Um Homem de Família
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Harry sentia seu corpo pesado, como se uma força invisível tivesse feito-o permanecer deitado e adormecido por anos. O episódio com o cara do bilhete de loteria parecia, ao mesmo tempo, tão perto e tão distante. No entanto, Harry ainda continuava a pensar naquilo. Havia algo de muito misterioso por trás daquele homem, algo que o frustrava por não conseguir descobrir o que era. Iria hoje mesmo atrás desse sujeito e pedir uma explicação convincente sobre tudo.
Espreguiçou-se lentamente, roçando os braços nos lençóis. Mas eles estavam estranhos, tinham um aspecto mais áspero, não pareciam com seus lençóis de tecido fino e macio. Será que a empregada colocara aqueles por engano? E, agora que parava para reparar melhor, o colchão também parecia diferente. Mas devia ser efeito da noite mal dormida. Ainda de olhos fechados para evitar a claridade que entrava pela cortina, pensou que era natal e que não precisaria levantar dali tão cedo. Sorriu de leve. Seria ótimo ter aquele dia para descansar e depois voltaria para seu trabalho, novo em folha.
Então, vagarosamente, sentiu uma brisa contra o rosto, mais parecida com um sopro, quente e perfumada. E tinha um cheiro que não sentia há muito tempo. Cheiro de menta. Sentiu um peso no estômago ao lembrar da única pessoa que tinha aquele perfume: Danny. Apesar de ter muito tempo, Harry ainda se lembrava como o ex namorado tinha o hábito de acordá-lo todas as manhãs logo depois de escovar os dentes, e soprava aquele hálito fresco e gostoso de menta em seu rosto, do qual Harry tanto gostava. Por um momento, que passou por ele como um raio, teve medo de abrir os olhos.
Mas, cedo ou tarde, teria que fazê-lo. Talvez para descobrir que tudo não passava de um sonho estranho. Mas parecia a Harry que esse sonho era tão real e tangível quanto a própria realidade. Era como se pudesse sentir o calor do corpo de Danny ali bem perto, seus olhos azuis observando-o, velando seu sono. Chegou a jurar que sentira o toque inconfundível de sua mão sobre seu rosto. Um arrepio incontrolável percorreu sua espinha. Por mais que não quisesse, todos os seus sentidos lhe gritavam que aquilo era muito mais do que um simples sonho. Então, hesitante e bem lentamente, foi abrindo os olhos.
- Bom dia, seu dorminhoco!
Ali estava ele, o que Harry temia, ao mesmo tempo em que sentia uma alegria incontida em ver. Danny estava ali à sua frente, sorrindo, exatamente o mesmo sorriso de treze anos atrás. O arrepio em sua espinha pareceu se intensificar três vezes mais e ele nunca poderia dizer quanto tempo ele e Danny ficaram ali se encarando.
- O que... o que está fazendo aqui, Danny? – Harry ouviu as palavras escaparem de sua boca antes de conte-las.
- Oras, como assim “o que estou fazendo aqui?” Essa é nossa casa, nosso quarto, moramos juntos aqui –Danny riu meio nervoso, não entendia porque Harry perguntou aquilo.
- Juntos? Como assim? Não... não... nós nos separamos há treze anos... impossível...
- Harry... você tá bem? Bebeu ontem?
Danny se aproximou e ele instintivamente recuou. Idéias mirabolantes se formavam em sua cabeça: alguém o drogou e, sabe-se lá como, conseguiu achar a casa de Danny e colocar Harry ali. Não, não. Alienígenas, é, isso sim explicava tudo. Ele fora abduzido. Daqui a algumas horas acordaria de novo em sua cama confortável e quente, quem sabe com um chip implantado no cérebro e tudo aquilo era só uma experiência muito louca.
Ele precisava raciocinar, não podia perder o controle agora. Tinha que investigar. Andando meio tonto pelo quarto, foi até o que pensou ser o closet e abriu-o. Ele ainda se lembrava bem do gosto de Danny para roupas e reconheceu as dele facilmente ali. Depois foi até outra divisão e pegou uma das camisas, olhando o tamanho. Sim, era o tamanho dele. Fez uma careta. Ele devia estar com algum problema muito sério para usar uma camisa de tamanho mau gosto que nem aquela.
Voltou para o quarto com algumas roupas na mão. Teria que vesti-las ou andar pela rua só de cueca, e a segunda opção não era muito atraente, já que a neve caía lá fora. Queria entender o que estava acontecendo. Foi quando notou algo frio envolvendo seu dedo anelar da mão esquerda. Olhou. Uma aliança. Como aquela aliança tinha ido parar lá? Mais uma vez, pateticamente, pensou nos alienígenas.
- Ok, Harry, se queria me assustar já conseguiu – Danny agora tinha um tom preocupado – dá pra falar comigo só um minuto?
- Eu vou... vou sair – ele falou enquanto se vestia rápido, calçando os sapatos.
Então, quando Harry achava que as coisas não poderiam ficar mais estranhas, ouviu uma voz de criança vindo da porta. Olhou e se deparou com um garotinho de aparentemente uns seis ou sete anos, com os cabelos castanhos e olhos verdes, curiosos. Ele usava um pijama estampado de estrelinhas azuis e abraçava um dinossauro de pelúcia verde. Olhava de Danny para Harry, como se perguntando o que estava acontecendo. Aqueles alienígenas eram mesmo cruéis, usavam até crianças em suas experiências.
- Papai, eu tô com fome – o garoto disse andando até Harry e abraçando-o pelas pernas.
Harry congelou. Aquele garoto tinha chamado-o de pai. Pai. Coisa que ele nunca pensara em ser algum dia. E na verdade não era mesmo! Nunca havia visto o menino, como poderia ser seu filho? Mas alguma coisa no olhar dele e no jeito com que abraçava suas pernas dizia a Harry que o pequeno já estava mais do que acostumado com a presença dele ali.
Delicadamente afastou o garoto de si e deu uma última olhada para Danny, só para se certificar de que ele continuava ali. Então desceu as escadas até a sala. Parou e olhou tudo em volta: era uma casa bem simples, simples demais na opinião de Harry, que estava acostumado a ostentar o luxo e o bom gosto acima de tudo. Os móveis não eram bem lustrados e pareciam começar a se desgastar, a cozinha era pequena e estava bagunçada. Ficou andando pela sala em círculos, procurando o que poderiam ser as chaves do carro. Pelo menos um carro ele esperava que tivesse ali. Com um certo receio, então, abriu a porta da frente e saiu.
Harry olhou em volta e reconheceu quase que imediatamente onde estava: nos subúrbios de Londres. Desejou ter ficado lá dentro. Mas tinha que descobrir que palhaçada era aquela. Agora que tinha se acalmado mais, não pensava nos alienígenas. Era uma pegadinha, daquelas da TV. Ou então alguém apareceria logo gritando “primeiro de abril!” e ele descobriria que não se passava de uma mentira muito bem contada e montada, aliás. Viu o carro estacionado na garagem e fez outra careta. Poderia até ser uma mentira bem contada, mas de muito mal gosto. Entrando no carro, deu a partida e saiu em direção ao centro.
Mas porque raios estava tão frustrado com tudo aquilo? Tinha visto Danny de novo. Apesar de não admitir isso nem para si mesmo, Harry ainda sentia falta do ex namorado. Era ele que estava faltando para preencher seu vazio durante esses trezes anos. E agora que o tivera tão perto de si, não parara sequer para abraçá-lo. Por um momento isso o deixou mais frustrado do que estava com toda aquela situação inusitada.
Harry não sabia se era o nervosismo ou se andara rápido mesmo, mas, em poucos minutos, já havia chegando até o centro e se dirigia até o prédio suntuoso onde trabalhava, ou pelo menos esperava que ainda trabalhasse. A cada minuto suas certezas diminuíam mais e mais e o desespero voltava a engolfá-lo. Estacionou de qualquer jeito e desceu, correndo para a recepção da empresa.
Logo na entrada achou o que procurava: um painel com os nomes de todos os funcionários e suas funções ali. Preferiu começar de baixo para cima. Foi passando o dedo pelos nomes, a maioria conhecidos e sentiu um alivio momentâneo com isso. Mas o frio em sua barriga começou a aumentar à medida que ia se aproximando dos cargos de maior importância. Tinha muito medo de não encontrar seu nome ali.
E foi o que aconteceu. E da pior forma possível que Harry poderia imaginar. No lugar indicado para o presidente da empresa, ao invés de seu nome, ele encontrou o de George Sanders. Justamente o Sanders, a quem Harry jamais teve simpatia. O destino realmente estava de brincadeira.
- Com licença, senhor – ele ouviu uma voz feminina falando próximo a ele – o senhor precisa de ajuda?
- Marie! – Harry exclamou, segurando a mulher pelos ombros, num tom que beirava o desespero – que sorte encontrar você... pode me explicar o que está acontecendo? Porque o Sanders está na lista como presidente?
Harry parou de falar, olhando aturdido para sua secretária. Mas tudo que recebeu como resposta foi um olhar tão aturdido quanto o dele. Marie olhava-o como se nunca o tivesse visto antes. E, naquele exato instante, ele teve a certeza absoluta que estava bem acordado e que aquilo era, de fato, sua realidade agora. Marie era a única mais próxima de Harry e, se nem ela, que o conhecia tão bem, estava reconhecendo-o, quem mais poderia lhe dar esperanças de que aquilo era um sonho?
- Lamento, senhor, não posso ajudá-lo – ela respondeu assustada – e tenho que pedir para o senhor se retirar, por favor... este acesso é restrito só para funcionários.
Sentindo como se não houvesse mais chão onde pisar, Harry se virou com dificuldade e saiu do prédio. Parou na calçada por um instante, olhando as pessoas entrando e saindo dali. Nenhuma delas sequer olhou para ele. Estranho no próprio lugar de trabalho. Ele não sabia mais o que pensar, nem ao menos sabia o que sentia a respeito daquilo tudo. A única coisa que lhe parecia certa agora era voltar para aquela casa no subúrbio, onde estavam Danny e aquele garotinho que se dizia seu filho.
Entrou no carro de novo e, quando foi ligar a chave na ignição, levou um susto ao reparar que não estava sozinho. Olhando melhor, reparou que era o cara do bilhete de loteria. Abriu um sorriso grande, feliz em vê-lo, mas logo murchando-o, pensando que talvez nem ele se lembrasse quem era.
- Como vai, Harry? – o garoto sorriu, simpático.
- Eu não sei... – respondeu franzindo a testa – lembra-se de mim ainda?
- Ora, é claro que eu lembro! – ele riu, como se fosse óbvio – foi pra você que dei meu bilhete de loteria ontem...
- Estão acontecendo coisas estranhas... ontem eu estava no meu apartamento, hoje eu acordei na casa do meu ex namorado... você tem algo a ver com isso? – Harry disse olhando o garoto, desconfiado.
- Devia ter achado isso muito bom! Faz tempo que vocês não se viam, certo?
- Escuta aqui: você estava me espionando, é?
- Harry, Harry... não discuta... na hora certa você irá entender qual o motivo de tudo isso. Você teve sua chance, lembra?
- Chance? De quê? – Harry estava aturdido.
- Já disse, na hora certa você saberá – o garoto sorriu – ah, e tem uma coisa – ele mexeu no bolso do casaco grande que usava, tirando de lá uma miniatura de um dinossauro – entregue isso ao seu filho, ele vai gostar... e feliz natal, Harry.
Ele deu-lhe um tapinha nas costas e saiu do carro, antes que Harry pudesse contestar ou perguntar qualquer coisa. Quando ele saiu do carro também para seguir o garoto, ele já havia sumido. Como podia alguém andar tão rápido assim? A única pessoa que se lembrava dele e talvez pudesse ajudá-lo, tinha ido. Suspirando pesadamente, Harry entrou no carro de novo, olhando a miniatura que ganhara, colocando-a no bolso. Deu a partida e saiu. No caminho, resolveu passar no prédio onde morava, só para se certificar que não estava ficando louco. Realmente, havia alguém morando no apartamento que antes lhe pertencia. Estava acabado.
Agora ele entendia que tudo era culpa daquele estranho garoto loiro que cruzara seu caminho na noite passada. Sentia como se estivesse dentro de um livro, vivendo uma daquelas histórias de ficção inusitadas. Mas ele ainda não sabia o desfecho da história e nem o motivo pelo qual estava nela. A palavra “chance” se repetia em sua cabeça insistentemente. Chance de quê? De ter uma vida patética, morando no subúrbio e dirigindo aquela lata velha? Bom, não, obrigado, mas ele não a queria mais. Ainda esperava acordar, são e salvo em seu quarto, afinal era impossível ter uma vida toda mudada da noite para o dia, como se fosse num passe de mágica. Mas sonhos não demoravam tanto assim e não proporcionavam sensações tão reais quanto as que estava tendo.
Como aquelas quando estava com Danny. De todas as coisas que sentia quando estava com ele, a melhor definitivamente era aquela alegria contagiante que parecia irradiar do sorriso do moreno como se fosse algo radioativo, que o contaminava de imediato. Aquele sorriso meio infantil, puro, feliz e que o fazia sorrir também, involuntariamente. Aquele que fazia os problemas parecerem insignificantes, ao mesmo tempo que parecia a solução para todos eles.
Harry riu baixinho ao se surpreender pensando em Danny daquela forma. Seria essa sua chance? Começar tudo outra vez com ele? Será que, depois de treze anos, eles ainda se amavam como antes? Agora parecia bem interessante a idéia de ficar lá com ele e descobrir. Afinal essa parecia ser sua vida agora. Tentando colocar os pensamentos em ordem, Harry dirigiu de volta para casa. Teria que se conformar.
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