Um Eterno Amanhã
6 Capítulo 6: A Revelação
Notas iniciais
E o dia seguinte veio e passou tão lentamente que a princesa de Miko já rezava para que a noite chegasse. E, por fim, depois de muita agonia, ela enfim chegou e trouxe consigo o momento de vestir-se sob a capa preta e dirigir-se ao cárcere, o mais discretamente possível.Conseguiu chegar com segurança, adentrando o escuro ambiente. Correu até a cela dele, aproximando-se e esperando os olhos se habituarem à fraca iluminação. Olhou lá para dentro e ele estava sentado, recostado à parede, a cabeça molemente pendendo para a esquerda, aparentemente morto. Um filete de sangue percorria seu rosto, vindo dos lábios.
- InuYasha... – Ela deixou escapar o incontido medo. Acalmou-se, abrindo a cela e ajoelhando-se diante dele. Colocou a mão em seu ombro, sacudindo-o, levemente e chamando seu nome – InuYasha... Está tudo bem? InuYasha? – Ele abriu os olhos, observando-a. Ela agradeceu, silenciosamente, por isso – Está me ouvindo? Está tudo bem?
- Por que... Você mentiu pra mim?! – Ele indagou encarando-a, intensamente, apesar da fraqueza evidente.
- Do que está falando? – A princesa indagou, escondendo o temor que sentia daquelas palavras.
- Aquele homem... Ele disse que a filha dele o tratava como um criminoso... Ele a chamou de Kikyou... E eu ouvi alguns guardas murmurando sobre ela hoje, quando vieram aqui dentro... – Tossiu, fortemente, levando o punho cerrado ao peito, certamente sentindo dor. Cuspiu mais um pouco de líquido vital, mirando o chão. Não levantou os olhos ao prosseguir com a voz tornando-se uma vez mais fina – Ela se parecia exatamente com você... Porque você me enganou?! Fingiu que estava do meu lado desde o começo, não foi? – Começava a falar muito alto, agora a encarando furiosamente. Estava passando muito mal, mas aquilo não parecia estar surtindo qualquer efeito em sua mente anestesiada pela raiva.
- Sim... Eu menti, InuYasha. – Ela replicou baixinho, aproximando-se mais dele, que se encolheu defensivo. Algo em seus olhos a fazia sentir uma infinita tristeza. Era como se ele não quisesse acreditar naquilo, como se doesse demais... E ela não queria que ele sofresse desse jeito! – Vou ser sincera com você. Vou te contar tudo, desde o começo...
Falou aquelas palavras com a mesma serenidade que sempre fora notada no rosto da moça. Era como se nada a abalasse. Era como se fosse uma linda deusa, que, soberana, nada teria a temer. E o Hanyou sentia a autodefesa e a raiva que lhe subiram a cabeça diminuírem a cada palavra. Não sabia o que era, mas seu coração não parava martelar em seu peito, acelerado. Então, olhando nos olhos castanhos de sua bela salvadora, ouviu toda a história que ela quis lhe revelar:
- Eu não sou uma simples aldeã... Como você mesmo já descobriu, eu sou Kikyou, a princesa do reino Miko. Eu vim até você naquele dia porque nunca concordei com a posição de meu pai, que cada vez mais queria loucuras como torturar o Youkai que tinha capturado. Eu nunca antes tinha visto um Youkai... Fui criada durante toda a minha vida nesse castelo e nunca corri qualquer risco real... — Fez uma pausa, observando o olhar sério no rosto do amado – Então, quando meu pai disse que iria mantê-lo nesse lugar, sem comida ou água, eu considerei que nem mesmo um monstro merecia ser tratado dessa forma. Decidi, então, desafiá-lo e vir até aqui, para ver esse monstro... No começo tive medo do que encontraria.
- Por quê... Por que você me ajudou?! – Ele indagou visivelmente nervoso – Se era só para desafiar seu pai, e eu não significava nada para você... Então, por quê?! – Seu tom seco indicava como aquela mentira o abalara.
- Deixe-me continuar – Ela pediu, preocupada. Ele a odiava! Provavelmente iria matá-la, mas não sentia medo... Confiou nele um pouco mais, olhando nos olhos dourados e prosseguindo. – Então eu vim até aqui... E eu te conheci... Foi duro ver que meu pai pretendia te matar. Foi difícil ver que pretendia te deixar aqui... Que pretendia te torturar. No começo, eu queria acreditar que, de alguma forma, ele devia estar certo! Mas então eu te conheci, e... Eu decidi que meu pai não podia fazer isso... Não com você! Então eu resolvi ficar contra ele... Decidi lutar do seu lado, mesmo com todo o risco que eu corro estando tão próxima do meu pai. Eu nunca pretendi mentir pra você. Eu só queria estar perto de você, impedir meu pai de cometer toda essa loucura! Mas... Wu vou entender se você nunca mais quiser me ver. – Ela concluiu, ainda observando-o.
- MAS POR QUE VOCÊ MENTIU?! PODIA TER ME DITO A VERDADE! – Ele explodiu o olhar flamejante de raiva – Maldição! Eu odeio ser enganado! – Irritou-se, olhando-a ferozmente – Você podia ter me dito! Pensou o quê? Que eu ia te matar?! É ESSE TIPO DE MONSTRO QUE VOCÊ ACHA QUE EU SOU?
- Não! Eu senti medo... — Ela disse, seriamente, baixando a cabeça e olhando para as mãos, com medo de ver todo aquele ódio nos olhos daquele ao qual dedicara o mais profundo apreço. Ergueu novamente a cabeça, com renovada coragem – Eu tive medo... Mas não de que você me matasse... Eu temia que você me odiasse! – Aquelas palavras surtiram um efeito enorme no rapaz, que arregalou os olhos, que miravam os dela, agora determinados. Desviou o rosto, olhando pro chão e cruzando os braços, ruborizado. Era como se com uma frase ela tivesse dissolvido toda a raiva dele. Talvez, ela concluiu, ele nunca tivesse ouvido tal coisa de ninguém... Sentiu o peito apertar ao pensar que talvez ele nunca tenha sido amado. Não sabia qual seria a resposta, mas sabia que tinha dissolvido aquela barreira invisível que teimava em separá-los.
- Keh! Te odiar?! Porque eu faria isso, sua tola? – Reclamou, visivelmente sem graça, sem encará-la nos olhos – Isso não combina com você, Kikyou!
- Verdade?! – Ela indagou baixinho – Então... Não está com raiva de mim, InuYasha? – Parecia aliviada, procurando o olhar dele, que não deixava o chão.
- N-não... Afinal... Você não tem culpa de ele ser o seu pai, ou tem?! –Concluiu, levantando o rosto e olhando na direção contrária, cruzando mais os braços em torno do corpo. Naquele momento ela o achou uma gracinha.
Sua resposta foi um suspiro de alívio. Agora podia ser sincera com ele! Não havia mais mentiras entre eles dois... Deu um leve sorriso, sentindo-se tão tranqüila que jamais poderia descrever em palavras. Notando o conforto que lhe trouxe ele emendou, no seu habitual tom irritado:
- Mas se você estiver mentindo sobre outra coisa me fala agora! Odeio que mintam pra mim! – Agora olhava para ela, com seu jeito superior de sempre – Não pensa que vai me levar na conversa assim, tão facilmente, se fizer isso de novo!
- Certo. – Ela disse, aproximando-se mais, observando-o bem de perto. Não entendia como ele agüentava tanto tempo, sabia que, por mais que fingisse estar bem, sentia bastante dor – InuYasha, está se sentindo bem? Ainda sente dor?
- Keh! Deixa de se preocupar com bobagens, estou ótimo... – Replicou, desviando o olhar fraco para o chão. Ela delicadamente pôs uma das mãos em seu queixo, erguendo sua cabeça – Kik-Kikyou... – Ele balbuciou sem-graça, quando ela tocou a própria testa, de leve, comparando com a dele.
- Eu acho que está com febre... – Ela respondeu, serenamente, notando que ele estava bem encolhido também – Você vai ficar bem! Só precisa de repouso... Durma um pouco. Eu não vou poder ficar muito hoje, mas espero poder ainda me despedir de você antes de partir. – Fez uma pausa, notando que ele recostara a cabeça na parede e fechara os olhos – Não vai se deitar?
- Não... – A resposta monossilábica era um convite ao silêncio, sem dúvidas. Ela decidiu não objetar: de nada adiantava discutir com ele agora. Respirava com força, suando bastante, movendo a cabeça, perturbado. Soltou um baixo gemido, murmurando – Maldição... – A mulher pegou um pano molhado, passando-o por seu rosto. Ele pareceu assustar-se, brevemente.
- Não tenha medo. Eu estou aqui. Está tudo bem. – Deixou o pano sobre sua testa. Ele entreabriu os olhos dourados, visivelmente abatidos. Parecia que só então havia se dado conta de toda a dor que sentia antes, enquanto discutiam. Ela queria apoiá-lo, mas não tinha idéia do que fazer. Lançou um furtivo olhar para a porta, preocupada. Já se passara muito tempo desde que chegara, talvez devesse ir...
- Vá, Kikyou! – Ele disse, parecendo ler seus pensamentos – Eu estou bem. Pode ir. – Fazia-se de forte, embora fosse impossível crer em suas palavras. Mas ela aproveitou-se da brecha, levantando-se a apanhando a capa no chão, ao lado dele.
- Eu volto amanhã de manhã, está bem? – Ela disse, retirando o pano de sua testa fervente – Seja forte. E se ele... Meu pai... – Custou a dizer essas palavras, como se lhe doesse dize-lo – Vier aqui, mantenha nosso segredo. Até amanhã, InuYasha.
- Sayonara, Kikyou... – Ele murmurou, fechando os olhos. Sentia-se tão fraco que sabia que em breve apagaria.
Ela acariciou de leve seus cabelos e partiu, decididamente. Temia o que seu pai pudesse ter descoberto. Temia por si, por ele e por Kaede... Sabia bem do risco que a criança corria, mas tinha medo de lhe contar toda a verdade... Talvez fosse melhor que ela não soubesse de nada. Queria protegê-la, mas sabia do risco que corria se a menina decidisse dizer que ela sumira durante várias horas. Decidiu por continuar a omitir os fatos. Preferia ela mesma correr o risco a jogá-lo para cima da irmã.
Trocou-se e foi jantar junto com os convidados. Com toda a sua classe, fez com que todos os olhares se direcionassem a ela. Parou diante de todos e desculpou-se:
- Peço perdão pelo atraso. Perdi a hora no banho. – Sentou-se na cadeira, notando que a conversa cessara no momento em que ela adentrara o cômodo – Por favor continuem, não quero atrapalhar.
- Kikyou-hime-sama, — Começou um homem – Falávamos sobre a questão do youkai que vossa majestade mantém preso em seu calabouço.
- Eu já expus minha opinião sobre o assunto diversas vezes para o meu pai. – Ela disse tranqüila – Infelizmente, ele não concordou comigo e nem mesmo me deu ouvidos. Mas espero que ele ainda possa reconsiderar...
- Eu a quero fora desse assunto, Kikyou, e ponto final! – Ele irritou-se, observando-a. Era incrível como ela sabia ser sutilmente insolente, tanto que conquistava a simpatia de todos na mesa, que apenas não a defendiam por medo de contrariar ao rei.
- Tudo bem... Eu apenas gostaria de saber do que falavam. – Ela replicou, desautorizando-o com seu tom suave – Por favor, cavalheiros, o que houve? Porque discutem esse assunto ao qual parece que meu pai já tomou a decisão que pensa ser a mais prudente?
- Sim, Alteza! Sabemos que ele está firme em sua decisão e longe de nós querermos demovê-lo. – Outra pessoa presente na mesa falou, ignorando o olhar revoltado do soberano – É que ontem ocorreu um acidente... Parece que uma mulher, coberta por um manto negro, atacou os guardas para defender o prisioneiro...
- Ela o feriu pai? – Indagou a jovem, notando o nervosismo dele – Porque sempre sou a última a saber?! Está tudo bem com o senhor, pai? – Ela indagou, fingindo importar-se, embora a frieza em sua voz com relação ao pai não pudesse ser escondida.
- Está... Por pouco ela não me mata! Era uma louca! Falava coisas sobre defender a honra do reino... Era como se quisesse tomar meu lugar como rainha! – O homem replicou, e o mistério na voz do progenitor a deixou mais calma. Ele não parecia fazer idéia de quem pudesse ser a tal mulher.
- O importante é que está tudo bem. – A réplica foi clara – Porém, acredito que o senhor, meu pai, não deveria voltar às masmorras... Está se expondo a um grande risco. Pode continuar tentando obter as informações, mas acho mais prudente que exponha apenas seus guardas a tamanho risco. Não quero que o rei de Miko termine morto nas mãos de uma mulher claramente perturbada. – Ela concluiu, prudentemente, temendo piorar a própria situação. Mas não podia calar-se diante daquilo, ou seria ainda pior.
- Talvez ela esteja certa, majestade! — Concordou um dos cavalheiros – Vossa majestade não deveria sujar suas mãos e correr riscos por uma criatura tão baixa quanto um Youkai! Deixe que os servos cuidem disso... Nós podemos perdê-los, não farão qualquer falta – Kikyou sentiu o estômago revirar, mas não mudou a expressão. A forma como tratavam os pobres era horrível.
- Vou pensar sobre o assunto. – Ele replicou, sem dar muita atenção — Assim que tiver uma opinião formada sobre o assunto, avisarei a todos. E agradeço muito a preocupação. – Disse, formalmente – Mas, de imediato, pretendo apenas reforçar a guarda que me acompanha às masmorras. Acho que chegou a hora de pararmos de correr riscos. Em breve pretendo matar logo esse Youkai, afinal ele não parece ter nenhuma informação útil. Apenas estou aguardando... Com essa nova evidência, percebo que existem traidores aqui no reino, pessoas que defendem Youkais. Então, pretendo aguardar para pegar essas pessoas. Depois termino logo com isso.
- Isso é bem sensato – Concordou um homem, e os outros o seguiram com murmúrios aprovadores.
- O que pensa minha filha? – Ele indagou, provocando-a.
- Pensei que não desejasse que eu opinasse sobre esse assunto, senhor. – Ela disse, polida.
- Ora, pois bem! Vejo que se conformou com a minha ordem... Enfim, Kikyou, não vai mais discutir sobre esse assunto comigo?!
- Não vejo por quê... Afinal, está decidido de que sua decisão está correta. Para mim, esse assunto já está encerrado.
- Ótimo. – Ele voltou-se para os desconcertados homens na mesa, que os viam claramente desafiar-se, sem saber o que dizer. Kikyou sempre fora bastante insistente, mas seu pai sempre lhe dava ouvidos. Mas agora ele estava claramente tratando-a com grosseria. – Assunto encerrado então, meus amigos! Em breve informarei a decisão oficial. Agora, tratando do assunto central desse jantar...
Kikyou desligou seus ouvidos nesse momento, preocupada. Não lhe interessava nenhum desses assuntos. Estava mesmo preocupada era com a decisão que o pai tomaria e com o tamanho de risco que ela e InuYasha corriam. Mas não queria retornar ao assunto, mesmo porque cada palavra que dissesse a colocaria em maior risco perante o pai e todo o reino. As palavras dele não foram nada animadoras para ela. Se ele reforçaria a guarda, era provável que fosse pega se tentasse adentrar o local no momento em que o rei estivesse presente. E como não havia como saber essa hora, ela teria que reduzir, e muito, suas visitas à cadeia.
E, mesmo com o coração apertado, continuaria orando para que ele melhorasse e que pudesse enfim fugir daquele local horrível, ao qual os dois estavam, no momento, acorrentados.
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