Um Estranho No Natal

5 O Vampiro veste Armani (Parte 01)


Londres, 24 de Dezembro de 2016.

Jaynet realmente o fez assistir o filme.

Achei que fosse brincadeira, mas assim que checamos que ninguém estava morrendo pelas mãos de um fantasma assassino e conhecemos um pouco mais do nosso visitante a doida me obrigou a comprar os ingressos para sessão das dez da noite de Anjos da Noite Guerras de Sangue. Antes que eu pudesse contestar estávamos sentados na poltrona acolchoada do canto da última fileira e Selene estava resumindo sua saga como a Alice de Resident Evil costuma sempre fazer. Achei que nosso acompanhante vampiro ia ter um surto psicótico com toda a história de Lycans versus Vampiros e matar a todos naquela sala — incluindo a mim- pelo desaforo de retratar sua espécie daquela maneira no entanto ele mais uma vez me surpreendeu.

Richard permaneceu o filme inteiro totalmente calado, observando com atenção a cada cena enquanto Jaynet sentada na poltrona do meio tagarelava sem parar spoilers sobre os filmes anteriores para que ele não ficasse perdido. Ele mal a ouvia — ou parecia que não — , mantinha os olhos verdes inexpressivos na tela como se fosse um robô e alguém o tivesse desligado. Seu rosto estava tão apático que era impossível dizer se estava gostando ou não.

Na verdade "apático", era pouco para descrever a falta de sinais em sua face. Nunca vi alguém tão sem expressão em toda minha vida.

Fiquei desapontado. De certa forma eu esperava que ele ralhasse com Jaynet e a fizesse entender que não é por ele ser um Vampiro que deveria assistir uma representação — provavelmente errônea — de algo relacionado a sua espécie.

Contudo quando os créditos subiram e algumas pessoas das poucas pessoas que assistiam a sessão levantaram, ele disparou com eles degraus abaixo com uma velocidade sobre-humana -- a mesma que ninguém poderia saber. Corri atrás dele com medo que ele machucasse alguém ou pior, que alguém tivesse reparado no vulto passando entre as cadeiras e percebesse sua verdadeira natureza. Ele tinha provado ser um homem legal, a menos era o que parecia. Porém com um Vampiro de verdade eu não poderia arriscar. E para meu derradeiro alívio, Richard ignorou a tudo e a todos até chegar diante da gigante tela, correu os dedos pela lateral dela ansioso, e inclinou a cabeça para o lado tentando decifrar o que tinha atrás. Algumas pessoas começaram a franzir o cenho conforme passavam pelo homem de roupa incomum e espada na cintura, mas ele pouco ligou ainda explorando o objeto com genuíno assombro e perplexidade.

Jaynet flutuou até ele igualmente veloz e abri passagem lentamente entre a multidão, praguejando. Eu me sentia tão inútil perto dos dois, tão... humanamente mortal que temia que ambos se unissem em uma dupla mais eficiente e me abandonassem. Após alguns minutos de incerteza e pisões no pé, aproximei-me de minha fantasma favorita e sussurrei esperando que Richard não pudesse nos ouvir:

— Acho que foi demais para ele.

Ela assentiu com os olhos bem abertos.

— Para onde os vampiros estranhos e aqueles outros monstros foram? E como couberam aqui dentro?

— Como assim? — Jaynet, assim como eu parecia chocada. — Não há TV em sua casa? — O vampiro constrangido limitou-se a dar de ombros demonstrando que não fazia a menor ideia do que ela falava. — Ah Meu Deus, me desculpa!!!

Seus olhos verdes escuros brilharam e de repente ele ficou mais jovial, quase como nós dois.

— Se TV são estas coisas que transmitem imagens de outro plano seria bom ter uma na sala principal do castelo, papai iria adorar! -Disse encantado e o brilho nos olhos logo se apagou. Como se ele tivesse lembrado de algo terrível, suas pupilas perderam o foco e seu semblante fechou. O homem sério e misterioso estava de volta. Minha mente deu um estalo e eu entendi a razão de sua mudança repentina.

Se ele tem todos os anos que diz seu pai deve estar morto há muito tempo...

De repente, flagrei-me com muita pena dele. Os fantasmas me diziam que o pior de estar presos entre um plano e outro era presenciar a morte dos parentes, ver que o tempo se arrastava sem um propósito e para ele não devia ser muito diferente. Perdido eternamente sem envelhecer, sem seguir adiante enquanto todos da sua vida desapareciam. Jaynet parecia ter seguido a mesma linha de raciocínio, pois saiu puxando-o pelo braço até a porta de saída da sala, tentando distraí-lo com futilidades como só ela sabe fazer.

— É melhor começar do início. Você não deve saber o que são atores são então?

Ele negou e abriu para margem para que ela lhe explicasse a história da melhor invenção de nossa época: O entretenimento em forma de atuação e tudo vinha que com ele. Ela começou contando-lhe sobre a história do teatro e aproveitei que ambos estavam bastante ocupados e vasculhei o lugar à minha volta com olhos. Meus instintos de mediador me diziam que o fantasma louco ainda por perto e que eu não poderia ir embora. Ainda não.

— Não se preocupe, se ele estiver por aqui eu vou sentir o cheiro. — Afirmou Richard, me encarando. — Desculpe, não consigo deixar de ouvir alguns pensamentos de vez em quando. Não é proposital.

— Que cheiro eu tenho?

Richard tomou uma maior proximidade e fechando os olhos para que ninguém reparasse o vermelho liquido neles, cheirou seu pescoço maneira íntima demais para o meu gosto. Antes de se afastar ele deixou uma piscadela para mim, provocando-me deliberadamente.

— Água fresca com algo a mais especifico... Não sei definir em palavras, mas é doce... puro e agradável. Deve ser o seu espírito.

Jaynet sorriu radiante para ele.

— Que eu saiba a água é inodora. — rebati tentando não demonstrar o quão incomodado eu estava. Nunca senti cheiro nenhum nela, nem enquanto a beijava(o que era uma verdadeira raridade) e ficávamos bem próximos. Por mais que minha mente fantasiasse secretamente um aroma imaginário, Jaynet era como uma folha em branco quando o assunto era odor.

— Para um olfato mais apurado como o meu não é.

— Meu espírito é puro e agradável.. — repetiu as palavras de Richard com um risinho satisfeito, agarrando meu braço.

— Claro... até você subir no alto de um prédio e espalhar fotos de minha ex-namorada seminua por toda escola. — provoquei-a lembrando de seu ataque de ciumes há alguns meses e que custou minha suspensão já que o diretor achou que eu quem tinha espalhado as fotos como vingança por ela ter me traído.

— Totalmente culpada! — O sorriso dela se ampliou e tomou uma proporção maliciosa.

Estava prestes a contar para Richard a história por completo quando um menino de cerca de um metro de altura agarrou-o pelo braço. Ele tinha bochechas rechonchudas e um ar altivo de uma daquelas crianças que ganham tudo dos pais e nunca estão satisfeitas. O vampiro baixou a cabeça com o cenho franzido. Sua mãe apareceu logo em seguida e puxando-o pela mão lançou-nos um olhar que dizia que sentia muito porém o menino não o soltou, fincou os pés no chão de forma afrontosa.

— Que cosplay você está vestido?

Estava demorando para que alguém questionasse a roupa de Richard. Com o filme de vampiros e os adolescentes fantasiados ele praticamente não era notado dentro do cinema, contudo do lado de fora eu sabia que seria outra coisa. O garoto atrevido meteu a mão no cabo da espada dele, e Richard o segurou pelo pulso. Fiquei imaginando a reação de mãe e filho se soubesse que o objeto era real, que ele era um Vampiro real.

— Anjos da Noite. — respondi ao garoto implorando com o olhar para que Richard não o mordesse, quase como se pudesse ver uma aura negra formando-se sobre ele.

— Mentira! Eles não se vestem assim. — insistiu o garoto. O semblante de Richard ficou ainda mais indecifrável e seus olhos, imensuravelmente perigosos. — Você não parece um vampiro.

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele abaixou até ficar da altura do garoto apoiando um dos joelhos no chão. Ele abriu a boca de um jeito ameaçador e as presas estavam lá, enormes e assustadoras. Reais. Estremeci pelo o que ele faria.

— Vamos embora, Arthur! — Sua mãe o puxou com mais força, com um finco de alerta formado em sua testa. Porém o garoto não a obedeceu, parecia enfeitiçado.

— Sou Vampiro suficiente para você, criança? — A voz de Richard saiu num sussurro grave quase bestial, e em meio a um rosnado baixo pontos de um vermelho escuro foram se espalhando nas iris verdes profundas de seus olhos.

— Richard, chega! — Choramingou Jaynet e foi completamente ignorada. Eu não sabia o que fazer, se ele atacasse o menino não seria forte o suficiente para afastá-lo. Uma pequena roda de curiosos começou a se formar e a pegar os celulares. Quis gritar para que todos se afastassem, que ele era realmente perigoso, mas o que saiu dos meus lábios não foi mais que um chiado indecifrável de desespero.

O garoto permaneceu parado no lugar, encarando-o tomado pela fascinação. Os olhos tornaram-se totalmente vermelhos diante dele e ele não fez qualquer menção de correr, nem quando Richard tombou a cabeça para o lado e grudou os olhos escarlates nas veias de seu pescoço, nem quando chegou o rosto mais próximo do seu.

— É o melhor cosplay que já vi! — Ele então olhou para mãe, extasiado. — Posso tirar uma foto com ele, mamãe?

Ela engoliu em seco, estudando o monstro agachado a sua frente com o alarme que somente o sexto sentido de mãe poderia proporcionar. Richard voltou os olhos para cima e a boca dela se abriu num misto de fascínio e apreensão.

— T-tem que p-pedir a ele, querido.

— Posso tirar uma foto com você?

Ele abriu um sorriso perverso e proferiu de maneira rude, em alto e bom tom:

— NÃO!!!

Sem qualquer aviso, Richard agarrou meu pulso e saiu me arrastando pelo corredor até a escada rolante como se nada tivesse acontecido. Tentei encontrar coragem para me desvencilhar de seus dedos longos, mas meu cérebro mal conseguia raciocinar. Minhas pernas Meu coração batia tanto que parecia a ponto de perfurar meu peito, criar pernas e sair correndo.

— Que merda foi esta?!?!?! — encontrei minha voz acima do intenso sentido de autopreservação que me assolava.

— Garoto enjoado. Não se preocupe, foi encenação.. — ele abriu um sorriso nada convincente. — O vi mais cedo antes do incidente do depósito discutindo com a mãe e não gostei de seu temperamento. Achei que precisava de uma lição.

— E precisava bancar o show de horrores para isto?! Por Deus, as pessoas tiraram fotos de você com a boca arreganhada! Você vai rodar o instagram do mundo inteiro agora.

— Aproposito, o que é uma "foto"?- perguntou em tom calmo e curioso que em nada se parecia com seu tom gutural de segundos atrás.

— Você é completamente louco!!! — gritei a beira de um ataque de nervos.

Não, ele não era confiável. Ia do garoto fascinado pela tela de cinema ao Vampiro sanguinário rápido demais. Fitei-o de esguelha, e senti como se estivesse olhando para uma bomba relógio, prestes a explodir. A qualquer momento ele poderia fazer mais que uma encenação e atacar alguém de verdade. Este pensamento me fez passar a mão livre pelos cabelos num gesto exasperado, lutar com a tremedeira que ameaçava me deixar imóvel e aumentar a velocidade de meus passos até estar ao seu lado.

Eu devia fugir. Meus instintos até então tranquilos, imploravam para que eu me afastasse o mais rápido que podia, o que infelizmente era mais um motivo para manter bem colado a ele. Como que concordando comigo, Jaynet o cercou pelo outro lado com o semblante bem alerta.

Se ele tentasse algo contra qualquer pessoa eu estaria lá para impedir. De que maneira?: Não fazia a mínima ideia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.