Um Círculo de Flores
1 Uau! Que flores lindas!
As fotos da Casa Rios não mentiam: a fachada da casa era impactante e, pessoalmente, Clarice ainda diria que contemplar as imagens no site onde comprou o pacote de viagens não fazia justiça a sensação do vento mexendo seus cabelos ou o sol aquecendo as maçãs do rosto. E é claro, ver as dúzias de ipês amarelos no cenário contribuía com o deslumbramento. Flores lindas, lindas: nos galhos e no chão, como um tapete.
Ela adorava a autora que viveu ali, Ofélia Rios, por mais que as condições de seu desaparecimento há setenta anos ofuscassem o brilho de suas obras — que eram muito boas, obrigada. Havia quem afirmasse que ela era superestimada, uma mistura pretensiosa de Christie e Woolf, e que só o primeiro nome já lhe conferia um ar teatral shakespeariano que só poderia soar forçado em uma pequena propriedade no interior, abaixo da linha do Equador. Mas Clarice pensava nela com carinho. Um dia quis escrever como ela, porém a autora já tinha escrito tudo. As palavras de Ofélia eram a versão definitiva do mundo, tal qual uma profeta que deixa as escrituras antes de alcançar o Paraíso. E, por isso, a jovem limitava-se a outras artes: sacou sua câmera, conferiu a lente para aquele clique e disparou.
Completava duas décadas que a Casa Rios abria suas portas somente na Primavera, sempre com grupos pequenos para curtir a estação. Ficava apenas há duas horas da capital. Clarice não concordava com a estratégia de marketing, alinhada com essa ânsia das pessoas desvendarem um detalhe, um enigma nos livros, uma mensagem escondida nos móveis preservados, para enfim entender como ela tinha desvanecido do mundo. Agora que chegara a sua oportunidade de visitar a Casa Rios, porém, ela se indagava o que teria acontecido em um cenário tão sereno.
Voltou-se às amigas que andavam devagar, trazendo as próprias malas e ainda com as pernas meio dormentes pela viagem.
“Sorriam!”
Mas nenhuma delas forçou os lábios. O trajeto foi duro, mesmo o carro potente de Liana não tinha sido páreo para a estrada ruim e a qualidade do ar ainda pior: atravessaram trechos com queimadas nas plantações, então mesmo com janelas fechadas, era péssimo respirar. Clarice não julgava tão ruim quanto a expressão de suas amigas dava a entender — tinha sido rápido, nada perto do que já tiveram que aguentar na cidade natal delas — mas esperou que o local revigorasse o espírito delas. E é claro, havia um lago perto, então respirar não seria um problema.
Logo haveria momentos melhores para fotos, imaginava.
Liana mexeu nas chaves com uma mão, selecionando aquela que abriria a Casa Rios, enquanto trazia uma mala de rodas e outra menor acima com o outro braço. Ela reclamou algo ininteligível, já Leda murmurou que estava com fome.
“Calma, vai piorar,” Judith, ajudando Elaine mover as malas, não conteve o deboche tão comum e precoce aos seus lábios. Clarice sentiu-se atingida, pois a interessada na Casa Rios era ela, mas não sabia se Ju estava sendo propositalmente desagradável ou se era só seu jeito desde que todas eram adolescentes. “Dependendo do que tiver na geladeira, ainda vamos pro fogão.”
Liana fechou mais a expressão. Entediava-se com o veneno homeopático de Judith: Não era suficiente para nada, senão perda de tempo. E com um tranco irritado, enfim a porta dupla central foi aberta.
A visão interna da casa suspendeu o humor tenso.
Datada no início do século passado, a Casa Rios misturava o que era anterior e o que era contemporâneo à sua construção, como acontecia nos casarões no interior que herdavam o estilo neocolonial e incorporavam elementos novos. Madeira, linhas retas, linhas sinuosas, um espelho imenso, detalhes em vitrais coloridos, metal e luz amarela: os olhos de Clarice absorviam tudo e sua cabeça calculava os melhores ângulos para capturar com sua câmera. Talvez tivesse que trocar a lente para captar detalhes.
“Antes da comida, vamos ver os quartos.”
Liana, Judith, Elaine e Leda subiram as escadarias. Clarice foi atrás.
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