Sora ficou tanto tempo no hospital que acabou adormecendo ali mesmo, sentada na cadeira. Layla acordou pouco tempo depois que Sora caiu no sono, voltando a si aos poucos. Não havia notado que estava com parte do seu corpo enfaixado, já que mal se mexeu na cama. Ficou pensando no vazio até Sora acordar, tempos depois.

- Srta. Layla! – disse Sora, ao se assustar em vê-la acordada.

- Oi... Sora – disse Layla, bem devagar.

- Está tudo bem? Como se sente??

- Estou bem, Sora, não se preocupe – disse Layla, antes que Sora entrasse em pânico – Só quero saber o que houve comigo. Estou me sentindo um tanto estranha e...

- Eu é que tinha que perguntar isso, Srta. Layla... E... A Srta. Já... Tentou se mexer?

- Como assim, Sora? O que quer dizer? Eu não tentei me mexer porque estou cansada demais para isso... O que houve?

- A Srta. quebrou... Quase todos os ossos do lado direito do seu corpo... E o médico disse que teve que recosturar todos os músculos do seu ombro também... Isso só pode significar que você o forçou ao extremo.

- Bem, eu... – começou Layla – não podia desapontar ninguém, por isso eu...

- Mas Srta. Layla, podia ter morrido! – interrompeu Sora.

- Isso não importa Sora. Contanto que o público ficasse satisfeito.

- Eu não entendo... Não entendo! Como pode pensar mais no público do Kaleido Star do que na sua saúde? Eu amo o Kaleido Star, Srta. Layla, mas não consigo aceitar isso! – Sora disse desesperada, começando a chorar – Agora a Srta. está... Está...

- O quê?

- Se a Srta. não responder aos movimentos do seu corpo, nunca mais... A Srta. nunca mais poderá atuar no Kaleido Star! – Sora estava entrando em pânico – A Srta. está... Está... – não terminou. Layla olhou para Sora sem entender e tentou mover-se. Nada. Tentou se levantar, mas não conseguiu mover qualquer músculo do lado direito do corpo.

- Eu... Não consigo mexer meu... – Layla dizia palavra por palavra, aflita.

- Eu sinto muito, Srta. Layla! – disse Sora, chorando.

- Sora... Não foi sua culpa – Layla disse, tentando se acalmar e acalmar Sora.

- Desculpe, mas eu... Eu não consigo! – Sora saiu correndo após dizer isso.

Layla não acreditava no que havia acontecido. Desesperou-se na hora, mas logo depois havia apenas uma idéia em mente. “Tenho que mover meus músculos lesados o quanto antes, ou eu nunca mais irei ouvir os aplausos do público do Kaleido... Nunca mais...”, pensou ela.

Com o passar dos dias, Layla aprendeu a se levantar da cama sozinha. Com isso, levantava de madrugada e seguia de cadeira de rodas até uma sala com aparelhagens específicas para pessoas paralíticas do hospital, sem que ninguém soubesse. Se apoiar com um braço só já era difícil, ainda mais fraca do jeito que estava. “E se eu tirar o que me atrapalha?”, pensou ela. Layla resolveu tirar todas as faixas e tipóias que a seguravam. Só não gritou de dor porque estava em uma sala proibida, no meio da madrugada. Tentou mexer o braço, mas foi em vão. A dor era insuportável. “Não vou desistir...”, pensou ela, ofegante.

Com o passar dos dias, Sora ia visitá-la, hora com Kalos, hora com Mia e Anna, hora com Yuri. Certo dia, quando Sora havia ido sozinha, resolveu contar a Layla uma notícia lastimável, antes que qualquer outro fizesse:

- A peça foi cancelada temporariamente, Srta. Layla... – disse Sora. Layla a olhou fixamente.

- Estou decepcionada com você... Sora – disse Layla seriamente.

- M-mas como assim? – respondeu Sora, sem entender.

- Ao invés de inventar algo novo para o final da peça, vocês preferiram cancelá-la. Estou completamente decepcionada. Com TODOS vocês.

- Srta. Layla, me desculpe, mas eu... Seria impossível para mim algo desse tipo... Jamais me concentraria, sabendo que está nesse hospital e...

- E se eu nunca mais subir em um palco com você novamente, Sora? – interrompeu Layla, com um tom provocador – Também não irá subir?

- Eu... Eu não sei...

- E se eu só melhorar minhas condições por ver que não me decepcionou?

- E — eu...

- E se eu MORRER tentando me curar por causa de um único objetivo, que é atuar ao seu lado novamente?!? – disse Layla, em um tom mais desesperador e mais alto.

Sora estava quase sem respirar, de tão assustada que ficou com as palavras de Layla.

- Está vendo isso? – disse Layla, deixando à mostra o ombro direito, agora sem nenhuma atadura ou faixa – eu não irei ficar presa a uma cadeira de rodas para sempre, Sora. Mas só conseguirei isso se principalmente você ficar ao meu lado!

- Mas eu estou do seu lado, Srta. Layla!

- NÃO, NÃO ESTÁ! – disse Layla, irritada, imediatamente após ouvir as palavras de Sora. Seus olhos se encheram de lágrimas – Ao invés de me apoiar, sinto que sente pena de mim! E ainda por cima, cancelam a peça que o público estava esperando tanto... É imperdoável!

- Por que, Srta. Layla... Por que se importa tanto assim com eles, a ponto de se esquecer de sua vida...? – disse Sora, quase chorando.

- Sora... O Kaleido Star É a minha vida – Sora levantou a cabeça – Faria de tudo por ele e pelo público que me assiste. E pretendo morrer no palco, se preciso. Não se esqueça que... O sentido da minha vida... Ainda é receber o melhor dos aplausos. Da última vez sim, foi maravilhoso, mas ainda faltou alguma coisa... E agora que você é a verdadeira estrela, acredito que chegou o momento de unir o palco e o público para realizar o meu sonho.

Sora estava muda, não sabia o que dizer ou como agir.

- Por isso – continuou Layla, em um tom mais seco – Se pretende continuar com esta atitude, não quero que venha mais me visitar.

- Eu... Desculpe-me... Mas preciso pensar sobre isso... – disse Sora, chorando – Eu... Estou confusa e não sei o que fazer...

Layla não disse nada. Apenas virou-se para pegar um copo d’água que estava na mesinha ao seu lado. Sora saiu da sala como uma pessoa extremamente frustrada e derrotada pela determinação e pela confiança de Layla. Voltou para o seu dormitório e se jogou na cama, inundada em pensamentos e lágrimas.

“O que eu faço?”, pensou ela. “A Srta. Layla disse tantas coisas chocantes para mim... Ela... Não consegue mover um lado inteiro do corpo, mas mesmo assim pensa positivo, tem certeza de que vai se recuperar de algo quase impossível como esse problema... Ela está do mesmo jeito do que quando nós...”.

- Realizamos a Técnica Fantástica pela primeira vez! – Sora disse isso num salto, como se finalmente tivesse respondido as suas próprias perguntas – É isso! Não importa o que aconteça! Do mesmo jeito que confiei na Srta. Layla daquela vez, irei confiar nela novamente agora! Ela só vai melhorar com a minha ajuda-da-da! Fool! Cadê você?

- Estou aqui – o Espírito do Palco apareceu diante dela – Parece que a minha pequena Sora finalmente entendeu os sentimentos da Layla, não é?

- Sim! E amanhã mesmo eu falarei com ela! Não... Eu acho que vou agora mesmo!

- Sora... São 2 da manhã...

- Não importa! Até logo, Fool! – disse Sora, ao sair correndo pela porta do dormitório.

Sora entrou pela porta dos fundos do hospital e foi para os corredores. Ouviu um estrondo forte vindo da sala de aparelhos médicos para deficientes físicos, ali perto. Quando chegou na porta, se deparou com Layla, caída no chão.

- Srta. Layla! – disse Sora, correndo na sua direção – Está tudo bem? O que faz aqui??

- Eu que deveria perguntar isso, Sora... – Disse Layla, com uma respiração mais pausada – Como conseguiu entrar aqui a essa hora?

- Dei muita sorte. A porta dos fundos estava mal fechada – disse sorrindo – deixe-me ajuda-la a se levantar – disse, ao tentar puxar Layla pelo braço.

- Ai... Não, espere... – disse Layla, ao ver Sora pegando em seus braços – está doendo...

- Srta. Layla... O que estava fazendo nesta sala? – perguntou Sora, gentilmente – Era para a Srta. estar dormindo a esta hora, não?

- Eu... Estava fazendo exercícios – respondeu Layla, já tendo noção do que viria a seguir.

- Exercícios? Mas... Srta. Layla, tem que descansar! Nunca vai melhorar assim!

- Estou treinando justamente para isso, Sora. Faz dias que venho aqui de madrugada tentar mexer o braço e a perna lesados...

- Mas...

- E veja – Layla continuou a falar, sem ligar para o que Sora iria começar a dizer. Com uma expressão de extrema dor no rosto, Layla levantou o braço direito e o mexeu lentamente por poucos segundos.

- Srta. Layla, isso... É incrível!

Layla ofegava pelo esforço que acabara de fazer.

- Eu... Disse que não... Ia desistir... – respirou fundo e prosseguiu – Quero poder cumprir a promessa que fiz aos meus fãs... E quero compartilhar o palco mais uma vez com você... Sora – disse sorrindo.

Sora ficou muito feliz e sem saber o que dizer por um momento. Quase que por instinto, abraçou Layla.

- E é por isso que estou aqui, Srta. Layla! Eu a ajudarei no que for preciso, não importa o que seja!

- Que bom... Sora. – disse, retomando o fôlego e sorrindo – Então, vou pedir para que me ajude apenas em uma coisa...

- Qualquer coisa!

- Quero que você me supervisione nos treinos e seja o mais dura possível.

- Hã? – Sora desanimou um pouco – Srta. Layla, isso não é um treinamento... Não posso pedir que se esforce mais do que devia...

- Sora... Ou você me ajuda, ou não pisará mais neste hospital, por ordens minhas. Disse qualquer coisa. E este é o meu pedido.

- Mas...

- Viremos para cá treinar a tarde toda – continuou Layla, sem se importar em usar a palavra “treino” – e não de madrugada, como andei fazendo.

Sora não sabia o que dizer. “É loucura”, pensava Sora. “Mas eu prometi a ela”.

- Se ficar hesitante desse jeito nos próximos dias, sugiro novamente que não fique aqui e...

- Aceito – interrompeu Sora, repentinamente – Eu aceito ajudá-la, Srta. Layla. Você vai conseguir-guir-guir!

- Obrigada, Sora – Layla sorriu gentilmente – A partir de amanhã, então, venha para cá todos os dias após o horário de almoço.

- Certo! – disse Sora, decidida.

Sora levou Layla até o seu quarto do hospital, esperou-a dormir para que não voltasse a fazer loucuras — e também para sua companhia – e foi embora. Chegou em casa e se jogou na sua cama, pensando alto.

- Srta. Layla... Faz tudo pelos fãs...

- Pelo visto, você conseguiu vê-la, não é? – disse Fool, aparecendo perto de Sora – como ela está?

- Ah, oi Fool. A Srta. Layla estava fazendo exercícios.

- Treinando?

- Na verdade, estava tentando mover a perna... Disse que precisava da minha ajuda, e é isso que eu vou fazer.

- Hum... – Fool pegou sua bola de cristal e a decifrou – As constelações de Sagitário e de Leão estão com um fraco brilho. Enfrentarão fases difíceis, Sora.

- Que tipo de... Dificuldade?

- As do tipo que só verdadeiras estrelas podem solucionar...