Um Lugar Chamado Long Island
1 Capítulo I
Notas iniciais
Tudo começou no outono, ou talvez na primavera.
Havia acabado de amanhecer em Long Island, o primeiro raio de sol estendendo-se preguiçosamente sobre o distrito do Queens e abençoando seus moradores com mais um dia agradável.
Foi mais ou menos naquele instante que, em um dos inúmeros prédios de tijolinhos vermelhos da ilha, um despertador começou a tocar de forma estridente, perturbando o meu sono que até então fora tranquilo.
Rolei para o outro lado da cama estreita, tentando afastar-me o máximo possível do insuportável barulho enquanto murmurava palavras incompreensíveis até mesmo para mim. Quando percebi que tomar distancia de nada me adiantou, agarrei meu travesseiro e o coloquei sobre a cabeça, abafando de uma vez por todas o som irritante.
Se existe algo que eu, Chris Rodriguez, odeie com todas as minhas forças são as manhãs.
Não as manhãs em si, claro, mas a rotina doentia que sou obrigado a cumprir quando elas chegam. O primeiro instrumento de tortura é o despertador, o qual, “que surpresa” pensei ironicamente, já tinha começado a entoar o seu cântico terrível que me invadira os ouvidos e me obrigara a acordar de forma desumana.
Felizmente, meu fiel aliado e escudeiro, também conhecido como travesseiro, encontra-se por perto todos os dias e me ajuda na defesa contra esses ataques tão sujos.
Em seguida era preciso levantar, tomar coragem e abandonar todo o calor e conforto oferecido por minhas cobertas. Contra isso não havia como me proteger e nem como evitar, contudo, uma suposta doença vez ou outra pode dar um jeito nisso.
E, como se tudo isso não fosse o suficiente, o único motivo pelo qual sou forçado a passar por todo esse tormento é porque eu “preciso” ir à escola. Não me levem a mal, eu sei que a escola é importante se eu quiser ser alguém na vida, mas... Como é que eu vou saber que não quero ser um mendigo, se primeiro eu não tiver a oportunidade de ser um? Entendem o que eu digo?
De qualquer forma, aquele sensação gostosa que se sente quando estamos prestes a dormir começava a tomar conta do meu corpo. Chame como quiser: dormir, cochilar, fechar os olhos e fingir-se de morto, o fato é que eu sou realmente bom com coisas relacionadas a descanso, tanto que ouso dizer que, se houvesse um concurso de quem dorme mais, se eu não ficasse em primeiro lugar, provavelmente continuaria no pódio.
E foi com esse último pensamento que me deixei retornar a terra dos sonhos.
Quando voltei a acordar, ou melhor, fui acordado por alguém, a primeira coisa que notei é que estava sendo balançado não tão delicadamente pelo ombro. A segunda foi: o despertador havia sido desligado, e a terceira é que a pessoa a me chacoalhar era a minha própria mãe. Não demorou muito, e ouvi a voz dela dizer:
-Chris, querido, acorde ou você vai acabar se atrasando para a escola.
Pensei em me fingir de morto, realmente pensei, mas mamãe já tinha tantos problemas que decidi que não seria mais um deles. Não bastasse o fato do meu pai ter saído para comprar pão anos atrás e nunca mais ter voltado, ela ainda trabalhava como enfermeira, ou seja, era uma das últimas pessoas a ver um paciente antes de ele passar dessa para uma melhor, não precisava ser lembrada disso.
-Vamos – Incentivou ao me ver tirar o travesseiro de cima da cabeça.
-Que horas são? – Perguntei enquanto me sentava. Apesar de estar coçando os olhos, tive a impressão de que ela lançava um olhar para o relógio digital.
-Seis e dez, vai ter que se apressar se quiser pegar o ônibus – Inclinando-se para frente, depositou um beijo em minha testa antes de se afastar – Katie já está pronta, só está terminado de tomar o café da manhã.
Acenei e em seguida soltei um profundo bocejo. Mamãe, vestida de branco da cabeça aos pés, parou no batente da porta e levou as mãos a cintura, ao mesmo tempo em que me olhava desconfiada.
-Não vai voltar a dormir, não é? – Indagou.
Neguei calmamente com a cabeça. Ela continuou me encarando por pelo menos mais cinco segundos antes de sorrir e fechar a porta ao sair. No mesmo instante em que ouvi o click me joguei para trás, deitando-me novamente.
O dia mal havia começado, mas já provava ser um dos difíceis.
Nem cinco minutos depois a porta voltou a ser aberta, apesar de estar com os olhos fechados pude ouvir o barulho da maçaneta e, a julgar pelo fato de que mamãe já havia saído para trabalhar, só podia ser uma certa pessoinha.
-Chris – Ouvi-a chamar.
-Katie – Disse no mesmo tom.
-Chris, você precisar levantar! – Insistiu me balançando pelo joelho.
-Já vou.
-AGORA! – Ela gritou, o que me fez sentar na cama e encará-la.
Quando eu ainda era uma criança, houve um dia em que meu padrinho me perguntou o que eu achava da escola e, inocentemente, eu disse que a adorava e ele caiu na risada, em seguida, ele quis saber qual era a minha matéria favorita, a resposta fora matemática, e foi naquele momento que ele balançou a cabeça de um lado para o outro e disse: “Criança, você não faz ideia do que te aguarda”.
Naquela ocasião eu não tinha entendido nada do que acontecera, mas hoje consigo compreender muito bem do que ele estava falando: a escola é um inferno e tudo relacionada a ela é do mal, inclusive a matemática, contudo os adultos não dizem isso às crianças para preservá-las. Eu, pessoalmente, preferia ter sido avisado antes que fosse tarde demais, mas infelizmente... Deu no que deu.
É claro que eu, como irmão mais velho, deveria prevenir minha irmãzinha, mas sinceramente, se alguém naquele quarto tinha chances de ser algo na vida, esse alguém era Katie.
-Tudo bem – Suspirei ao levantar – Satisfeita?
-Só quando eu chegar na escola – Murmurou com os braços cruzados enquanto saía do cômodo.
Engraçado, pensei ao me espreguiçar, eu podia jurar que EU era o irmão mais velho dessa relação.
Não cheguei a demorar cinco minutos embaixo do chuveiro, como já tinha passado dez a mais na cama, não precisei repor meu sono sob a água.
Arrumar-me também nunca fora e nem é uma tarefa que me toma muito tempo. Acontece que, na noite em que eu fui feito a mãe natureza realmente estava a fim de criar algo perfeito e, como consequência, eu nasci.
Como só tínhamos um banheiro em casa, tive que voltar até o meu quarto para apanhar a minha mochila, depois disso fui até a sala onde encontrei minha querida irmã sentada no sofá onde larguei minha mochila. Ela me lançou um olhar hostil e eu lhe mostrei a língua.
Agora, vejamos o que tem pra comer, pensei ao analisar a cozinha. Havia um prato de panquecas sobre a mesa, e como não encontrei nenhum cartãozinho endereçado a ninguém, julguei que eram minhas.
Dizer que comi seria um eufemismo já que eu praticamente abri a boca e enfiei as panquecas lá dentro, mas pelo pouco que mastiguei e o muito que engoli, poderia dizer que ao menos estavam gostosas.
Quando voltei à sala Katie estava assistindo ao Scooby-Doo, pensei em parar e ver também, contudo acho que já a irritei o suficiente.
Veja bem, Katie claramente puxou a minha boa aparência, mas parece que todo o charme e carisma foram reservados para mim, assim como a inteligência para ela. Acredito que não se pode ter tudo nessa vida.
Após escovar os dentes fui mais uma vez até a sala. Peguei a mochila e joguei-a sobre o ombro antes de perguntar:
-Pronta para ir a escola?
-Já estava na hora – Respondeu enquanto desligava a TV e ficava de pé.
Katie pegou a própria mochila de rodinhas e eu a acompanhei até a porta. Logo que a abri minha irmã tomou a frente e passou a rumar para o primeiro andar.
Sinceramente, de vez em quando eu tinha a impressão de que quem estava sendo levado para escola era eu.
Ok, talvez eu não odeie tuuuudo sobre a escola, tinha uma coisa, ou melhor, alguém que a fazia valer a pena.
Como eu sempre sento perto da janela nas aulas de matemática, assim fica mais fácil não prestar atenção na explicação, tive que virar a cabeça para o lado direito para poder vê-la melhor. Mary Roberts.
Um anjo vindo diretamente do céu que calhou de cair bem aqui em Long Island. O cabelo loiro platinado estava preso em um rabo de cavalo alto, penteado padrão das líderes de torcida. A blusa azul clara realçava os olhos extremamente brilhantes e suas pernas encontravam-se cruzadas e expostas graças à saia rodada e branca.
Mary Roberts, líder de torcida, integrante do grêmio e uma das garotas mais bonitas da escola, quer dizer, ela ainda consegue ser inteligente. Suspirei um pouco mais alto do que pretendia, gostaria de saber qual é o segredo dela.
Voltei a olhar para frente, se ficasse encarando ela demais eu poderia ser descoberto por alguém. Sem contar que o Sr. Blake é o tipo de professor que adora fazer perguntas aos alunos que não entendem a matéria, o que no caso me inclui, por isso a minha brilhante tática e fingir estar anotando o que ele diz e acenar com a cabeça quando ele olha pra mim.
Até agora tem dado certo.
De repente um alto sinal soou pela escola, anunciando que aquela aula estava encerrada. Ao invés de guardar o material rapidamente e correr para fora do prédio como se não tivesse que voltar no dia seguinte, permaneci sentado. Ainda teria de sobreviver a mais uma aula de matemática.
Olhei para lousa onde números e letras se misturavam, por mais que franzisse as sobrancelhas e fizesse caretas nada fazia sentido. Sentindo-me totalmente derrotado, joguei a cabeça para trás e soltei um gemido de agonia.
Quando voltei a minha posição inicial e abri os olhos, percebi que todos, inclusive o professor me encaravam com olhares estranhos. Parabéns Rodriguez, me aplaudi mentalmente, fator descrição: zero.
-Você está bem, senhor Rodriguez? – Indagou o professor enquanto arqueava as sobrancelhas.
Pense rápido. Não diga besteiras. Pense rápido. Não diga besteiras.
-Na verdade senhor Blake, eu estou me sentindo meio enjoado e... Minha cabeça dói um pouco.
O senhor Blake me analisou através das lentes de grau. Tentei parecer o pior possível, mas quando se tem um rostinho igual o meu essa tarefa se torna meio complicada.
Sem contar que ele não tinha razões para desconfiar de mim, apesar de eu estar mentindo. É, essa parecia uma boa razão. Esperemos que ele não leia mentes então.
-Acho melhor que você fale com a enfermeira – Acenei levemente com a cabeça, tentando passar a impressão de que o simples ato me exigia muito enquanto guardava meu material.
O Sr. Blake pegou um passe para a enfermaria em uma das gavetas da mesa e estendeu em minha direção. Aceitei prontamente enquanto murmurava um rápido agradecimento.
Enquanto fechava a porta, vi pela fresta que todos já haviam voltado a olhar para frente, com exceção de Silena Beauregard que me encarava com um olhar desconfiado.
Estranho.
Andando pelos corredores, decidi que não poderia ir ver a enfermeira. Ela acabaria percebendo rapidamente que eu não tenho nada e me mandaria de volta para sala e, por mais bonita que Mary seja, não há nada que me faça voltar para lá.
Foi naquele momento que avistei Travis e Connor Stoll parados em frente a um armário que não pertencia a nenhum deles. Travis trazia consigo um envelope, o qual ele enfiou dentro do armário antes de virar-se para o irmão e os dois fazerem um High Five.
Resolvi fingir que nem tinha visto. Houve um tempo em que eu costumava a andar com os gêmeos, mas quando eu comecei a pagar sozinho pelas nossas brincadeiras resolvi seguir “carreira solo”.
-EI, Chris – Connor me chamou – Vem cá.
Me limitei a acenar com a cabeça como cumprimento, mas não me aproximei. Eles pareciam bem determinados em ter minha companhia, porém.
-E aí cara? Alguma novidade? – Travis perguntou enquanto ficava ao meu lado esquerdo e me abraçava pelos ombros. Connor fez a mesma coisa, mas do lado contrário.
-Não sei – Dei de ombros esperando me livrar do abraço, não deu certo – Me digam vocês.
O gêmeo à direita riu antes de responder:
-Você vai adorar saber a última que nós aprontamos.
-Pensando melhor – Fiz uma careta – Prefiro não saber– Ambos deram risada e, quando percebi que estava sendo guiado por eles, perguntei: — Onde estão me levando?
-Ginásio.
-Estamos de aula vaga – Esclareceu Travis.
Bem, pelo menos agora eu tinha uma desculpa para estar ali fora
No momento em que saímos da escola e começamos a andar em direção ao ginásio, resolvi perguntar:
-Então, o que é isso que vocês andaram aprontando?
Os gêmeos trocaram um pequeno sorriso. Sinto que não deveria ter perguntado.
-VOCÊS FIZERAM O QUÊ? – Gritei, chamando a atenção dos adolescentes ao redor. Mas pouco me importei, tudo o que eu conseguia ver eram os dois idiotas na minha frente – Vocês são louco ou querem morrer? Espera aí, já sei! Vocês são loucos E querem morrer!
-Da pra falar mais baixo? – Indagou Connor irritado.
Ah claro, eles haviam feito a maior burrada de suas vidas e queriam que eu ficasse calmo, ok. Cobri o rosto com as mãos e suspirei.
Travis e Connor escreveram uma carta romântica para Clarisse La Rue como se fossem o Jackson e a colocaram no armário dela. Será que eles têm ideia da confusão que isso vai dar? Percy tem namorada e Clarisse, bem, ela vai matá-los de qualquer forma.
-Por que fizeram isso? – Perguntei, minha voz não era mais do que um sussurro.
-Nós já dissemos, ela roubou o dinheiro do nosso lanche! – Continuou Connor.
Franzi as sobrancelhas e abaixei minhas mãos.
-Pensei que tivessem sido Mark e Sherman.
-Bem, foram, mas temos certeza que foi Clarisse que mandou – Encarei-o – Ok, quase certeza – Continuei encarando – Tudo bem, nós não sabemos, mas que diferença faz?
-A diferença é que agora vocês vão morrer! Essa é a diferença! – Balancei a cabeça de um lado para o outro quando um pensamento me atingiu – Calma aí, eu não tenho nada a ver com isso, eu não ajudei vocês então ela não vai me bater – Respirei aliviado e sorri – Problema resolvido.
Os gêmeos me fitaram incrédulos.
-Então é assim? – Indagou Travis.
Abri a boca para responder, mas o sinal tocou novamente. Estava na hora de ir embora.
-Olha, se vocês quiserem pegar a carta antes que Clarisse a leia a hora é agora. Esperem ela abrir o armário e enquanto um de vocês a distrai...
-Tive uma ideia melhor – Interrompeu Travis – A gente distrai e você pega a carta.
Pensei em dizer que não tinha nada a ver com isso, o que era verdade, mas em nome da nossa velha amizade, por que não?
-Tudo bem, vamos.
Fizemos nosso caminho até a escola rapidamente, observando a multidão de adolescentes indo embora. Torci para que Clarisse não estivesse entre eles e, quando chegamos ao corredor principal suspirei aliviado ao vê-la prestes a abrir o armário.
Caminhamos até ela tentando parecer casuais, eu um pouco mais atrás do que os gêmeos, quando Connor parou e disse:
-Ok, mudança de planos: Chris, você distrai e nós pegamos a carta.
-O que? – Comecei a protestar – Mas não foi... – De nada adiantou, eles me agarraram pelos braços e me empurraram na direção de Clarisse.
Nós dois fomos para frente com o impacto, e eu acabei aproveitando para trocar nossas posições enquanto ela se recompunha. Agora ela estava de costas para os gêmeos e eu podia vê-los sobre o ombro dela.
-Rodriguez – Ela rosnou e em seguida cruzou os braços – Me dê um bom motivo pra mim não te bater
-Porque eu sou... Fofo? – Disse tentando parecer exatamente como dissera.
Clarisse analisou o meu rosto com os olhos semicerrados.
-Esse é o melhor que você consegue?
-Eu também posso ser sexy, mas não acho que você esteja preparada para isso – Apontei para mim mesmo com o polegar – Na verdade, acredito que nenhuma mulher no mundo esteja.
Os lábios de Clarisse se transformaram em uma linha fina. Não o eu-vou-te-matar tipo de linha, mas o estou-me-segurando-para-não-rir-e-você-sabe-disso tipo de linha.
Satisfeito comigo mesmo, lancei um olhar para os gêmeos e vi que um deles estava com a mão dentro do armário enquanto o outro nos vigiava.
-Tenho que admitir que você é engraçado Rodriguez – Sorriu sem mostrar os dentes – E é por isso que não vai morrer hoje –Ela fez menção de se virar, mas eu a segurei pelos braços. Clarisse olhou para as minhas mãos, depois, me encarando, disse – Se não soltar os meus braços, Rodriguez, vai acabar ficando sem os seus.
-Desculpe – Pedi e em seguida a soltei rapidamente, como se tivesse levado um choque. – É só que... – Olhei para os gêmeos novamente, se eles não se apressassem acabariam sendo pegos, eu não conseguiria distrair Clarisse por muito mais tempo.
Aparentemente ela havia acompanhado o meu olhar, pois no momento seguinte já tinha virado na direção de Travis e Connor, que segurava a carta acima da cabeça como se fosse um troféu.
-O que é isso? – Ela indagou ao se aproximar dos gêmeos.
-Hum... – Travis olhou para o irmão que se encontrava em estado de choque. Pegou a carta e a escondeu atrás das costas – Nada – Clarisse ergueu uma sobrancelha – É... Uma... Carta.
-Você a pegou no meu armário?
-Não – Apressou-se em responder – O Connor fez Isso – Travis bateu no peito do irmão com a mão que segurava a carta e Connor a agarrou. No segundo seguinte Travis estava correndo em direção a saída.
Clarisse encarou o gêmeo restante. Connor deixou a carta cair no chão e saiu correndo atrás do irmão.
Olhei ao redor rezando para que houvesse mais alguém no corredor. Não tive sorte. Engoli em seco ao vê-la abrir o envelope e começar a ler o conteúdo. Talvez, se eu fosse bem discreto, eu pudesse cair fora sem que ela percebesse. Dei alguns passos para trás quando ouvi a voz dela:
-Mais um passo e você está morto Rodriguez.
Oh que ótimo, se eu ficar, eu morro. Se eu for embora, eu morro também. Suspirei, se for pra morrer, que seja como um homem.
Clarisse terminou de ler a carta e virou-se para mim sorrindo. Senti uma pontadinha de esperança ao ouvi-la falar:
-Bem, é uma carta muito... Engraçada.
-Isso significa que você não vai me bater? – Ela negou com a cabeça.
-Isso é um não, eu não vou te bater, ou um não, eu vou te bater?
-Opção número dois – Respondeu guardando a carta no armário – Sinto muito, mas alguém precisa pagar por isso.
Tudo bem, eu já estava conformado mesmo. Olhei fundo nos olhos dela conforme a mesma ia se aproximando. Eram castanho-avermelhados, muito brilhantes se me perguntassem. Era bom saber que o fato de eu estar prestes a tomar uma surra fazia os olhos dela brilharem. Deixei o meu olhar cair até os lábios cheios de tom rosa pálido e inclinei minha cabeça para o lado, Clarisse não tinha a face de uma assassina.
-Pode, por favor, não me acertar no rosto? – Perguntei.
-Eu não ia, mas agora que você pediu, vou fazer questão.
Ela me agarrou pela gola da blusa e me puxou para mais perto, foi com certa surpresa que percebi que ela cheirava bem, nada muito forte ou enjoativo, mas muito agradável. Clarisse levou um dos braços para trás e fechou a mão em um punho, mas eu não cheguei a registrar essa ação. Tudo o que eu via eram os lábios dela, e prometi a mim mesmo que se ela abrisse a boca mais uma vez, eu não responderia por mim.
-Suas... – Não conseguiu completar a frase, pois colei os meus lábios nos dela.
Clarisse provavelmente estava chocada. Eu meio que estava também. Aparentemente eu não queria apenas ser morto como também esquartejado para completar o pacote.
Ainda com os olhos fechados, senti a outra mão dela ir parar na minha gola também. Por um segundo pensei que seria empurrado para longe, mas ela acabou me puxando para mais perto e, como resposta, coloquei minhas mãos em sua cintura. Pedi passagem lambendo o lábio inferior dela que pareceu hesitar antes de finalmente ceder.
Definitivamente não fora um beijo calmo, nós agimos mais como se o mundo estivesse se desintegrando a nossa volta e aquela fosse a nossa última oportunidade de tocar um no outro, com certeza o tipo de coisa que teria nos levado direto para a detenção.
Nos separamos tempo depois, minha respiração tão ofegante quanto a de Clarisse. Meu olhar pousou sobre a boca dela novamente que agora estava inchada e bem mais rosada do que antes. Acabei não resistindo e me inclinei para frente mais uma vez, arrastando os meus lábios contra os dela.
Com a respiração já estabilizada, dei-lhe uma série de beijos curtos. O que eu estava fazendo afinal?
Enfim, com muito custo consegui me afastar, mas Deus sabe que eu poderia ter passado o resto dos meus dias ali. Nos encaramos antes dela se desvencilhar das minhas mãos lentamente.
Deixei meus braços caírem ao meu lado e assisti calado enquanto Clarisse fechava o seu armário e jogava a alça da mochila sobre o ombro. Ela virou-se em minha direção, abriu a boca e em seguida a fechou. Abriu mais uma vez e voltou a fechá-la.
Desistindo de dizer alguma coisa, qualquer coisa, deu alguns passos para trás antes de virar-se e caminhar em direção à saída, deixando-me totalmente atordoado e para trás.
Levei algum tempo para me recompor, inclusive me peguei lambendo os lábios procurando pelo gosto de Clarisse, mas tive a impressão de que ao ir embora ela havia levado realmente tudo consigo.
Saí cambaleando da escola, tropeçando vez ou outra em alguma coisa que estivesse no caminho. Não consegui pensar em nada, apenas via repetidamente as imagens do beijo em minha cabeça. De novo. De novo. E de novo.
Foi só quando cheguei à esquina que lembrei que havia deixado minha mochila na arquibancada do ginásio. Dei um tapa em minha própria testa e fiz meu caminho de volta a escola.
De todas as formas que o dia poderia ter acabado, aquela fora sem dúvida a mais surpreendente.
Agora bastava saber se isso era bom ou ruim.
Notas finais
Enfim, nos vemos em breve amados!!! XOXOXO
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