Um Coração Confuso
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eram dez da noite, o show havia sido um sucesso. Eu estava cansada e tudo o que eu queria era poder dormir um pouco antes de acordar cedo para ir ao colégio. Me joguei na minha cama, eu realmente estava cansada. Minha voz já estava seca.
Naquele momento eu olhei ao redor do meu quarto, avaliando as paredes sem motivo nenhum. Mesmo cansada, tudo o que eu queria era me lembrar que eu não era mais invisível, que o Nicolas sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele. Talvez olhar em volta do meu quarto fosse apenas uma desculpa para que eu permanecesse com aquelas lembranças fortes na minha mente. Aquele beijo ainda estava vivo nas minhas lembranças e nada me faria esquecer aquele exato momento.
Acordei cedo e me preparei para ir ao colégio. Eu estava com olheiras e parecia um zumbi caminhando. Até aquele momento eu não havia visto os fantasmas, as únicas pessoas que eu vi foram o meu pai e o Pedrinho, que estava trabalhando em mais uma das suas invenções malucas. A Bia me ligou para que a gente se encontrasse no caminho antes da aula para eu dar minha opinião para um novo disco que ela ia comprar.
Assim que eu desliguei o telefone senti uma presença repentina, não consegui evitar sorrir ao ver o Martim, o Felix e o Daniel atrás de mim. Eu ainda me sentia mal pela minha felicidade com o Nicolas sempre que eu via o Daniel. Eu sei bem como ele se sente, e mesmo tentando manter a nossa amizade intacta, ainda é difícil para mim.
-Julie nós escrevemos uma música nova! — começou Martim animado. Seu sorriso era radiante. — Vamos tocar?
-Eu não posso agora — fiquei tentada a aceitar o convite, mas eu não podia furar com a Bia.
-O que você vai fazer agora? — perguntou Daniel, com seu tom comum arrogante. Aquele tom era tão comum que eu estranhava quando ele conversada docemente.
-Vou me encontrar com a Bia.
-Nós podemos ir? — perguntou Felix também animado.
-É melhor não. Nós não vamos fazer nada importante. Assim que eu chegar da escola a gente toca. Eu to muito empolgada para saber o que vocês aprontaram.
Sorri para eles e após pegar a minha mochila, segui para o encontro da Bia na loja do Klaus. Eu sabia que os meninos poderiam aparecer na loja a qualquer momento, mesmo eu tendo pedido para eles não aparecerem. Na verdade, eu não queria que eles aparecessem. O Nicolas vai estar lá e eu não quero que o Daniel nos veja juntos, seria muito ruim para ele. Não quero que fique um clima ruim entre a gente.
Rever o Nicolas sempre me deixava feliz, afinal, eu gosto mesmo ele. E por estranho que pareça, eu sinto que tenho que repetir isso para mim mesma sempre que penso no Daniel. Isso só pode ser uma besteira da minha cabeça. O Daniel e eu vamos sempre ser amigos, e mesmo que eu gostasse dele, ele é um fantasma, um fantasma, um fantasma...
Eu cheguei da escola morta. Ainda estava com sono e cansada da noite passada. Mas nada me fazia melhor do que correr para a edícula e começar a cantar ao som dos instrumentos. Foi o que eu fiz, corri para lá na mesma hora, mas não encontrei ninguém lá. Na verdade, eu encontrei, uma guitarra se afinando sozinha.
-Vamos tocar? — falei como de costume. O Daniel ficou visível no mesmo instante, mas parecia ser o único ali. — Daniel, cadê o Martim e o Felix?
-Eu não sei.
-Vocês não iam me mostrar a música nova quando eu chegasse?
-Eu posso fazer isso agora — ele pediu para que a nossa amizade continuasse a mesma, mas nem sequer olhava nos meus olhos quando eu falava com ele.
Olhar para o Daniel estava começando a me irritar, parecia que ele estava se forçando para que nós pudéssemos ser amigos, mas não era como ele me via mais. Eu não entendia o motivo, mas isso me irritava. Eu sei, estou começando a ficar paranoica.
Ele começou a tocar, o som dedilhado, era suave e agudo. Não parecia ser um rock comum que tocávamos. Era uma melodia lenta e suave, eu tinha sensação estranha quando ouvia aquele toque.
-Você acha que consegue... — ele parou de repente quando percebeu que eu estava em transe. Ouvi o que ele dizia, mas eu não conseguia me mover. — Julie?! Você está bem?
-Estou — respondi voltando a mim mesma.
-Você acha que consegue criar a letra? Se você quiser eu posso te ajudar.
Sorri. Fui em direção a ele e sentei-me ao seu lado. Ele estava desconfortável e seu tom doce estava ali para me deixar desconfortável também. Eu não conseguia parar de pensar em como seria se o Daniel não fosse um fantasma. Quando me dei conta do que estava pensando comecei a esfregar as minhas mãos no meu rosto e passar meus dedos entre os fios do meu cabelo. Baguncei todo o meu cabelo.
-Julie, o que você tem?
-Quê? — percebi naquele momento que ele estava sorrindo para mim. Acho que ele estava se divertindo com aquela situação. Ele nunca deve ter me visto tão confusa, na verdade, nem eu havia ficado tão confusa em toda a minha vida. Eu não entendia o porquê de estar confusa. Eu não podia estar começando a gostar do Daniel, não depois da escolha que eu fiz. E gostar dele não faz dele menos fantasma.
-O que você tem? Bateu a cabeça em um poste por acaso? — eu não sei se a tentativa dele era me fazer rir ou questionar a minha inteligência, mas aquela pergunta boba fez eu me sentir melhor.
-Acho que eu vou conseguir escrever a letra dessa música. Eu só preciso saber que história ela irá contar e nem ouse dizer que eu posso escrever qualquer coisa que está bom.
Ele sorriu para mim, tivemos boas lembranças sobre isso.
-Eu não ia dizer isso — ele estava muito doce. Aquilo estava me matando. Eu queria que ele descordasse de mim e dissesse alguma bobagem e a gente começasse a brigar. Era tudo o que eu queria. — Você pode escrever como você se sente sobre mim na letra...
-Hã?
Ele sorriu de volta e olhou para a guitarra. Ele estava evitando ao máximo possível olhar para mim.
-Uma música de amizade. Não é isso que nós somos?
Sorri de volta para ele. Me senti mais confiante após ouvir aquelas palavras. Será que o Nicolas não acharia estranho eu escrever uma música para o Daniel? Claro que não, o Daniel e eu somos apenas amigos.
Os Martim e o Felix chegaram alguns minutos depois e nós passamos a tarde toda tocando. Depois, eu fui para o Skype falar com o Nicolas. Eu realmente gosto dele, mas eu não consigo entender por que eu me sinto estranha perto do Daniel, acho que é porque ele gosta de mim.
Depois de me despedir do Nicolas, eu peguei a melodia da música, que eu havia escrito no meu caderno. Comecei a cantarolar no ritmo e eu não conseguia pensar em nada de amizade com um ritmo tão lento... na verdade, o que eu estava sentindo pelo Daniel?
No dia seguinte, após o colégio, eu corri para a edícula novamente, mas só encontrei o Daniel afinando novamente a sua guitarra.
-Daniel, cadê o Martim e o Felix?
-Acho que eles estão com o Pedrinho. Parece que eles estão testando um novo experimento dele.
-Ah — respondi desanimada.
-Você já fez?
-Fiz? Fiz o quê? — me fiz desentendida de propósito.
-A letra da música! — ele ficou irritado de repente. — Você conseguiu?
-Sim... quer dizer! — fiquei nervosa. — Eu não sei se está bom. — coloquei a minha mão para trás, a folha com a letra estava na minha mão. Ele apoiou a guitarra em pé na parede e veio na minha direção.
-Deixa eu ver — ele tentou tomar da minha mão, mas eu me afastei. Ele não podia ler aquilo.
-Não! — corri em direção a porta, mas antes que eu pudesse atravessá-la, ele apareceu na minha frente. Eu caí no chão assim que o vi. Ele sorriu e estendeu sua mão para mim.
-Você é mesmo uma maluca — ele sorriu torto. Eu segurei na mão dele e me levantei.
-Eu não quero que você leia, só quero que você toque.
Ele assentiu e pegou a sua guitarra. Estava na hora de eu cantar uma música dizendo exatamente o que eu sentia por ele. E só estávamos nós dois ali. Eu ainda vou matar o Martim e o Felix por isso.
Assim que ele começou a introdução, fiquei nervosa. Eu nunca havia ficado nervosa daquela forma. A única coisa que eu conseguia repetir para mim era: “Eu sou a namorada do Nicolas, ele me escolheu e eu o escolhi”. Chegou a hora, me aproximei do microfone e comecei:
Você surgiu como vulto na minha vida
Uma mancha de tinta que eu tentei apagar
Uma mancha que me deixava louca
Mas hoje eu percebo que você se tornou tudo para mim
Mesmo eu estando com outro, você está comigo
Mesmo quando eu choro por outro, você é o ombro que me apoia
Eu não sei dizer se me apaixonei ou não por você
Mas a verdade é que um amor impossível não acontece na vida real
E tudo o que vamos poder fazer é
Ser amigos, amigos não podem se amar?
Eu confesso que não sei de onde eu tirei aquelas palavras. As palavras escritas na minha folha, eram apenas palavras clichês sobre amizade. Se eu não dissesse a verdade do que eu sentia pelo Daniel, eu ia apenas ficar cada vez mais confusa. Mesmo namorando o Nicolas, eu estava gostando do Daniel. Eu não conseguia mais negar para mim. E aquelas palavras foram a prova. Foram palavras ao vento, ditas com o coração, que nunca mais voltarão.
Ele terminou de tocar sério. Eu não sabia o que ele estava pensando, mas eu me sentia envergonhada. Ele se aproximou de mim com uma expressão mais seria ainda, fiquei um pouco nervosa. Ele puxou o papel da música da minha mão e começou a ler. Tentei tomar dele, mas ele conseguiu me impedir. Assim que ele terminou de ler, ele disse sério:
-Por que você não cantou a letra que está escrita aqui?
-Eu... — eu também estava me fazendo essa pergunta. — Eu achei que não estava tão boa.
-Por que você está fazendo isso comigo? — a voz dele estava engasgada. Aquele tom arrogante estava cada vez sendo menos usado por ele. — Por que você está cantando esse tipo de coisa pra mim se você gosta é daquele cara?
-Eu não sei. Eu simplesmente comecei a cantar. Você me pediu para escrever como eu me sentia por você, mas foi mais fácil cantar.
Abaixei a minha cabeça. Eu estava apenas tornando as coisas piores para o Daniel. Eu realmente não mereço a amizade dele. Senti que devia sair dali naquele momento, mas eu não conseguia me mover.
Eu realmente me assustei quando o vi bastante próximo de mim, nossa distância eram meros centímetros. Ele tocou meu rosto com as suas mãos e aproximou seus lábios dos meus. Nossos lábios se encontraram com muito cuidado, era um beijo carinhoso que mesmo minha consciência gritando para parar, eu não consegui me mover. Eu não me importava se alguém poderia chegar e me ver beijando o vento. Havia algo errado comigo, mas estava tudo certo enquanto os lábios do Daniel permanecessem colados aos meus.
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