Um Dom Improvável
6 Laços
Notas iniciais
Royal Society – Londres
São oito e meia da manhã e Felicity se encontra na sala da Universidade preparando o material para apresentar um breve resumo literário para um grupo de candidatos que desejam ingressar na instituição no próximo ano. Como todos os presentes são estrangeiros, Felicity foi escolhida para expor resumidamente o processo de seleção, com a finalidade de encontrar os merecidos gênios da próxima geração. Os candidatos ingleses receberão instruções de outro graduando chamado Carl Peters.
Após terminar os ajustes, Felicity encara os quinze jovens e logo à direita o supervisor responsável pelo recrutamento. Seu nome, Edgard Litusken.
— Pronta para começar Srta. Smoak? — Lhe pergunta.
— Claro Sr. Litusken – sorri e com as mãos trêmulas olha para a pequena plateia – bom dia a todos. Sou Felicity Smoak, aluna dessa instituição há dois anos e hoje falaremos um pouco sobre as células-tronco, poderosa fonte natural de regeneração – respira e avança para o primeiro slide – o desafio de vocês será apresentar em dez dias uma proposta que use células-tronco como principal regenerador de lesões motoras.
No momento em que Felicity menciona o prazo para apresentação, os interessados ficam aflitos e se remexem nas cadeiras.
— Os candidatos mais coerentes em suas propostas serão recrutados para nova entrevista com o reitor da Royal.
Alguém levanta a mão e pergunta quantas vagas serão disputadas.
— Estão disponíveis dez vagas e serão disputadas com os candidatos londrinos que também estão sendo instruídos nesse momento.
O que ela não pode mencionar é o fato das outras dez vagas serem determinadas para os filhos dos principais investidores da Universidade, bem como, nomes indicados previamente por autoridades.
— Como acredito que essas dúvidas estejam sanadas podemos iniciar as apresentações – pega o laser em mãos e aponta para o próximo slide – primeiro devemos explicar o que são células-tronco, embora eu acredite que já possuem esse conhecimento – ouve-se risos na sala – então, são células com uma enorme capacidade e funcionalidade de restabelecer tecidos de órgãos ou em alguns casos, restabelecer lesões. E isso no aspecto estrutural e funcional – uma nova tela aparece – é possível trabalhar com as células-tronco hematopoiéticas ou adultas. A escolha do tipo de célula será de vocês, mas, lembrem-se que existem riscos para a utilização delas e os mesmos devem ser considerados. Portanto, pesquisem, procurem especialistas. Saiam da zona de conforto.
O supervisor se levanta e naturalmente coloca-se ao lado de Felicity.
— Nessa instituição são escolhidas mentes brilhantes, então, sejam a diferença que nós procuramos e superem as expectativas.
— Felicity, com licença – uma jovem com aparência de dezenove anos toma a palavra e pergunta – nossa escolha poderá entrar em controvérsia com questões éticas e culturais. Talvez até legislativas. A minha dúvida é se isso será aceitável na apresentação.
Com olhos voltados para o Sr. Litusken ela responde assim que um leve acenar de cabeça é visto.
— Darwin e Einstein foram homens com ideias geniosas e seus feitos são lembrados até os dias atuais, mas, em nenhum momento foram elogiados por suas crenças ou descrenças e muito menos pelo estilo de vida. Acredita-se, por exemplo, que Charles Darwin foi odiado pela camada religiosa de sua época por descrever e publicar as teorias sobre a evolução. Portanto, sejam ousados e apenas não ultrapassem o limite da decência e coerência. Como eu disse antes, as propostas mais elaboradas serão selecionadas.
Terminadas as instruções Felicity despediu os convidados e agradeceu ao supervisor pela oportunidade e experiência, pois, a seleção seria feita por docentes.
— Não me agradeça a escolha não foi minha. Você fez por merecer a atenção e tem se destacado entre os alunos estrangeiros. Estar entre os vinte melhores nesta instituição é motivo de muito orgulho Srta. Smoak.
— E eu me sinto assim. Apenas, quero conseguir expor uma ideia consistente com os fatos e também ajudar a encontrar uma solução para os males que afetam o nosso sistema nervoso. Basicamente fazer a diferença.
— Tenha calma garota. Continue se empenhando e você conseguirá.
**
Mais tarde, em casa, encontrou Oliver ao telefone na sala e Laurel com uma bandeja de lasanha em cima da bancada que divide a cozinha da sala de estar. Tudo aparenta voltar ao normal, mas, a relação de amizade entre os dois continua balançada.
— Olá, boa noite. — Adentra a casa e cumprimenta os dois, recebendo um aceno com uma das mãos de Oliver.
— Ei garota Einstein! Como foi a instrução? — Laurel pergunta sorridente e desliga o forno.
— Rápida e simples. Totalmente diferente do que eu esperava. Aquele pessoal nem se arriscou a perguntar muita coisa.
— Espera aí, achei que estivesse tremendo de nervoso e agora reclama por não ter sido questionada? Eu agradeceria por isso.
— Não é que eu tenha ficado confortável, mas, espera-se de futuros gênios grandes e complexas perguntas. É lógico, não acha?
— É difícil entender sua mente as vezes – sorri e oferece uma fatia da lasanha – não diga que vou te engordar, você está linda com esse corpo.
— Preciso praticar algum esporte, senão, morrerei antes dos cinquenta anos comendo desse jeito.
— Quanto drama! — Revira os olhos.
— Espera, preciso de um banho antes de comer. Volto daqui a pouco.
Felicity deixa os amigos sozinhos e vai para o banho. Como Laurel ainda não conseguiu superar o sonho de Oliver, sente-se desconfortável outra vez na presença dele. Com passos cuidadosos, ele se aproxima dela e pedi uma fatia da lasanha.
— Pode pegar, eu já me servi. — Responde sem boa vontade e senta-se em um dos bancos.
— Laurel, eu sinto muito, ok? Eu queria ter impedido ou, pelo menos, dito a você o quanto fiquei incomodado com o que aconteceu, mas, há quase um mês você tem me evitado e tudo o que estou tentando fazer é me desculpar.
— Suas desculpas não farão diferença. Não me fará ganhar a promoção e muito menos devolver aquele traste para a cadeia. E sabe o que é pior? Quer me fazer acreditar que possui poderes extraordinários. Ah, por favor!
— Eu… Eu não possuo poderes, apenas, tenho sonhos que se tornam realidade e se eu pudesse evitar, teria evitado.
— É mesmo? Então, se eu decidir ficar noiva de Harold Craig daqui uma semana você vai ter um daqueles sonhos esquisitos e me impedir? — Pergunta totalmente desacreditada.
— Quem é Harold Craig?
— Um cara do meu trabalho, Oliver. Não importa.
— Não é assim que funciona. Só aconteceria se isso custasse a sua vida ou segurança.
— Sério?
— Ei… Olha pra mim – segura as mãos dela a força – eu me importo com você e torço pra que consiga essa promoção se significa tanto, mas, eu não posso mudar algo que faz parte de mim. Eu tenho esses sonhos desde jovem e não tenho explicação científica pra isso. Apenas preciso que confie em mim e não pense que quero te prejudicar. Você e Felicity tem sido o mais próximo de uma família nesses anos e, com certeza, vou ser um dos primeiros a comemorar quando vocês realizarem seus sonhos.
Laurel observa cada expressão de Oliver, anos de profissão a ajudaram a fazer uma leitura das pessoas e nesse momento, ela consegue perceber o quão sincero Oliver Queen pode ser quando realmente se importa com alguém.
— Ok… Eu vou tentar, mas, não prometo nada.
— Isso já me basta. — Ele sorri e solta as mãos dela.
— E não vou me casar com Harold Craig.
Nesse momento Felicity volta para a cozinha apenas de roupão e encontra os dois sorrindo.
— Quem é Harold Craig?
Fale com o autor