Um Convite

1 Capítulo Único


Notas iniciais
por favor não me matem. sô trabaiadô, pai di família.

— Eu falei pra você não pular dentro da merda do elevador!

— Como se eu soubesse que isso aconteceria!

§

Uma e meia da tarde, horário do almoço. As outras nações estavam todas indo embora do edifício onde a cúpula mundial se reunira para as cinco longas horas de negociações políticas e econômicas mensais. Todas menos duas. Ou melhor, uma.

— Eu quero o Sadiq dentro da União Europeia, tá me entendendo? — a húngara cruzou os braços impacientemente.

— Ele mal estabilizou a economia dele e acabou de sair de uma confusão que quase virou uma guerra civil. Como representante da UE dentro da cúpula mundial…

— O que custa dar uma chanc–

— Como ex-nação–

— Quebra esse galho pra mim, Gilbert!

— Como seu amigo! — o albino suspirou irritado, levando a mão à têmpora que pulsava. — Olha, você tá achando que isso aqui é a casa da mãe Joana. Não me interessa se vocês estão se fodendo às escuras e vivendo de “favores” um para o outro, mas não é como se eu pudesse ajudar ele com isso. É sério.

— A economia dele está se recuperando. Se ele conseguir um bom financiamento, tenho certeza de que será bom para toda a comunidade europeia.

— Eu sei, querida, mas, puta merda, quantas vezes ele te deu o rabo pra você falar tão bem dele hoje?

— Credo, como se eu quisesse me envolver com aquele seboso.

— Erzsébet. “Não” é “não”. Estamos com problemas demais — o diplomata fechou a pasta com força, dando as costas à mulher com quem conversava e arrumando seu terno. — Tenho de voltar à Alemanha e buscar umas coisas. Vai ser uma semana longa e eu não quero ficar lavando minhas cuecas naquelas máquinas caras.

Hungria ficou esperando por uma resposta, ainda de braços cruzados e forçando uma carranca. Como ele se atrevia a negar-lhe um favor mesmo depois de todas as vezes que ela o ajudava a se virar em seu país?

— É assim, Gilbert?

— Eu não vou nem gastar o meu tempo te respondendo. Minha pauta tá cheia até o mês que vem. Na boa, eu tenho mais coisas pra fazer além de me preocupar com o teu amante seboso — comentou de relance enquanto passava por trás dela com um sorriso satírico, em direção à saída da sala. — Aliás, que péssimo gosto. Esperava mais de você, Héderváry.

— Nossa, como você é maturo, Beilschmidt — a mulher revidou, pegando sua bolsa e relutantemente seguindo seu companheiro de conversa. – Ah, e diga ao seu estilista que essa sua gravata é horrível. Combina com você.

— E com você.

Tudo bem. Ela podia até não ligar para a aparência, mas ela realmente havia se esforçado para se produzir naquele dia em especial. Não que ela estivesse esperando que alguma coisa em excepcionalmente anormal fosse acontecer, mas apenas acordara com aquela estranha vaidade, incomum de sua pessoa. E Erzsébet sabia que ela estava linda. Ao contrário de Gilbert, que geralmente pegava o primeiro terno e a primeira gravata que ele encontrava depois de ter acordado.

Mas, é claro, ela já havia desistido de ter paciência com homens como ele.

— Então deixe-me arrumar essa sua cara pra você — com um sorriso estampado em sua cara, agarrou-o pelo ombro, virou-o para si e desferiu-lhe um tapa em sua bochecha enquanto entravam no elevador.

As portas se fecharam e ele continuou com o espanto e o susto em seu rosto, marcado por uma palma. Gilbert piscou e rapidamente levou uma mão à bochecha estapeada.

— Qual é o teu problema, mulher?!

— Você! Você é o meu problema, seu imbecil!

— Desculpa! Era isso que você queria?

— Cala a boca! Eu não quero mais ouvir a sua voz hoje!

O diplomata preferiu guardar silêncio em vez de protestar. Apenas bufou e apertou o botão para o térreo, enquanto a outra mão acalmava a pele ardida de seu rosto. As portas se fecharam, deixando as duas representações a sós no cubículo silencioso do elevador. Lugares apertados e quietos sempre contribuíam para aumentar a inquietação de Gilbert.

Vinte e cinco andares de pura tortura. Por que as reuniões tinham de ser sempre na cobertura? De repente, um estalo. O albino instantaneamente levou seu olhar para o canto oposto do recinto, pensando ter sido a húngara. Olhou-a com discrição, porque a última coisa que queria era encontrar seus olhos furiosos. Mas analisando sua linguagem corporal, percebeu como cruzou os braços, tamborilando os dedos de uma mão no braço oposto em um claro sinal de inquietação.

Sim; ele totalmente desfrutaria daquele momento de fragilidade dela.

— Então… Tem medo de altura, Erzsébet? — perguntou como quem nada queria. Ela apenas o ignorou, fechando a cara novamente e bufando. Ele gargalhou em galhofa. — Bom saber. Porque eu posso fazer isso aqui, então…!

Como uma verdadeira criança de sete anos, começou a pular no elevador e fazê-lo balançar. A mulher ao seu lado quase engasgou ao perceber onde estava com aquela ameaça saltitante ao seu lado.

— Você quer nos matar, seu idiota?! Anyád hátán baszlak ketté![1]

Hédervárys têm quatro níveis de paciência numa conversa. No primeiro, mantêm o tom original da voz; no segundo, impacientam-se e fazem questão de evidenciarem sua irritação; no terceiro, xingamentos e insultos escapam de seus lábios bárbaros e incivilizados de berço; e o quarto… não queira saber do quarto nível.

—Não é como se eu tivesse uma mãe, idiota!—um estalo e as luzes começam a piscar, apagando-se por final. As correntes do elevador podiam ser ouvidas de dentro do recinto.— … Tá, acho que estamos com problemas.

— Eu falei pra você não pular dentro da merda do elevador!

— Como se eu soubesse que isso aconteceria! E não disse porra nenhuma! Cê ficou parada ali em choque enquanto eu– Não! Nem vem me bater de novo!

— Vou te estapear a cara inteira pra ver se essa marca de tapa some na vermelhidão desse seu rosto.

Outro estalo.

— Você pode parar de fazer movimentos bruscos, que tal; porque essa merda vai cair.

— Se eu morrer, vai ser culpa sua.

— Você! É! Imortal! Porra!

— É, mas será que a queda não me mataria?

— Sei lá… Você é “dura na queda”, não é?—Gilbert improvisou um “ba-dum-tss” e gargalhou antes de suspirar e lembrar-se de que não sobreviveria à queda nem a extensos períodos de tempo sem água ou comida. Afinal, era a hora do almoço. — Pode ter sido um problema no gerador, sei lá. Sempre acontecia em um dos meus apartamentos — comentou bufando e sentou-se em um dos cantos.

— O problema é que… se acabou a luz, então como é que eles sabem se tem gente presa no elevador ou não?

— Simples. Não sabem.

Tudo bem. Ela sabia que aquele problema não se estenderia por mais de um dia ou dois, mas não significava que gostava de ficar presa em elevadores. Com o seu rival. Ou amigo. Era tão complicado que nem ela saberia definir muito bem o que acontecia entre eles. Começaram como amigos e aliados em guerras quando crianças; rivais depois de seu casamento com Roderich; apenas aliados durante a transição do século 19 para o 20; e, no final, amigos atrás dos muros. Mas ainda não sabia se poderia chamá-lo formalmente de amigo. Sim, tinham as suas intimidades, estapeando-se e trocando insultos, mas daquele jeito… amigável?

— Ai, que fome, cara… — Gilbert resmungou de seu canto, batendo a parte de trás de sua cabeça contra a parede do elevador. — Eu quero morrer.

— Se você morrer, não vai ter ninguém pra me fazer favores dentro da União Europeia. Aqui, pega essa barrinha — ela realmente não queria ficar "de mal" com o colega no elevador. Eles eram adultos há muito tempo e com certeza já não tinham mais idade para ficarem emburrados e virados de costas um para o outro.

Ela revirou sua bolsa e estendeu a mão com o alimento. O albino franziu o cenho.

— Não quero nada que venha das suas mãos violentas, sua bárbara — reclamou e deu um tapa na barrinha.

Rude. Nunca será tarde demais para um certo Gilbert amadurecer mais um pouquinho. A verdade era que Erzsébet estava cansada demais para brincar de criancinhas birrentas com o albino. Ele precisava calar a boca de alguma forma. Se ele desmaiasse de fome, talvez seria mais agradável.

— Tá, também não vou sentir sua falta quando descerem o teu caixão — disse sentando-se no chão do lado oposto ao dele.

Gilbert ficou quieto, ainda emburrado. Ela esperou alguma resposta sarcástica, algum tipo de provocação vinda dele que contornasse a situação, mas encontrou o silêncio, finalmente. Bom, pelo menos ele entendera o recado. Retrucar talvez fosse muito trabalhoso para ele naquele momento.

Um minuto inteiro se passou. Dois minutos. Três, quatro, cinco minutos num silêncio sepulcral, não fosse por um ronco do estômago de um albino de orgulho ferido. Ele resmungou e se encolheu em seu canto.

Na maioria das vezes, Gilbert era o primeiro a pedir desculpas… A menos que ela tivesse sido dura demais com ele. Nenhum dos dois facilmente levavam os insultos a sério, mas o prussiano sabia muito bem manipular as pessoas para conseguir o que quer, mesmo que seja uma mera desculpa. Ou ele, no fundo, realmente era um crianção querendo atenção.

— Olha… Desculpa sobre o que eu falei. Eu não tinha a intenção de te ofender, e você sabe disso. Aqui, toma a barrinha.

Ele se virou, olhou para a embalagem, olhou para a mulher e pegou o alimento. E qual não era a surpresa dele quando descobriu que a embalagem vazia quando a húngara desembestou de rir ao seu lado.

— Sua cretina! Vai se lascar, mulher idiota! — o albino se levantou irritado e chutou uma das paredes do elevador em frustração. — Não comi porra nenhuma hoje e você ainda me vem com essa porra? Depois dessa, eu juro que te almoço! — E ela continuava rindo no chão, batendo de leve no chão enquanto tentava recuperar o fôlego.

— O que disse, vai me comer, Gilbert, o Celibato?

— Teu cu. Revogaram o meu voto de castidade há dois séculos já e– Você sabe que não é nesse sentido, sua mula.

— Vindo de você é óbvio que não é nesse sentido, Tomatinho.

— Eu nem tô corando, idiota.

— Não? Se olha no espelho e explique-se. — Ele não corava fácil nem mesmo com esse tipo de conversa, mas o sistema de ventilação aparentemente parara de funcionar com a queda de energia. E seria ridículo usar a velha desculpa do “É o calor” com ela. Mas realmente estava ficando muito quente dentro do pequeno espaço do elevador, e ela percebera isso quando teve de limpar a testa úmida do suor. — Tá, está quente aqui dentro.

— Está quente e eu tô sem comida.

— Você ainda pode me comer, Tigrão.

— Não quero ficar com diarreia depois, ’brigadão.

A temperatura estava começando a subir cada vez mais. Estavam no meio do verão e aquele sol logo depois do meio-dia tornava a situação cada vez mais insuportável. O elevador era apenas um cubo de vidro na parte externa do edifício e a incidência dos raios do sol neles apenas fazia do recinto uma estufa.

Gilbert já começava a ofegar quando desfez a gravata e desabotoou os botões da camisa. Abriu a peça e tirou os sapatos.

— Que se foda essa merda; se não vierem me buscar, eu vou ficar pelado.

— Bom, pelo menos um de nós pode se despir sem pudor.

— Ninguém aqui vai te impedir de tirar a roupa.

Os dois se encararam por um instante. Que albino abusado; um simples “Eu quero te ver nua” soaria melhor do que aquilo. Na verdade, não. Nada muda o fato de ter soado como uma perversão dele. Ele arqueou as sobrancelhas e ergueu os ombros em um claro sinal de indiferença. Mas talvez ele realmente foi sincero. Já se conheciam há quase seis séculos, adoravam correr sem camisa por entre os arbustos e nadar no lago quando pequenos. Além disso, nenhum deles poderia esconder a curiosidade que tinham do corpo um do outro. Tudo aquilo que se oculta, desperta interesse. Aquele corriqueiro pensamento sempre cruzava ambas as mentes dos encarcerados. “Como ela fica de biquíni?” ou “Será que ele ainda malha pra manter a forma?” eram perguntas que vez ou outra chegavam a eles como pequenos lembretes de como poderiam ser pervertidos.

Pervertidos. Talvez não o fossem? Erzsébet era uma das nações mais antigas, mas ainda mantinha um corpo invejável. Ia tomar banho de sol de vez em quando para ficar com aquela pele levemente morena. Gilbert não sabia se ela estava à procura de um relacionamento depois do divórcio, mas sabia que ela usava aquele perfume bom que chamava sua atenção todas as vezes que cruzava com ela em algum corredor. Aquela calça era discreta, mas, mesmo assim, marcava suas curvas. Que corpo se escondia por debaixo dos panos? Gilbert ouvira rumores de que ela frequentava uma academia perto de casa. Será que ela gostava de ser dominante na cama? Será que ela gostava de sexo à luz de velas? Ela preferia beijos na garganta ou mordidinhas na nuca?

E Gilbert? A nação que nasceu de uma bola de canhão? O antigo cavalo de guerra da Europa? Que tipo de corpo aquele ex-soldado tinha? Yekaterina às vezes passava por perto da casa do albino quando visitava seu irmão e dizia que podia vê-lo limpando a casa sem camisa. Ouvia falar que corria de madrugada, porque o frio ajudava-o a queimar calorias mais rápido. Perguntaram à pequena Lili sobre o primo e ela dissera que ele tinha braços fortes, que, quando ela o abraçava, podia sentir os músculos das costas bem trabalhadas. Será que ele curtia masoquismo? Uma puxadinha ou outra no cabelo, uma mordida na orelha, quem sabe?

Nenhum deles tinha problemas com sexualidade, mas o problema era eles mesmos. Era estranho pensar no seu melhor amigo, seu confidente, seu quase irmão ou irmã como um parceiro sexual.

O calor estava ficando insuportável. Gilbert resmungou e tirou a camisa por completo, jogando-a para o lado e estendendo-se no chão gelado. Yekaterina estava certa: Ele tinha um físico ótimo para quem já havia deixado de exercer seus deveres no front há setenta anos. Sua pele continuava anormalmente clara. Ele estava meio virado de lado, mas ela sabia que aquele torso era adornado de cicatrizes, que ele carregava como medalhas de coragem e bravura.

— Vai querer tirar foto pra mostrar pra mulherada da cúpula, Erzsi? — ele virou-se para ela e apoiou a cabeça em uma das mãos. — Eu sei que cê gosta disso.

— Ah, então quer dizer que agora você está a fim de me comer pro almoço, Sr. Beilschmidt?

— Não força a barra.

— Não tô forçando a barra; só tô jogando o teu jogo — O prussiano fazia carão de quem gostava quando as coisas ficavam mais inapropriadas, mas era sempre o primeiro a jogar a toalha uma vez que o seu constrangimento tornava-se maior que a sua cara-de-pau. E como Erzsébet adorava saber dessa fraqueza.

— Não tá jogando, não.

— Não, é? — ela sentou-se ao lado dele, quase encostando-se. Gilbert não recuou, para a sua surpresa. Ao invés, ele segurou-a pelo pulso e aproximou-se.

— Não enquanto você estiver de camisa também.

E completou seu movimento com aquele sorriso estúpido que ela odiava. Talvez não o odiasse de todo; havia um certo charme naquilo tudo que a atraía. Um oponente à sua altura havia aparecido, finalmente. Ela retornou o sorriso, virando-se para ele e aproximando seu corpo ao dele. Seus olhos verdes estavam fixos nos vermelhos do colega enquanto empurrava-o para baixo com a mão que apoiava-se no peito magro do albino. Sem cerimônias, ela praticamente sentou-se sobre Gilbert, tirando o blazer cinza que usava e abrindo os botões da camisa vagarosamente. Estava apenas esperando ele jogar a toalha, desistir, ter alguma reação exagerada, mas ele continuava sorrindo, pedindo para que ela mostrasse que corpo escondia-se por debaixo daquela formalidade profissional. E ela estava adorando fazê-lo esperar.

Ele não sabia se Erzsébet permitiria que ele tocasse-a, mas sabia que ele mesmo não fazia questão de obedecê-la. Seus braços aproximaram-se das laterais de seu corpo, com um pouco de receio antes de deslizar as mãos por suas curvas. Ela apenas observava-o com aprovação.

As mãos encontraram-se no centro da camisa da húngara, abrindo-a como uma cortina. As dela exploravam a pele desnuda do homem sob si, que respirava cada vez mais profundamente. Ambos estavam nervosos com o novo tipo de contato que estabeleceram no elevador, embora ela soubesse disfarçar sua ansiedade melhor do que seu companheiro.

Gilbert ainda não olhara para o que suas mãos tocavam; estava focado demais nos lábios vermelhos da encarnação da Hungria. Aqueles lábios que sibilavam palavras naquela língua que só o diabo respeita; que dançariam com qualquer outro par de lábios se assim desejassem; que um dia já pertenceram a outros homens.

Aqueles lábios agora estavam beijando os dele, rachados, secos, sedentos por atenção. Ela segurava a cabeça do prussiano próxima à dela, que delicadamente inclinara-se para o lado para melhor encontrar o beijo do homem que a segurava sobre si.

Não eram lábios extravagantemente habilidosos, mas eram lábios que não mentiam em seus movimentos estranhamente delicados. Eram pacientes e teimosos, deixavam-na guiá-los e ensiná-los os passos da dança de seu coração. Eram lábios que falavam a língua do amor.

O par de mãos menores escorriam das laterais do rosto do jovem, perdurando no queixo e puxando-o para cada vez mais perto de si. Gilbert obedecia de olhos fechados para entregar-se ao momento com ela; sentando-se ereto e envolvendo-a pela cintura para puxá-la para si.

As bocas, aos poucos, separavam-se; as línguas despediam-se temporariamente uma da outra. Os dois recuavam um pouco para recuperar o fôlego perdido num mergulho de sentimentos que pareciam ter estado entalados em suas gargantas por muito tempo. Podiam respirar tranquilos pela primeira vez em muitos séculos. E nenhum deles precisava ouvir um “eu já te amava antes”, porque já sabiam. Talvez, sempre souberam.

Ela sabia que aquilo não era uma desculpa esfarrapada para uma noite de sexo. Talvez tivesse sido o jeito que ele a segurara perto de si, como seus braços a enlaçavam, como ele preferia desvendar os segredos daquele lindo par de esmeraldas ao dos que as roupas escondiam, no próprio jeito de bater do seu falho coração perdedor sob a palma da mão da mulher que amava…

Ele sabia que aquilo não era uma brincadeira de mau gosto com os seus sentimentos. Aquelas mãos que antes seguravam espadas e seguravam seu rosto com tamanha delicadeza, aqueles olhos que o abrigavam num mundo de sonhos e de verões intermináveis, as pequenas palpitações que sentia em suas costas. O tipo de palpitação que era destinado apenas a ele naquele momento.

Platão sabia o que dizia quando expôs os conceitos de conhecimentos natos. Não precisavam ensinar um ao outro como amá-los; apenas descobriam o que já sabiam: Amar.

Erzsébet beijou-o novamente, ainda que mais brevemente do que fizera minutos atrás. Seus ósculos escorregavam para um dos cantos de sua boca, experimentando de seu queixo áspero de barba recém-aparada, da linha de sua mandíbula e de sua orelha. Algumas lambidas e mordidas foram o suficiente para fazer os pelos de sua nuca erguerem-se e contarem-na que talvez ela tivesse exagerado um pouco.

E, na primeira oportunidade, Gilbert retribuiu o “favor”, provando da pele tenra do pescoço desprotegido dela. A húngara respondeu ao estímulo encolhendo-se um pouco para permitir que ele explorasse sua fraqueza; nada mais justo. Ela pressionava-se contra ele, querendo mais daquela sensação que ele a proporcionava. Embora desejasse, não deixaria marcas em sua pele. Ainda.

Mas ela deixaria. Beijaram-se novamente até separarem-se de novo, rindo desajeitadamente um do outro.

— Você é bom.

— Eu sei. Mas você é melhor, confesso.

— Prática.

— Você poderia me dar umas aulas de amor, hmm?

— Talvez… Quem sabe.

De repente, as luzes piscaram e a energia finalmente voltara ao edifício. O elevador voltaria a funcionar dentro de alguns minutos.

Ficaram sentados naquela posição por mais alguns segundos até ela perceber o que estava acontecendo, finalmente. Ela levantou-se um tanto sem graça e recolhendo as peças de sua roupa; ele fez o mesmo, observando-a em segredo enquanto ela estava mais focada em sua atividade. Gilbert arriscou ajudá-la a abotoar os botões da camisa, sendo gentilmente aceito com um sorriso genuíno.

Em troca, ela o ajudou a pôr a camisa dele também, mas interrompeu-o antes que começasse a refazer os botões.

— Algum problema? — perguntou ele um pouco confuso.

— Está faltando uma coisinha só, — comentou ao inclinar-se para a frente, beijando-o no lugar em seu peito onde batia o coração prussiano. A marca do batom marcava-o como um tesouro num mapa. — Pronto.

— Pra que isso?

— Considere como um convite, — Erzsébet piscou para ele enquanto terminava de abotoar a camisa de Gilbert. — Eu vou jantar no restaurante japonês em frente ao hotel onde estou hospedada. Se isso não atrasar a sua viagem…

— Não acha que tá muito velha para encontros românticos?

— Restaurante japonês em frente ao hotel, oito da noite, — o elevador começara a descer. Ela beijou-o uma última vez, demorando um pouco antes de mordê-lo de leve nos lábios e rir discretamente. — Aliás, caso não saiba ainda, a noite não acaba na janta.

O elevador finalmente chegara ao térreo e Erzsébet piscou para ele antes de pegar sua bolsa e arrumar o cabelo. As portas se abriram e ela saiu, passando pelos técnicos que tentavam descobrir o problema que acabara de acontecer.

Gilbert simplesmente franziu o cenho com o seu sorriso maroto. Seria uma longa noite.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!