Um Drink

1 Pequenos passos


Era como combinado, um drink. Estavam ali desfrutando de uma bebida mais forte e passando o tempo após todos aqueles encontros com os pais dos alunos, onde propostas foram feitas e por muito tão prontamente acatadas, dando à eles um momento de merecido descanso, e pagamento de dívidas que nem ao menos notaram quando fizeram entre si.

Yagi Toshinori observava com real interesse o modo como Aizawa Shōta umedecia os lábios após um gole em sua bebida, e como os olhos fechavam-se parcialmente como num merecido deleite. À ele restava um bebericar muito contido na bebida, ocupava-se muito mais em notar como o ‘‘apático’’ professor conseguia manter uma postura mais relaxada ali, naquele ambiente informal, mesmo que usasse terno e gravata. Notava também como os fios presos lhe caiam bem, mostrando um pouco mais daquele rosto bonito, embora agora houvesse ali uma cicatriz que o maculasse, e tal detalhe não passaria despercebido, não por ele, não por saber quando foi que Aizawa havia adquirido tal marca. E então desviou o olhar, como se a vista ardesse ao notar aquela cicatriz.

— Não foi culpa sua. — Aizawa comentou em sussurro enquanto ainda mantinha o copo frente aos lábios, escondendo a boca ao proferir as palavras que trariam certo alívio ao ex nº 1. — Não precisa olhar com culpa, é uma cicatriz como qualquer outra adquirida com a nossa vida.

Não era mentira, Toshinori carregava uma enorme no corpo e tantas outras menores que provavam que a vida de pro-hero era regada à cicatrizes e recordações amargas que sempre invadiam o sono quando o corpo tentava descansar sobre uma cama.

Embora estivesse claro que Aizawa não o culpasse, ainda assim não conteve o olhar consternado por mais tempo, notando como o rosto outrora imaculado agora carregava uma recordação amarga do dia que o Herói Nº 1 não pode socorrer àqueles que contavam com sua companhia.

A proximidade não o incomodava, como acontecia normalmente ao ter alguém que lhe invadia o espaço pessoal, fosse fisicamente ou o observando com tanto afinco. Ali, com All Might, Aizawa não se sentia invadido ou realmente observado, embora o fosse. Era algo que não o tirava da zona de conforto, embora se sentisse quente e sabia bem que a culpa não era da bebida.

Para aqueles que o conheciam bem — pouquíssimos, por sinal — saberiam dizer que aquelas goladas na bebida eram de um certo “desconforto”, que a forma que se remexia na banqueta que estava sentado, era um indicativo de uma ansiedade, ainda contida. A forma como discretamente esfregava as falanges na palma da mesma mão também.

— Mais um? — perguntou embora visse que Toshinori mal havia tocado na bebida.

— Claro, pode pedir mais um. — Ele não queria deixá-lo no momento, aceitar mais uma rodada de algo que ele sequer beberia era a melhor das opções então. Era estranho, se sentia estranho. Não por estar ali, mas por não querer sair. E não apenas porque se sentia culpado de alguma maneira, ele apenas queria ficar ao lado de Aizawa Shōta.

— Então o All Might não bebe? — Questionou o outro enquanto o garçom dispunha mais dois copos sobre o balcão, o outro ainda semi-intocado por Toshinori.

Toshinori. Você adquiriu o direito de me chamar pelo nome.

Aquilo era flerte? Não, em hipótese alguma! Não? Não! Não mesmo? Aizawa olhou-o de soslaio, ponderando se de alguma forma direta ou indireta aquilo poderia ser algum indício de algo mais. Muito provavelmente não, era só o seu interesse falando alto e buscando alguma reciprocidade, coisa que acreditava não haver com Toshinori, não quando ele tratava à todos da mesma forma. Inclinou-se então parcialmente sobre a bancada enquanto pegava a bebida, apoiando ali seu cotovelo, mantendo o corpo de certo modo frente à frente com o Herói Nº 1. Encarou-o pelo que era equivalente a minutos, mas sabia não ter passado de alguns poucos segundos, estes suficiente para deixar o outro vermelho.

Era curioso, eram duas pessoas distintas num mesmo corpo: Yagi Toshinori e All Might. Quando em sua forma de herói, nada o abalava, o sorriso era constante no rosto para trazer repúdio aos vilões e esperança aos cidadãos comuns. Ali, era um homem como qualquer outro, que ficava corado por ações alheias ou por ser observado com um pouco mais de afinco. Aizawa se divertia com isso, com a forma com a qual Toshinori engolia nada mais que saliva, porque da bebida mesmo não tinha sido. Divertia-se com aqueles olhos azuis buscando focar em outras coisas, que não ele.

— Aizawa, gosto do sobrenome. — respondeu ainda encarando-o, tal como um predador fazia à sua presa.

— Certo, certo, Aizawa-shounen. — Ele e sua mania de “diminuir” todos à jovens, como se fosse o único mais velho ali, eram dois professores e heróis licenciados, não havia crianças entre eles. Mas Shōta não implicou, não quando aquilo parecia trazer certo conforto ao outro. Não queria fazê-lo fugir, botá-lo para correr não estava nos planos daquela noite, não quando a companhia se mostrou tão agradável e necessária após todos os pais e alunos que visitaram.

Beberam, bem, Aizawa bebeu. E não só a sua própria bebida, mas os copos basicamente intocados de Yagi Toshinori. Dando a eles um fim rápido, rápido demais fazendo com que a embriaguez parcial o tomasse e o fizesse rir ao se por de pé e notar que os pés formigavam, assim como as pernas pareciam mais pesadas.

No carro, enquanto sentados lado a lado, Aizawa notou os olhares sobre si, notou a forma como Toshinori parecia querer falar, mas ainda mantinha o silêncio por medo de incomodar. Notou também que, quando ainda no bar tirou seu terno, o olhar do outro era quase penetrante em sua pele, fazendo arder o corpo num desejo que não costumava sentir. Naquele momento ignorou, claro, estavam num ambiente com certa movimentação, chamar a atenção não cabia, à nenhum deles.

Quando o carrou parou, Aizawa não se surpreendeu que o outro o acompanhasse, pagando a corrida e mantendo-se ao seu lado, segurando seu terno e levando-o até a portaria do prédio onde ainda residia. Surpreendeu-se menos ainda quando este subiu com ele até seu andar, parando à porta e lhe entregando o terno após Aizawa deixar a chave na fechadura, com a porta já aberta.

— Toshinori? — chamou, não tão ébrio quanto o outro achava que ele estivesse.

— Sim? — havia uma pitada de expectativa ali, ou Aizawa havia de fato bebido demais e se confundido?

A proximidade não deixava mentir, o loiro havia se aproximado muito mais que o necessário, onde naquele corredor vazio ninguém faria barulho que o impedisse de escutar perfeitamente o que quer que Aizawa tivesse a lhe dizer. E isso fez com que Shōta sorrisse, discreto e convidativo, ganhando um novo rubor alheio como resposta, mas não um distanciamento brusco.

Inclinou-se em sua direção, guiando a mão livre do terno até a nuca do outro, puxando-o de modo que fosse ele a conduzir tudo, já que o Nº 1 estava de olhos fechados, tão bem fechados que parecia empregar força demais naquilo, e tão logo a diferença de altura era absurda e Aizawa riu em meio ao beijo, sentindo os braços alheios em sua cintura, dando-lhe sustento e o erguendo parcialmente.

As línguas buscavam acariciar de modo suave, mas lábios eram prensados aos outros com afinco. E quando o momento luxurioso chegou ao fim, Yagi Toshinori ainda estava em sua forma robusta.

— Não deveria se esforçar assim.

— Foi mais forte do que eu.

Riram, cada qual à sua maneira, mas em uníssono de certa maneira.

— Boa noite, Toshinori. — deu um passo para dentro do modesto apartamento, vendo o sorriso do outro ainda no rosto.

— Boa noite, Shōta.

— Não, ainda é Aizawa pra você!

E com sua habitual tosse, voltou ao seu mais novo estado, magro, vermelho e ouvindo a risada provocativa de Aizawa Shōta. Sabendo bem que se um beijo havia rolado, logo logo adquiriria intimidade para mais, como por exemplo: chamá-lo pelo nome. Mesmo que para isso fosse preciso mais um drink.

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