junto de si, como uma galinha acolhe seus pintinhos embaixo das asas.

– O que filho? – perguntou ao perceber que estavam todos bem.

– Estou com fome – revelou o menino, com expressão de choro.

Ela passou a mão em seu rostinho, carinhosamente.

– Não deve ser tão tarde – ponderou. – Eu vou sair pra ver se acho algum lugar onde comprar um lanche. Fique aqui com seus irmãos – disse ela, se preparando para sair da cama.

– Vai aonde, mamãe?

– Aqui perto, filho – avisou, pegando algum dinheiro e um moletom preto de capuz.

– Quero ir com você – disse Noah, em um desespero repentino, se arrastando para sair da cama.

– Não. De forma alguma levarei você lá fora a essa hora. Vai ficar aqui na cama com seus irmãos. E vai fechar a porta por dentro com a chave e a tranca. Já basta o que você andou durante o dia. Você só vai abrir aquela porta por dois motivos: Um, se o quarto estiver pegando fogo. Dois, quando eu voltar e pedir que abra.

– Não. Eu quero ir com você, mãezinha.

– Noah, obedece à mamãe, pelo amor de Deus – Noah abaixou a cabeça, encarando as próprias mãozinhas. – Vem. Vem fechar a porta quando a mamãe sair.

Ainda cabisbaixo, saiu da cama tomando cuidado para não pisotear os irmãos que dormiam.

Rosalie saiu do quarto recebendo uma lufada de ar no rosto. Apesar de o dia ter sido quente, a temperatura lá fora caíra um pouco ao anoitecer. Estava começando ventar forte, talvez chovesse ainda naquela noite.

Esperou até ouvir Noah girar a chave na fechadura. Sabia que ele não conseguira pôr a tranca, então deixou pra lá.

– Volta pra cama, bebê – pediu, quase sussurrando, com a testa colada à porta. Esperou um pouco pra ver se ouvia os passinhos dele retornando a cama.

Só se moveu quando teve a certeza de que ele tinha feito como pediu.

Estava de calça jeans, camiseta e moletom. Com os pés cheios de bolhas, usava os tênis como se fossem chinelos. Colocou o capuz e saiu dali de cabeça baixa, com as mãos no bolso do moletom.

Estava com medo, sim. Mas não havia outra forma de conseguir comida para ela e os filhos, senão se arriscando sair sozinha àquela hora da noite.

Notas finais
Então pessoinhas, o que acharam? Merece comentário? Pra quem ainda não viu, deixarei aqui o link de minha fic mais recente. http://fanfiction.com.br/historia/611743/Onde_Nasce_O_Amor/ Beijo, beijo Sill