Quando eu nasci, foi um parto de risco. Havia sangue para todo lado, meu pai chorava, mas não era de felicidade. Minha mãe estava morrendo, o médico tentava estancar o sangramento que não parecia ter fim. Naquela noite o amor de meu pai o deixou.

Ele não pode lidar com a pressão. Sempre foi uma pessoa ausente. Minha vó era minha figura de proteção, sempre vi meu pai como um vilão. Tinha dias que ele me batia, mas minha vó sempre me defendeu.

Num final de semana ele veio me visitar. Disse que a culpa de tudo isso era minha, eu tinha apenas nove anos. Ele era o meu inferno, mas eu o queria bem.

Às vezes eu tinha que ir até lá. Dormia no quarto de minha falecida mãe. Ele mal podia olhar em meu rosto. Algumas vezes o peguei chorando, tinha momentos que ele me amaldiçoava, em outros pedia perdão a Deus. Orava para que um dia eu não viesse a ser igual ele.

Eu tinha dezenove anos. Minha vida estava torta, eu fumava muito e faltava aulas. Um dia bati em minha namorada, ela me denunciou e eu fui preso por alguns anos. Quando fui solto, meu pai me abraçou. Disse que tinha feito a maior estupidez de sua vida. Foi o único momento que eu queria ficar com ele, mas infelizmente tenho que dizer que não durou muito. Duas semanas depois meu pai foi encontrado em seu quarto, havia mais drogas em seu corpo do que seu metabolismo podia aguentar. Acho que ele não aguentou a pressão de ter um filho igual a ele.