Um Halloween Para Todos Nós
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Annabeth abriu os olhos tempestuosos subitamente. Seu relógio apitava em um ritmo frenético. Olhou para o relógio ao lado da sua cama e o desligou. Seis da manhã. Isso foi o suficiente: enterrou a cabeça de volta na almofada e piscou os olhos para o teto. Levantou-se da cama, bocejou, e caminhou para o banheiro. Escovou os dentes e, depois de vestir suas roupas usuais, tomou o café da manhã. Seus pais não estavam em casa, sequer seus irmãos. Passariam este feriado em outro local, e apesar daquele gosto amargo, Annabeth sentia-se feliz por poder passá-lo com os amigos.
Olhou para a janela, o dia clareando com uma pálida névoa. A temperatura não parecia que iria elevar muito hoje, mas o ar estava úmido, e em alguns breves momentos, o sol aparecia fraco atrás das nuvens.
Levantou-se e organizou a mesa. Tomou seu último gole de café e passou a lavar a louça.
Enquanto lavava, alguém bateu na porta com certo padrão. Annabeth conhecia aquele ritmo.
Sem sequer permitir ou responder, seu Cabeça de Algas entrou. A porta da frente dava-se na sala, e ao lado da sala, a cozinha, onde Annabeth se encontrava. Ele tirou os sapatos, fechou a porta e entrou na cozinha, espionando pelo canto da parede. Sorriu ao vê-la sorrir para ele.
— Pode me ajudar com isso? – perguntou Annabeth, erguendo as sobrancelhas para louça lavada.
— Depois de eu sujar novamente – Percy disse, procurando o armário com pães.
— Não acredito que acordou tão cedo para vir aqui comer – disse Annabeth. Ela lembrou quando foi visitá-lo às duas da tarde e ele estava dormindo, babando na almofada.
— Hã... – ele disse, cortando o pão. – Não acordo tão tarde assim. E também, minha mãe me mandou arrumar o quarto. Eu não quis, porque você sabe...
— Aquilo é uma bagunça – completou Annabeth. — Se você não dormisse na sua cama, com certeza teria uma família de mendigos ali.
— Quando foi que você desenvolveu esse senso de humor? – riu Percy.
— Quando passei uma semana fazendo trabalho escolar com a Clarisse – respondeu ela.
Percy apontou o pão para ela, enquanto o mordiscava.
— Está aí uma mulher com um belo senso de humor.
— Então, Jackson... – apontou Annabeth, terminando de enxugar o último copo.
— Wow, wow. Chame-me de namorado, querido, meu bem, doce da minha vida, mas não me chame de Jackson. Isso é com a Clarisse.
Annabeth se encostou na pia e encarou o namorado.
— Jackson. Vá secar a louça. Eu tenho muita coisa para fazer ainda: preciso dar o último arranjo nas nossas fantasias.
Annabeth costurava o tecido vermelho que usaria naquela noite de Halloween. No chão da sala, havia os demais detalhes das fantasias dela e do Percy. Na mesa da cozinha, estavam eles dois; Percy observava como a agulha entrava em uma parte do tecido e saia na outra, tecendo. Com a mão apoiando o rosto, perguntou à Annabeth:
— Você... Uh... Fez a fantasia do Nico? Ele disse que não queria participar, mas...
— Hazel vai vir aqui mais tarde para ajudar. Você sabe, ela o conhece mais. – disse Annabeth, sorridente, pensando naquele garoto antissocial que seus amigos conheceram de repente na escola. Foi como tirar um menino perdido das ruas.
Percy coçou a sobrancelha. Era uma mania que pegara de Jason quando estava pensativo.
— Você disse que a mãe e irmã dele... Uh... Não é? E que agora ele só vive com o pai e a madrasta.
Annabeth assentiu.
— A irmã morreu recentemente, você sabe, e... – Ela foi interrompida com o som de buzina lá fora. – Percy, acho eu que é o correio. Espero. Pode ir lá atender para mim?
— Sou obrigado? – Ele perguntou, olhando ainda para Annabeth costurando. As mãos dela pararam de se mover, e Percy olhou para o rosto da namorada, que apertara a boca e o fuzilava com o olhar – Estou sendo obrigado? É uma ordem? – disse com certo eufemismo. – Hã... – revirou os olhos e se levantou.
Caminhou lá fora com passo largo. Assinou rapidamente e entrou com um pacote para dentro da casa.
— O que é isso? – ele perguntou, colocando o pacote em frente ao rosto da Annabeth. Ela o empurrou delicadamente.
— Essa é a fantasia do Nico.
— Hum – Percy analisou a caixa. – O que é?
Neste instante, a porta da frente foi aberta, e apesar dessa invasão, Annabeth não se importou. Todos seus amigos iriam ir ali hoje.
Até um tempo atrás, olhos cor dos mares e da tempestade a encarando intimidariam Hazel; mas a boca dos dois alargou-se, e Hazel sorriu também.
— Entre! – pediu Annabeth da cozinha. Hazel o fez e tirou os coturnos. – Você chegou na hora certa! A fantasia do Nico acabou de chegar.
— Ufa! Ainda bem – aliviou-se Hazel. — Se não chegasse hoje, teríamos que improvisar da maquiagem. E tenho certeza que Nico não iria gostar muito da ideia.
O tempo passava. Percy ficou muito surpreso com a fantasia de Nico, mas achou que ele iria gostar. Era isso ou uma fantasia de gótico ou d’um morto vivo. E disso ele nem precisava.
Os detalhes da fantasia de Nico já estavam prontos quando alguém bateu na porta pesadamente. Logo, veio uma mais suave, mas incessante.
— Percy, abra a porta! Este garoto está me enchendo! – disse uma voz masculina. Percy reconheceu imediatamente: Frank Zhang e Leo Valdez.
Percy abriu a porta, revelando um homem alto e musculoso ao lado de um elfo do papai Noel. Não que realmente Leo estivesse fantasiado de elfo, o que era meio irônico, já que estava na época de Halloween, mas suas orelhas pontudas pareciam revelar a existência de duendes.
Leo entrou na casa sem tirar os sapatos. Percy seguiu os pés do garoto com o olhar.
— Onde está Hazel? – perguntou Frank, fazendo o favor de tirar seu tênis.
— Annabeth e sua namorada estão se maquiando lá em cima com a Piper.
Zhang corou com a pronúncia da palavra namorada.
— Certo, certo – balançou a cabeça afirmativamente.
— Chamaram? – sobre a amurada do andar de cima, Hazel apareceu. Mas eu diria que aquela não era a Hazel: seus cabelos cacheados ainda estavam lá, e a mesma voz. Mas seu rosto...
As linhas brancas formando os ossos do seu rosto poderiam ser ditas como indistinguíveis. Parecia quase real, preenchida pela cor preta em torno dos seus olhos e também acompanhando as partes brancas.
— H-Hazel! – gaguejou Frank. – Você está... Incrível.
Quando alguém bateu na porta, Percy não conseguiu não ficar surpreso. Lá estava Jason com Nico e Reyna. Provavelmente, eles tinham se encontrado por acaso. A relação dos três, incluindo Piper, era um tanto complicada.
— E aí, Percy! – cumprimento Jason, entrando na casa e dando um soco no ombro do garoto.
Percy apertou os olhos, tentando disfarçar a dor.
— E-E aí?
Nico hesitou em entrar. Olhou estranho para Percy e desviou o olhar para dentro da sala. No sofá, Frank estava vestido em uma roupa completa de panda, enquanto Piper McLean pintava sua cara de branco e preto.
— Ei... – começou Nico. — Jason falou que vocês encomendaram uma fantasia para mim, mas vocês não pretendem me maquiar não, não é...?
Uma risada fraca soou atrás de Nico. As mãos de Percy tocaram seu ombro.
— Vai lá vestir, cara. Você vai gostar.
Nico desceu as escadas querendo dizer: Não, cara. Eu não gostei. Eu disse que não queria participar e vocês compraram uma fantasia para mim. Mas tudo que fez foi abrir os braços e erguer as sobrancelhas.
E ele tinha que ser maquiado, apesar de que sua cor pálida já combinava com sua roupa vampiresca. Mas Piper insistiu, “porque deveria ficar mais realístico”.
Ali na sala, todos já estavam com suas fantasias. Annabeth, com sua armadura grega e uma lança com uma coruja, conversava com Reyna, fantasiada de uma romana morta. A maquiagem no rosto dela, os machucados profundos, davam calafrios em Percy. Mas ele sabia que estava assim também, e por isso não queria se olhar no espelho. Um pirata morto. De quem tinha sido aquela ideia brilhante?
— Sabidinha! – chamou Percy. – Está na hora.
Saíram de casa com sacos para guardar os doces. Pretendiam encher aquilo e passar a noite – e até o dia seguinte – comendo. Leo sempre aguardava algum ponto onde a pessoa deixava uma abertura para usar seus truques: ele teve muitas ideias de travessuras.
Quando chegaram à casa do professor de Ed. Física, o treinador Hedge, Leo começou a ficar agitado. Aprontara muitas vezes com ele, por que não hoje?
Quando tocaram a campainha, tiveram que olhar para baixo. Um cara baixo e carrancudo os encarou.
— Vocês não estão muito velhos para pedir doces, não?
— Não – responderam. Esticaram as sacolas. – Gostosuras ou travessuras?
— Hunf – soltou Hedge. – Eu darei se as suas fantasias estão em um padrão aceitável...
É agora, pensou Leo. Hedge avaliou Annabeth e Reyna; Frank e Hazel; Percy e Nico, com sua fantasia de Drácula; Jason com seu anjo caído, as marcas pretas e poucas penas nas asas; Leo chamuscado e suas roupas rasgadas; Piper e sua fantasia de índio americana. Leo perdera sua chance: Hedge jogou os doces em cada sacola. Por sorte tinha Fini.
Quando voltavam para a casa de Annabeth, passaram em frente a uma casa onde estava acontecendo uma festa. Luzes brilhavam lá dentro, e um enorme som agitava; as vozes das pessoas rindo e gritando era quase maior que o som.
Piper olhou para uma garota em frente à porta que os encaravam. A garota tinha cabelos escuros e olhos puxados, e ela franziu a boca. Crianças, Drew murmurou. E continuou os encarando até um garoto um garoto de cabelos curtos com um tapa olho a chamar. Talvez fosse fantasia, ou talvez o acidente que Ethan sofrera ano passado ainda não tivesse cicatrizado. Ou talvez nunca cicatrizasse: aquilo não iria morrer.
Em frente ao gramado daquela casa, Dakota cambaleava em direção a uma árvore: andava meio de lado, depois tomava postura e cambaleava novamente. Parou em frente a árvore e cutucou um garoto jogado no chão, o rosto vermelho como fogo, talvez por ter bebido demais. Ele se assustou, os olhos arregalados. Dakota se jogou ao lado dele e passaram a conversar.
— Vamos abortar aqueles dois? — pediu Leo.
— Eles não vão ter doces — afirmou Hazel.
— Exatamente — concluiu Leo.
Já no final da rua, avistaram um casal de aproximar. A garota era um pouco menor e ruiva. Vestia suas roupas usuais, coloridas e manchadas de tinta. Ele era loiro e magricela, vestia uma camiseta roxa com alguns ursos presos ao cinto. Parecia pronto para um ritual.
— Aqueles são Rachel e Octavian? — perguntou Percy. Annabeth assentiu. — E o que eles fazem juntos?
Percy fechou a boca assim que Annabeth o fuzilou com o olhar. Não era da conta dele saber o que Rachel e Octavian faziam caminhando juntos.
Leo olhou para trás, para Hazel e Frank.
— Acho que é uma boa hora para eu pregar uma pegadinha em alguém.
— Deixe comigo — disse Hazel. Ela não gostava nem um pouco de Octavian.
— Pessoal! – aproximou-se Rachel. — Estão pedindo doces e não me chamaram?
— Uh... — Percy parou pensativo. — Sim, mas, se você quiser...
Annabeth deu uma cotovelada nele.
— Ai! Hã, se você quiser, te daremos alguns doces...
Rachel abanou a mão.
— Não é preciso. Mas, Octavian, você poderia...?
Octavian olhava para eles seriamente. Não parecia nem um pouco animado por tê-los encontrado por aí, mas tirou um urso do cinto e entregou a Percy. Parecia até um presente de amor.
— Ahn...?
— É um urso cheio de doces. – sorriu Rachel.
Percy achou meio cruel ter que rasgar o pobre urso para pegar doces.
— Aqui — Hazel estendeu as mãos, cheias de diamantes. Ele os pegou, confuso, mas não perguntou nada. Assim continuaram caminhando.
— O que foi aquilo? — perguntou Leo.
— Travessuras — respondeu Hazel.
Quando voltaram para a casa de Annabeth, jogaram-se no amplo gramado e observaram o céu estrelado. Cada um mastigava seus doces; Frank às vezes entregava um ou outro para Leo, por ter lactose. Annabeth achou que, de certa forma, Frank queria que Leo se engasgasse com um doce. Mas eles eram amigos, e ela sabia disso. E o dia comprovara isso.
— Esse foi o melhor Halloween, sem dúvidas... — pensou Annabeth em voz alta. Os demais suspiraram em concordância.
— Da próxima vez – disse Leo, quebrando o clima. – Nós iremos se vestir de super-heróis.
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