Um De Nós Tem Que Morrer
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eram dois cientistas em um laboratório, de uma cidade, de um país. Seus nomes são igualmente irrelevantes. Eles trabalhavam naquilo há exatos um ano e dez meses.
Os motivos que os levaram a realizar tal experimento são desconhecidos. Talvez para criar humanos em laboratório? Ou para satisfazer os desejos mais sádicos e desumanos dos dois? De qualquer forma lá estavam eles, e atrás do vidro, duas pessoas.
Não eram humanos, foram criados pelos dois cientistas. A garota se chamaria Valerie. O garoto, Viktor. Criaram os dois para serem opostos. Não do gênero “os opostos se atraem”. Literalmente opostos.
Valerie, doce menina. Ela tinha os cabelos castanhos compridos, lisos, macios e brilhantes. Olhos verdes chamativos, cílios compridos. Rosto fino, boca rosada. Pele branca levemente bronzeada. Não era nem gorda nem magra. Nem gostosa. Apenas delicadamente linda.
Não podiam controlar suas emoções, mas conseguiam criar sua personalidade. Ela era simpática, amável, carinhosa, galanteadora, boa amiga, boa namorada, carismática, engraçada, caridosa, sincera, sempre pensava nos outros. Não mentia, não ofendia. Conseguia fazer qualquer um se apaixonar por ela.
Valerie foi criada para ser a mulher perfeita. Ela era as qualidades.
Viktor, pobre rapaz. Tinha o cabelo castanho escuro cortado em estilo militar. Olhos castanhos e opacos. Rosto redondo, barba por fazer. Não era musculoso, nem gordo, nem magro. Era um homem completamente comum. Daqueles que você vê na rua e esquece imediatamente, esmo que passe por ele todos os dias.
Não conseguiram criar um psicopata, porque assim como as emoções, não era algo que podia ser controlado, mas tentaram chegar perto disso. Ele era rude, insensível, grosso, cético, frio. Considerava relacionamentos, amorosos ou não, uma completa perda de tempo. Irritante, chato, mentiroso e egoísta. Magoava os outros, adorava deixa-los para baixo. Nunca se apaixonaria.
Viktor foi criado para ser o pior de um homem. Ele era os defeitos.
Em Valerie, foram deixadas as melhores lembranças de uma vida feliz. Família unida, amigos que a amavam. Uma casa adorável. Brincadeiras, sorrisos e diversão. Uma boa aluna, ótima filha. Em Viktor, certificaram-se de escolher as piores. Ele nasceu em um lar desajustado. O pai chegava só de madrugada e não escondia de ninguém que traia a esposa. A mãe era uma bêbada escandalosa cujo principal objetivo na vida era desvalorizar Viktor. O pai batia nos dois. Ele sofria bullying na escola, onde também apanhava. Viu os pais serem assassinados.
Foi algo doentio de se ver. Mas os cientistas pareciam já estar acostumados.
Os dois foram deixados vivendo junto em uma pequena “casa” no laboratório, onde os vidros deixavam os cientistas verem o que estava acontecendo, mas os dois experimentos não os viam.
A cada um foi dada uma ordem.
Valerie teria que fazer Viktor apaixonar-se por ela. Viktor teria que “sobreviver” sem se apaixonar.
Eles teriam um mês, do contrário, morreriam.
Se Viktor se apaixonasse, era porque foi contra o que eles criaram, sobre ele não ser capaz de amar. Assim, ele seria morto. Um experimento que falhou no laboratório. Se ele conseguisse sair ileso, a falha seria Valerie, já que a criaram para fazer qualquer um se apaixonar por ela. Então a morta seria ela.
De qualquer forma... Um dos dois iria morrer.
A primeira semana foi absolutamente normal.
Valerie tentava se aproximar, Viktor a repelia. A convivência dos dois estava pacífica. Não brigavam, por causa de Valeria. Não conversavam civilizadamente, por causa de Viktor.
Na segunda semana, as coisas começaram a mudar. Valerie andava muito estressada, se aproximando de Viktor a qualquer custo. Ele gritava com ela e se trancava no quarto dele. Ela se sentava no chão, ofegante, os olhos arregalados, e começava a arranhar os braços com as unhas, repetindo baixinho “Você é uma boa menina, você é uma boa menina”.
No último dia da semana 2, Valerie tentou uma abordagem novamente. Viktor a ignorou. Ela surtou.
– VOCÊ TEM QUE ME AMAR! — Ela gritou. — EU NÃO QUERO MORRER! — Ela agarrou os ombros dele, chorando. Viktor estava atônito, estático. — Você tem que me amar, por favor. Eu sou uma boa menina. — Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, abraçando-o e falando baixinho. — Porque você não me ama? Eu sou uma boa menina...
Para surpresa de todos, Viktor passou os braços pela cintura dela e a abraçou. Meio frio no começo, mas logo com mais ternura.
– Sim, você é.
A semana 3 foi traumática. Valerie se mostrava uma pessoa extremamente estressada, que surtava por qualquer motivo. Viktor a ajudava o tempo todo, e estava se mostrando um bom ouvinte e carinhoso com ela.
Em um momento, em que ela estava cozinhando, viu que tinha colocado sal demais na comida. Como acontecia muitas vezes ultimamente, surtou. Viktor, que assistia um filme da TV, correu para ajuda-la. Ela tremia, e ele a abraçou forte.
–Eu salguei a comida!
–Tudo bem, podemos fazer outra juntos...
–Não, eu errei! Eu não posso errar!
– Calma, eu estou aqui...
– Eu tenho que ser perfeita!
– Você é perfeita, Valerie. Olhe para mim. Pare de chorar, por favor. — Ele passou um polegar no olho dela, tentando limpar as lágrimas. — Você é perfeita. Você é minha boa menina, lembra?
Esses surtos aconteceram a semana quase toda.
Por ser criada para ser perfeita, ela não aceitava seus próprios erros, e gritava consigo mesma, procurando uma forma de punição. Viktor, por ter sofrido em um lar sem amor, ou pelo menos era o que os cientistas tinham colocado como seu "passado", era emocionalmente forte e dava valor as pequenas alegrias No penúltimo dia da semana três. Valerie começou a chorar.
– Ei, o que foi?
– Eu amo você. — Ela chorava incontroladamente.
– Eu sei, mas porque está chorando?
– Eu não quero morrer, mas não quero que você morra.
Ela chorava, tremia e balançava a cabeça negativamente. Ele segurou o queixo dela delicadamente. Tudo nela parecia delicado. Ele tinha medo de quebra-la. E então a beijou.
Os cientistas ficaram chocados. Nada estava indo como o planejado por eles.
A quarta semana foi tão tranquila... Valerie e Viktor estavam apaixonados. Tentavam não pensar em nada, e só ficar juntos. No penúltimo dia porém, Valerie mudou. Fugiu dele o dia todo. Até ser encurralada.
– O que está acontecendo?
– Eu não te amo mais. — A voz dela tremia.
– O que?! — Ele perguntou, franzindo as sobrancelhas.
– E-eu não te amo mais! — Repetiu, gaguejando.
– Você não sabe mentir.
– Se eu disser que não te amo mais, você vai parar de me amar... — Ela sussurrou. — E então você não vai mais morrer.
– Val... — Ele a forçou a olhar para ele. — Eu vou morrer de qualquer jeito.
– Prometa-me que vai dizer que não gosta de mim.
– Mas eu...
– Prometa-me! — Ela implorou, ameaçando chorar.
– Mas assim você vai morrer, e eu não posso...
– Por favor, prometa-me que vai dizer que não gosta de mim! — Ele ficou calado. — Viktor... Um de nós tem que morrer. Então, por tudo o que é mais sagrado para você, prometa!
Ele suspirou.
– Eu prometo.
E então se abraçaram, e pela primeira vez, Viktor também chorou.
E então o último dia chegou. Eles ficaram lado a lado, encarando o vidro. Não conseguiam ver o lado de lá.
A cientista pegou o microfone.
– Hoje é o dia em que saberemos o resultado.
O cientista também pegou um microfone, e dirigiu-se a Viktor.
– Você gosta dela?
Viktor olhou para Valerie, como se pedisse desculpas.
– Não. Eu não gosto dela.
– Então Valer...
– Eu não gosto dela. Eu a amo.
Valerie gritou, mas Viktor a abraçou.
A cientista respirou fundo.
– Viktor se apaixonou. Além disso, se mostrou amável, um bom ouvinte, amigo, preocupado e carinhoso. Isso foi contra o que criamos.
Viktor se soltou de Valerie, e assentiu, encarando os pés e esperando, mas a cientista continuou.
– Valerie teve sucesso em fazê-lo se apaixonar, mas mostrou-se problemática, perfeccionista, estressada, infantil e irritante, o que demonstra falhas no que criamos.
O cientista tomou o microfone.
–O experimento foi um fracasso.
E então gás começou a sair de buracos no teto da “casa”. Veneno, eles sabiam.
Valerie e Viktor se sentiram tontos, então se deitaram no chão, perto um do outro. Eles choravam, não por suas vidas, mas por não ter conseguido salvar o outro.
– E no fim, é isso que somos. — Ele fala, tristemente. — Experiências de laboratório que deram errado.
– Eu amo você. — Ela chora, em pânico. — Deus, eu amo você.
– Eu também te amo. — Ele sorri. Tenta sorrir. Sua boca treme. Eles encostam a testa um no outro e fecham os olhos com força.
– Eu estou com medo. — Ela sussurra. Ele a abraça e a beija.
– Nós podemos ser apenas experiências de laboratório, Val... — Eles olham um para o outro uma última vez. — Mas vamos ficar juntos, não importa o que venha a seguir.
Do outro lado da janela, os cientistas veem os experimentos darem seu último suspiro.
A cientista olha para o parceiro, entediada.
– Fracasso. Vamos testar de novo, consertar uns erros. Qual a letra agora?
– W. — Ele responde.
– Wanda e William.
E então eles se prepararam para o 23 mês de experiências.
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