- Você não parece bem amigo.- Disse o Barman para o homem que acabara de entrar. Ele não dizia isso para iniciar um diálogo, ou por que se importava, nada tão banal. Ele usava essa frase apenas para lembrar o indivíduo que entrava no bar de a) seus problemas; b) o real motivo pelo qual as pessoas entram num bar.

A pessoa em questão levantou a cabeça lentamente, revelando um rosto abatido. Olhou para o Barman com seus olhos grandes, redondos e marejados, como se fosse contar uma história bastante triste e melancólica. Como, aliás, de fato fez.

- Sabe, eu achei que ia ser um dia bom hoje.- Era exatamente esse tipo de papo que o Barman tentava evitar, mas agora não havia mais jeito. – Meus filhos acharam uma foto minha hoje. Sabe aquelas fotos do colégio? Era uma daquelas.

- Bebida? – Perguntou o Barman enchendo um copo.

- Quê?! Ah sim, obrigado. Então, era a foto da formatura.- Tomou um gole – Onde estava?

- Filhos, fotos, formatura... Bebida? – O outro fez que sim com a cabeça.

- Filhos sim...malditos... Sabe, tudo culpa deles. Então, eles foram me perguntando quem era quem na foto. Tinha a Amanda, o Pedrão...

- Não diga. Beba. — Encheu outro copo.

- Acho que ele virou aeromoça... –Disse o homem esvaziando o tal do copo.

- Você quer dizer que ela virou aeromoça?

- Não, foi o Pedrão mesmo. Aquilo é água? – Perguntou apontando para uma garrafa convenientemente disposta sobre o balcão.

- Gim. – Respondeu o Barman abrindo um largo sorriso. Primeiro passo completo.

- Encha um copo e me passe a garrafa. Tinha também o Juquinha pé-preto.

- Mas bah guri! Esse eu conheço! É um preto?

- Não, um alemão. Até aqui tudo estava bem. Foi quando meu filho apontou para uma menina..

- Tem a foto aí? – Indagou o Barman entregando a garrafa de gim.

- Quê?! Ah, aqui, veja. Este aqui no canto sou eu. Não se assunte, eu era feio mesmo.

- Está sendo otimista.

- Como?

- Nada. Beba.

- Então, a menina é essa aqui. Bonita ela. Adivinha que fim levou?

- Bonita sim. Virou china de fronteira? –Disse o Barman automaticamente. Estava ocupado demais contabilizando os ganhos da noite.

- Casou comigo! Minha filha fez essa mesma cara ao ouvir isso. Foi um choque. Ela chamou a patroa antes que eu a impedisse.

- Impedir por quê?

- Ela não sabia que eu era o corcunda da foto. Sabe, no colegial ela me odiava. Sempre me ridicularizava na frente de todos. Sabe o que ela fez quando descobriu?

- Beba e me conte.

- Pediu divórcio!!! Me expulsou de casa. E aqui estou. O que eu faço agora?

Estava na hora de completar o passo número dois. E o Barman sabia disso. — São R$ 383,19.

— Quê? – O homem olhou atônito para o Barman.

— R$ 383,19.

- Perguntei o que eu faço agora!!!

- Pague. Vou fechar.

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