Um Futuro de Metal
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem.
A chuva caia forte fora das janelas da antiga, porém bem cuidada mansão. O frio intenso quase não era sentido dentro da sala de jogos, devido ao fogo crepitando vividamente na lareira. De um lado, poltronas com pequenas mesas ao lado, estavam dispostas em semicírculo. A mesa de bilhar, um pouco mais próxima do espaço quase vazio que separava as metades da sala, era de frente a lareira. Em cada mesinha, um jogo diferente, indo de baralho a xadrez e damas. Era possível encontrar potes com dardos por todo o cômodo, assim como alvos espalhados pelas paredes. Puffs grandes estavam dispostos pelo cômodo.
Já do outro lado, havia uma televisão de 50 polegadas acoplada a parede. Um grande móvel de madeira escura sob ela comportava os mais variados consoles de video-games e suas respectivas pilhas de jogos. Na parede logo ao lado, duas mesas com PCs de gabinetes avantajados, teclados e mouses personalizados e telas enormes de seis divisões. Os donos de tais aparatos, entretanto, se encontravam em puro tédio.
— Essa chuva não vai parar nunca? — Kuro perguntou com a voz arrastada, enquanto rolava pelo tapete peludo que havia entre os PCs e o espaçoso sofá na parede oposta.
Era um garoto de aparentes 14 anos, um tanto pequeno para a idade, de olhos vermelho rubi e cabelo prateado, usando um grosso pijama vinho. Uma fileira de pequenas escamas pretas circulava seu pescoço e mais algumas apareciam aqui e ali por seu corpo.
Ele ocasionalmente olhava para os computadores ou consoles, como quem considera algo, mas nada fazia. Passara o fim de semana todo jogando até altas horas da madrugada junto de seu companheiro e já não sabia se o que tinha era tédio ou sono acumulado.
— Mesmo que parasse, ainda estaria frio e molhado demais para ir lá fora — Dragon o respondeu com voz de sono.
Dos dois, era ele o mais velho, aparentando 19 anos. Normalmente, os cabelos negros um pouco longos e o dourado olhar astuto lhe conferiam a aparência de um predador, mas naquela tarde particularmente preguiçosa, toda sua ferocidade habitual foi deixada de lado. Suas escamas eram dispostas da mesma forma que as do pequeno, mas eram de um vermelho brilhante.
Também usava roupas quentes no mesmo tom das do pequeno, mas diferente dele estava esparramado no sofá com o controle da TV em mãos, trocando os canais vagarosamente.
Kuro parou de rolar, ficando de barriga para cima com o pescoço esticado para encarar Dragon de ponta cabeça. Sua boca ficou levemente aberta, revelando caninos proeminentes como os de um gato.
— Acho que vou dormir... — divagou desviando o olhar para o teto.
Mesmo com imensa preguiça, Kuro levantou, pegou um grande puff vermelho e o jogou no meio do tapete, deitando esparramado.
— Que foi? — perguntou ao ver o olhar divertido que Dragon lhe lançava.
— Você sabe que cabem uns dezessete de você nesse puff, não é?
— Ei! Não caçoe do meu tamanho. — esbravejou irritado — Além do mais, dezessete é um tremendo exagero. Sabe bem que cabem quatro.
— Realmente caberia — disse largando o controle e saindo do sofá — se eu não resolvesse deitar também.
O maior se largou no lugar vazio ao lado do garoto, fazendo o puff expulsá-lo.
— Folgado, eu estava ai primeiro. — disse tentando empurrar Dragon para fora. Este por sua vez, sequer saia do lugar. Kuro acabou por se dar por vencido e deitou-se por cima de Dragon. — Você é um chato.
— Admita, você gosta mais de mim assim — Dragon sorria convencido.
O outro apenas rosnou um "cala a boca" e se aconchegou ao mais velho.
O filme que Dragon deixou passando era insuportavelmente chato. Os personagens e a história eram tão rasos quanto uma piscina de criança. Nem as cenas de ação salvavam.
Kuro prestava mais atenção em Dragon lhe acariciando a cabeça do que no filme. Com uma hora o garoto já dormia e o maior estava a um passo do mundo dos sonhos. Ao fim das terríveis duas horas, ambos estavam em sono profundo.
...
Dragon acordou com o sol queimando-lhe o rosto. A superfície sob si era dura como pedra, sua cabeça doía bastante. Tentou ficar sentado, mas o fez demasiadamente rápido e o mundo girou. Pontos roxos pululavam em sua vista, o deixando ainda mais tonto. Quando seus sentidos normalizaram, ficou confuso e surpreso. O ambiente estava completamente mudado. Estava deitado sobre pedra de fato. Já não existiam paredes ou móveis ao seu redor, apenas entulho e mais entulho. Mas isso não era nem de longe um grande problema. Um urro feroz, muito familiar, se fez ouvir a suas costas. Dragon virou, só tendo tempo de ver a espada do pequeno guerreiro dilacerar o último dos corpos de metal. Kuro retirou a lâmina da máquina e apoiou-se na espada, exausto.
— Você está bem? — Dragon perguntou.
O garoto olhou assustado por um momento. Mas logo se recompôs, apoiando a espada no ombro em uma postura altiva.
— Claro que estou — Kuro respondeu empertigado e ofegante — Você viu? Eu acabei com todos eles.
Dragon sorriu torto. Não era preciso muita observação para notar o típico tremor que percorria o garoto.
— O que são eles exatamente? — Dragon perguntou levantando-se e pondo-se ao lado dele.
— Aparentemente, andróides. São feitos de metal bem resistente — Kuro levou a mão ao rosto, tocando uma mancha preta ali — esguicharam óleo como sangue quando os cortei.
— O que houve antes de eu acordar?
— Bem... Tinha uma pedra grande em cima de você quando acordei, mas consegui empurrar. Os andróides apareceram um pouco depois. Bastou um olhar e vieram para cima.
— Por quê?
— Vai saber... — Kuro suspirou cansado e se sentou — tive que lidar com eles já que você não acordou...
— Desculpe por isso.
Kuro apenas acenou com a cabeça, caindo de costas e abrindo os braços. Ele ainda tremia. Dragon estranhou seu comportamento. Não era comum o garoto ficar tão cansado após uma simples luta.
— Kuro... Você invocou sua espada? — perguntou desconfiado.
— Não. Estava no chão.
— Sabia que suas escamas sumiram?
— O quê?!
Kuro passou a mão no pescoço, mas não sentiu as sutis elevações que deveriam estar ali. Seus braços também não apresentavam nenhuma escama. Ele olhou o pescoço de Dragon e não havia nenhuma escama ali também. Aquilo o apavorou.
— Dragon, me diga que você só está brincando comigo e que as suas não sumiram também.
— Infelizmente, não é brincadeira. E caso você esteja se perguntando sobre o significado disso... — disse sentando-se ao lado do garoto — Significa que somos meros humanos.
— Como? Eu continuo com a mesma força e agilidade de antes.
— Isso são habilidades físicas. Elas permanecem mesmo sem nossos poderes — seu tom calmo fez Kuro acalmar-se também.
— Isso já aconteceu contigo antes?
— Já. Uma vez dormi por uns 50 ou 100 anos e quando acordei era só um humano faminto. Demorou uns meses para voltar ao normal. Quanto tempo acha que dormimos dessa vez?
— Bem... — Kuro levantou olhando em volta — não há construções em pé até onde a vista alcança. Talvez mais de 150, 200 anos. E esse Sol está queimando a minha cara.
— Haha, vamos explorar esse mundo em frangalhos. Isso vai distraí-lo do Sol.
Kuro pôs a espada às costas e eles se puseram a andar na direção que um dia fora a da cidade de Londres.
~~~~~~~~~
O cenário era apocalíptico. Os prédios estavam em ruínas, havia metal retorcido e concreto por todos os lados. Nuvens de poeira tornavam o ar denso e dificultavam terrivelmente a visão e a respiração. E como se isso não bastasse, as máquinas ambulantes estavam por todos os lados e atacavam sem piedade.
— Mas o que há... com essas... coisas? — perguntou Dragon ofegante, sentado com as costas apoiadas na parede.
Eles estavam no que parecia ser um armazém militar. As paredes eram grossas e mesmo a porta pela qual entraram estava, agora, totalmente bloqueada por pesadas vigas de metal. Não sabiam quanto aquilo aguentaria, mas esperavam ser tempo suficiente para, pelo menos, recuperar o fôlego.
— Parece até um pesadelo... eles tem lasers e nós uma espada e punhos — Kuro sorriu em escárnio, olhando para a lâmina que escorria óleo — Não sei se você percebeu, Dragon... mas não vimos humano algum e já andamos pelo menos uns seis quilômetros.
— Tem razão... O que aconteceu...?
O som de coisas caindo chamou a atenção de ambos. Kuro ergueu a espada, em guarda. Dragon se pôs em pé, controlando a respiração e seus batimentos, parecendo uma fera pronta para a caça. Um passo de cada vez, silenciosamente, foi se aproximando da origem do barulho. O menor o seguiu com certa distância, esperando para contra-atacar o que quer que fosse.
Ao chegar até uma pilha de caixas jogadas de qualquer jeito, Dragon ouviu um som um tanto tranquilizante. O ritmo descompassado de pequenos corações humanos. Olhou para trás e sorriu. Kuro soltou o ar, aliviado, e guardou sua lâmina.
— Sabemos que estão aí, crianças. Saiam — disse Dragon.
Respirações surpresas soaram baixinho. Kuro sorriu. Eram mesmo crianças.
— Por favor, apareçam — disse o garoto — Dragon não é a melhor pessoa para brincar de pique esconde. Ele leva muito a sério.
— Ora, pique esconde é um treinamento de caça disfarçado, Kuro. Deve ser levado a sério — retorquiu Dragon fingindo estar contrariado.
— Nós... Não somos caça! — disse a voz de uma menina.
Ela estava parada sobre uma das caixas que permaneciam na pilha alta. Pequena, cabelo curto, loira de olhos azul celeste, encarava a dupla abaixo com ar irritado. Logo ao lado, um menino idêntico a ela os observava de braços cruzados e olhar desconfiado.
— Quem são vocês? — perguntou.
— Me chamo Dragon. Ele é Kuro, meu companheiro. E vocês?
A menina apontou o próprio rosto e respondeu tímida:
— Rinko.
Já o menino foi mais confiante:
— Sou Lenio.
— É um prazer conhecê-los — disse Kuro, cordial — onde estão seus pais?
Rinko desviou o olhar enquanto o de Lenio endureceu.
— Morreram — respondeu ele.
— Onde estão os adultos? — perguntou Dragon.
— Não há mais nenhum.
O mais velho estreitou os olhos para ele. Lenio mantinha o cenho franzido, mas o semblante sério não era suficiente para esconder o medo dos olhos dourados, que foram compreensivos.
— Certo. Deve estar sendo difícil para vocês – disse Dragon sentando-se sobre uma viga caída por perto – Poderiam descer daí para conversarmos apropriadamente?
As crianças se encararam por alguns segundos e desceram, sentando-se de frente aos dois estranhos, em um bloco de concreto.
— Bem, poderiam nos explicar o que está havendo? – perguntou Kuro acomodando-se entre as pernas de Dragon.
— Vocês... Realmente não sabem? – Rinko os observava com estranheza.
— É que sofremos um acidente e nossas memórias estão uma bagunça – sorriu sem jeito.
— Segundo o que os adultos falavam, esse é o resultado da tolice humana – disse o menino – cem anos atrás, os recursos estavam cada vez mais escassos, então os governos do mundo se juntaram para realizar o projeto de renascimento da humanidade. Os cérebros de toda a humanidade seriam transferidos para corpos robóticos...
— E assim se criaria a Utopia – Kuro completou antes de cobrir a boca em espanto – Eu me lembro de algo assim. As Nações Unidas estavam estudando a ideia, mas jamais pensei que seguiriam com essa insanidade.
— Mas seguiram – disse Rinko, os olhos enchendo de lágrimas – Papai dizia que todos enlouqueciam depois de receber seus novos corpos. Ficavam violentos. Então nossos avós decidiram não fazer a transferência. Eles não foram os únicos, mas não foram a maioria também.
A menina se aproximou mais do garoto, abraçando seu braço direito.
— No fim, os homens máquina eram muito difíceis de combater – Lenio passou a alisar os fios loiros dela – A antiga humanidade foi perdendo espaço gradativamente e hoje só restamos nós dois.
— Todos foram mortos?
— Ou se renderam.
Lenio abraçava a garota que agora chorava baixinho em seu ombro. Tanto Dragon quanto Kuro estavam espantados. Como as coisas puderam ir tão longe tão rápido? E por que logo eles precisavam testemunhar o fim da humanidade? Certo, sempre souberam que era inevitável, mas sempre fizeram de tudo para evitar e agora era assim que terminava? Certamente, não com eles ali. Algum jeito devia ter.
— Pronto Rinko, não chore – dizia o garoto – Lembre-se, nossos pais nos deixaram uma missão.
— Tem... razão... – disse entre soluços.
— De que missão estão falando – perguntou Dragon.
As crianças se encaram. Rinko acenou positivamente e após um suspiro, Lenio contou:
— Nossos pais diziam que havia uma máquina em um laboratório por aqui que nos permitiria voltar no tempo e concertar tudo. Precisamos achar, mas mal podemos andar lá fora sem sermos atacados.
— Deixem a segurança por nossa conta – disse Dragon de imediato – destruímos muitas dessas máquinas no caminho para cá. Podemos procurar amanhã.
Suas palavras pareceram acender um brilho esperançoso em seus olhos. Ambos se levantaram e foram se embrenhar no meio das caixas, voltando com suas mochilas puídas.
— Esse é o lugar – disse o menino desenrolando uma planta do laboratório e apontando determinada parte – a máquina fica bem aqui.
—Vimos um prédio desabado parecido com isso – comentou Kuro enquanto Rinko repartia a comida que tinham estocado – Havia várias máquinas por perto, mas não vai ser problema. Certo, Dragon?
— Desde que você esteja comigo, nada é um problema.
Kuro o encarou, corando em resposta ao sorriso galanteador dele.
— C-Claro. Sempre fui bom em tomar conta de você enquanto luta.
— Meu herói – Dragon o apertou junto a si – Será que já consigo acender um fogo?
— Você sabe? – perguntou Lenio – Vou pegar uns caixotes.
E assim se seguiu. Dragon conseguiu, com bastante esforço, produzir uma faísca e acender a fogueira, impressionando as crianças no processo. Deu certo trabalho explicar como havia feito, mas acabou valendo a pena. A conversa fluiu muito melhor ao redor do fogo, entre uma bocada e outra.
— Sabe, garoto, foi assim que a humanidade começou – disse Dragon deitado sobre papelão acariciando os fios prateados de um Kuro já adormecido e aconchegado a si – Comendo ao redor do fogo. Foi essa simplicidade que criou o homem.
— Pena que ele não deu o devido valor e se afogou na complexidade que ele próprio criou – lamentou Lenio em uma situação parecida a dele, com a irmã em seus braços dormindo a sono solto – Meu pai também pensava assim. Você se parece com ele.
— Mesmo?
— Sim – o garoto sorriu saudoso – Se importa se perguntar uma coisa?
— Não. O que é?
— Vocês são... um casal?
Dragon sorriu e acenou confirmando.
— Desde os primórdios da humanidade até o fim dos tempos. Vimos, fizemos e sofremos diversas mudanças ao longo de todo esse tempo, mas nada pôde nos separar em definitivo – ele se ajeitou sorrindo satisfeito – é bom saber que mesmo que o apocalipse chegue, ainda o terei como companhia. Sou alguém de sorte. Mas por que a pergunta?
— Vocês se olham como nossos pais se olhavam. Sempre que eles se encaravam, sorriam como se tudo fosse ficar bem. Mesmo quando morreram...
Ele parecia a beira das lágrimas.
— É um rapaz forte, Lenio. Eles certamente estão orgulhosos. E ficarão mais ainda quando salvarem a humanidade.
No dia seguinte, os planos haviam sido traçados, os cálculos foram feitos, tudo estaria muito bem... Não fosse o fato de aquelas máquinas serem implacavelmente numerosas e organizadas. Mal conseguiam andar dez metros sem darem de cara com elas. Dragon perdeu a conta de quantas havia destruído na quadragésima segunda, mas isso não era o real problema. Elas não paravam de vir, assim como ele e Kuro não paravam de destruí-las, mas diferente do inimigo, ambos não eram de metal. O cansaço tornou-se relevante na metade do caminho. As barras de metal usadas por Dragon estavam bastante retorcidas. A espada de Kuro estava quase se partindo. Mas apesar de assustadas, as crianças estavam bem. O pior aconteceu quando finalmente adentraram o local. As máquinas ficaram do lado de fora, golpeando a porta pesada.
— Vão na frente – disse Dragon com as costas na porta – Vou segurá-los aqui.
—Nem pensar! – retrucou Rinko – Você tem que vir também!
— Se eu for... Eles vão entrar... – disse arfante, enfrentando os solavancos – Rápido... Façam o que devem fazer!
Nesse instante, algo parecido com um arpão varou a porta e cortou o lado esquerdo de seu corpo. O sangue tingiu o chão, mas Dragon não vacilou.
— Dragon! – gritou Kuro.
O mais velho ergueu o rosto, transformando aquela expressão de dor em um resignado sorriso, num pedido de desculpas. Kuro correu até ele e segurou seu rosto com ambas as mãos. Seus olhos eram tristes, mas também eram os mais lindos que Dragon já vira. Eles se aproximaram, se fechando assim como os seus. Outro arpão varou a porta e ambos sentiram o gosto metálico de sangue. Kuro se afastou ileso, enquanto Dragon, ainda mais ferido, resistia bravamente.
— Nos vemos mais tarde – disseram em uníssono.
Kuro segurou as mãos das crianças e os puxou para o interior do laboratório.
Dragon urrou quando a porta caiu sobre si. Mesmo assim levantou, jogando os andróides para fora enquanto rugia como o dragão que era, sentindo o sangue que ainda lhe restava ferver.
— Tolos pedaços de metal que um dia foram humanos – gritou a plenos pulmões – Farei com que retornem ao pó que um dia foram!
E tudo se tornou fogo. O sangue no chão, o coração em seu peito e a alma dentro dele, tudo ardeu, até mesmo suas lágrimas, mas apesar do brilho das chamas, o mundo escurecia diante de seus olhos. E após derreter até as pedras a sua volta, junto com a sua vida, o fogo desapareceu.
...
Alguém o segurava pela camisa firmemente. Engraçado... que camisa? O fogo a tinha queimado... A pessoa começou a chacoalhá-lo cada vez mais forte. Ora, seria possível que nem morto poderia dormir em paz? Espera... Como assim morto? Ele era imortal!
— Dragon! Dragon levanta, por favor, acorde! – a voz era chorosa, quase desesperada e também muito familiar.
Com esforço, conseguiu obedecê-la.
— Kuro... – disse com voz de sono, sentindo o garoto se jogar sobre si – Ai! Não me esmague assim.
Com a vista desembaçando, percebeu que estava tudo normal a sua volta. Era a mesma sala de jogos, com os mesmos aparatos de sempre. Eles estavam no mesmo puff vermelho e na TV passava o filme “O Exterminador do Futuro”. Ah, então foi isso.
— Que pesadelo foi esse? – perguntou Kuro com o rosto colado em seu peito.
— Também teve um pesadelo? Como foi?
— Sim. Dormimos demais e fomos parar no futuro – ele ergueu o rosto, o encarando – Por quê? Sonhou com algo assim?
— Foi o mesmo sonho que o meu.
Eles se encararam, estranhando o ocorrido até que leves batidas na porta foram ouvidas.
— Mestres – disse Corbeaux, o mordomo – Há duas crianças na entrada querendo falar com os senhores.
Ambos arregalaram os olhos, espantados.
— Como elas são? — perguntou Kuro.
— Um menino e uma menina – respondeu-lhes – Loiros de olhos azuis.
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