Desenterrar memórias é agridoce, quem dirá quanto às físicas. Tocar no que um dia te foi a alegria, melosamente tatear com a ponta dos dedos, como se houvesse uma inspiração de mais das mesmas memórias. Agora jogadas de lado, pegando pó há anos. Querer vendê-las para se livrar de um engenho de felicidade aposentado, mas mesmo assim se conter. Apego. Enquanto está escondida atrás da estante, entulhada com outras caixas de memórias, é esquecida e pouco se faz caso, mas efetivamente se desvencilhar do velho é tão difícil que é irritante.

Talvez seja essa minha personalidade inóspita e ácida que me deixa irritada ver os outros terem ainda atividade com seus próprios pertences, que ao serem iguais os meus — com a diferença de serem de memória — me fazem pensar na continuidade que poderia ter tido. Isso me torna infeliz. A etimologia dos meus sentimentos é inteiramente tema para outro texto, tão labirínticos.

O último elemento do ciclo é o "querer voltar", jamais atingido. Quero voltar, não volto. Não voltei e não voltarei. Joga-se a memória num canto, quero vendê-la, mas o querer voltar a lança-se como uma muralha.

Eu seria tão feliz e infeliz quanto se estivesse livre desses pesos. Um eu contra eu, incapaz de encontrar equilíbrio. Por isso somente as memórias intangíveis me são as fáceis de lidar. O passado não está atrás da estante, podendo ser revivido; é apenas um pequeno filme guardado na nossa cabeça, sujeito às intempéries da faculdade mental com mais eficácia do que as do mundo tangível. E deixo-as queimar, serem consumidas pelo limbo, bem como as prefiro. Jamais alcançáveis. Para nem sentir a tristeza de reencontrá-las.

Não encontro paz em mim mesma estando rodeada de outros, à mercê de ser encarada de volta pelas coisas que não fiz, relatando a minha personalidade numa vida crua e pouco elaborada. São as poucas vezes que me sinto nua de proteção. Essa síndrome de comparação alheia é um artifício tão caótico e final que meu ego sente pena do meu eu pelos estragos causados. A destruição é tão violenta, irreparável e impiedosa que perdem-se os sentidos.

Pareço acordar dias depois, como num coma emocional.

Talvez, bem no fim, seja melhor me desvencilhar das memórias físicas. Menos acúmulo, menos tristeza.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!