Um Laço de Fita!
1 Capítulo Único
Estava a cantarolar uma triste canção, quando lembrei-me de uma história que acontecera há alguns anos. Era primavera, os campos estavam fabulosos, as flores se abrindo, como se sorrissem para mim que passava pelas ruas observando-as, contemplando-as. Bem, voltando, era primavera, mês de novembro. Era tarde, talvez três horas passadas, estava eu num passeio pela rua de Matacavalos, onde havia passado minha infância e onde meus pais haviam vivido até que faleceram já faz um ano. Passeava pela rua olhando as casas, as pessoas, até que de relance aparece-me a cavalgar, num bonito cavalo negro, uma bela donzela, que pelo que me pareceu, fugia de algo. Mas de que? Foi então que ouvi os tambores, soldados vinham de longe, estavam seguindo-a. Aquela moça, esbelta, loura, que vestia um vestido de chita, ela que sentada sobr eo cavalo estava, possuia um laço de fita em seus sedosos cachos. Oh, o laço de fita! Aquele laço de fita que no breve momento em que a moça passava por mim, deslaçara de seu cabelo e caíra. Sobre o paralelepípedo da rua, peguei-o. Peguei-o como um homem que pega o lenço de sua amada. De que cor era? Não me recordo, talvez, azul, rosa, amarelo, de que importa, se caíra daquela bela moça dos dourados e delicados cabelos da bela donzela? Ah, o laço de fita! A moça fugia da prisão, mas por que havia sido presa? Boa pergunta, nunca soube, somente soube que estava presa e que agora conseguia fugir de seu pior pesadelo. Soube pelas senhoras que possuia sentença de morte, mas nenhuma sabia o motivo. Teria ela matado? É uma suposição, vai saber. Muito bem, agora a moça ia, seguia seu rumo para lugar nenhum ou algum lugar para refugiar-se. Já estava longe, não a perseguiriam por tanto tempo, deixariam-na ir; sorte dela. O rebuliço que havia feito sua passagem pela rua movimentada, cessou e enfim pude voltar para casa. Não morava longe, somente alguns quarteirões dali, não sei ao certo. Então fui-me. Minha casa, ou melhor dizendo, fazenda, era grande, havia herdado de meu pai, com mais alguns privilégios. Mas ao entrar deparei-me com algo inacreditável. Que bagunça! O que havia acontecido lá? Alguns segundos depois descobri, era ela, aquela moça que cavalgava, a fugitiva, viria ela se juntar a mim? Não, imagino que não. Com uma adaga em sua mão, apontava-a para mim fazendo-me perguntas sem nexo. O que queria ela? “ O que queres senhorita?”, perguntei. “Onde está? Mostre-me! Quero que dê-me tudo!”, exclamava ela. Onde estava o que? “Mostrar o que?”, indaguei. “A herança! Não é o senhor filho de Dona Estella?”, estava nervosa. “Oh, sim!”, respondi. “Ande, apresse-se,não tenho muito tempo, mostre-me onde está ou será morto!”. Meu deus! Esta moça era douda! Que queria ela com minha herança? Mas era melhor apressar-me. “ Venha, por aqui.”, fiz um sinal para ir à porta de entrada, “ Está enterrada no quintal”. Fomos até os fundos da casa, onde se encontravam os bichos. O tempo parecia passar mais rápido, o sol estava perto de se pôr, que crepúsculo lindo seria, se não estivesse sendo subordinado! O perfume da moça era doce, seu toque era forte, porém macio, estava enfeitiçado, mas não podia. Levei-a até o local e com uma pá comecei a cavar, tirava terra e mais terra, terra que não acabava mais. Ela estava aflita, olhava para os lado para certificar-se de que nenhum soldado se aproximava de minha fazenda e então olhava para mim, ainda segurando fortemente a arma. Havia feito um buraco bem fundo, tão fundo que estava dentro dele, mas com um pouco de esforço saí. Ao lado dela, disse: “Olhe, está lá!” e apontei para dentro da terra. Ela que já há alguns instantes não prestava mais atenção na minha escavação, abaixou-se um pouco para certificar-se de que realmente havia algo ali. O problema é: não havia. Não tinha herança alguma, pobre moça. Mas peguei-a desprevenida, ela abaixada, tentava ver algo, mas enquanto isso, com certa ferocidade, retirei de meu casaco uma faca, uma faca pequena que sempre levava comigo, meu tio Joaquim havia me dado quando ainda tinha dez anos e eu guardara como recordação. Peguei a faca e usei-a. Levantei-me um pouco, ficando mais alto que a moça e lacei-a com o braço direito, cravando a faca em seu peito esquerdo. Pobre moça! Não queria fazer isso, mas tive de fazer, que escolha tive? Ela, com um grito desesperado, caia dentro da terra, em sua cova, onde viveria por toda a eternidade, ou melhor, não viveria, passaria o resto de sua morte ali, sendo atacada por vermes e outros bichos. Tapei o buraco com a terra que havia retirado dele e fechei-o bem, para que ninguem conseguisse encontrá-la. Teoricamente eu havia feito um favor à moça. A morte era o melhor modo de se salvar e assim foi. Espero que um dia me agradeça por isso ou não. Limpei minhas sujas mãos e a faca; guardei-a. Entrei tranquilamente em casa, quando um escravo mulato me aparece na sala de visistas: “O senhorzinho quer uma xícara de café?”, pergunta. “Claro, tive um dia que deixou-me muito tenso!”, respondi. Será que o pobre coitado havia visto algo? Se vira, eu estava perdido! Trouxe o café para mim na sala e então eu bebi, bebi aos poucos e aos poucos fui sentindo algo estranho. O que seria? Minha respiração estava difícil, estava tremendo! Maldito escravo! O que esse mulato havia colocado em meu café?! Foi então que tudo parou, ouvi o ruído da xícara caindo ao chão, do vento que entrava pelas janelas entreabertas e pensei: é o meu fim! Tive uma visão do que os cristãos chamariam de inferno. Aliás não tive somente uma visão como estava lá! O meu dia havia chegado. E segurando aquele laço de fita eu estava, era vermelho, vermelho sangue! E foi quando eu vi uma mulher, uma sedutora mulher, que oh meu deus! Não pode ser! “Olá, querido! Lembra-se de mim?”, disse ela, aquela moça, a bela moça, a moça de quem eu havia tirado a vida, a moça do laço de fita!
Fale com o autor