Um Jogo de Convivência - Revanche
2 Uma Dança Cheia de Revanche
Notas iniciais
Nosso ensaio transcorreu sem maiores discussões. Não que eu não estivesse doido de vontade de desafinar todas as cordas da guitarra de Yuu ou de desregular o amplificador dele, isso com certeza o deixaria maluco e pioraria sua dor de cabeça. Mas seria uma criancice sem tamanho da minha parte e deixaria os outros três furiosos. Minha guerra era apenas com Yuu!
Terminei de arrumar minhas coisas e, com um sorriso malicioso, vi o outro guitarrista se jogando no sofá depois de guardar a guitarra e acendendo um cigarro. Sentei-me ao seu lado, fazendo-o se assustar.
— Isso ainda vai matar você, sabia? – eu dei risada e ele tragou mais uma vez o cigarro que segurava entre os dedos.
— O efeito imediato é o que importa... – ele deu de ombros.
— Não vale a pena se matar por um pouco de alívio, sabia? Você pode conseguir muito mais prazer e alívio de outro jeito...
— Isso é algum tipo de proposta, Kou? – por mais que eu tivesse me preparado pra escutar aquela droga de pergunta maliciosa, eu não consegui impedir meu rosto de queimar de constrangimento.
— Não é nada disso, seu pervertido filho da puta! Estou falando de mulher, Aoi! Mulher mesmo, retardado!
— Ah... – ele deu uma risada sarcástica. – Você tem toda razão... Seria uma sensação infinitamente melhor se eu tivesse alguém me esperando em casa...
— Achei estranho você ter voltado ontem pra casa desacompanhado... – observei.
— Hum... Devo isso a sua brincadeirinha encantadora... – ele fechou a cara.
— Não precisa me agradecer – gargalhei.
— Eu não ia... – Yuu deu mais uma tragada e jogou o cigarro fora antes de se levantar.
— E então? – também me levantei.
— Então o quê? – ele perguntou confuso, franzindo o cenho e enfiando as mãos nos bolsos.
— Para onde vamos?
— O quê? – o moreno continuou confuso e eu ri.
— Shiroyama Yuu vai se contentar em passar duas noites seguidas sem companhia? – eu debochei. – Em ficar debaixo das cobertas e chupar o dedo?
— O que Shiroyama Yuu vai fazer é impedir que você me embebede duas noites seguidas!
— Tem a minha palavra de que eu não vou fazê-lo beber daquele jeito de novo! Nem que você me implore! – gargalhei.
— Eu não sei se me adianta de alguma coisa você me dar a sua palavra, Uruha... Ela não vale muito pra mim... – ele zombou e eu fechei a cara.
— Mas devia! Eu nunca faltei com a minha palavra! Talvez, você não seja capaz de compreender isso porque seja um homem sem princípios... – eu dei de ombros.
— Ah... Eu não tenho princípios?
— Vai me dizer que tem? Nenhuma das coisas que me fez quando entrou na banda foram coisas que alguém correto faria!
— Eu já lhe disse que não fiz por mal! Se eu tivesse consciência de que eu o enfurecia tanto...
— Não teria se refreado – eu dei risada.
— Não... – ele concordou. – Mas, se eu soubesse que isso despertaria em você essa sua sede por vingança, eu teria me segurado...
— Bom, você não me respondeu pra onde vamos hoje...
— Esquece, Uruha! Não estou tão desesperado pra cair em mais uma das suas armadilhas! – ele me deu as costas e seguiu para o elevador.
— Então, eu acho que toda aquela conversa de “se eu gosto de uma mulher, não tem porque me sentir intimidado e não chegar nela” é mentira! Se você realmente fosse tão bom com mulheres, não teria problemas em me deixar observá-lo...
— Ah... Então é isso... – ele disse, entrando no elevador, com seu tom de voz pretensioso, e eu o segui, sem entender o que o fazia rir tanto.
— Isso o quê? – me encostei à parede fria e olhei-o com certo desprezo.
— Você quer uma demonstração... – ele gargalhou e eu revirei os olhos.
— Claro, Aoi! Mostre-me sua mágica! Conte-me seus segredos! Divida comigo seus ensinamentos e faça de mim um homem tão popular com as mulheres quanto você... – debochei.
— Veja e aprenda – ele falou presunçoso e nós dois entramos no carro dele. Eu não conseguia acreditar em como tinha sido fácil manipular suas decisões...
Nós chegamos rapidamente a um bar próximo a gravadora que eu supus que Yuu frequentava regularmente, já que o manobrista cumprimentou-o pelo primeiro nome.
Nós dois entramos para o ambiente sombrio e abafado do bar e eu pude vislumbrar o mundo de Yuu, enfeitado com neon e pequenas mirror ballse encharcado em bebida. Fomos até o balcão e pedimos dois drinks que tomamos em silêncio. Eu só esperava pacientemente que Yuu tomasse alguma iniciativa pra que eu colocasse meu plano em prática.
A música alta ribombava por todo o meu corpo e fervilhava na pista de dança, entre os casais que se enroscavam e os grupos de garotas que se deixavam guiar pelas notas, seduzindo nós, pobres homens solitários sentados no bar.
Eu estava distraído, levando meu copo à boca em espaços de tempo regulares, acompanhando com o pé o compasso da música, quando fui surpreendido pelo meu companheiro de banda se levantando de súbito, terminando sua bebida num único gole e se dirigindo decidido para a pista de dança. Isso seria muito engraçado!
Ele se aproximou de uma garota que o olhava intensa e sedutoramente, ainda dançando no ritmo da música. O moreno passou um dos braços pela cintura dela, aproximando os dois e eu gargalhei por vê-lo tão confiante.
Observei-os se entrosarem e descobrirem o compasso um do outro. Era quase tão constrangedor quanto assistir pornografia e ser flagrado pela minha mãe, então, eu me virei para pedir outra bebida.
Eu não podia negar que Yuu sabia exatamente o que estava fazendo. A garota parecia hipnotizada cada vez que seu corpo era puxado contra o do guitarrista, cada vez que seus rostos se aproximavam e ele quase colava os lábios dos dois com ferocidade, afastando-se provocante no último segundo, deixando-a louca.
Não havia intervalo entre as músicas, que tocavam cada vez mais altas e dançantes, e os dois não pareciam dispostos a se soltarem, não pareciam cansados de se moverem tão rapidamente de encontro ao outro e não pareciam perceber que existiam pessoas ao seu redor ou que eles ainda estavam em um planeta habitado por outros seres humanos além deles. Yuu nem devia mais se lembrar da minha existência e era por esse momento que eu estivera esperando...
Terminei minha bebida e tentei não pensar muito no que eu ia fazer pra que eu não desistisse, desse meia volta e fosse embora. Eu devia isso ao Yuu... Por mais que eu não fizesse o estilo de alguém que descesse tão baixo por uma vingança... Eu ainda estava com ele me chamando de viado entalado na minha garganta...
Não estava mais do que cinco passos de distância do casal que dançava, inspirei profundamente e puxei o braço do moreno, despertando-o de seu transe e fazendo-o me olhar surpreso.
— Kouyou...?
— Até que enfim eu achei você, koi! – disse com a voz esganiçada, com um desespero afetado, afastando-o da garota que arregalou os olhos na minha direção. – Você bebeu demais de novo, não é? Você não tem jeito mesmo, koi!
— Koi? – a menina gaguejou e eu sorri malicioso para Yuu, que continuava me encarando com um misto de fúria e de terror nos olhos.
— Koi! – mostrei minha mão direita e apontei para o anel que eu costumava usar no anelar normalmente, assim como o outro guitarrista, o que veio muito a calhar.
Yuu arregalou os olhos e tentou tirar o anel do dedo no mesmo segundo, mas meus olhos e os da bela mulher com quem ele dançava o flagraram.
— Ah! Você vai fazer isso comigo, Yuu-chan? – usei um tom de voz magoado e o outro só faltou pular no meu pescoço. – Vai negar nosso compromisso só pra ter uma noite de diversão com outra? Eu pensei que estivesse feliz comigo...
— Kouyou, eu juro que vou te matar! – ele vociferou pra mim quando finalmente encontrou sua voz e eu me virei rindo para a garota que nos olhava assustada.
— Se eu ganhasse um Yen cada vez que ele me fala isso... – revirei os olhos. – Vamos, koi, que o que você precisa é de um café forte e cama – sorri malicioso o empurrando. – Gomenasai, menina... – acenei na direção dela, que continuava paralisada e impedi que Yuu conseguisse falar com ela.
Com muito esforço, já que o moreno se debatia revoltado, eu nos levei para o estacionamento e o joguei dentro do carro antes que ele pudesse raciocinar logicamente.
— Você destruiu a minha imagem! – ele berrou desesperado depois de vários minutos de silêncio em que eu apenas guiei o carro para o apartamento dele. – Que merda você tem na cabeça, Kouyou?
— Eu lhe dei minha palavra que não embebedaria você hoje... Mas eu não quis dizer que teríamos uma trégua... – gargalhei, olhando sua expressão assustada.
— Você é pior do que eu pensava...
— Eu tive duas irmãs mais velhas, Aoi! Eu sei como jogar sujo...
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