"Levantei minha M16A4 e olhei em volta. Olhei ao redor da borda da casa atrás da qual estávamos nos protegendo. Tudo ainda parecia estar claro. Olhei de volta para minha unidade para ver meu especialista, Dum Dum. A perna estourada por causa do bombardeio... Eu instruí Jacques a enfiar os dedos na artéria femoral, embrulhar o resto do que sobrou e dei-lhe uma injeção para a dor. Estávamos todos esperando ansiosamente a chegada da evacuação para salvar Dum Dum, mas ele estava perdendo muito sangue…

— Como você está indo, cara?

— Fazendo o melhor que posso, sargento – Dum Dum disse parecendo mais pálido a cada segundo que passava.

— Bem, aguente firme mais um pouco, isso é uma ordem – falei com falsa severidade, contando com a extrema necessidade dele de cumprir ordens diretas.

Decidi checar a esquina novamente depois de ouvir a risada de Dum Dum. Olhei e vi uma jovem caminhando lentamente para cá. Ela parecia ter cerca de 8 anos de idade. Ela se parecia estranhamente com minha esposa... Aquele cabelo vermelho e aqueles olhos verdes intensos... Talvez eu esteja alucinando coisas com todo esse calor. Talvez eu apenas sinta falta do meu Gengibre.

Ela começou a se aproximar demais. Ordenei que se afastasse usando meu árabe quebrado, mas ela não ouviu. Gritei novamente e fui ignorado outra vez. A menina continuou se aproximando lentamente de nós e eu sabia o que meu treinamento estava me dizendo para fazer. Eu deveria matá-la para escapar de ameaças potenciais. Mas não consegui, então atirei no chão na esperança de assustá-la.”

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— Shh… está tudo bem, Yasha… você está em casa – Natasha disse enquanto acariciava seu braço na tentativa de acalmá-lo, depois de ter acordado sobressaltado e ofegante.

Há um ruído agudo e sufocado que Buck entorpecidamente percebe que vem dele, quase como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago, antes que os primeiros soluços enchessem o ar. Ele pode sentir seu corpo começar a tremer e os braços de sua esposa segurando-o gentilmente, mesmo quando Buck tenta afastá-la.

— Está tudo bem Yasha. Você está bem. Estamos bem! Foi apenas um pesadelo e já passou.

Sentando na cama, Buck continua tremendo, sentindo o peso do universo equilibrado em seus ombros, ondas de angústia saindo dele tão pesadamente que o ar parece pesado com isso. Ele se acalma lentamente, algumas lágrimas ainda escapam de seus olhos. Suas mãos ainda estão tremendo e sua mente continua repetindo o seu pesadelo. Mais calmo, Buck encarou sua esposa com a luz da lua que entrava pelas persianas da janela de sua casa de tijolos marrons, e viu em seus olhos um pequeno vislumbre de tristeza misturada com preocupação. Seus pesadelos estavam cada vez mais frequentes. Ele também podia ver o quanto isso estava começando a afetar sua esposa.

— Você estava bem no começo. Era seu eu adormecido semiconsciente normal. Acordei no meio da noite e senti você se contorcendo... tentei acalmá-lo... – seus olhos se encheram de lágrimas. — Você apenas continuou se contorcendo, então você simplesmente começou a falar e acordou.

— Eu não machuquei você, machuquei? – Buck perguntou a sua esposa, depois que os tentáculos do pânico o soltaram e as lágrimas começaram a se dissipar sentindo-se.

— Não, claro que não – Natasha disse isso como se nunca tivesse acontecido antes, e isso realmente o incomodou. Ele nunca quis machucá-la, ele a amava mais do que tudo, mas devido ao treinamento que recebeu o seu corpo reage antes mesmo dele estar totalmente acordado.

Ela ficou do lado dele durante todo o tempo em que estava no exército, suportou bravamente todas as dificuldades de ser esposa de um militar. Buck sabia que as coisas deviam ser difíceis para sua esposa. E também sabia que havia muita tensão no relacionamento. Voltar para casa depois de uma turnê não é fácil, e sua esposa também estava tendo dificuldades para lidar com toda carga de novas e terríveis experiências que trouxe de sua última viagem.

Seus olhos voltaram-se para as íris verdes dela, ele segurou seu rosto hesitantemente, como se estivesse com medo de ser empurrado para longe e enxugou uma lágrima fujona. Acariciando ambas as bochechas, depois passou as mãos por seus ombros enquanto beijava sua testa e passou os dedos por seu cabelo ruivo vibrante.

— Você sabe que não deve ficar perto de mim quando estou tendo um pesadelo. É perigoso – Buck murmura, a voz engasgando com as palavras, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas. — Você sabe que meus instintos podem tomar conta e te atacar antes de meu cérebro estar totalmente consciente, principalmente durante um pesadelo. Não é mais apenas sobre sua segurança; temos que pensar no bebê também.

Ele a viu desviar o olhar e percebeu como ela estava desapontada consigo mesma.

— Você tem razão. Isso foi errado da minha parte. Eu só me preocupo muito com você.

Buck sabia que Natasha, apesar de sempre bancar a durona, sempre colocaria as necessidades e desejos de todos antes dos dela. Ele a amava e odiava isso nela, pois adorava o quanto isso a fazia bem, mas também odiava o quanto isso, às vezes, a machucava. Buck segurou o rosto de Natasha para ter certeza de que ela estava olhando diretamente para ele; ele fez isso para mostrar a sua esposa o quão sério estava falando sobre isso.

— Eu estarei bem. Eu sempre estarei bem. Você precisa se colocar em primeiro lugar, e a única coisa que você deve colocar antes de si mesmo é aqui – Buck disse enquanto apontava para o estômago dela.

— Eu sei... estou trabalhando nisso.

— Bem, trabalhe mais rápido.

— Não é tão fácil! Eu vivi assim a minha vida inteira – Natasha se sentou começando a ficar com raiva.

— Eu percebo isso, mas novamente, não é mais só você para pensar. Temos um filho a caminho também – ele começou a esfregar as costas dela para tentar acalmá-la. Não era a sua intenção soar como um idiota, e Buck sabia que ela percebeu isso. Ele simplesmente queria que Natasha não se machucasse por se preocupar tanto com ele. Buck olhou para a esposa, mas ela estava olhando para a frente. — Ei, vamos apenas deitar novamente. Você e meu bebê vão precisar de descanso, Gengibre.

— Certo – Natasha disse enquanto se deitava de lado, de costas para o marido.

Buck colocou a mão sobre o estômago dela e uma debaixo do travesseiro em que sua cabeça estava descansando, e se deitou com o peitoral grudado em suas costas. Ele poderia dizer que sua esposa ainda estava um pouco zangada, mas depois de um minuto, Natasha finalmente enlaçou a mão que descansava em seu estômago com a sua e a segurou contra o peito como fazia todas as noites. Bucky pensou que era quase como se ela estivesse tentando segurá-lo perto de seu coração.

— Eu a vi em meu sonho – Buck disse a Natasha.

— Quem você viu?

— Nossa filha – ele disse a ela enquanto soltava a sua mão e apalpava o estômago avantajado dela. — Ela parecia com você. Tinha seus cabelos e seus lindos olhos – acrescentou acariciando a barriga de sua esposa.

Natasha se virou para encarar o marido. Ela se esticou sobre ele, quase empurrando-o para fora da cama com sua grande barriga, para acender a luz. Depois pegou a mão dele e segurou-a com força. Buck começou a ficar nervoso e ansioso com a seriedade no rosto de sua esposa.

— Acho que você precisa fazer terapia.

— Não posso fazer terapia – ele podia sentir a ansiedade começar a piorar.

O pânico começou a tomar conta de Buck, quando as lembranças das experiências horríveis que ele e seus companheiros enfrentaram, passaram em sua cabeça. Ele se lembrou da terapia de exposição. Barnes levantou-se da cama e começou a andar.

— Me desculpe, eu simplesmente não posso fazer isso. Eu não posso voltar. Não posso ir lá de novo.

— James... Querido, por favor, sente-se e olhe para mim.

Ele sentou-se em uma cadeira que puxou na frente de sua esposa, que estava sentada na cama, depois pegou as duas mãos dela e a encarou. Buck realmente olhou para ela, como uma forma de trazer sua mente de volta para o lugar de onde havia fugido.

O olhar nos olhos de Natasha é tão terno, tão suave e cheio de amor que não há como Buck não perceber, mesmo na sala mal iluminada. Mas o mais importante, o olhar nos olhos de seu Gengibre Selvagem não vacila, é firme e cheio de confiança, mesmo depois de tudo que passaram. Natasha ainda confia em Buck para mantê-la segura e amá-la direito.

O coração de Buck gagueja em seu peito porque, Deus, ele não merece alguém como ela. Mas ele é egoísta e aceitará qualquer coisa que Natasha queira lhe dar, especialmente se for para sempre

— Seus pesadelos estão piorando, Buck, e ultimamente você tem estado mais ansioso do que o normal. Posso imaginar que parte disso é que você está se tornando pai, mas ainda tem problemas que precisa resolver.

— Eu sei, e eu entendo isso. Eu simplesmente não posso voltar lá...

— Olha, ninguém falou que você vai precisar fazer terapia de exposição. Apenas faça terapia. Uma sessão de cada vez. Você não precisa falar com eles sobre coisas que não queira. Eles não podem te obrigar a dizer nada que ainda não esteja preparado para compartilhar – o que Natasha estava dizendo parecia estar afetando Buck. Sua respiração gaguejou, mas logo voltou ao normal, então ela continuou. — Eu sei que você não quer colocar aquele estúpido capacete de realidade virtual que o leva de volta ao Afeganistão, eles não o obrigariam a fazer isso, a menos que realmente pensassem que ajudaria.

A ideia de ser submetido à terapia de exposição o fez ficar tenso novamente. Voltar para a guerra, mesmo que seja de mentira, era uma das poucas coisas que o aterrorizavam absolutamente. Ele olhou para baixo enquanto se perdia em seus próprios pensamentos, ficando cada vez mais tenso.

— James… – Natasha chamou gentilmente, enquanto colocava a mão em sua bochecha. — Querido, olhe para mim, por favor — ele fez o que lhe foi dito, parecendo o militar que sempre será. — Você me disse que havia apenas uma coisa que eu precisava colocar antes de mim mesmo – ela agarrou a mão de dele e a colocou em sua barriga avantajada. — Faça isso por ela, Yasha. Faça isso por ela.

Buck pensou na garota que tinha visto em seu sonho. Ele pensou que era mais como um sonho disfarçado de pesadelo. Era um sonho porque conseguiu ver sua filha. E era um pesadelo porque sabia que aquela era a filha dele e mesmo assim, atirou nela. Barnes se sentiu horrorizado com a ideia de machucar sua menina.

Tudo o que ele queria é ter certeza de que a tensão colocada em seu relacionamento com Natasha não afetasse o relacionamento que teria com sua filha. Buck olhou para Natasha. Seu lindo e selvagem Gengibre. Seu maior desejo é que ela fosse feliz, mas o mais importante: ele queria que sua filha fosse feliz.

— OK. Eu irei. Vou marcar uma consulta de manhã – ele avisou.

Natasha sorriu amplamente, com os olhos brilhando de felicidade. Barnes sentiu um aperto no peito, quando viu como acabou de deixar sua esposa feliz com algo tão simples. Ele piscou várias vezes para afastar as lágrimas que ameaçavam brotar em seus olhos. Seu Gengibre merecia um marido que não fosse assombrado pelas lembranças, e às vezes Buck se sentia tão, mais tão egoísta por não deixá-la livre para encontrar um homem melhor. Mas ele vai se esforçar por Natasha e sua filha.

— Obrigado – ela agradeceu com gratidão expressa em sua voz.

— Agora vamos dormir.

Buck apagou a luz e voltou para a cama. Depois colocou o braço em volta da filha apenas para que sua esposa o levasse até o coração.

O soldado e sua amada descansam as cabeças enquanto esperam o dia em que sua filha estará deitada entre eles.

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