Um Lanche Literário.
1 01º Aperitivo.
Notas iniciais
"Um demônio fazendo um anjo cair."
– Entrada: Calor e Frio.
O início foi calor. Aquele calor úmido e sufocante que ele sentia ao perceber os provocantes olhares cor de gelo do demônio que sorria para ele, através da barreira que separava os diplomatas dos mundos da Escuridão e da Luz. Depois, o calor de um constrangimento mudou para o calor de um desejo que era ainda mais úmido e intolerável do que sua sensação anterior. Um calor que era demais por ser contido em um único corpo. Esse calor acabou por se dividir entre junções de pernas e peitos desnudos colando-se por meio de peles cobertas de suor. E veio então o calor da febre por mais e mais. Algo que um anjo puro e correto como Arthur nunca teve.
Ironicamente, assim estava sendo o seu fim. Quente. Insuportavelmente quente. As suas asas estavam em chamas e a dor… Céus, a dor era algo que ele não poderia ignorar, descrever ou esquecer.
– Você me disse que eu não seria punido! — ele reuniu forças para gritar, erguendo seu rosto do chão áspero onde seu corpo estava jogado, e encarando o príncipe das trevas à sua frente, seu antigo amante, com os olhos cheios de lágrimas, ira e desespero — Você disse que assumiria a responsabilidade, caso nos descobrissem!
O demônio apenas sorriu e nada disse. Ele o observava como se o anjo fosse um prato principal a poucos instantes de ficar pronto, o qual ele aguardava com paciência e expectativa.
Nesse instante, as asas de Arthur queimavam, o seu sangue fervia, contudo, ao ver a natureza do ser a quem havia entregado toda a sua existência, ele afundou em um mar gelado dentro de si.
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"Reencontro de Prússia e Áustria, após a queda do muro de Berlim".
– Prato principal: Declarações Históricas.
Refletindo sobre o tema, Áustria achava que a principal razão pela qual nunca houve um momento certo para que ele e Prússia ficassem juntos — em um sentido maior do que uma mera aliança política — apesar de todo o histórico que eles possuíam, era simplesmente a inaptidão do último em encontrar um momento certo para fazer essa proposta, combinada com a sua própria inaptidão de correspondê-lo, nessas suas tentativas desastradas.
Foram três as declarações do tolo irritante que ele há muito conhecia. A cada vez que ele terminava uma, ele conseguia tornar-se melhor na arte de escolher um péssimo, péssimo instante para se declarar na próxima.
A primeira delas ocorreu quando a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos havia acabado de largar sua posição como seu vassalo e anunciado que havia assumido o nome de Prússia. Honestamente, Áustria ainda não conseguia entender por que a declaração de seu antigo cavaleiro e amigo de infância veio subitamente em uma noite na qual ele apenas queria esquecê-lo e reorganizar sua vida sem ele. Aquela separação, embora não tenha sido um choque, foi um desapontamento para ele. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos era arrogante, irritante e um tolo sem modos, mas era a única companhia verdadeiramente presente na sua vida e aquilo que ele tinha mais próximo de um amigo.
Por isso, quando Gilbert entrou nos seus aposentos naquela noite e disse “Roderich, eu gosto de você. Você sabe disso, não é? Eu gosto de você há tantos séculos. É impossível que você não saiba!”, a resposta do aristocrata limitou-se a um gracioso “É óbvio que você gosta de mim. Nós crescemos juntos, não é mesmo? No entanto, os seus sentimentos não devem ser tão sinceros, considerando-se que você não é mais a Ordem com quem cresci.”.
Gilbert ficou boquiaberto por vários segundos, parecendo conter-se para não tremer. Ele saiu em silêncio e bateu a porta com violência.
Depois desse dia, a relação deles mudou de desconfortável para agressiva e repleta de rancor. Caso questionado, Áustria sempre acusaria Prússia por essa transformação.
A segunda declaração ocorreu muitos anos depois, quando o estágio de sua relação estava parcialmente superado e tendia a ser remendado, não fossem as circunstâncias que acompanharam a chegada dessa confissão. Como otimingdo Prússia tinha o já mencionado talento de tornar-se cada vez pior, essa declaração aconteceu no meio de uma guerra e em pleno campo de batalha.
Era ridículo, não era? Eles estavam perdendo seus homens, disputando territórios, sofrendo e sangrando, como duas grandes potências em combate, e a preocupação do Gilbert era…
– Por que a Hungria, Roderich?! O Fritz fez a mesma proposta para você! Nós poderíamos estar casados! Eu seria uma escolha muito mais apropriada para você! Eu sou o mais forte, o mais hábil, o mais poderoso…!
– Não é uma questão de…
– Eu sou mais apaixonado por você! Muito mais, Roderich! Eu sou completamente louco por você! Não seria muito mais natural que eu virasse o seu esposo, tendo em conta que eu sempre pretendi isso? Primeiro, o Antonio e agora a Eliza? Você está brincando comigo?! Sou eu que quero me casar com você! Será que dessa vez os meus sentimentos ficaram mais claros, seu aristocrata insuportável?!
E o Gilbert o beijou. Com força, com sede e com um ardor quase incontrolável. Roderich poderia ter retribuído. Ele poderia ter posto os seus braços em torno dos ombros de Gilbert e permitido-se agir como um humano vulnerável às suas emoções por um instante.
Entretanto, ele era uma nação. Ele era um membro do Império Austro-Húngaro. E Prússia era o inimigo.
Ele mordeu a língua dele com força e aproveitou-se do seu susto para soltar-se e afastar-se. Ele empunhou sua arma e o enfrentou como um digno comandante.
Terminada essa batalha, eles passaram um longo tempo sem se falarem.
Muito, muito tempo.
Todavia, é verdade que o tempo cura todas as feridas e nações vivem por tempo demais para guardarem rancores eternos. Eles voltaram a se falar aos poucos e foram construindo um enlace de confiança o qual não era idêntico ao que eles possuíam nos tempos de vassalagem, contudo era agradável e confortável à sua forma peculiar. Gilbert era demasiadamente implicante, porém também era um indivíduo amável sob alguns aspectos e esses traços amáveis foram se tornando mais evidentes e constantes com o tempo.
Tão amáveis, evidentes e constantes que Roderich não sabia o que fazer consigo mesmo.
Esse seria o momento ideal para que Gilbert se declarasse. Se ele falasse um terço do que havia dito antes, Roderich aceitaria os seus sentimentos com jubilo. Ele não poderia evitar retribuí-los.
Infelizmente, veio a guerra de novo. Uma guerra mais monstruosa e cruel dessa vez. E não havia tempo ou espaço para declarações de amor, estando eles imersos na parte mais obscura daquele conflito sangrento, de uma guerra que mudaria o mundo.
Quando a guerra acabou, eles haviam perdido. Com algum alívio. Com medo, porém com alívio.
Decisões importantes foram tomadas.
O país da Prússia seria dissolvido e ele ficaria sob a guarda da União Soviética, separado dos demais países capitalistas do Ocidente.
Foi nesse terrível instante, naquela noite agonizante e solitária de despedida, que o Gilbert decidiu fazer sua terceira declaração inconveniente.
Quando os dois se reencontraram pela última vez em muito tempo, sozinhos na sala de música e iluminados somente por uma lua cheia, Roderich não conseguia parar de questioná-lo com um desespero contido. Por que ele havia assumido a culpa pela guerra?! O principal causador dela era uma das pessoas da Áustria. Ele não precisava ter feito algo tão irresponsável e insensato!
A resposta de Gilbert foi seca e curta.
– Não me interessa o que você acha que eu deveria fazer ou não. Nós não somos amigos. Por que eu deveria esclarecimentos a você? Caso você não tenha entendido, eu te odeio, Áustria. Eu não consigo suportar você. Você sabe disso. Eu não estava protegendo você, estava apenas falando a verdade. Se eu tiver uma oportunidade para apanhar poder, eu não vou parar. Eu sou uma nação militarista, afinal. É melhor que me detenham enquanto podem.
Foi uma terceira declaração bem estranha e Roderich demorou bastante tempo para entendê-la. Inicialmente, ele foi maltratado por ela. No entanto, ele teve anos para assimilá-la. Anos compridos, apreensivos e solitários, passados ao lado de um piano e de um prato sempre cheio de doces, no interior de uma mansão vazia e desorganizada.
Foi o tempo que o ensinou que Gilbert estava tentando proteger os seus sentimentos ao dizer que o odiava. Aquele presunçoso realmente considerou que podia enganá-lo, mas o esclarecimento chegou aos poucos.
Na verdade, Gilbert estava querendo fazer com que Roderich devolvesse seus supostos sentimentos de ódio para poupá-lo de sensações mais dolorosas que a perda inevitavelmente traria. Ele quis evitar que Roderich se sentisse culpado pelo que havia acontecido com ele. Ele simplesmente tentou abdicar a qualquer sentimento que Roderich tenha começado a nutrir por ele, como uma tentativa final de protegê-lo das pesadas consequências da noite de sua terceira declaração. A mais sincera e insuportavelmente dolorosa de todas as suas declarações.
Essas estórias de antigas declarações eram todas melancólicas, de fato. Naquele dia 9 de novembro de 89, no entanto, Roderich tinha uma razão para lembrar-se delas com um sorriso sincero, achando engraçado a completa inaptidão de Gilbert para escolher um momento certo para fazê-las. Uma separação, uma guerra e outra separação? Que ridículo.
Ele ouvira as notícias de um Ludwig com a voz muito embargada pelas emoções naquela manhã. O muro estava sendo derrubado. Após tantos anos, ele finalmente estava sendo destruído.
O veículo de Roderich não parecia ser rápido o suficiente para que ele chegasse tão cedo quanto gostaria. Ele queria estar lá em minutos, segundos! Ele queria ver a expressão de Gilbert quando o último tijolo tombasse.
Afinal, dessa vez, otimingera perfeito e ele precisava tomar as rédeas da situação, uma vez que Gilbert nunca conseguia fazê-lo quando era o instante adequado para isso. Era a hora ideal para destruir aquele muro que há tantos séculos existia entre eles.
Roderich apenas estava torcendo que Gilbert não tivesse um acesso de imaturidade e devolvesse a mesma mordida de alguns anos atrás, quando ele o surpreendesse.
Mordidas podiam ser deixadas para mais tarde.
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– Sobremesa:Sobre o espaço e espaços apropriados.
A pergunta de Alfred era essencialmente curiosa e afetuosa. Essencialmente. Se ele hesitou em fazê-la foi porque havia uma porção nela que era, de fato, um tanto receosa e ele não queria chatear Arthur, pois seria mais complicado fazer as pazes, quando eles nem sequer estavam no mesmo planeta.
– Aqui é o comandante Alfred Franklin Jones da nave Prometeus 11. Kirkland, você está na escuta? Escuta, eu estive pensando ontem à noite… Ou manhã. Eu não sei, os horários não são muito claros no meio do espaço. De qualquer modo, quem você extorquiu para conseguir ficar responsável pelas comunicações com a nave na minha missão? Porque eu estou noventa por cento seguro de que isso é totalmente antiético.
– Positivo. Eu estou na escuta, comandante. — Arthur respondeu com um pouco de atraso. Era um atraso que poderia ser proposital, uma vez que este parecia surpreendentemente entretido com o choque do comandante Jones. — Bem, comandante Jones, o que eu posso dizer? Era o mínimo que eles poderiam fazer, considerando-se que eles mandaram o meu noivo para uma missão estúpida de exploração em Marte, faltando três meses para o nosso casamento! E eu não acho que haja nada de antiético em dois cavalheiros trabalharem juntos em função da extensão de Regiões Habitáveis.
A resposta do comandante foi uma risada breve e calorosa, cujo assombro tinha os tons dourados da admiração.
– Se você diz… — ele revirou os olhos, rindo-se com descrença — Mas todo esse seu discurso emocionante não muda o fato de que nós estamos sendo meio antiéticos. Digo, a sua tentativa de telesexo, em uma situação dessas, foi meio…
Nesse ponto, as comunicações foram temporariamente encerradas.
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