Um Lugar Chamado Long Island
2 Capítulo II
Notas iniciais
A primeira coisa que eu fiz ao descer do ônibus da escola na manhã seguinte foi olhar para os dois lados antes de dar a volta no veículo. Afinal, nunca se sabe quando uma multidão enfurecida pode estar vindo em sua direção. Ou pior, uma Clarisse enfurecida.
Ontem perdi o ônibus para ir pra casa por ter esquecido minha mochila no ginásio e acabei tendo que pegar um ônibus comum, como consequência cheguei atrasado para pegar Katie na escola e gastei o dinheiro do meu lanche dos próximos três dias. Tudo teria ficado bem e esse assunto estaria encerrado, se aquela monstrinha não tivesse contado a mamãe sobre o ocorrido.
Aparentemente mamãe não anda nada satisfeita com o meu comportamento nesse último ano, e ainda listou nos dedos o que eu tenho feito, como: tirar notas ruins na escola, ter me distanciado da família e esquecer minha irmã na escola.
Prometi que iria melhorar, mas claro que estava me referindo ao atraso para buscar Katie, isso realmente não voltaria a acontecer.
Na verdade, ouso dizer que nada daquilo se repetiria, já que no momento em que Clarisse me encontrar será o fim.
É claro que os meus problemas não acabam por aqui, Clarisse sempre está acompanhada por Mark e Sherman, juntos, eles formam o trio de valentões da escola e são conhecidos por roubar o dinheiro do lanche dos outros adolescentes, como fizeram com Travis e Connor, apesar de nunca terem me incomodado.
Até hoje eu não sei se é porque eu sou muito lindo ou se é porque eu não tenho dinheiro. Hum... Com certeza a primeira opção.
Basicamente, os meus objetivos do dia eram:
Evitar Mark;
Evitar Sherman;
E, principalmente, evitar Clarisse.
Como hoje é sexta-feira, se eu conseguir cumprir essas três missões básicas isso significa que eu terei mais dois dias de vida. Não é muito tempo, mas já que eu não tenho muitos bens, é o suficiente para preparar o meu testamento.
Cheguei à entrada principal e dei uma boa olhada no corredor antes de suspirar aliviado. Nenhum sinal dos três. Segurei a alça da minha mochila e fiz o caminho até o meu armário cautelosamente, olhando para os lados sempre.
O meu horário estava colado na porta do armário, e foi com imensa satisfação que percebi que evitar o trio não seria uma missão tão difícil já que nenhum deles estava nas minhas aulas da manhã.
Foi naquele instante que uma mão pousou sobre o meu ombro. Virei-me rapidamente pronto para gritar por socorro ou fingir um súbito desmaio, porém me impedi quando percebi que o dono daquela mão era o Sr. Blake.
–Chris – Ele sorriu – Que bom encontrar você.
Pensei em dizer que eu estudo aqui, mas como a nossa relação é meio conturbada resolvi dizer algo inteligente:
–Pois é.
–Precisamos conversar sobre as suas notas – Ficou sério de repente – Chris, você é um aluno muito dedicado na sala de aula, mas por alguma razão as suas notas estão baixas.
Bem, pelo menos agora eu tinha a confirmação de que a minha tática realmente vinha dando certo. De qualquer forma, cocei a nuca e tentei me explicar:
–Olha, senhor Blake...
–Por favor – Interrompeu – Deixe-me terminar – Acenei com a cabeça – Tomei a liberdade de procurar um tutor pra você.
Ah que ótimo, pensei ironicamente.
–Ah que ótimo – Disse sorrindo – Quem é ele?
–Na verdade é ela, Mary Roberts.
Concordei enquanto encarava o chão. Eu procuro por uma oportunidade de estar sozinho com Mary desde a oitava série, e agora que eu finalmente a tinha não estava tão animado assim. Talvez seja pelo fato da matemática estar envolvida.
–Tudo bem, falarei com ela senhor Blake. Obrigado – Agradeci.
Ele apenas sorriu antes de se afastar.
Felizmente ou não, eu ainda não conseguira me decidir, eu não sobreviveria o suficiente para ter essas aulas.
Como faltava pouco para o sinal bater achei melhor não ficar dando sopa pelos corredores e ir direto para sala. Eu havia acabado de passar pela porta quando Silena Beauregard apareceu do nada e me abraçou.
Tudo bem, eu entendo que as pessoas possam ficar um pouco, ou até mesmo muito, emocionadas ao me verem. Como não poderiam? Mas Silena e eu somos apenas colegas de classe, o fato dela estar me abraçando me causa mais desconfiança do que qualquer outra coisa.
Enfim, ao resolver que estava na hora de soltar, agarrou a minha mão e me levou até o meu lugar. Que diabos?
–Estou tão feliz por você, Chris! – Disse com as mãos grudadas as bochechas.
–Feliz por mim? Por quê?
–Desculpe, deixe-me reformular: estou tão feliz por você e Clarisse!
Meus olhos se arregalaram. Oh não não não não não. Ela não pode estar falando de... Será?
–Silena – Tentei parecer o mais calmo possível – Do que está falando?
Ela invadiu o meu espaço pessoal e olhou para os lados. De repente notei que os poucos alunos presentes na sala nos encaravam. Por fim voltou a me olhar.
–Eu vi vocês dois – Sussurrou – Ontem. No corredor – A voz dela subiu uma oitava ao completar: — Juntos!
Meus olhos se arregalaram mais uma vez e eu decidi que era hora de parar com isso. Seria um desperdício deixar que o meu rosto ficasse marcado por linhas de expressão.
–Silena – Comecei devagar – O que você viu ontem no corredor foi... Um acidente. Clarisse e eu não estamos juntos.
–Não estão? – Perguntou franzindo as sobrancelhas.
–Não, não estamos – Reforcei.
A ruiva me lançou um olhar longo, tentando ver se eu estava mentindo. Segundos depois foi sentar-se, mas vez ou outra me lançava olhares desconfiados, o que não parou de fazer mesmo depois que o professor e os outros alunos chegaram.
Mas eu não estava prestando atenção, tudo o que eu conseguia pensar era: se Silena nos viu no corredor, alguém mais pode ter visto.
Foi aí que eu tomei uma decisão. Possivelmente a última da minha vida.
Eu falaria com Clarisse La Rue.
A hora do intervalo demorou a chegar, principalmente pra mim que estava com pressa. Depois de procurar por Clarisse em toda a escola, tive a brilhante ideia de tentar encontrá-la no ginásio.
Me arrependi no momento em que cheguei lá. Estava meio escuro, mas mesmo assim pude ver a silhueta de três pessoas. Precisei semicerrar os olhos para conseguir identificá-las. Mark. Sherman. E Clarisse.
Incrível como uma simples decisão me fez descumprir meus três objetivos do dia ao mesmo tempo.
Respirei fundo. É agora ou nunca.
–Clarisse – Chamei enquanto me aproximava das arquibancadas onde eles estavam.
Ela ergueu a cabeça e me encarou sem expressão.
–Rodriguez.
Acenei e então deixei meu olhar cair sobre os dois adolescentes.
–Mark, Sherman.
Eles não responderam. Na verdade eu nem lhes dei tempo antes de voltar a falar com Clarisse:
–Podemos conversar na hora do almoço?
Ela hesitou.
–Não acho que seja uma boa ideia.
–Eu insisto. É importante.
Pensei em fazer a minha cara fofa, mas a julgar aonde aquilo nos levou da última vez, achei melhor não.
–Tudo bem – Suspirou – Nos vemos no almoço.
–Ótimo, até mais – Acenei com a cabeça novamente e parti em direção a saída do ginásio.
Porém, antes de sair, ouvi Sherman perguntar:
–Você e o Rodriguez são amiguinhos agora?
Parece que Clarisse tinha algumas explicações a dar.
As duas aulas após o intervalo passaram rapidamente e de forma bem mais tranquila, já que Silena intrometida Beauregard não estava presente.
Apesar de entender química sem muitos problemas, passei a maior parte do tempo encarando o cabelo da garota sentada a minha frente enquanto pensava no que diria a Clarisse.
O sinal mal bateu e eu já me encontrava fora da sala. Como não tínhamos marcado um lugar para nos encontrar, deduzi que ela estaria no refeitório.
A fila para comprar o almoço estava enorme, e como eu não tinha dinheiro mesmo me senti bem em ver os pobres coitados parados na fila.
Clarisse estava sentada sozinha em uma mesa distante da entrada e ao ver a boa quantidade de comida que ela havia comprado fez meu estomago roncar. Ao menos eu acho que seja de fome, talvez tenha sido de medo.
–Oi – Cumprimentei ao me aproximar.
Clarisse fez um sinal com a cabeça para que eu me sentasse e eu obedeci.
–Então... Sobre o que quer conversar?
Ok, parece que ela vai agir como se nada tivesse acontecido, posso lidar com isso.
–Ontem, quando nós nos beijamos...
–Você me beijou – Interrompeu.
–Desculpe, mas eu não me lembro de ter visto você reclamar.
Ela me lançou um olhar assassino e, engolindo em seco tratei de dizer:
–Mas a minha memória não é lá essas coisas, então eu posso estar enganado – Clarisse relaxou – Acontece que Silena viu quando a gente – Reformulei: — Quando eu te beijei. Logo todo mundo vai ficar sabendo e... Acho melhor estarmos preparados pra saber o que dizer.
Ela acenou algumas vezes enquanto encarava um pedaço de pizza. Em seguida voltou a me encarar.
–Você disse a Beauregard que não estamos juntos?
–Disse, mas perece que ela não acreditou muito.
Clarisse suspirou e disse:
–Ninguém vai acreditar, acho melhor – Hesitou antes de olhar nos meus olhos. O tom castanho avermelhado me trousse de volta as imagens de ontem. Meu olhar pousou nos lábios dela – Acho melhor – Repetiu alto, chamando minha atenção – Dizer que estávamos juntos, mas que já terminamos.
Parece loucura, contudo pode dar certo.
–Ok – Concordei – Da próxima vez que Silena perguntar se estamos juntos, vou dizer que eu terminei com...
–Como é? – Clarisse deu risada – Rodriguez, obviamente fui eu que terminei com você!
–Ah nem pensar! Podemos dizer que nós dois decidimos que não estava mais dando certo e...
–Nenhum idiota acredita nisso – Me interrompeu. Já era a segunda vez – Diremos que eu terminei com você e ponto.
–Sem chances! Ou dizemos que eu terminei com você ou...
–Ou? – Clarisse repetiu, estava me desafiando.
Inclinei-me para frente.
–Ou, se me perguntarem, eu falo pra todo mundo que ainda estamos juntos.
Os olhos dela, que até então estavam cravados no meu foram descendo até a minha boca, ela lambeu os próprios lábios e sussurrou:
–Você não ousaria.
–Quer pagar pra ver? – Eu sussurrei também e no momento seguinte uni os nossos lábios antes de me afastar rapidamente.
Dessa vez a culpa não foi minha, Clarisse estava me provocando abertamente!
Levantei e assoprei um beijo na direção dela antes de pegar o pedaço de pizza.
Eu até podia ter ganhado o almoço e um beijo, mas o medo de morrer estava definitivamente perdido.
O sinal bateu pela penúltima vez naquele dia e eu agradeci mentalmente. Só mais uma aula e eu estaria livre.
Percorri o corredor rápido, preferindo não me atrasar para a aula do Sr. Smith, o professor de geografia. Ele é um cara legal, apesar de sempre começar a chorar quando entramos no assunto “poluição”. Me enche de pena ver os outros alunos tirando com a cara dele, de verdade, por isso tento ser o mais legal possível.
Foi apenas quando entrei na sala e avistei Silena que percebi que tínhamos muitas aulas em comum.
Ao invés de me sentar perto da janela, fui até a fileira na qual ela estava e me sentei atrás dela. Silena virou-se, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, falei:
–Você estava certa, Clarisse e eu estamos realmente juntos.
A boca de Silena escancarou-se antes que ela exclamasse sorrindo vitoriosa:
–Eu sabia!
O professor nos lançou um olhar repreensivo e eu levantei a mão enquanto sorria sem graça, pedindo desculpas. Silena lançou um sorriso a ele também antes de voltar-se para mim:
–Há quanto tempo estão juntos? – Perguntou.
O-ou.
–Não muito, mas sabe como é – Coloquei a mão sobre o coração e dei algumas batidas lá – É tanto amor que não tem mais como esconder.
Silena soltou um sonoro “ownnnn” com a cabeça virada para o lado e em seguida acrescentou meio desapontada:
–Queria que Charles fosse assim comigo – Deu de ombros – De qualquer forma, você e Clarisse fazem um lindo casal, estou muito feliz por vocês dois.
Sorri enquanto assistia os últimos alunos entrarem na sala. Logo o professor começaria a aula. Silena deve ter percebido também porque, antes de virar-se para frente, disse:
–Vai ter que me contar todos os detalhes mais tarde!
Fiz uma careta ao ouvir isso, pensei que apenas as meninas fizessem esse tipo de coisa. Silena estava brincando comigo? Parece estranho pensar dessa forma, mas acho que agora somos quase... Amigos.
A aula passou tranquilamente, o Sr. Smith só chorou uma vez, o que foi um novo recorde pessoal dele. Na hora de ir embora dei tchau a Silena e procurei por Clarisse no corredor, mas não tive sorte, não consegui encontrá-la.
Achei que talvez fosse melhor assim, podíamos nos falar segunda-feira, de preferência quando ela estivesse sozinha. Também não vi Mary, então decidi me apressar para pegar o ônibus e combinar os detalhes sobre as aulas de matemática um outro dia.
Em apenas dois dias eu havia arranjado uma namorada, uma amiga e uma tutora.
Eu mal podia esperar para ver o que segunda-feira me reservava.
Antes de anoitecer resolvi que precisava clarear um pouco a mente. Vesti algumas roupas confortáveis e um par de tênis, peguei minha bola de basquete e fui até a sala. Assim que abri a porta, gritei:
–Mãe, vou jogar um pouco de basquete, já volto.
–O jantar está quase pronto!
–Não vou demorar – Disse, e saí antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
Fui rodando a bola sobre o dedo indicador ao mesmo tempo em que descia até o primeiro andar. De vez em quando, e só de vez em quando, eu deixo a minha preguiça de lado e jogo um pouco de basquete sozinho.
Saí do prédio, dei alguns passos e cheguei a um terreno vazio. De ambos os lados haviam cestas com aros, mas sem redes. Cheguei ao limite da quadra improvisada e mirei na cesta antes de arremessar a bola que fez um semicírculo no ar e entrou de vez no aro. 3 pontos, pensei ao recuperar a bola.
Passei a driblar um adversário invisível, vez ou outra fazendo algumas cestas de um e dois pontos.
Meu pai engravidou mamãe muito cedo, acho que na época ela tinha uns vinte e três anos. Mesmo grávida ela conseguiu terminar a faculdade de enfermagem, mas acabou tendo que tomar conta de mim por um tempo antes de começar a trabalhar.
Ele, por outro lado, largou a faculdade e foi fazer alguns bicos, logo conseguiu dinheiro o suficiente para comprar a casa onde vivemos atualmente e os dois se mudaram para lá, eu tinha um pouco mais de três anos quando isso aconteceu.
A rotina como enfermeira era, e ainda é muito puxada. Mamãe passa doze horas direto trabalhando e doze horas em casa, tem sido assim por muito tempo. Por isso, quando eu não estava com os meus avós, eu estava com o meu pai, foi aí que ele começou a me ensinar a jogar basquete.
As coisas estavam indo bem, pouco a pouco a casa se enchia de móveis e não nos faltava mais comida. Com a ajuda dos meus avós, papai conseguiria terminar a faculdade e arranjar um emprego fixo.
Acho que foi pressão demais para ele, trabalhando de dia e estudando de noite. Eu o via cada vez menos. Foi aí que as brigas começaram.
Eram apenas sussurros muito altos no começo, eles obviamente não queriam chamar minha atenção. Depois vinham os gritos realmente ruins e então mamãe aparecia no meu quarto com o rosto cheio de lágrimas, me dizendo que tudo ia ficar bem. Sempre acreditei nela.
Eu tinha quase oito anos, as brigas haviam melhorado, não aconteciam mais com tanta frequência. Papai estava quase terminando a faculdade e isso prometia uma grande melhora em nossas vidas, porém uma notícia acabou abalando tudo isso. Mamãe estava grávida pela segunda vez.
Foi a gritaria mais feia que eu já tinha presenciado. Meu pai estava tão zangado que fez as malas e foi embora. Nunca mais o vi depois disso.
Acredito que mamãe tenha mantido contato com ele por algum tempo depois disso, incentivando-o a voltar, mas ele nunca o fez. Uma pena, para ele claro, perdeu a oportunidade de conhecer a menina incrível que Katie é.
O suor escorria pelo meu corpo agora, minha respiração extremamente ofegante enquanto eu fazia mais uma cesta. Dessa vez, quando recuperei a bola, eu a segurei contra a lateral do meu corpo e encarei o aro com um pequeno sorriso.
Ano passado, no dia dos pais, Katie comprou um presente pra mim. A explicação dela fora: “Já que não existe um dia para os irmãos, achei que você pudesse gostar”. Tentei não demonstrar, mas fiquei muito emocionado. Era difícil ver a expressão confusa dela quando essa data chegava, como se perguntasse silenciosamente onde nosso pai estava.
Meus olhos ficaram marejados e eu disse a mim mesmo que era culpa do vento frio. Sinto falta do tempo em que Katie e eu éramos próximos, parece que vivemos brigando hoje em dia.
E foi naquele momento que eu percebi o que mamãe quis dizer com aquela bronca. Eu não fazia ideia do que estava se passando pela vida dela ou de Katie e eu havia relaxado muito com as minhas notas. A vida sempre fora difícil, mas ao invés de encarar as coisas de frente, eu escolhera me fazer de coitado e aceitar o que o destino estava atirando em mim.
Ergui a bola mais uma vez mirando no alvo e a lancei. Ela girou algumas vezes pelo aro antes de entrar.
–Três pontos – Disse a mim mesmo.
Aquela cesta foi a promessa de que, não importava o quanto custasse, eu voltaria a fazer parte daquela família.
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