Um Dia
2 Um dia na praça
Notas iniciais
Ando pelas ruas com uma mistura de emoções em meu peito: frustração, irritação, tristeza. Por que aquele executivo engravatado não podia enxergar a genialidade por trás de minhas criações?
“Isto é cafona! Parece saído de um filme ruim dos anos 80!”.
Bem, eu nasci em 1982. É claro que posso utilizar algumas tendências que eu observava os jovens usarem quando era eu criança. Afinal, a moda sempre volta repaginada e melhorada. Que tipo de empresário deste ramo não sabe disto?
Pois eu sabia exatamente o quão sem visão, arrogante e canalha o tipo era. E fiz questão de contar-lhe em detalhes.
“Eu acho, senhor — falei com sarcasmo – que do alto dos meus dezoito anos de idade, sei mais sobre o que os jovens gostam de usar do que um velho de cabeça careca! Mas tudo bem, se lhe agrada a ideia de falir a própria empresa...”.
Você me dirá – e eu concordarei – que fui longe demais e mereci o chute no traseiro que levei. Mas o que mais eu poderia ter feito? O meu sangue ferveu!
Aliás, tudo está fazendo o meu sangue ferver depois dessa reunião! O sol brilhando tão forte que quase me cega, o ar puro em oxigênio que me irrita, o canto animado dos pássaros que poderiam muito bem calar o bico... É refletindo sobre todas essas atrocidades que entro inadvertidamente em uma praça. Sento-me bruscamente em um banco e um riso feminino chama a minha atenção. Mas o que é que...
Viro-me para ver uma mulher alta e loira, com um queixo fino que me lembra vagamente um alienígena. Ela tem olhos muito verdes e veste um vestido leve e floral. Como alguém pode ser tão bonita e exótica ao mesmo tempo?
Ela percebe o meu olhar e me fita com curiosidade. Então se aproxima e se senta ao meu lado, continuando a me encarar. Surpreso, eu pisco os olhos, só para ouvir ela rir novamente.
Por acaso ela está rindo de mim? De repente, me sinto mais irritado e... envergonhado? Isso é novo...
—Eu ganhei! — Declarou ela com um sorriso desafiador.
—O-o que? — Não tenho certeza de ter entendido.
—Você piscou primeiro. O que significa que eu ganhei. – Então ela riu novamente.
Em resposta, eu só pude piscar novamente. Eu já havia tido alguma conversa com menos sentido que essa?
—Meu nome é Âmbar. Posso saber o seu?
O lado racional do meu cérebro me disse para correr o mais longe possível dessa mulher com um quê de marciana. Mas, por alguma razão, em não conseguia me levantar do banco...
—Agreste. Meu nome é Gabriel Agreste.
—É um lindo nome. – Ela sorriu. – Parece de alguém famoso.
Ah! Então é por isso que você veio falar comigo?
—Na verdade – comecei – eu moro em um bairro de classe média baixa. Trabalho duro para pagar minha faculdade e acabei de ter o meu sonho de ser um grande estilista despedaçado.
Pensei que depois que ela descobrisse que sou pobre, perderia o interesse e iria embora. Ao invés disso, ela me olhou com curiosidade.
—Por quê? – Ela olhou para o portfólio em meus braços — Eu poderia ver seus desenhos?
Por um momento, cogitei dizer não. Mas o que ganharia com isso, afinal? Então, apenas estendi o material para ela.
Ela analisou um a um por um longo momento. Não sei dizer porque, mas me sentia nervoso com o que ela diria. Era bobagem, claro. Tinha acabado de conhecê-la...
—Seus desenhos são muito bons! – Soltei o ar que nem percebi que estava segurando, aliviado com o veredicto.
—Obrigado. Eu também acho. – Não entendi por que ela começou a rir, mas ignorei. – Infelizmente, nenhum dos empresários a quem mostrei acha isso... – falei com amargura.
De repente, o rosto dela ficou sério.
—Oh, então é por isso que você diz que o seu sonho de ser um grande estilista está despedaçado, arruinado, na lama...?
Ela realmente vai usar todos os sinônimos possíveis?!
—Gabriel, o que é ter sucesso para você? Tirar boas notas na escola, fazer uma boa faculdade e arrumar um emprego? – Assenti. Ela suspirou. – Sucesso, para mim, é bem diferente. Não é tirar boas notas ou ter um diploma, é ter conhecimento. Não é ter um bom emprego, é ser o chefe. Sucesso para mim é quando um pobre toma iniciativa, abre a própria empresa e muda de vida.
—E eu que me achava ambicioso... – Sorri.
—Não há nada de errado em ter ambição. As melhores tecnologias da humanidade surgiram assim. Na verdade, um empresário nada mais é do que alguém que ajuda os outros... e é pago por isso. Então por que não ser um, também? – Ela olhou no fundo dos meus olhos. – Os únicos que tem que gostar dos seus desenhos são os seus clientes, não os seus concorrentes.
Eu pisquei. Estava gostando dessa ideia. Será que eu poderia... Ela me deu um cartão, com seu número.
—Se quiser ir a frente com isso, pode contar comigo. – Então ela se levantou e saiu, me deixando sem palavras.
Quem é essa mulher, que em poucos minutos de conversa abriu minha mente para coisas que eu nunca havia pensado?
Olhei para o cartão em minha mão e o segurei firmemente, sentindo uma nova esperança nascer dentro de mim.
Um dia eu serei um estilista famoso e respeitado. Quem sabe, até muito rico. Por que não?
Um dia.
Fale com o autor