Um Eterno Amanhã
9 Capítulo 9: O Retorno
Diante daqueles imponentes portões, Kikyou desceu das costas daquele por quem seu coração perdia o compasso e pegou sua mão, como que para lhe dar forças. Seu rosto estava totalmente inexpressivo. Ele apenas observava o lugar. Apertou sua mão, como em resposta para dizer que estava bem. Ela se orgulhava da coragem e da força dele... Voltar para lá era um risco que ela jamais correria, se não fosse pela Kaede. Respirou fundo, sentindo o coração disparar. Repetia para si mesma que amava muito a menina e que lutaria por ela. Rever seu pai não seria nem um pouco fácil.
- Eu conheço uma outra entrada. – Ela falou, com a voz equilibrada – Não podemos entrar por aqui... Parece que não nos esperam tão cedo.
Seguiram até a entrada que a mulher conhecia. Estava aberta. Apenas entraram, com passos seguros. Ele olhou em volta, apreensivo... Era estranho... Ninguém parecia ter notado sua presença... No meio de tanto cheiro de humanos jamais saberia discernir os soldados dos cidadãos comuns. Andaram mais um pouco para frente, ele completamente alerta e ela olhando fixamente para a mansão onde morava. Sentia medo, mas jamais admitiria isso.
- CUIDADO! – Gritou o hanyou, vendo uma adaga vir em direção à amada. Empurrou-a como reação e ela caiu sem tempo para reagir. Ele soltou um som próximo de um gemido abafado, vendo o braço sangrar, perfurado – Maldição...
- InuYasha! – Ela se levantou rápido, se abaixando ao lado dele – Está tudo bem?
- Está – ele replicou, procurando pelo autor do golpe. Arrancou a arma de uma só vez, jogando-a no chão, enquanto a mulher observava a profundidade do ferimento em seu braço – QUEM ESTÁ AI?! MOSTRE A SUA CARA, SEU COVARDE!
- Venha. Não vai adiantar. Vamos continuar. Meu pai já deve ter sido avisado da nossa presença – Ela ponderou, preocupada.
- Espere. Vista isso – Ele lhe deu seu haori vermelho, cobrindo-a – Ele funciona como uma armadura. Pode te proteger de bastante coisas...Quero que você fique com ele!
- Não, eu não posso aceitar... Você vai precisar mais do que eu – Ela disse, devolvendo-o.
- Acredite em mim! Quero que fique com ele! – Ele insistiu, cobrindo-a novamente. Olhando nos olhos dourados dele, ela sentiu que devia lhe obedecer... Talvez estivesse certo.
- Tudo bem... Vamos – Ela simplificou, sem saber o que dizer.
Continuaram a seguir e o meio youkai se mantinha atento, porém nada mais os atacou. Fizeram um trajeto tranqüilo até as portas do castelo. Lá havia muitos guardas, em posição de ataque. A princesa encarou-os, com toda a sua pose. Tinha a mesma graça e elegância que tivera enquanto adentrara aqueles mesmos portões para um jantar.
- Viemos em paz. Queremos negociar com meu pai. Eu gostaria de vê-lo... Não pretendia retornar e espero que não atirem em nós. Eu lhes prometo, não vamos machucar um só homem se não brandirem suas armas contra nós.
- Nossas ordens são claras, princesa! Devemos levá-la até seu pai e executar o Youkai que está com você – O comandante disse, olhando-a, sem vontade de atirar. Todos conheciam aquela menina desde que era uma criança e, no fundo, sua maneira altiva e especial sempre os fazia gostar dela. Ninguém queria ter que feri-la. Mas as ordens eram claríssimas... Desejava intensamente que ela as aceitasse de bom grado
- Sinto muito... Se quiserem levar o InuYasha, acho que vamos ter que resolver do modo mais difícil – Ela replicou, segurando a mão do companheiro, como que para mostrar seu amor e ele compreendeu, observando-os com um olhar sério.
- Por que, Kikyou Hime-sama? – Indagou o mesmo homem – Não queremos feri-la... Gostamos muito da senhorita! Porque nos obriga a isso? Por causa de um Youkai?! Por que está defendendo esse Youkai? Não pude crer nas palavras de vosso rei...
- Eu o amo... Desculpem-me se não são capazes de aceitar ou entender. Eu o amo e se meu pai me proíbe de amá-lo, sinto dizer que terei que contrariá-lo mais uma vez. – Olhou-os, séria, uma flecha em riste, preparada para a luta, tal qual seu amado, que estava em posição de ataque, estalando as garras. Seria do modo mais divertido, pensava – Vou lhes dar uma última chance... Deixem-me passar e prometo que jamais pisarei aqui de novo.
- Não podemos... Sinto ter que fazer isso, Kikyou-sama. – Virou-se para os homens – ATACAR! Vamos, matem o Youkai, capturem a princesa! VOCÊS OUVIRAM AS ORDENS!
Os homens obedeceram, começando a atirar flechas e partir em direção a eles. O Hanyou pulou diante deles, dando-lhes murros tão poderosos que muitos deles desmaiavam apenas com um golpe. Sua força era bem maior do que imaginavam. Porém as armas o atingiam, enquanto ele juntava os braços, defensivo. Não havia só arqueiros, parece que o rei havia preparado até mesmo espadachins e guerreiros a cavalo para aquela luta. Sem dúvidas ele estava preocupado com o poder de InuYasha.
Mesmo assim, Kikyou lançava as flechas de maneira comedida, atingindo principalmente os guerreiros a cavalo e os arqueiros, que poderiam significar um problema para o Hanyou. Ele lutava facilmente com os espadachins, desviando com uma precisão incrível e desarmando-os com suas garras. Porém o número de soldados era grande. Os golpes do rapaz ferido começavam a ter menos força, sua respiração ofegava e já não desviava com tamanha destreza.
Kikyou fazia o possível para se defender sozinha, já que o amado às vezes vinha nocautear aqueles que a cercavam. Aquilo a ajudava muito... Se ele cometesse algum erro ela seria arrastada para a sala onde seu pai estava. Olhava para o meio youkai, bastante desgastado, lutando incessantemente contra os homens de seu pai, e sentia vergonha de ser sua filha. Sentiu um homem segurar seu braço, com força. Não sentira sua aproximação. Bateu com o arco em seu rosto, porém não fora o suficiente. Ele apertara seu braço, fazendo-a largar a arma.
- Me solta! – Ela disse também cansada. Aquela batalha era mais difícil do que ela imaginava – INUYASHA! – Ela chamou, sendo capturada pelos homens, que a puxavam com força, querendo amarrar suas mãos juntas enquanto ela se debatia. Como desejava ser mais forte!
- KIKYOU! – Ele gritou, socando todos em seu caminho e pulando os outros, se aproximando dos homens que seguravam sua mulher, com violência – MORRAM! SANKONTESSOU! – Ela nunca o havia visto usar aquele golpe... Estraçalhou o braço de um dos homens que seguravam a moça. Os outros, chocados, não se moveram. Ele os apagou, precisamente – Kikyou... Está tudo...? – Parou de falar, arregalando os olhos. Caiu de joelhos, cuspindo um bocado de sangue no chão. Ela viu uma lâmina fincada em seu corpo, assustada.
- INUYASHA! – Ela gritou, apavorada. Olhou o homem que o perfurara com uma espada – Você vai morrer, seu maldito! – Recuperou o arco, disparando a flecha que atingiu o peito do homem. Ele caiu inerte, sangrando. Morreria logo e ela não sentia o menor remorso de matá-lo. Ajoelhou ao lado do mestiço – Meu bem... InuYasha... Fala comigo! – Segurou seu ombro, com força, olhando ao redor, para os homens que estavam com as armas apontadas para eles, esperando um comando para atacá-los. Não o haviam feito, pois o comandante os proibira de atacar com o risco de atingir a princesa.
- Está tudo bem... Vai... Encontrar... O seu pai... – Ele murmurou, a mão na barriga. A arma trespassara seu corpo e o sangue que coagulava estava encharcando o chão.
- Não, eu não vou sem você. – Ela replicou nervosa – NÃO ATIREM! – Ela gritou para os homens – Vocês já têm o que querem, não é?! Por favor, não atirem. – Havia quase uma súplica em sua voz.
- Tudo bem. Façam o que ela diz... – Disse o comandante, sentindo pena da moça.
- InuYasha! Por favor, não me deixa aqui sozinha! – Ela pediu, preocupada.
- Me perdoa... – Ele murmurou, retirando a mão encharcada pelo sangue e observando-a – Eu não consigo... Salva a sua irmã... E foge...
- Agüenta firme. – Ela olhou para os soldados, erguendo-se, séria e jogando a arma no chão, mostrando que não oferecia perigo algum – Comandante Takashi... Me ouça! Por favor, me escute só por um segundo – Ela respirou fundo, recuperando a compostura tão rápido que chegava a ser impressionante – Olhe, eu sei que agora não temos mais chances... Mas eu queria que vocês me entendessem! Saibam que eu gosto muito de todos vocês, e não é porque estou com o InuYasha que eu não gosto dos humanos, ou que gosto dos Youkais. Eu gostaria de dizer que desde o começo, eu apenas queria que o meu pai não fizesse mal a esse monstro, como vocês insistem em chamá-lo. Eu só queria impedir que meu pai sujasse suas mãos de sangue, que fizesse alguma loucura e pusesse a nós, todos nós, em um risco enorme, coisa que ele fez. Eu fui lá, a primeira vez, para tentar descobrir mais sobre o Youkai... Eu queria acreditar que o meu pai fazia aquilo porque os Youkais eram monstros e eram maus... Eu não queria crer que nosso amado rei quisesse dominar a um reino que não lhe pertencia! Eu não quis acreditar na guerra...
- Mas princesa, todos nós tivemos medo na guerra, mas isso não justifica...
- Por favor, deixe-me continuar. – Seu olhar era sincero. Não era ali a chefe deles. Era uma humilde mulher que viera até ali pedir-lhes o perdão. E muitos soldados se comoviam com essa atitude – Mas foi só indo saber mais sobre o caso, foi só com essa minha curiosidade, que, admito, foi pecaminosa, foi que eu descobri... Que esse Youkai, que agora está aqui, sofrendo e sendo ferido por nós, humanos, não é um monstro. Ele jamais poderá ser um monstro, ele nunca faria mal a uma pessoa. Eu sei disso, porque eu o conheci e eu conheci também as condições nas quais ele vivia, sob a custódia de meu pai. Admito, ajudei-o por pura curiosidade no começo, admito também que metade de mim desejava apenas desafiar o meu pai, mas... Eu me apaixonei pelo InuYasha.
- Kikyou, por favor! Os Youkais sempre foram nossos inimigos, você sempre foi sensata. Pense direito. – As formalidades desapareceram. Era como se ela fosse apenas uma menina que perdera o rumo. E ela via nos olhos dos soldados que eles sentiam que ela dizia a verdade.
- E eu não compreendo. Não compreendo porque uma criatura como essa que nada fez de errado além de nascer Youkai teria de pagar por essa rixa inacabável! Sim, eu me apaixonei por ele! E sei que isso é proibido e sei que é errado e sei também de todos os adjetivos que meu pai usou para isso. Ele me chamou de vagabunda, ele pisou na minha honra quando eu nem mesmo havia feito tal coisa... E só eu sei o quanto doeu ter que deixar minha própria casa, minha herança, sob a mira de flechas! Por isso eu prometi a mim mesma que jamais voltaria... Mas não pude me afastar. Meu pai fez de tudo... Será que vocês acham justo que ele capture minha irmã e a use de refém, trate a sua própria filha como uma mera isca para sua armadilha? Será que vale a pena colocar em risco sua filha mais jovem apenas para pegar um Youkai e se vingar de mim?
- Não, nenhum de nós concordou com isso... Mas ele insistiu muito, Kikyou, e nós somos obrigados a obedecer às suas ordens... – Lhe faltavam respostas. No fundo de seu peito tinha certeza que ela estava certa, mas não podia lhe dar a razão... Ela era agora inimiga do rei... Seria uma traição.
- Escute-me, Takashi, escute-me por apenas mais alguns momentos! Prometo que vou tentar ser o mais breve possível – Deu uma olhada de relance para o Hanyou. Ele estava deitado no chão, uma das mãos no ferimento que já fazia uma poça grande no chão, olhando-a. Um orgulho brilhava em seus olhos. Ele a amava mais do que nunca — Meu pai anda muito estranho, ele... Não parece o mesmo de antes. Ele foi muito violento comigo e... Eu acho que não serei capaz de perdoar jamais o que ele fez a esse Youkai ou mesmo a minha irmã Kaede. Por isso eu peço que, por apenas um momento, questionem a lealdade que têm por esse rei. Sim, eu também era leal a ele, ninguém era mais do que eu. Ele era meu pai e eu o amava! E eu me orgulhava de ser sua filha, até que eu descobri a verdade... Até que eu percebi o quanto ele era errado, comecei a me questionar se aquilo era certo... E então eu descobri que jamais poderei perdoá-lo pela dor que causou em minha vida. E sua atitude nesse momento só comprova o que lhes digo. Eu admirei esse homem, eu sinto dizer que já quis ser como ele. Sinto vergonha disso agora... Mas meus ideais são mais fortes que minha cegueira, são mais fortes que meus sentimentos. Não posso vê-lo fazendo tudo isso. Então eu peço a vocês e especialmente a você, Takeda, que questione a lealdade pelo homem que inflige tamanho sofrimento à sua filha! Peço que reconsiderem o que estão fazendo, por apenas um segundo... Eu quero apenas sair daqui com o InuYasha. Eu preciso de algumas horas para nos restabelecer. Eu prometo à vocês que voltaremos! Apenas deixem-nos ir e digam que fugimos... Depois nos deixem ver minha irmã. Eu só quero acabar com tudo isso. Eu quero salvar a vida da minha irmã!
- Kikyou, eu receio que não tenhamos essa escolha... Todos compreendemos seus sentimentos, mas acabaríamos mortos no caso de falharmos.
- Me perdoem... Mas se não puderem compreender o que eu faço, terão de me matar... Eu não posso deixar que matem o InuYasha, eu o amo e estarei com ele mesmo se ele acabar morrendo. Para matá-lo, terão que me matar primeiro. – Ela disse, parando na frente do youkai, e observando-os, cuidadosamente.
- Espere princesa, espere! Não atirem homens. – O comandante reconsiderava a questão, preocupado com o risco de machucarem a princesa. Seu coração lhe repetia que apesar de ela amar um Youkai, Kikyou sempre fora uma garota com ideais extremamente corretos... E tudo o que ela dizia era verdade – Eu não sei o que fazer... Ora, esqueçam! ABAIXEM AS ARMAS, HOMENS! VAMOS DAR UMA CHANCE À PRINCESA – Olhou-a nos olhos e ela se sentiu grata pelo coração bom do homem – Kikyou, eu vou lhe dar uma chance! Eu conheço um lugar aonde você pode ficar que tem o suficiente para você se recuperar e descansar. Fica bem perto daqui, é só você entrar naquela floresta e seguir direto... Eu vou dar para vocês... – Olhou para o relógio – Até o anoitecer. Se você não voltar, vamos parar de enrolar e vamos obedecer às ordens do rei! Espero que tenha compreendido. Diremos ao rei que vocês fugiram! Vão, fujam! – Ele disse, deixando de lado toda a honra e lealdade que possuía. Ele era um bom homem, sem dúvidas. Observou-a ajudar o Youkai a se erguer apoiando-o com dificuldade.
- Muito obrigada... Eu lhe serei eternamente grata – Ela replicou, fazendo um enorme esforço para apoiar o hanyou. Saiu de lá com a coração repleto de orgulho dos homens de seu pai: eles tinham o coração e a coragem que sempre sonhara que seu pai tinha!
Com a indicação que ele lhes dera foi fácil chegar ao local ao qual o homem se referia: era um pequeno casebre, num canto perdido dos enormes terrenos do castelo. Ninguém parecia freqüentar aquele lugar, mas as coisas estavam em ordem e, como ele dissera, havia mantimentos ali que poderiam ajudá-los, inclusive algumas infusões de ervas armazenadas que talvez lhe fossem bastante úteis. Soltou o amado num futon. Ele sangrava demais e apenas mantinha os olhos abertos, inutilmente tentando ignorar a dor que o consumia.
- InuYasha, querido, está me ouvindo? – Ele fez que sim, cansado, os olhos fixos no teto – Eu preciso que você seja forte. Esse ferimento está sangrando demais... Eu não sei o que fazer... Temos apenas algumas horas até o prazo para voltarmos...
- Ki-Kik... You... – Falar lhe era custoso. Seus lábios tremiam tal qual todo o seu corpo, que ficava cada vez mais frio. Seus olhos estavam cheios de lágrimas que não pareciam pretensas a cair, mas que enevoavam ainda mais sua visão embaçada – Não vai... Dar... O feri... Mento... É... Muito grave... – Fechou os olhos, a mão sobre a área, sentindo o sangue banhar suas garras.
- Tenta ficar otimista. No fim tudo vai dar certo. – Ela acariciou seus cabelos, pegando sua mão e sentindo o desenfreado tremor – Bebe um pouco de água... Está perdendo muito sangue.
- Eu nunca... Senti... Tanta dor... – Gemeu, apertando a mão da sacerdotisa – Kikyou... Aquela espada... Ela me atravessou... Eu não sei... O quão... Grave... É...
- Tudo bem. . Não se esforça para falar agora. Eu entendo que esteja preocupado. Eu estou mais preocupada ainda. Deixa eu tirar esse quimono para ver direito o machucado, ta bem? – Retirou o tecido, sentindo tudo gelar dentro de si e reprimindo uma exclamação. Havia muito sangue e o enorme furo que vinha de suas costas realmente fora até a sua frente. Agradeceu a Deus pelo fato de não ter atingido nem os pulmões e nem o estômago, aparentemente – É grave... Muito grave. – Acariciou seus cabelos. Ele mal reagia. Apenas movia a cabeça, suando. Estava visivelmente perturbado de tanta dor. Sentia que enlouqueceria se aquilo não passasse. Ele precisava de alguma coisa para diminuir aquilo...
- Kikyou... Eu preciso... Parar essa dor... Merda... Por favor... Me dá alguma coisa... – Gemia, uma das mãos sobre a lesão.
- Se ao menos eu tivesse... Alguma coisa alcoólica... Isso! – Pegou um vidro de uma bebida que havia naquele abrigo, sentindo-se com sorte – InuYasha, bebe um pouquinho disso. Você vai se sentir um pouco bêbado, um pouco tonto... Mas vai sentir menos dor. Toma querido. – Entornava a bebida por sua boca. Ela descia queimando sua garganta. Ela não deu muito para que não ficasse bêbado, apenas um pouco embriagado – Vai diminuir a dor... Você vai ver.
- Está quente... – Ele murmurou, sentindo um súbito calor.
- É assim mesmo. Tenta ficar tranqüilo, ta bem? Não sei se você já bebeu antes... Mas pelo menos você vai ficar mais anestesiado, a dor infernal vai diminuir muito. Você vai ficar um pouco alto, mas não tem problema.
Ela apenas se sentou a seu lado, aguardando com ansiedade. Sabia que em breve teria que confrontar seu pai e daquele jeito temia que não pudessem vencê-lo. Observou que ele parecia melhor, embora ainda ofegasse. Provavelmente a bebida já o anestesiara. Desejava poder dar mais a ele e faze-lo não sentir qualquer dor, mas não podia. Teriam que lutar em breve, se ele estivesse bêbado estariam em completa desvantagem. Pegou um bocado de água e lavou o ferimento do amado, vendo que ele tornara a gemer mais uma vez. Mesmo que sentisse pena limpou o grave ferimento, mesmo que não adiantasse. Ainda sangrava muito e a dor parecera ter apenas sido aliviada. Mas ela aguardou com paciência. Ele adormeceu, exausto, depois de algum tempo. Ela tratou de comer e beber, checando o estoque de flechas. Tinha poucas... Se InuYasha não melhorasse, ela estaria em um sério risco. Mas tinha muito medo de levá-lo consigo naquele estado.
Foi por isso é que tomou essa decisão. Levantou-se, subitamente. Deveria deixá-lo em segurança e partir para encarar seu pai. Aquilo era uma coisa que ela deveria resolver sozinha. Seu amado já estava por demais envolvido naquilo. Pegou o arco e flechas, dando alguns passos em direção a porta. Olhou para ele mais uma vez. Tinha os olhos fechados... Deu mais dois passos em direção a porta. Tinha que ter coragem.
- Kikyou! – Ele chamou, com a boca entreaberta – Ela se virou, vendo a tristeza nos olhos dele. Parecia sentir que ela o abandonava ali – Aonde você vai?
- Eu preciso resolver alguns assuntos...
- Eu quero que você me prometa que não vai atrás do seu pai sozinha... Promete? – Havia algo infantil naquelas palavras. Algo que a faria sorrir se não estivesse tão triste pelo fato de mentir para ele.
- Eu não posso prometer nada, InuYasha.
- Eu não vou deixar... Você fez tudo aquilo por minha causa! Maldição, depois de tudo aquilo você está me dizendo que vai sozinha?! Eu não vou permitir isso! – Irritou-se, se erguendo, uma das mãos na parede.
- InuYasha, eu não posso te deixar sair daqui desse jeito! Eu não quero que você morra. – Havia um tom de desculpas em sua voz. Sentia pena dele, sabia o quão difícil era para ele ser deixado para trás... E sabia também que talvez não fosse vê-lo outra vez.
-E eu não vou permitir que você vá sozinha enfrentar o seu pai! Tudo o que aconteceu foi culpa minha! Se não fosse por minha causa você já teria derrotado aquele maldito! Você não vai para lá sozinha...– Deu um passo a frente, segurando na parede.
- InuYasha, não seja teimoso! Estou te pedindo para ficar aqui e descansar... – Ela replicou. Estava sendo tão teimosa quanto ele.
- Keh! Quem está teimando agora? – Ele zombou, porém a alegria acabou rápido. Ele colocou a mão no ferimento, os olhos arregalados. Foi descendo, terminando no chão, recostado na parede.
- InuYasha! – Ela chamou, ajoelhando a seu lado – Está vendo como eu tinha razão? Você mal consegue andar... – Ela segurou sua mão – Eu só te peço para descansar porque eu te amo. Eu estou muito preocupada com você. Não quero que se sacrifique por causa do meu problema com o meu pai.
- Kikyou... Prometa pra mim... Prometa que quando eu acordar... Você vai estar aqui – Ele pediu quase a convencendo. Ele era encantador.
- Tudo bem... Eu prometo. – Ela murmurou, dando-lhe um rápido beijo. Ele correspondeu, usando todas as suas forças, embora ela visse o quanto isso lhe custava. Parecia querer prendê-la ali – Tenta ficar calmo e descansa, ta?
- Ta... – Ele fechou os olhos, mais relaxado – Eu a amo... Espero que saiba disso.
- Eu também te amo. – Ela acariciou seus cabelos, triste por ter mentido para ele – Dorme... Vai ser melhor assim.
Não demorou muito até ele adormecer, frágil. Ela sentiu sua respiração, tranqüilizando-se. Ele ficaria bem. Levantou-se de uma só vez, cobrindo-o com o haori vermelho que ele lhe dera no começo da batalha. Observou-o superficialmente, seguindo em frente. Se olhasse para trás seria incapaz de partir. Incomodava-lhe a idéia de tê-lo enganado, mas convencia a si mesma de que o que fazia era por amor. Odiava mentir para ele, mas... Era melhor enganá-lo a fazê-lo morrer... Com isso em mente deixou a cabana, preparada para confrontar aquele que agora lhe infligia tamanha dor.
Entrou nos jardins pela mesma porta que da outra vez. Os homens ainda estavam lá e a observaram. Algo em seus olhares mudara. Parecia que agora eram leais a ela, como se fossem seus servos, e não do rei.
- Kikyou-sama, sabia que poderíamos contar com você. – Disse o comandante, parecendo contente com seu regresso – Mas onde está o Youkai?
- Infelizmente ele está muito ferido... Eu o deixei em segurança... – Fez uma pausa, observando aqueles homens que lhe foram tão importantes – Eu agradeço demais a vocês. Não sei o que seria de mim nesse momento se não tivessem me apoiado... Eu gostaria de poder fazer alguma coisa por vocês, mas... Infelizmente jamais serei nem mesmo aceita nesse lugar, então apenas posso agradecer de coração por tudo isso.
- Kikyou Hime-sama... Mesmo depois de ter sido expulsa por nosso rei, seremos sempre leais e seguiremos sua palavra. A senhorita é uma mulher especial... E mesmo vestindo esse quimono, que um dia ficara tão bem em sua mãe – Ela olhou-o, contente. Sim, ele conhecia o quimono de sua mãe até hoje – E mesmo sendo tão diferente de nossa amada rainha, você é tão especial e tão maravilhosa quanto ela. E mesmo sendo uma pecadora por amar um Youkai, seremos sempre gratos pela lembrança de termos visto você crescer junto conosco... Mesmo com toda a simplicidade dessas roupas, você sempre terá o brilho de uma nobre!
- Eu fico extremamente emocionada por saber disso. Saibam que se precisarem de mim, estarei sempre disposta a ajudar... Mesmo não sendo mais a princesa de antes, é bom saber que vão se lembrar de mim por aqui... – Apertou com mais força as armas – Eu tenho que ir agora... Espero que vocês todos sejam abençoados... Sayonara. – Ela disse, seguindo para dentro do enorme castelo, olhando fixamente para frente. Sua pose era tão nobre quanto fora por todas as vezes que adentrara aquela magnânima construção. Apenas o sentimento era diferente.
Seus passos ecoaram por aquela imensidão. Não parecia haver guardas do lado de dentro... Como ela imaginara, estavam todos na frente da construção, aguardando seu regresso para casa. Olhou ao redor da monstruosa mansão. Sim, aquele lugar um dia fora seu lar... Não sabia o que dizer agora, observando o bonito hall de entrada. Talvez aquele calafrio que ela sentia ao olhar para aquele lugar enorme lhe provasse que lá jamais seria outra vez seu lugar e que seria incapaz de chamá-lo mais uma vez de lar.
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