Um Jogo de Convivência - Revanche
8 o Começo de Tudo foi sua Revanche
Notas iniciais
— Você tem noção de como eu estava preocupado? – uma voz grossa veio do lugar de onde eu supunha ser a sala de estar. De onde eu conhecia aquela voz? – Eu estava quase ligando pra polícia! Pode me dizer onde você estava, sua irresponsavelzinha? – de trás de uma parede, bem diante de meus olhos, surgiu a figura enfurecida de Yuu, tão surpreso quanto eu estava. – Kouyou? – ele perguntou confuso. – O que faz aqui?
— Yuu é seu aniki? – eu perguntei para Sereny, que estava tão surpresa quanto nós dois.
— Vocês se conhecem? – ela perguntou.
— Ele é o outro guitarrista da banda que eu te falei! – voltei a olhar para o Yuu e eu não sabia identificar se ele estava em choque ou se ia partir pra cima de mim e me espancar até a morte.
— Minha imoto? Minha imoto?! – ele gritou para mim. – Você podia fazer qualquer coisa pra se vingar, Kouyou, mas minha imoto?! Até pra você isso é baixo! – franzi o cenho, sem entender. O que me vingar dele teria a ver com Sereny?
— Do que você está falando, Yuu-chan? – a garota perguntou o que eu não conseguia dizer.
— Eu aprontei com ele quando entrei pra banda... E ele estava fazendo o mesmo... Mas eu não acreditei que fosse tão sério! – ele arregalou os olhos e se apoiou no corrimão da escada como se estivesse desmaiando, sem conseguir respirar, parecendo enjoado. – Não! Não me diga que você... Que vocês... – ele fechou os olhos e eu achei que tinha desmaiado. – Passaram a noite... Juntos!
Sereny soltou a minha mão.
— Não acredito que pensou isso! – eu vociferei, finalmente entendendo. – Eu nem sabia que ela era sua imoto!
— É melhor sair da minha frente, Kouyou! Ou eu vou matá-lo do pior jeito que eu conheço! – seus olhos estavam em chamas. – Sereny, suba e vá pra sua aula ou vai estar muito, muito encrencada!
Ela andou lentamente e, quando olhei para seu rosto, ela parecia quase chorando. Segurei sua mão, mas ela puxou por reflexo.
— Sereny... Sereny, não acredita nisso, acredita?
— Eu... Eu não sei...
— Como não sabe, Ny-chan? Nós dois nos entendemos tão bem ontem, koi...
— Não fale com ela! – Yuu puxou a irmã pra perto dele, vociferando na minha direção. – Saia já da minha casa ou eu vou colocá-lo pra fora como um cão!
— Você pode gritar comigo o quanto quiser, Yuu, mas não faça com que sua imoto pense que eu não me importo com ela! Que eu dormi com ela por um motivo tão vil! – gritei enfurecido. – Sereny, eu falei que seu aniki é um dos meus melhores amigos, acha que eu faria isso?
— O quê? – Yuu se intrometeu.
— Eu ia apresentá-la pra vocês amanhã – respondi rispidamente para a expressão furiosa dele. – Então, não a faça acreditar que não importou pra mim, porque ela importa! Ela importa muito!
— Sereny, suba – ele disse, mas seu tom de voz não era, nem de perto, uma ordem. Ela olhou na minha direção e parecia tão confusa e ainda mais a beira das lágrimas antes de subir os degraus da escada como se estivesse indo para o corredor da morte. E levando meu coração com ela...
Yuu me encarou em silêncio, os braços cruzados, a expressão ameaçadora. Desde o dia em que nos conhecemos, quando ele foi fazer o teste pra ser o guitarrista base do the GazettE e derrubou todas as minhas coisas, ele nunca tinha agido como se fosse o mais velho... Naquele mesmo dia, eu tive a certeza de que Yuu acabaria comigo... Eu só não esperava que ele tivesse um bom motivo...
— Yuu, me escute! Eu não sabia que ela era sua imoto! E eu nunca faria algo tão desprezível! Eu conheci Sereny na sua festa e...
— Na minha festa? – ele repetiu rispidamente. – Na minha casa?
— Eu não estava me divertindo naquela noite e ela foi falar comigo! Eu a convidei pra sair ontem e com ela eu me diverti imensamente! Nós conversamos, rimos, brincamos... Foi a primeira garota que eu já vi sugerir “Homem de Ferro” e vibrar nas cenas de ação! Você mesmo disse que eu devia procurar uma mulher mais segura do que eu...
— Não a minha imoto!
— Então, você devia ter me apresentado a ela! Devia ter me puxado quando eu cheguei e falado “Kouyou, essa é minha imoto, Sereny. Ela não é pro seu bico!” ou devia ter exagerado menos na dosagem quando a fez curtir filmes de ação, entender de música, saber jogar e ser perfeita pra mim!
— Está dizendo que você levou... Levou minha imoto pra... Sua cama por minha culpa?!
— Não! Estou dizendo que você devia saber que eu me interessaria por ela! Eu sei que é sua imoto, mas eu não levei mais do que dois dias pra me apaixonar completamente por ela! Não é curtição! Não é pra me vingar por você ter ficado me provocando, ou me chamando de viado, me convidado pra transar com você, zombado das minhas roupas ou me chamado de “loira gostosa”! Não é pra te afrontar! Você é como um aniki pra mim! É meu melhor amigo! Gomenasai por ter... Ficado com a sua imoto na sua festa! Mas eu realmente a amo! Eu quero ficar com ela e fazê-la feliz! Mas eu não vou fazer isso se nossa amizade acabar aqui...
Ele ficou em silêncio, olhando para o outro lado, sem me encarar. Eu não sabia dizer se continuava furioso ou se eu tinha conseguido fazê-lo entender.
— Não precisava ter mencionado que eu disse que iria pra cama com você... – ele fez uma careta de repulsa e vergonha com a lembrança.
— Não precisava?! – eu ri. – Tive pesadelos com isso mais de semanas! Está tudo bem agora?
— Ainda é minha imoto...
— E acha que isso me faria tratá-la com menos respeito? Eu tenho medo de você, se lembra? – nós dois rimos.
— E é o mais alto... – ele revirou os olhos.
Sereny desceu hesitante as escadas, vestida em sua calça jeans azul escura e uma blusa preta de manga comprida, trazendo à mão os livros e a bolsa.
— Você escutou tudo o que eu disse? – eu perguntei preocupado, andando em sua direção e ela assentiu timidamente, estendendo a mão para mim. Eu a puxei para o meu peito. – Você foi a melhor coisa que já me aconteceu! – segurei seu rosto entre minhas mãos e lhe dei um selinho. – Por que eu estragaria isso?
— Gomen... Por ter duvidado de você, Kou-chan... – ela me beijou novamente.
— Eca! Vocês querem parar? Eu não quero ver isso! – Yuu nos deu as costas e nós rimos. – É melhor correr pra não perder sua primeira aula, Sereny!
— Hai, Yuu-chan! – ela deu um beijo no rosto do irmão e eu vi a cara séria dele se derreter.
— Vem, eu vou te levar pra faculdade, koi – puxei seu braço e caminhamos até a saída.
— É melhor trazê-la pra casa depois da aula, Takashima Kouyou, ou cabeças vão rolar!
— É claro, otou-san... – dei risada e ele tacou alguma coisa contra minha cabeça. – Ai, Yuu!
— Aprenda a ter respeito, baka!
— Você quer jogar sujo, Yuu? Eu tive duas anekis... – nós dois demos risada.
— É... Seria arriscado demais desafiar você de novo... Mas eu falo sério... Eu vou ficar de olho em vocês dois...
— Yuu-chan, eu sou maior de idade! – Sereny argumentou.
— É, Yuu-chan – brinquei e ele fez careta. – Nós dois somos maiores de idade!
— Esse é o problema...
— Vem, Kou-chan... Ou eu vou mesmo me atrasar pra aula...
Nós dois entramos no carro e eu olhei uma última vez para Yuu antes de dar a partida e guiar pra faculdade de Sereny. Era engraçado como toda aquela história tinha começado... Mas, eu sabia que poderia contar com ele pra qualquer coisa que fosse. Sabia que, agora, ele podia ser meu melhor amigo. Agora que nós dois finalmente estávamos quites...
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