Um Instante No Tempo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Começo dizendo que Um Caminho Para O Coração será atualizada até o fim do dia.
Espero que gostem de ler essa one. Eu confesso que gostei muito de escrevê-la.
Numa pequena cidade localizada cerca de três horas de Idaho, ao oeste dos Estados Unidos, na casa no lago que pertence à família a gerações, Rosalie se abrigou da tristeza e da dor que se abateu sobre seu lar nos últimos meses.
A casa ainda preservava recordações de sua infância e boa parte de sua adolescência. Fotografias de família estavam por todos os lados, contando parte da história, dos vários momentos vividos ali. Sendo a terceira filha de uma família de quatro garotas: Tanya, Kate, Rosalie e Irina. Quatro garotas loiras de pele pálida e olhos âmbar.
Há muito tempo Rosalie não voltava a casa onde costumava passar os verões. Chegou à cidade no início de outubro, há pouco mais de um mês, quando as temperaturas começavam ficar baixas.
Um instante no tempo, toda sua vida mudou. Um instante era tudo o que desejava para fazer daquele início de noite, um ano atrás, diferente.
Ao sair da cama essa manhã, Rosalie vestiu uma blusa de lã branca cujo cumprimento lhe alcançava os joelhos, uma legging preta e botas.
O tom acinzentado do céu contrastava com a folhagem alaranjada das árvores e arbustos. A grama desbotada estava molhada pela chuva dessa madrugada. As espreguiçadeiras de madeira, sob a copa de uma das árvores que ladeavam a casa, ainda estavam úmidas.
Da janela do quarto que pertencia a seus pais, no segundo andar, olhou a paisagem no lado de fora. As águas escuras e misteriosas do lago se estendendo diante a casa, ironicamente combinando com seu estado de espirito.
Prendeu os cabelos num amontado no alto da cabeça sem se importar com a aparência que lhe dava, e saiu para o corredor, alcançando a escada, chegando finalmente à sala de estar. No sofá a desordem de cobertores, lenços de papel e embalagens de comida se acumulavam há alguns dias.
Ela ignorou a desordem passando direto para a cozinha. Enquanto o café ficava pronto, olhou pela janela. Naquele momento, um esquilo cruzou o quintal indo de uma árvore a outra, apressado.
Terminou o café e olhou novamente pela janela, o esquilo havia desaparecido de vista. Pegou-se pensando se o roedor teria uma família, ou seria solitário por escolha própria, da mesma forma que havia escolhido estar nos últimos tempos.
Voltou à sala, localizou o celular, no modo silencioso, em cima do braço do sofá. Há quase uma semana não lia ou respondia mensagens. Havia em média cinco ou seis de cada uma das irmãs, umas trinta dos pais, e tantas outras do marido. Todos eles preocupados, cheios de saudades. Todos desejando noticias suas.
Saiu para a varanda rodeada de paredes de vidro, então para o lado de fora. O vento frio no rosto não incomodava tanto quanto o vazio gelado no seu coração.
À medida que se afastava da casa, sentia que podia ir mais além. Quem sabe caminhar até que suas pernas não aguentassem mais.
A certa altura, avistou um homem solitário pescando na beira do lago. Passou em frente uma casa com ampla varanda aberta onde um casal, duas jovens e uma criança conversavam.
Rosalie não fazia ideia, mas aquelas pessoas falavam a seu respeito.
— Quem é ela? — A jovem de cabelos na cor de chocolate, encostada a coluna de madeira, perguntou.
— Não sabemos — a mãe, uma jovem mulher de cabelos escuros foi quem respondeu. — Ela chegou à casa do lago já tem um tempo. Raramente sai, e quando o faz, é assim, como estivesse perdida, com os pensamentos e o olhar distante.
— Ela é estranha — a filha do meio, de cabelos escuros repicados, notou. — E está na casa do lago, àquela vazia há tanto tempo?
— Sim, Alice.
— Será que ela está se escondendo da polícia? — continuou.
— Você precisa parar de assistir tanta série policial — lembrou a mais velha das irmãs.
— Precisamos estar preparados para qualquer coisa.
Isabella rolou os olhos e se afastou, indo para dentro de casa.
Alice encarou Carmen e Eleazar.
— É sério, mamãe. Ela pode ser qualquer coisa, até mesmo sequestradora de crianças.
A irmã caçula levantou a vista do jogo de montar que vinha trabalhando nos últimos minutos. O cachorro, da raça beagle, ao seu lado, levantou a cabeça como tivesse entendido.
— Sua irmã tem razão — Eleazar respondeu. — Você fantasia demais, Alice.
[…]
Rosalie caminhou até quase o centro da cidade. Sem saber ao certo para onde ir ou que fazer começou refazer o caminho de volta. Passou outra vez em frente à casa onde as pessoas estiveram na varanda. Apenas Carmen estava do lado de fora dessa vez. O olhar de Rosalie mudou de direção, como não lembrasse para onde estava indo.
A garotinha saiu da casa correndo, com o cachorro em seu encalço, passando bem próximo a ela. As risadinhas se misturando aos latidos do animal.
Rosalie sentiu como o mundo girasse. Sua respiração se tornou pesada, as pernas fraquejaram. Ela levou a mão ao peito, sentindo a forte pulsação com a sensação que poderia desmaiar a qualquer momento.
— Moça — Carmen falou com ela, saindo da varanda—, você está se sentindo bem?
Rosalie olhou da menina sorridente que brincava com o cachorro para a mulher que chamava sua atenção. Com a sensação de o mundo estar encolhendo ao seu redor, correu todo o caminho de volta até a casa do lago. Tropeçou na plantação rasteira lançando-se para frente, usando as mãos para amortecer a queda. Levantou quase que no mesmo instante, correndo no mesmo ritmo até alcançar os degraus que antecediam a varanda rodeada de paredes de vidro.
Apoiou-se na lateral da escada branca de madeira, tendo dificuldade em respirar. Mesmo um ano depois, não conseguia controlar o desespero que vinha com as lembranças daquele início de noite, véspera de Ação de Graças.
Ainda na varanda, protegida da brisa fria, se permitiu escorregar até o chão. O peso das lembranças obrigando-a se dobrar.
[…]
Ela precisou ir ao mercado comprar alguns itens que ficaram faltando para a ceia de Ação de Graças. Seus pais, Esme e Carlisle, estavam chegando para passar a data com ela. Ao entrar no carro, o motor não ligou. O mercado não ficava longe, por isso resolveu que iria a pé.
Chamou a filha de cinco anos, encheu a menina com roupas quentes e confortáveis, e saíram para a rua. Ainda estava claro quando saíram, apesar do dia cinzento e frio. Quando retornavam, às ruas já estavam escuras e uma leve neblina se estendia sobre as casas.
Rosalie segurava apenas uma sacola de compra na mão, na outra, a mão enluvada da filha.
Lovely estava sorridente, saltitando de tempos em tempos, ao lado da mãe. Tinha acabado de ganhar um balão de gás hélio da gata Marie. O balão se encontrava preso a seu pulso e com frequência o sacudia no ar. As bochechas coradas do frio, os longos cabelos louros soltos sob uma touca de lã cor-de-rosa.
— Quando a vovó e o vovô irão chegar? — pediu quando dobravam a esquina. As ruas estavam praticamente vazias. O intervalo entre um carro e outro era relativamente demorado.
— Amanhã ao meio-dia.
— É quando a gente almoça?
— Isso mesmo.
— E as titias e os primos?
— As titias e os primos um pouquinho depois.
— Eu vou poder ficar acordada até mais tarde hoje?
— Não sei... — Rosalie fingiu pensar no assunto.
— E doces? Vou poder comer muitos doces?
— É véspera de Ação de Graças, não halloween — mãe e filha deram risadas juntas.
— Mas eu vou poder comer muitos doces mesmo assim? — Lovely insistiu.
— Não faz tanto tempo foi halloween.
— Então só um pouquinho?
— Posso pensar no seu caso.
— O papai deixa.
— Nesse caso a opinião do papai não conta. Ele é tão formiguinha quanto você.
Lovely jogou a cabeça para trás com uma risada gostosa.
— O papai é igualzinho eu — comentou orgulhosa.
Rosalie cutucou a pontinha de seu nariz.
— Papai e filhinha, duas formiguinhas — acrescentou.
— Papai é uma formigona — Lovely deu risada e passou a cantarolar: — Papai e filhinha, formigona e formiguinha... Papai e filhinha, formigona e formiguinha... — parou de cantar e pediu. — Eu quero brownie.
— A mamãe deixa você comer brownie.
O gritinho ao seu lado entregou a felicidade.
— O papai também vai poder comer brownie?
— Se o papai quiser, sim.
Lovely continuou caminhando ao lado da mãe, se mostrando satisfeita com a permissão de comer um doce. Pouco mais adiante, começou se queixar de estar cansada. Rosalie a pegou no colo sem reclamar. A menina escondeu o rosto na curvatura de seu pescoço protegendo-se do frio. Rosalie sentia a todo tempo sua respiração morna na pele do pescoço.
— Você é tão cheirosa, mamãe — Lovely murmurou.
Rosalie virou o rosto para vê-la, e beijar seu rostinho gelado.
— Já estamos chegando em casa, meu amor — lembrou. A menina sacudiu a cabeça mostrando ter entendido. Apertou o braço em volta do pescoço da mãe, o balão pairando sobre suas cabeças o tempo todo.
— Papai e filhinha, formigona e formiguinha... — tornou a cantarolar, só que dessa vez num tom de voz mais baixo. Parou de cantar e perguntou: — O papai já vai estar em casa quando a gente chegar?
— Tenho quase certeza que sim. — Rosalie sentiu os pequenos lábios frios tocarem a pele de seu pescoço. — Mamãe ama você, Lovely.
— Lovely também ama a mamãe — a menina repetiu como sempre fazia toda vez que a mãe declarava seu amor a ela.
O celular de Rosalie tocou dentro da bolsa. Ela precisou parar e colocar Lovely no chão para atendê-lo.
— Segure no braço da mamãe um pouquinho — orientou a menina, na calçada. Lovely obedeceu prontamente. — É o papai — Rosalie mostrou a ela a tela do celular onde aparecia a foto do marido. — Aposto que quer saber onde estamos. — a menina moveu a cabeça como concordasse.
Enquanto punha o celular no ouvido, Lovely gritou:
— Oi, papai!
— Oi, filhinha! — ele respondeu de volta. Então Rosalie abaixou o telefone deixando que Lovely falasse antes com o pai.
— Hoje eu vou comer brownie, a mamãe deixou — contou orgulhosa.
— Você divide um pouco com o papai? — ele aguardou com curiosidade sua resposta.
— Papai e filhinha, formigona e formiguinha... — Lovely cantou para ele. Emmett deu risada.
— Agora deixe o papai falar com a mamãe, bebê?
A menina ergueu a vista, passando o telefone para a mãe.
— Oi, amor?
— Já estão voltando? — Emmett perguntou.
— Sim, estamos quase em casa. — Ela terminou a frase sentindo Lovely soltar seu braço. Quando olhou, a menina se afastava em direção à rua. — Lovely — gritou para a filha —, volte.
— Meu balão — a menina lamentou, correndo atrás do balão que subia ao céu, seguindo direção da rua.
— Lovely! — Rosalie tornou a gritar. — Lovely, não!
Emmett perguntou várias vezes, ao telefone, o que estava acontecendo.
Rosalie avistou o carro preto dobrar a esquina e seguir apressado na direção de Lovely. Sentiu o pânico tomar conta do corpo. No desespero de tirar a filha do caminho, correu para ela, mas não foi o suficiente para impedir que acontecesse; o barulho da colisão chegou aos seus ouvidos rapidamente, trazendo fraqueza as pernas e uma dor aguda ao coração. O corpo pequeno de Lovely foi arremessado para frente caindo com um baque surdo no asfalto.
— Lovely, Lovely... — chamou por seu nome, correndo o máximo que as pernas alcançavam para salvar a filha. Sentiu na própria carne o que acabou de acontecer à menina.
Os faróis do carro mudaram de direção. O barulho forte de freios, o veículo sem controle indo parar do outro lado da rua com as rodas da frente na calçada. O para-brisa trincado.
— Lovely, Lovely... — Rosalie caiu de joelhos ao lado dela, tremendo tanto que mal conseguia controlar os movimentos das mãos.
Viu a poça de sangue sob a cabeça de Lovely, seus braços e pernas em posições estranhas, o rostinho que a pouco estava sorridente se encontrava agora paralisado e com aranhões. A touca cor-de-rosa saiu de sua cabeça em algum momento entre a colisão e a queda, um sapatinho, também.
— Lovely, fale com a mamãe, querida. — Levou a mão à cabeça da menina, sujando os dedos com o sangue dela. — Lovely... Meu amor. Não... Meu Deus... — Olhou para os lados, atormentada, com as mãos sujas de sangue, buscando por ajuda. A pessoa que atropelou sua filha estava saindo do carro com o telefone na mão. Era um homem jovem e usava os cabelos escuros num rabo de cavalo. — Minha filha — Ela soluçou. — Minha bebê. — Voltou olhar para a filha, pondo as mãos trêmulas em seu rosto machucado, sujando-a com o próprio sangue. — Você tem de ficar bem, meu amor. — Se dobrou sobre o corpo pequeno inerte no asfalto. — O papai está esperando pela gente em casa. Vocês iam comer brownie juntos, lembra? Abre os olhinhos, meu bem. A mamãe está com muito medo Lovely. Eu te amo tanto, minha bebê. Volte para a mamãe, Lovely. Volte meu amorzinho...
[…]
Emergindo das profundezas escuras de suas lembranças, Rosalie estava na varanda da casa no lago, abraçando os próprios joelhos, chorando como no dia que tudo aconteceu. O corpo inteiro tremendo. O mesmo sentimento de que já não conseguia mais viver, tão forte quanto foi aquele dia.
Levantou e caminhou até a porta como não tivesse forças nas pernas para sustentar o peso do próprio corpo. A porta bateu quando passou para o lado de dentro. Ela atravessou a sala sem enxergar os objetos ao redor, subindo a escada com a impressão de ter ouvido Lovely chamar por ela.
[…]
Estava escuro do lado de fora. Fazia algumas horas tinha vagado pela casa sem saber o que fazer com a tristeza que dominava seu ser. Tinha preparado uma xícara de chá e estava agora com ela na mão, sentada diante a lareira com um cobertor sobre os ombros, na companhia dos próprios pensamentos.
Não percebeu o barulho de motor de carro se aproximando nem o cascalho e as folhas secas sendo esmagadas pelas rodas. Somente as batidas na porta, momentos depois, foi capaz de tirá-la do transe.
Com a expressão letárgica, deixou a xícara de lado e caminhou, levando o cobertor nos ombros, até a porta. Ficou surpresa com a pessoa do outro lado da porta tanto quanto incomodada.
A casa estava à meia-luz, o cenário perfeito para sua tortura emocional.
O rosto preocupado de Emmett revelava por que tinha vindo. Não fazia tanto tempo tinha estado ali e a reação dela ao recebê-lo foi a mesma.
Rosalie afastou a mão da maçaneta, recuando alguns passos.
— O que está fazendo aqui? — Ela prendeu o cobertor junto ao corpo como sentisse muito frio.
Emmett passou para o lado de dentro sem afastar os olhos dela. Usava roupas pesadas de inverno e na mão trazia a embalagem de comida para viagem.
— Estou preocupado com você — disse. — E com saudades, também.
Ela seguiu mais para dentro da sala, fazendo questão de manter a distância entre os dois.
— Trouxe comida — Emmett mostrou-lhe.
— Será que é tão difícil assim entender que preciso e quero ficar sozinha?
— Você pode até querer ficar sozinha, mas não precisa. Tem uma família que te ama e se preocupa com você.
— Desde que cheguei aqui vocês insistem em incomodar, desrespeitando um o único pedido meu. Numa semana você, depois meus pais, e então minhas irmãs. Depois, você de novo. Eu disse que queria ficar sozinha.
— Tudo o que queremos é que você fique bem. Queremos estar perto.
— Eu não quero estar perto de vocês agora. Eu quero estar perto de Lovely — ela se mostrou desesperada ao dizer a última frase.
Emmett pôde perceber no tom de sua voz e no olhar a dor viva. Deixou a embalagem do restaurante em cima do aparador e tentou se aproximar dela. Queria abraçá-la, fazer diminuir a saudade causada pela distância criada por ela mesma. Desejou que o ajudasse suportar a falta que sentia de Lovely, também.
— Não me toque — alertou ela, recuando novamente.
— Rose... — ele praticamente implorou. — Apenas um instante — pediu, dando mais um passo em direção a ela. — Um abraço é tudo o que te peço.
Rosalie balançou a cabeça, negando.
— Não repita essa frase — alertou.
— Que frase? — ele a olhou sem entender.
— Apenas um instante? — ele repetiu. Rosalie fez menção que calasse.
— Um instante no tempo e minha vida inteira foi arruinada — ela afirmou.
Emmett sentiu o peso nas palavras dela.
— Lovely também era minha filha, Rose. Eu a amava tanto quanto você — respondeu com lágrimas nos olhos.
Rosalie parecia se encolher a cada palavra que deixava os lábios dele.
— Nossa filha não iria querer que terminássemos assim.
— Assim como? Destruídos?
— Longe um do outro. Lovely iria querer que ficássemos juntos.
— Existem muitas coisas que gostaria de ter feito e nunca terá a chance. Nós jamais teremos a chance.
— Nós podemos... — ele dizia quando foi interrompido por ela, que ergueu a mão em sinal de alerta. Nesse momento, o cobertor caiu de seus ombros.
— Não termine o que iria dizer ou irei odiá-lo para o resto de minha vida.
Emmett abaixou a cabeça sentindo-se miserável pelo que esteve prestes a dizer.
— Me desculpe — pediu. — Eu não queria...
Rosalie tomou o caminho da cozinha, sinalizando para que não dissesse mais nada. Então, parou e lembrou:
— Você sabe onde dormir.
— Sim, qualquer lugar menos ao seu lado — ele murmurou as mesmas palavras ditas por ela tantas outras vezes desde que Lovely se foi.
Estava sozinho quando tirou a carteira do bolso e dela a fotografia da filha; a garotinha sorridente, de olhos claros. Beijou o rosto da menininha na foto e as lágrimas molharam seu rosto.
— Eu te amo filhinha... — sussurrou. — Mas também amo sua mãe. Se existe alguma chance de estar me ouvindo, esteja onde estiver me ajude convencer a mamãe de que o melhor para todos é que volte para casa.
Emmett levantou a vista, olhando na direção da escada, ao som dos passos de Rosalie retornando. Ela levava na mão um copo com água. Pensou em chamá-la, mas não teve coragem, não depois do que esteve prestes lhe dizer minutos atrás.
Rosalie entrou embaixo das cobertas com o álbum de fotografias de Lovely. Olhou mais uma vez cada uma delas, voltando ao tempo por meio de lembranças. Quando já não aguentava mais tanta saudade, fez o que vinha fazendo todas as noites desde que a perdeu; tomou remédio para dormir. A medicação foi prescrita por sua médica, meses atrás. Na ocasião, queixava-se de não conseguir dormir. Nos poucos cochilos que tirava sonhava com a filha sendo arrancada de seus braços, então, despertava aos gritos.
Passado um tempo, Emmett finalmente tomou coragem de subir a escada e verificar como estava. Abriu a porta do quarto que pertencia aos sogros, mas que Rosalie vinha ocupando desde que chegou a casa. Ela dormia com o álbum de fotografias aberto sobre o peito. Emmett se aproximou, retirando o álbum cor-de-rosa das mãos dela deixando sobre a mesinha de cabeceira. Ajeitou as cobertas e se despediu com beijo na testa.
— Eu te amo — sussurrou ao se afastar.
Ainda no quarto dos sogros, pegou um cobertor de inverno e um travesseiro. Voltou à sala, onde se preparou para dormir. Enquanto trocava de roupa se pegou analisando a tatuagem com o nome da filha, no lado esquerdo do peito. Seus olhos cheios de lágrimas.
— Será que é errado não querer desistir? — questionou a si mesmo. Permaneceu por vários minutos, deitado no sofá, na mesma posição. Depois outros vários minutos se virando de lado. Não aguentando mais, levantou e foi para junto da janela.
Pouco se enxergava no lado de fora. A escuridão da noite se refletia nas águas tranquilas do lago. Árvores agitavam seus galhos com a brisa fria. Pegou-se pensando mais uma vez na garotinha que perdeu de forma trágica. Pensou também na mulher que ama, entregue aos sentimentos de pesar. Pensou em tudo o que perderam e no que poderia ter sido não tivessem sido surpreendidos pelo destino naquela véspera de ação de graças. Mas, acima de tudo, no que ainda poderiam vir a ser, caso lutassem juntos por isso.
Já era madrugada quando enfim voltou a deitar no sofá. Dormiu apenas duas horas e meia, antes de se preparar para partir novamente.
Rosalie não quis sair do quarto para se despedir, tampouco quis ouvir o que tinha a dizer. Agora estava lendo o bilhete deixado por ele em cima da mesa da cozinha. Havia duas xícaras à mesa quando encontrou o bilhete. Apenas uma delas tinha sido usada. A cafeteira estava ligada, exalando cheiro de café em toda a casa.
Ela usou a xícara deixada na mesa para tomar o café feito por ele antes de partir. Ainda segurava a xícara no momento que leu o bilhete.
Enquanto o que nos manter separados for a dor profunda por tudo o que perdemos, não desistirei de nós dois.
Emmett
Deixou o bilhete exatamente onde estava. Sentiu as lágrimas voltarem o rosto. Precisava se afastar, caminhar um pouco. Desligou a cafeteira, pôs um agasalho e saiu para o lado de fora.
Outra vez caminhou rumo ao centro da cidade, sem destino certo, chegando a um parque. Árvores no entorno dos brinquedos faziam sombras no verão, mas agora eram apenas parte da paisagem. Àquela hora da manhã o parque estava vazio.
Caminhou pisando com cautela no gramado desbotado. Ouviu risadinhas que estavam apenas em sua mente.
A imagem de Lovely, na última primavera, antes de sua morte, usando um vestido azul florido, cabelos soltos e uma coroa de pequenas rosas enfeitando a cabeça inundou sua mente. A menina saltitava a sua frente, o parquinho era perto da casa delas, em Idaho.
— Vem brincar comigo, mamãe. Vem me empurrar no balanço?
Rosalie sorriu, motivada pela lembrança. Lovely correu decidida alcançar o balanço antes da mãe. Rosalie correu atrás dela. As risadinhas continuaram.
— Empurra alto, mamãe. Bem alto! Quero tocar as nuvens no céu. — Lovely sorriu para ela antes de perguntar: — As nuvens são feitas de algodão-doce, mamãe?
Rosalie sorria ao empurrar o balanço. Os cabelos louros de Lovely ao vento, as duas mãos segurando firme a corda do balanço.
— Mais forte mamãe! Mais forte!
No parque vazio, uma jovem mãe de cabelos escuros se aproximou, chamando sua atenção.
— Moça? Moça?
Com um movimento cadenciado Rosalie se virou na direção da voz, levando um instante para registrar a presença da moça que chamava por ela. A recém-chegada trazia pela mão um garotinho de bochechas rechonchudas, na idade entre dois e três anos.
— Meu filho gostaria de brincar no balanço — avisou.
— Estou balançando minha... — Rosalie olhou de volta o balanço. Afastou as mãos como não soubesse o que estava acontecendo. — Onde está minha filha? — pediu, olhando de um lado a outro. Como a outra não respondeu, achou que deveria explicar as caraterísticas de Lovely. — Ela é loirinha, seus olhos são claros. Tem mais ou menos essa altura — Mostrou com a mão.
A outra olhou como se ela fosse louca.
— Não havia criança alguma no balanço. Você empurrava o balanço vazio.
As palavras lhe causaram certo tremor. Rosalie tropeçou nos próprios pés ao recuar, atormentada, com pensamentos confusos. Caminhou por vários metros como não soubesse o que estava fazendo. Lembranças e tempo real se misturando.
A imagem do velório de Lovely a fez cair de joelhos no chão. Suas mãos ficaram sujas de terra, assim como os joelhos da calça que vestia. Seu grito foi intenso, carregado de dor e tristeza. Os dedos se fecharam na terra arrancando resíduos da grama que existiu ali antes da mudança de estação.
A imagem do assassino de sua filha, sendo levado a prisão logo depois do julgamento, a forçou criar coragem para levantar. Continuou caminhando. O chão parecia tremer sob seus pés. As lágrimas nos olhos turvaram a visão.
Quando se aproximou da casa, a caminho da casa dos seus pais no lago, Carmen, que havia outras vezes notado sua presença nas redondezas, chamou sua atenção.
— Moça? Moça?
Rosalie não ouviu. Assim que ficou na frente da casa, Carmen a alcançou. Segurou seu braço ao notar a confusão em seus olhos.
— Você está bem? — pediu. Seu olhar era gentil e revelava verdadeira preocupação.
Rosalie olhou para ela como não a visse.
— É claro que não está — respondeu ela mesma a pergunta que fez. — Venha comigo. Vou ajudar você.
Sem forças para discordar, nem mesmo pensamentos coerentes, Rosalie aceitou sua ajuda. Aquele foi um momento que desejou ter a mãe lhe segurando a mão, a ampará-la.
Carmen a amparou no pequeno trajeto até a varanda de sua casa, e ajudou sentar numa das cadeiras que ali estavam.
Não demorou, Alice apareceu na porta.
— O que aconteceu, mamãe?
— Ela não está se sentindo bem — Carmen respondeu sem deixar de notar na aparência de Rosalie.
Isabella logo surgiu atrás dos ombros da irmã.
— O que... — começou, quando a irmã interrompeu.
— Ela não está se sentindo bem.
— É a moça da casa a beira do lago?
— Ela é estranha — Alice concluiu.
— Alice — Carmen repreendeu.
— Desculpe.
— Bella, querida, volte lá dentro e prepare um chá para a moça — Carmen pediu.
Isabella concordou, com um movimento de cabeça, antes de desaparecer dentro da casa.
— Alice, não deixe que Harper venha aqui fora agora.
Da mesma forma que Isabella, Alice concordou e voltou a fechar a porta.
Carmen sentou ao lado de Rosalie e segurou suas mãos.
— Qual o seu nome, meu bem? O meu é Carmen. Aquelas duas que você viu são minhas filhas, Isabella e Alice. Elas vieram da faculdade para o dia de ação de graças e acabaram ficando mais alguns dias. Trouxeram os respectivos namorados, Edward e Jasper, mas esses já voltaram. Também tenho uma caçula, de sete anos. Desculpe, estou falando demais.
Rosalie finalmente sustentou o olhar de Carmen e as palavras deixaram seus lábios.
— Rosalie — disse. — Eu me chamo Rosalie.
— Que nome bonito. Você está ficando na casa a beira do lago, não é?
— A casa pertence aos meus pais — sussurrou em resposta.
Ela olhou para o lado quando Isabella voltou trazendo a xícara de chá. Carmen recebeu a xícara pondo entre suas mãos frias e trêmulas.
— Bebe um pouco, vai te fazer bem.
Rosalie encostou a xícara aos lábios, com um movimento lento, ingerindo um pequeno gole.
— Obrigada — sussurrou.
— Não precisa agradecer — Carmen tranquilizou. — Um instante depois insistiu: — O que aconteceu? Tem alguém que eu possa chamar para acompanhá-la até em casa?
— Eu já me sinto melhor — afirmou Rosalie.
— Tem certeza? Não gostaria de me contar o que aconteceu?
— Tiraram minha filha de mim — contou sem rodeios. Outra vez lágrimas turvaram seus olhos.
— Quem a tirou de você? Foi um sequestro? Você precisa procurar a polícia.
— A polícia não pode fazer nada a respeito.
— É claro que pode. Eles podem encontrá-la e trazê-la de volta para você.
— A pessoa que tirou minha filha de mim, está na prisão.
— Mas então... Não entendo...
— Ele dirigia o carro... Não conseguiu frear a tempo, minha garotinha não o viu. Foi muito rápido. Gritei para chamar sua atenção, corri a seu encontro, mas nada foi suficiente para impedir que ele a tingisse com o veículo.
Foi com pesar que Carmen entendeu o que tinha acontecido a Rosalie e a filha dela. Gentilmente passou os braços em volta de Rosalie.
— Eu sinto muito.
— Ela só tinha cinco anos — Rosalie soluçou. — Não era para ter se afastado de mim. Eu só soltei a mão dela um instante, e estávamos na calçada. Era véspera de ação de graças, do ano passado.
Carmen afagou as costas dela, confortando-a.
— Realmente lamento. Não consigo dimensionar tamanha dor que possa estar sentindo — pensou na data que tudo aconteceu e lembrou que pouco mais de uma semana foi ação de graças, o que significava que há poucos dias tinha completado um ano do acidente que separou mãe e filha para sempre. — Não tem ninguém na casa com você?
— Eu queria ficar sozinha por um tempo. Estava cansada de todas aquelas pessoas querendo falar do que aconteceu. Das lembranças que tudo na nossa casa trazia.
— Talvez ficar sozinha não tenha sido uma boa ideia. Por que não volta para casa? Sua família deve estar preocupada com você.
Em silêncio, Rosalie voltou beber do chá.
— Há algum número que eu possa ligar? — insistiu Carmen.
Ela negou com fraco movimentar de cabeça.
— Ainda não me sinto pronta. — Tomou mais um gole antes de entregar a xícara a Carmen. — Obrigada pela ajuda. — agradeceu e levantou dizendo: — Eu preciso ir.
— Quer que eu a acompanhe? — Carmen também ficou de pé.
— Você já fez muito. — Deu dois passos em direção ao gramado e parou para agradecer novamente. — Obrigada.
— Tem certeza que não quer que eu a acompanhe?
Rosalie balançou a cabeça.
— Sim.
Carmen ficou observando ela se afastar. Pensou, que pena alguém tão jovem como Rosalie já tendo de suportar dor tão grande.
Alice e Isabella chegaram ao seu lado, com olhares curiosos e perguntas não feitas.
— Aquela moça carrega uma dor muito grande no coração — contou as filhas. — Perdeu a filhinha de cinco anos e se sente culpada por isso ter acontecido.
Isabella e Alice olharam as costas de Rosalie enquanto ela se afastava, compartilhando do mesmo sentimento de pesar.
[…]
Somente na tarde do dia seguinte Rosalie arriscou sair de casa novamente. Dessa vez limitou-se caminhar margeando o lago.
O vento frio fustigando seu rosto não incomodava. A vegetação sob seus pés estava úmida. Durante algum tempo esteve pensando na conversa com Carmen. Ela lhe pareceu uma boa pessoa. Mas Rosalie não tinha intenção de voltar lá. Esperava que ela fizesse o mesmo e a deixasse com suas lembranças.
Estava a poucos metros de casa quando pensou ter ouvido o grito de uma criança. Imediatamente sentiu a respiração pesar. Imagens do acidente de Lovely voltaram a sua mente. O latido insistente de um cachorro lhe tirou das lembranças. Não havia cachorro no dia do acidente. Não era Lovely quem precisava de ajuda.
Misturando-se aos latidos exaltados do cachorro uma criança gritou por socorro.
Rosalie aumentou o passo até perceber que estava correndo seguindo o som dos latidos. Avistou o cachorro no deque, latindo para a água. Foi então que viu uma mãozinha emergir, a cabeça escura em seguida. O pedido de socorro soou alto novamente.
Rosalie se pôs a correr ainda mais depressa. Arrancou os sapatos no momento que pisou no deque, lançando-se na água fria rapidamente. O cachorro se lançou na água logo atrás dela.
No primeiro momento a criança lhe escapou das mãos. Rosalie mergulhou e foi buscar a menina embaixo d’água. Nadou carregando a criança para a margem. O cachorro seguindo de perto seus movimentos.
Colocou a menina na vegetação úmida. O cachorro se sacudiu ao seu lado. Ela ouviu gritos ao longe, pareciam procurar alguém. A adrenalina tomando conta do corpo, dizendo o que fazer. Realizou o procedimento de primeiros socorros de modo a restabelecer a respiração.
O cão se encontrava impaciente ao seu lado.
A garotinha tossiu e cuspiu um pouco de água enquanto Rosalie inclinava o corpo pequeno na posição lateral. Tomando consciência do que aconteceu, a criança começou chorar.
— Está tudo bem, querida. Você vai ficar bem agora. — o animal lambeu o rosto da menina, saltando na frente de Rosalie.
— Harper! — alguém gritou seu nome.
Rosalie levantou o rosto. As duas garotas que estavam na casa de Carmen vinham às pressas, em sua direção.
A mais velha, que se lembrou chamar Isabella, se ajoelhou ao lado da menina na vegetação as margens do lago. Tocou seu rosto molhado se mostrando assustada.
— Harper, você está bem?
Alice chegou com poucos segundos de diferença e também se ajoelhou ao lado da irmã caçula.
— A moça me salvou — Harper contou a elas.
As irmãs viraram o rosto para olhar Rosalie, tomando consciência da presença dela somente agora.
— Obrigada por tirar nossa irmã da água — Alice foi quem falou primeiro.
— Obrigada — Isabella agradeceu logo depois. Acolheu a irmã no colo e ficou de pé.
Água pingava das roupas de Rosalie e também de Harper.
— Não sei o que teria acontecido se você não estivesse por perto — Isabella continuou.
A adrenalina tinha mantido Rosalie aquecida até então. Agora começava tremer, assim como Harper nos braços da irmã.
— Você precisa de ajuda? — Alice ofereceu.
Rosalie negou com um movimento de cabeça.
— Talvez fosse bom levá-la ao médico — sugeriu as irmãs de Harper.
— Vamos fazer isso — Isabella garantiu. — Obrigada, mais uma vez, por salvar nossa irmã.
— Obrigada, moça — Harper falou devagar —, por salvar minha vida. — O cachorro latiu como também agradecesse seu ato heroico.
As garotas seguiram caminho ao lado uma da outra.
Rosalie voltou para casa carregando os sapatos nas mãos. Um caminho de água marcou o piso de madeira até chegar ao banheiro.
Mais tarde, sentada diante a lareira, bebeu uma xícara de café. Pegou o celular, leu as várias mensagens do marido e do restante da família, mas acabou não respondendo nenhuma delas.
[…]
Era por volta de sete da noite quando alguém bateu a sua porta. Estava certa de que era alguém da família lhe fazendo mais uma visita surpresa. Mas, ao abrir a porta, se deparou com Carmen e a menina que salvou do afogamento. O cachorro também estava com elas.
Harper estava seca e bem agasalhada. Seu cabelo escuro e comprido estava dividido ao meio, presos com um elástico sobre os ombros. Um gorro lilás protegia a cabeça do frio. Carmen segurava sua mão. Na outra mão, trazia uma vasilha com tampa.
— Oi — Rosalie arriscou, sem saber bem o que a visita das duas significava. Harper olhando seu rosto o tempo todo com atenção.
— Eu precisava vir até aqui agradecer por tirar minha filha do lago — começou Carmen, desconfiada que Rosalie quisesse ficar sozinha. Ela ofereceu a vasilha que trazia. — É brownie — disse. — Harper quis que trouxéssemos para você.
Brownie, exatamente o que Lovely iria comer ao chegar em casa naquele fatídico início de noite, um ano atrás. Rosalie sentiu o aperto no peito.
— A mamãe faz os melhores brownies — Harper garantiu.
— Eu não duvido — Rosalie olhou a vasilha ainda estendida em sua direção.
— Você não vai pegar? — insistiu Harper.
Rosalie aceitou o doce murmurando um agradecimento.
— Sou eu quem agradece o que fez por minha garotinha.
Rosalie foi surpreendida pelo abraço de Carmen.
— Você fez algo grandioso hoje — ela confidenciou. — Lembre-se sempre disso. Não foi culpa sua o que aconteceu um ano atrás. Foi um acidente, assim como o que aconteceu hoje.
— Não consegui chegar a tempo... — Rosalie se referiu ao acidente que tirou a vida de Lovely.
— Você fez o que esteve ao seu alcance. Tenho certeza que sua garotinha sabe disso, onde quer que esteja agora.
O abraço foi desfeito, deixando ambas com lágrimas nos olhos.
— Eu estou bem, mamãe — Harper tranquilizou.
— Eu sei querida — a mãe lhe sorriu. — Nunca mais saía por aí perseguindo esquilos com o Bob. Nem mesmo se aproxime do deque se estiver sozinha.
— Eu prometo — Harper garantiu.
Rosalie hesitou antes de fazer um pedido a menina.
— Posso lhe dar um abraço?
Harper abriu os braços permitindo que a abraçasse. Antes que se separassem, sussurrou em seu ouvido:
— Ela quer que volte para casa.
O corpo de Rosalie estremeceu.
— Do que está falando? — questionou a menina.
— A menina do acidente de carro.
Rosalie se afastou de Harper como tomasse um choque.
— Como...? — Mas Harper não respondeu. Disse apenas que estava cansada e queria voltar para casa.
Rosalie fechou a porta, atordoada, pensando nas palavras de Harper. Buscou o álbum de fotografias de Lovely e sentou no sofá com ele sobre as pernas. Olhou mais uma vez cada uma das fotografias como fosse a primeira vez, embora houvesse decorado cada detalhe nelas.
Era tarde da noite quando pegou no sono, pela primeira vez em muito tempo, sem ter de tomar remédios para dormir. Naquela noite se encontrou com Lovely durante o sono.
Num campo aberto, em meio a uma plantação de girassóis, avistou a filha num lindo vestido amarelo, correndo em sua direção. Pegou Lovely no colo envolvendo num abraço apertado. Sentiu o cheiro familiar de shampoo infantil misturado a giz de cera.
— Eu te amo, Lovely. Eu te amo. Eu te amo — repetiu diversas vezes.
A menina a presenteou com um sorriso genuíno.
— Lovely também ama a mamãe. — Então olhou para o lado. — Papai — sussurrou. — É o papai! — exclamou, correndo para ele.
Emmett a segurou pela cintura erguendo o mais alto que pôde.
— Papai, papai — Lovely repetiu dando risadinhas.
A imagem do campo de girassóis tornou-se de repente o jardim da casa deles.
Ainda nos braços do pai, Lovely alcançou o pescoço da mãe com seus braços, sorrindo de um para o outro.
O dia estava claro quando Rosalie abriu os olhos.
— Lovely — sussurrou, sabendo que precisava seguir em frente, ainda que lhe rasgasse a alma. Levantou do sofá. E pela primeira vez desde o acidente, não negou a si mesma a falta que sentia do marido. Algo em seu coração dizendo que fizesse as malas.
Seu tempo de solidão, ainda que forçada, havia chegado ao fim.
Antes de partir passou na casa de Carmen para se despedir e agradecer mais uma vez por terem se preocupado com ela quando nem mesmo a conheciam.
[…]
Horas mais tarde, estacionou o veículo na entrada de carros da casa onde vivia com o marido e a filha.
Sentia-se ansiosa, as mãos suavam frio no momento que saiu do carro. Queria muito encontrá-lo e dizer que estava disposta a seguir em frente, ou ao menos tentar.
Deixou a bolsa e as malas no carro. Não havia telefonado para ninguém da família, eles não faziam ideia de seu retorno.
Encontrou a cópia da chave embaixo de um vaso de flores no jardim. Procurou por Emmett em toda a casa sem sequer pensar que pudesse estar no trabalho.
As lembranças, misturada à ansiedade, estavam fazendo de sua respiração entrecortada. Começava pensar que não o encontraria, mas uma ida a garagem revelou que não havia saído; o carro estava exatamente onde costumava deixar.
Ela saiu para os fundos da casa, um grande espaço aberto que se entendia além do alcance de seus olhos. Caminhou alguns metros até finalmente avistá-lo de costas, ao lado do bebedouro de água para pássaros, feito de concreto, na altura de uma fonte. Emmett tinha os braços cruzados em frente ao peito enquanto olhava o horizonte cinzento.
Rosalie prendeu o agasalho junto ao corpo com as mãos e caminhou até ele.
— Emmett? — ela chamou.
Ele virou o rosto em sua direção. Tê-la de volta tinha se tornado seu pedido mais frequente ao encostar a cabeça no travesseiro antes de dormir.
— Rose — Ele deu alguns passos diminuindo a distância entre os dois. — Rose — tornou a dizer, se mostrando aliviado.
Rosalie afastou os braços do corpo se permitindo abraçar o marido. Alívio e saudade coexistindo. Lembrando-a quanto era agradável estar nos braços dele.
— Eu quero tentar... — murmurou ela. — Quero que fiquemos juntos, se ainda quiser.
Emmett encostou os lábios no topo da cabeça dela, com um beijo suave, aproveitando para matar a saudade do cheiro. Desejou não soltá-la jamais. Mas era preciso olhar em seus olhos agora.
— Jamais desejei me afastar de você. Esperaria o tempo que fosse preciso. — Voltou a beijar a testa dela, abraçando-a mais uma vez.
— Ainda não estou pronta para...
Emmett afagou as costas dela, em seguida, os cabelos.
— Prometo não falar sobre isso.
— Obrigada por entender... — sussurrou contra o peito dele.
— Sinto muito se a magoei em algum momento falando o que não devia.
— Nos amamos. Isso é tudo o que importa agora — declarou Rosalie.
[…]
Meses depois...
Rosalie saiu para o jardim dos fundos usando um vestido floral azul. Os cabelos presos num rabo de cavalo bem feito.
No auge da estação das flores sua plantação de girassóis se entendia por toda a área dos fundos da propriedade. Quando o inverno daquele ano chegou ao fim, ela preparou a terra para receber as mudas de girassóis que foi buscar numa fazenda. Fez questão de plantar todas elas com as próprias mãos. Emmett ajudou em cada processo.
Pisou na grama verde com os pés descalços apreciando o contato com a natureza. Olhou em volta, sustentando um leve sorriso. Sentia a presença de Lovely toda vez que estava ali.
Passado um instante ouviu alguém chamar seu nome. Quando olhou para trás avistou os pais, Esme e Carlisle, caminhando a seu encontro.
— Oi, minha querida! — Carlisle cumprimentou.
— Sua plantação de girassóis está cada dia mais bonita — Esme elogiou olhando em frente, a vasta plantação de grandes flores amarelas voltadas para o sol.
Rosalie se aproximou com um sorriso no rosto abraçando primeiro o pai, depois a mãe.
— Obrigada, mamãe. Emmett tem me ajudado bastante. Ele é paciente e cuidadoso.
Esme sorriu se mostrando satisfeita.
— Ei, família! — Tanya apareceu no jardim trazendo com ela os gêmeos de nove anos. Dois garotinhos de cabelos castanhos iguais ao pai.
Rosalie e os pais olharam na direção de sua voz. As crianças correram em meio à plantação de girassóis, perseguindo borboletas.
— Tenham cuidado, os dois, com as flores da tia Rose — alertou no momento que cumprimentava os pais e a irmã. — Hoje vim preparada para tirar várias fotos nesse lindo jardim.
— Tenho certeza que vão ficar lindas — Esme reforçou.
— Não se esqueçam de mim — Irina chamou atenção para ela quando chegava.
— Claro que não — Carlisle lhe estendeu a mão.
— Desculpe, fui à última a chegar — comentou Kate logo depois, de mãos dadas com o filho de sete anos. Os cabelos escuros do menino herdados do pai.
Todas as filhas se cumprimentaram, em seguida, abraçaram Rosalie ao mesmo tempo. As crianças falavam ao mesmo tempo, e sempre num tom de voz acima do necessário.
— Está belíssimo o seu jardim, mana — Kate comentou com Rosalie.
Rosalie olhou em volta, orgulhosa do trabalho que havia feito.
— O mérito não é só meu. Emmett tem se dedicado bastante, também. — Seu sorriso se abriu ao notar que ele se aproximava. Emmett parou ao seu lado, com um copo de suco na mão.
Tendo a família distraída em conversas paralelas, Rosalie falou apenas para o marido.
— Nunca perguntei por que estava em casa aquele dia quando cheguei.
Emmett bebericou do suco antes de olhar em seus olhos e responder:
— Sonhei com Lovely na noite que antecedeu sua chegada — Rosalie esperou com ansiedade a continuação. — Ela me disse que você voltaria.
— Eu também sonhei com ela na noite que antecedeu meu retorno.
— Numa plantação de girassóis — terminaram a fala juntos, se surpreendendo e maravilhando-se com a similaridade do sonho.
— Eu sinto a presença dela em cada canto desse jardim — Rosalie sussurrou, passando os braços em volta de Emmett.
— Eu também — ele confessou, encostando os lábios nos cabelos dela. Ambos olhando a plantação de girassóis, pensando no sonho que tiveram com a filha, meses atrás.
Compartilhando a mesma sensação de estarem perto dela.
Lovely estaria para sempre em seus corações e lembranças. Eternizada no amor incondicional que sentiam por ela.
Fim
Notas finais
Uma recomendação seria mega bem-vinda, também. E me deixaria contente além da conta.
Muito obrigada pela atenção.
Um beijo grande.
Sill
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