Um Homem de Família
2 Capítulo 2
O sol entrava pela fresta da cortina, batendo em seu rosto, fazendo com que acordasse antes do que previa. Ergueu-se nos cotovelos olhando pelo quarto vazio, deixando os olhos pousarem sobre o rádio relógio no criado mudo: sete e meia da manhã. Logo se lembrou que era sexta-feira, ainda tinha trabalho pela frente. Relutante, saiu debaixo das cobertas e vestiu o roupão, usando toda sua força de vontade para se levantar. Foi até o banheiro, lavou o rosto e olhou seu reflexo pelo espelho. Fazia treze anos desde que voltara dos Estados Unidos e ali estava ele, Harry Judd, se preparando para passar outro natal sozinho. Ele conseguira, afinal. Tornou-se um dos maiores administradores de empresas e cuidava dos negócios de mais da metade das construtoras imobiliárias de Londres. Era conhecido por suas decisões radicais, mas que sempre davam certo e lhe traziam mais e mais lucros. Tinha uma vida da qual não podia reclamar: morava em um apartamento confortável e luxuoso no centro da cidade, só usava roupas de marca e, nas ultimas semanas, comprara um belo carro. Sem mencionar o fato de que era um dos solteiros mais cobiçados do momento.
Sim, solteiro. Quando começou seu estágio em Nova York realmente imaginara que seriam só três anos e depois ele voltaria para casa. Mas ele se saiu muito bem, tão bem que seus superiores praticamente o intimidaram a ficar para trabalhar em uma série de negociações. Demorou mais do que previra. Harry colocara sua vida profissional acima de seu relacionamento com Danny e o tempo adormeceu todo o amor que sentia por ele. Se separaram e, desde então, nunca mais se viram. E Harry nunca mais quis se envolver em algum romance longo. Desde então dedicava sua vida ao trabalho. Mas nunca conseguia se livrar da constante sensação de vazio, de se sentir incompleto. Voltou para o quarto e vestiu seu terno preto. Aproximou-se da grande janela que tinha uma vista incrível da cidade, permitindo-o enxergar a ponte sobre o Tamisa e o Parlamento. Todos os prédios estavam cobertos por uma fina camada de neve, assim como as ruas. O movimento já era intenso, tanto de carros quanto de pedestres. Londres não parava nem na véspera do natal. Harry, particularmente, não gostava muito da data. Havia se afastado de sua família também e não tinha amigos íntimos o suficiente. Não tinha sentido comemorá-la sozinho. Ajeitou a gravata, pegou sua pasta e as chaves na mesa, saindo do apartamento. Cada canto da cidade estava decorado com luzes coloridas e árvores enfeitadas. Algumas crianças brincavam nos parques, fazendo guerra de bolas de neve, irritando quem passava por ali e era atingido acidentalmente. Para Harry essa era a melhor parte de andar de carro por Londres: observar como era uma cidade em constante movimento. Ele gostava daquilo, talvez por seu trabalho exigir tanta atividade e disposição. Parou em frente a uma cafeteria que freqüentava todas as manhãs. Comprou seu capuccino e, em menos de dez minutos já estava no prédio onde trabalhava. Era uma construção imponente e bonita. As pessoas transitavam de uma sala para outra, agitadas, propondo e aceitando novos negócios, planejando vendas e compras milionárias. - Sr. Judd! Que bom que chegou! A secretária de Harry, uma mulher baixinha de cabelos e olhos pretos, veio correndo em sua direção parecendo prestes a ter um colapso nervoso. Ela segurava vários papéis, analisando-os rapidamente. - Ah, bom dia pra você também, Marie – Harry disse rindo baixinho, passando pelos corredores, seguindo para seu escritório – qual o motivo de tanto desespero? - Bem, o senhor deve se lembrar da construtora na qual investiu há três meses – ela falava, acompanhando-o em passos rápidos, passando-lhe os papéis. - Sim, lembro. Qual o problema? – ele franzia a testa enquanto lia as anotações. - O dono de lá nos informou que não vai ser possível continuar a obra porque os gastos já estão ultrapassando o orçamento combinado... - Então quero que você ligue mais tarde para ele e dispense seus serviços. Depois quero uma lista de outras construtoras que estão procurando investimento e vou ver se tem alguma delas que consiga trabalhar dentro do meu orçamento... - Mas... Sr. Judd... vão ter que contratar outras pessoas... - Eu não vou continuar com um investimento que não traga lucros para a empresa, Marie – Harry entrou no escritório, sentando-se em sua mesa, pronunciando todas aquelas palavras calmamente – não discuta comigo, por favor... - Sim, como quiser então... – ela disse, deixando umas últimas anotações com ele – o senhor tem uma reunião daqui a trinta minutos... E assim Harry passou o resto do dia, completamente envolvido em seu trabalho. Ele gostava bastante do que fazia e não tinha receio em dizer que era realmente bom naquilo. Participou da reunião para discutir novos projetos para a empresa e mais investimentos, conseguiu fechar vários negócios e ganhou mais elogios de seus companheiros. Estava tão compenetrado que nem percebeu que já anoitecera e ele era um dos poucos ali no prédio. Organizou suas coisas e trancou o escritório, saindo pelo corredor, vestindo o paletó. Estava cansado, tudo o que queria era um bom banho e sua cama. Então, quando chegava ao hall principal, viu que ainda tinha alguém ali. Precisou chegar mais perto para reconhecer quem era. - Ainda por aqui, George?
- Ah, Harry – George olhou-o um pouco surpreso – me assustou... é, eu tive que ficar até mais tarde para organizar umas notas...mas já estou indo, minha família toda está esperando para a ceia de natal...e você? - Vou pra casa – Harry deu de ombros – ver alguns filmes e dormir... - Nenhuma companhia essa noite? – ele sorriu de canto. - Não... você sabe que não comemoro o natal... boa noite, George... - Boa noite... Harry saiu e fechou mais o paletó para evitar o vento gelado. George Sanders não era exatamente o tipo de pessoa na qual se devia confiar. Há muito tempo queria ter o prestígio e o cargo de Harry na empresa, invejava-o por ser sempre apontado como o melhor de todos. Ele não conseguia disfarçar seu tom levemente irônico e de desprezo a cada vez que se dirigia a Harry, por mais que tentasse. Tentando não pensar mais em seu trabalho, Harry pegou o carro e seguiu pelas avenidas, agora um pouco mais vazias. A maioria das lojas já estavam fechadas, provavelmente todos estavam em suas casas com as famílias, comendo peru e trocando presentes. Ele estava com fome e seria difícil achar algum restaurante aberto àquela hora. Então, passando por uma rua menor, ele viu. Havia apenas uma loja com as luzes acesas e a porta aberta, também decorada com luzes de natal. Parecia ser uma daquelas de conveniência. Poderia comprar alguns salgadinhos e cerveja, ou até um vinho. Parou o carro ali perto e entrou na lojinha. Era um lugar pequeno e havia um único caixa. A moça atendente conversava com um rapaz encostado no balcão e, quando Harry se aproximou mais, percebeu que ele falava um tanto irritado. Precisou de um segundo olhar para notar que ele segurava uma arma. - Você precisa conferir esse bilhete pra mim! – ele dizia sacudindo um papel no rosto da garota. - Mas moço... eu já disse que esses números estão errados... – ela dizia quase num tom de súplica. - Tenho certeza que não, eu ganhei! Você tá querendo me passar pra trás – o rapaz ergueu a arma, apontando diretamente para o rosto da garota. Harry observava tudo, parado no mesmo lugar. Ele não podia ficar ali sem fazer nada, mas tinha medo de que o cara fosse descontrolado e resolvesse atirar nos dois. - Escuta – ele resolveu se aproximar – calma, rapaz... abaixa essa arma, não precisa... - Quem é você? – o cara se virou para ele rapidamente, apontando a arma – não se mete nisso! - Ei, calma! – Harry ergueu as mãos, parando novamente – só quero ajudar... O silêncio caiu pesadamente sobre eles. O rapaz estudou Harry com os olhos por alguns minutos, como se analisasse se ele estava realmente querendo ajudar. A moça atrás do balcão olhava de um para outro, aflita. Harry começava a se sentir desconfortável com a situação e desejava não ter aberto a boca. Não gostava do jeito com que o rapaz o olhava, dava-lhe uma sensação de inutilidade, de que ele estava mesmo lendo seus pensamentos. Então, depois do que pareceram horas, ele baixou a arma. - Quer mesmo ajudar, cara? - Bom... depende de qual for o seu problema – Harry disse aliviado. - Preciso que me ajude com esses números – mostrou o bilhete ainda nas mãos. - Sim, tudo bem... eu vou tentar... - Então vamos dar uma volta – ele olhou para a moça enquanto guardava a arma – me desculpe, perdeu sua chance... – e saiu da loja. Harry acompanhou-o, pensando que devia ter ficado louco. Com certeza trabalhar demais estava lhe fazendo mal: estava ali numa rua deserta e gelada, na véspera do natal, ajudando um cara louco que apontou uma arma para uma garota só porque ela se recusava a conferir números de um bilhete de loteria. - Você não quer me ajudar só para praticar uma boa ação, não é? – o rapaz perguntou de repente, quebrando o silêncio. - Perdão... como é? – Harry olhou-o, intrigado. - Conheço caras como você, Harry... só ajudam as pessoas porque querem ficar em paz com a consciência, nem vão se importar no outro dia se aquela pessoa ainda está viva... - Espera aí, como sabe meu nome? Eu não te disse... - Só deduzi... você tem cara de Harry – agora o rapaz tinha um tom mais descontraído, andando pela calçada com as mãos nos bolsos. Harry achava aquela conversa mais estranha a cada minuto. Ainda confuso e surpreso, reparou que eles caminhavam para longe de seu carro, que estava do lado oposto da calçada. - Ei, espera... meu carro... - Calma, não vai precisar dele – o rapaz sorriu presunçoso. - Como assim...? Escuta, só quero te ajudar com seus números e ir pra casa ok? – Harry começava a ficar impaciente porque o cara parecia zombar dele. - Tudo bem então – ele tirou o bilhete do bolso e entregou a Harry – sabe... pensando melhor, você o merece mais do que eu... foi nobre essa noite e teve sua chance... - Chance? De quê? – Harry segurava o bilhete, aturdido. - De fazer uma escolha importante... e agradeça, não é todo mundo que tem essa sorte – disse o rapaz, dando palmadinhas nas costas de Harry – portanto aproveite... preciso ir andando agora... - Mas... eu não estou entendendo nada... primeiro você me pede ajuda e agora me dá o bilhete? - Você vai entender, Harry... vai entender... O rapaz acenou e foi se afastando, indo pelo lado oposto da rua. Harry ficou observando-o virar uma esquina, completamente confuso. O que significava tudo aquilo? Aquele rapaz devia ser louco, com certeza. Só estava procurando um idiota para cair em sua brincadeira. Ainda com o bilhete de loteria na mão, Harry voltou para o carro, decidido a esquecer o que houve. Mas, por alguma razão, quando chegou em casa e finalmente pôde se deitar, ficou martelando na cabeça várias vezes o que aquele estranho lhe dissera. “Teve sua chance... de fazer uma escolha importante... aproveite...” Escolha importante? O quê exatamente ele teria que escolher? Realmente não fazia sentido algum. O sono começou a envolver Harry vagarosamente e ele adormeceu com o som daquelas palavras ainda ecoando em seus ouvidos.
Fale com o autor