Notas iniciais
Essa história se ambienta baseada em algumas coisas que aprendemos com Animais Fantásticos, mas é principalmente sobre meu interesse sobre as escolas de magia e as diferenças entre elas. Para quem conhece minhas histórias, sabe como eu gosto dos pequenos detalhes do mundo mágico, e espero que apreciem essa nova criação. Também é um capítulo um tanto longo, mas é capítulo único, e vocês sabem que meus capítulos são geralmente assim. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

Você chama de esperança — aquele fogo do fogo!
Não é nada além de agonia do desejo.
— Edgar Allan Poe, “Tamerlane”

A biblioteca era seu lugar preferido em toda escola.

Não apenas pela sensação de segurança que os livros a passavam, ou porque era o lugar mais silencioso do castelo. Era, principalmente, pelo fato da biblioteca de Ilvermorny ser um verdadeiro labirinto. As estantes de livros não eram retas, nem enfileiradas; ao invés disso, formavam corredores sinuosos e bifurcações –às vezes, alunos se perdiam lá por dias e precisavam ser achados pela bibliotecária ou por um aluno da Casa de Horned Serpent, cuja entrada para o Salão Comunal ficava num dos corredores mais ao fundo, de mais difícil acesso da biblioteca, e, por isso, seus estudantes sabiam se guiar por ela como mais ninguém.

Helena estava escondida numa seção sobre criaturas das trevas. Na semana anterior, se escondera na sessão de maldições, mas fora achada lá, e Sabrina a lançara um olhar inteligente, como se a pudesse ler. Helena não precisava que ninguém a lesse. A seção de criaturas ficava ainda mais ao fundo, e Sabrina, por também ser da Casa de Horned Serpent, a acharia se assim quisesse, mas Helena deixara claro que gostaria de ficar sozinha, e achava que a amiga respeitaria sua decisão.

Não que ela devesse ter amigos, de qualquer forma, pensou amarga, usando a varinha para afastar uma mecha castanha de seu rosto. Sua mãe sempre deixara bem claro que a única a acabar machucada seria ela. Ainda assim.... Ninguém podia viver sem nada. Era como não existir, não ter ninguém no mundo que não se importasse.

Quando ouviu alguém se aproximar pelas suas costas, Helena fez um esforço para se convencer de que não tinha nada a ver com ela. Vários de seus colegas poderiam estar indo àquela seção específica. Mas mesmo enquanto dizia isso a si mesma, sabia que era mentira; o que foi logo confirmado pelo som das pernas de madeira da cadeira raspando o chão de ladrilhos quando alguém se sentou ao seu lado. Se eu o ignorar, ele vai embora, disse a si mesma, mas essa era apenas outra enganação. Ele não iria.

Thomas Twelvetree pigarreou, arrumando os óculos intelectuais no rosto com um dedo, para se anunciar. Helena seguiu com os olhos grudados no livro, embora não o lesse, mas ele sabia que ela o havia notado. Havia uma série motivos para que não o encarasse: não queria encorajá-lo, não queria que ele pensasse que eram amigos, porque, embora andassem com as mesmas pessoas, não eram amigos, e, principalmente, não queria se perder na profundidade de seus olhos cor de avelã.

—O pessoal vai andar até Salem mais tarde, colher abóboras. –Ele anunciou. –Por que não vem conosco?

Ele estava, é claro, falando da Salem original, uma histórica cidade bruxa onde havia ocorrido uma série de assassinatos por caça às bruxas alguns séculos antes. A Salem dos não-majs era apenas um feitiço Confundos bem aplicado. A Salem original havia sido fundada por bruxo, e por isso devia permanecer na comunidade mágica, como um lembrete, e dessa vez protegida daqueles que em outra ocasião a haviam ameaçado.

Helena fingiu estar ocupada fazendo uma anotação no pergaminho ao seu lado, mas na verdade estava apenas copiando um pedaço do livro que nem mesmo a interessava sobre lobisomens e sua relação com animagos. Não importou. Thomas esperou pacientemente. Ela quis saber porque ele estava ali. Thomas era popular: alto, com ombros largos, cabelos castanhos e o rosto de um herói de guerra americano, todo ângulos e cores em sépia. Era da Casa Wampus, dos guerreiros, e podia ter os amigos que quisesse, mas andava com o grupo de Helena, uma estranha mistura de várias Casas. No fundo, pessoas que não se davam bem em nenhum outro grupo.

Além disso, Helena de fato tinha uma boa desculpa para não ir a Salem, apenas não podia dizê-la em voz alta nem para si mesma. A primeira delas, era que nem devia, jamais, ter se dado ao luxo de fazer amizades em Ilvermorny, e ainda relutava em fazer todas as atividades possíveis com o grupo. O segundo motivo era que estavam no último ano de escola e seus amigos não conseguiam falar de nada além de seus planos para o futuro: carreiras, viagens e afins. Helena não tinha planos, porque não tinha futuro. Seus dias estavam lamentavelmente contados desde o minuto em que nascera, e não havia nada a se fazer sobre isso.

—Detesto abóboras. –Foi o que disse, por fim. Não era mentira, apenas não o motivo verdadeiro.

Ela pôde sentir o olhar de Thomas queimando na lateral de seu rosto e lutou contra o impulso de se esconder atrás dos cabelos. Desejou que ele não insistisse. Não importava o quanto mentisse para si mesma, ou mesmo o quanto odiasse verdadeiramente abóboras, ela teria adorado ir ao vilarejo com o resto do grupo. Havia sido uma daquelas coisas difíceis de se fazer, negar a eles o passeio, mesmo com a insistência de Elizabeth. Se Thomas insistisse, ela sabia que não seria capaz de negar –especialmente não para ele

—Certo, você não gosta de abóboras. –Ele cedeu, então apoiou um queixo quadrado na mão, ainda a observando. –Mas eu posso a fazer companhia de qualquer forma. Sem abóboras, prometo.

Helena quis sorrir para a gracinha. Quis olhar para ele. Ao invés disso, pousou a pena na mesa, se preparando para fazer o que era difícil, porém necessário, e fixou os olhos na parede forrada de madeira à sua frente.

—Às vezes, Twelvetree, quando alguém demonstra querer ficar sozinho, essa pessoa realmente quer ficar sozinha. –Disse calmamente. Não tinha a força para ser fria, então sua voz soou apenas cansada e distante.

Mesmo pelo canto do olho, ela pôde ver a garganta de Thomas se mexendo conforme ele engolia em seco. Tirou a mão do queixo e a apoiou na mesa para se levantar, o corpo masculino que já aparentava ser o de um adulto se erguendo, esguio e forte, fazendo sombra em seu livro. Ele lentamente colocou a cadeira de madeira de volta em seu lugar e se virou para sair. Helena quis observar sua saída, mas não o fez, porque não podia ser flagrada no ato.

Antes de dobrar o corredor, ele se virou.

—Seria mais fácil se eu acreditasse que você quer dizer mesmo isso.

Então, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, saiu de verdade.

Helena tinha ficado boa em não chorar depois daquele tipo de situação, então apenas deixou sua cabeça cair sobre o tampo marrom da mesa, fechando o livro com um suspiro. Não ficou muito tempo na biblioteca depois que ele saiu. Havia uma coisa ainda melhor do que chorar que ela sabia fazer.

O campus de Ilvermorny era uma série de prédios próximos separados por um pátio com uma fonte e não um castelo, como ela soubera que eram algumas outras escolas de magia. O prédio da biblioteca era onde ficava o Salão Comunal de Horned Serpent, mas também as classes de História da Magia, Runas Antigas e Aritimância. Não sabia onde ficavam os Salões Comunais das outras Casas, mas os estudantes de Pukwudgie pareciam dormir no mesmo prédio do Salão de Refeições e da sala de Estudos dos Trouxas, que era o prédio mais baixo, porém mais largo, onde flores e hera cresciam pelas paredes do lado de fora, formando um papel de parede natural, e sempre tivera a impressão de que os aventureiros de Thunderbird ficavam no prédio mais alto onde tinham aulas de Astronomia.

A bruxa de olhos cinzentos passou por todos esses lugares. O outono havia chegado em definitivo, e o chão estava cheio de folhas amareladas e marrons, trazidas das florestas que se estendiam pelo Monte Greylock pelo vento frio da estação. Coloriam o campus de laranja e amarelo, mas, quando Helena pisava nelas a caminho da floresta, soavam como ossos de pequenos animais se esfarelando sob seus pés.

Ao chegar à beira da floresta, igualmente laranja pela estação, deu um olhar para trás para verificar se ninguém havia ficado curioso a ponto de seguir a solitária capa marrom cruzando o pátio. Mas era sábado e a maior parte de seus colegas devia ter ido para a vila, e os que não foram deviam estar tomando tempo para estudarem trancados em suas salas. Helena lançou um último olhar antes de andar para dentro da floresta, no já conhecido caminho para a árvore que marcara como sua aliada.

A árvore era um comum abeto, exceto pelo buraco em seu tronco, espaçoso o suficiente para que Helena guardasse suas roupas enquanto as despia. Se despiu de tudo; da capa, do suéter, da saia, meias, sapatos e mesmo do laço vermelho de veludo que prendia seu cabelo. Enfiou tudo, mais a varinha, no tronco, que já tinha um feitiço permanente de disfarce. Nua, sozinha, descalça na floresta, sentiu o vento frio de outono a acariciar como um amigo íntimo. Qualquer colega que a encontrasse ali naquela situação acharia que estava fazendo uma performance dos rituais antigos de Salem, mas era algo muito mais obscuro.

Helena fechou os olhos e quando os abriu de novo, sua linha de visão estava onde antes ficavam seus joelhos, mais ou menos. As folhas no chão, porém, haviam ficado mais cinzentas, e seu cheiro era mais forte. Helena ouvia tudo; um passarinho batendo asas tão rápido quanto um coração batendo, voando acima da árvore à sua cabeça; a respiração de um esquilo dormindo no topo de abeto. Tinha a impressão de que sua transformação ficava cada vez mais fácil, mais natural. No começo, era como se despir de sua capa humana, agora era como deixar que a humanidade escorresse dela como água. Mais de uma vez, considerara parar para sempre, mas lera, em várias fontes confiáveis, que isso não a adiantaria de nada. Um dia, ela acordaria e não seria mais humana. Não havia nada a se fazer sobre isso. Então, como uma raposa vermelha, e não mais uma garota, mas ainda com os mesmos olhos cinzentos, ela correu para longe da escola, mas principalmente para longe de si mesma.

O dormitório de Horned Serpent era um quarto simples, com quatro camas, uma para cada aluan do sétimo ano. Os colchões se erguiam sobre pilhas de livros ao invés de madeira. Livros de Poções e Feitiços, mas também romances não-mágicos e bruxos. Não era difícil perderem seus próprios livros de escola por entre os exemplares de apoio, como eram chamados, e frequentemente as meninas perdiam longos minutos procurando por livros-texto sumidos.

Naquele momento, porém, Helena estava apenas fingindo cochilar na cama logo abaixo do papel de seda que forrava a parede, com estampa de lírios e flores de amêndoas. Tinha as tardes de quinta-feira livres, o que significava que podia se trancar na biblioteca para pesquisar em silêncio. Naquela tarde, achara que poderia levar os livros para o dormitório e estudar lá, mas então Bella e Jessica, suas duas colegas de dormitório menos simpáticas do que Sabrina, que estava na aula de História da Magia, haviam aparecido para conversar, e Helena decidira que fingir dormir era o melhor modo de evita-las.

Logo percebeu que não era uma visita rápida e que sua estratégia era na verdade inviável, a não ser que tentasse dormir de verdade. A melhor escolha que tinha era fingir estar acordando, talvez até mesmo insinuar que a conversa das duas a havia acordado para fazer com que se sentissem culpadas, então sair de fininho de volta para a biblioteca, ou talvez o pátio. Era um agradável dia ameno de outono, um dos últimos dias amenos que teriam antes da chegada do inverno, e talvez o devesse aproveitar.

As duas colegas se viraram para ela quando lentamente jogou as pernas para fora da cama e fingiu se alongar.

—Harkaway. –Cumprimentou Bella Fontaine, que seguia a chamando pelo sobrenome embora dormissem no mesmo dormitório há seis anos, quase sete. –Twelvetree estava procurando você na biblioteca quando passamos. Não quis acordá-la, mas agora talvez devesse procurar por ele.

—Obrigada. –Respondeu secamente, ao passar pelas duas, pegar sua capa marrom cor de latte, e sair porta afora.

Não tinha a menor intenção de se encontrar com Thomas. Ao invés disso, pretendia ficar no pátio estudando, pois quem a procurasse, o faria na biblioteca. No pátio, seria deixada em paz. Então, na hora do jantar, poderia se juntar à Sabrina na mesa, onde provavelmente também encontraria Thomas, mas podia mentir e dizer que não recebera seu recado. Ou melhor, que não se importara com ele. Se magoá-lo era o que era necessário para afastá-lo, Helena o faria, sabendo que doía mais em si do que nele.

Mais uma vez, seu plano não foi longe.

O hall do prédio da biblioteca era um espaço amplo como o salão de um museu, porém com menos quadros, e um par de cadeiras a cada janela, com uma mesa de xadrez cheia de peças entre elas. Fora isso, era impossível passar despercebida pela pouca decoração; o chão era de porcelana cor de creme e suas botas fariam um barulho ao andar que ecoava pelo hall todo, até a saída. Por isso, assim que saiu da biblioteca de cabeça baixa para passar discretamente, e viu Ronan Carneirus, um de seus supostos amigos, apontar para ela com a cabeça, soube que havia sido pega no flagra.

Nada restou a se fazer exceto esperar, com uma expressão cuidadosamente neutra, que Thomas se destacasse do grupo de meninos de blusão e blazer com alguns acenos e andasse na direção dela; os sapatos oxford masculinos dele também fazendo o som de passos ressoar no hall. Ao contrário do que geralmente acontecia, porém, ele estava com os olhos cor de avelã sérios, e sua boca bonita estava espremida em uma linha ao se dirigir a ela.

Desconfortável, Helena puxou o cardigã cor de cranberry que usava por baixo da capa para mais próximo de si, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, os sapatos pretos de boneca fazendo um som de couro contra o piso quando ela se moveu.

—Como vai, Harkaway? Espero que bem. –Helena ignorou o fato de que ele nem a havia permitido responder o cumprimento; se ele não queria falar com ela, melhor para ambos. Mais fácil. A mentira, mesmo que fosse apenas para si mesma, deixou sua língua amarga. Ele carregava uma pilha de livros no braço, e destacou um deles para ela. O título, Magia Ancestral: Tribos Nativo-Americanas, se destacava em alto relevo na capa. –Olhe, tome isso. É um dos livros indicados para a cadeira de História da Magia esse semestre, que eu sei que você não está cursando. Apenas... leia os capítulos sobre Quileutes e Cherokees, tudo bem?

Helena abriu e fechou a boca, mais surpresa do que estivera em muito tempo.

—Eu... obrigada, mas...

—Prometa que vai ler. –Ele pediu, lançando um olhar por cima do ombro, para seu grupo de amigos que começava a sair do prédio, provavelmente em direção às suas próximas aulas. Quando os olhos avelã se voltaram para ela, estavam um pouco intensos demais. –Helena.

—Tudo bem. –Concordou, um pouco em transe. –Prometo.

Ficou observando, perplexa, enquanto ele assentia satisfeito e se afastava decidido. Helena ficou observando até que ele sumisse por entre as portas, antes de pousar os olhos no livro que ele havia posto sobre seus braços. Não pôde deixar de pensar que poucos alunos da Casa Wampus cursavam História da Magia. Por serem guerreiros de alma, geralmente se inscreviam para aulas mais práticas, como Duelos e Defesa Contra as Artes das Trevas. Apertando o livro seguro contra o peito, ela seguiu a caminhada para o pátio.

` À hora do jantar, Helena ainda não havia lido o livro de Thomas. Ao invés disso, ele estava bem guardado na bolsa à tiracolo de couro que todos os alunos usavam para as aulas. O Salão de Refeições era uma área um pouco escura, iluminada apenas por velas ao longo da mesa que formava um U no espaço, onde os alunos se sentavam, misturando-se independente da Casa à qual pertenciam. O papel de parede atrás da mesa era verde-escuro com padrões de rosas cor de chá e o piso era de ladrilhos marrons.

Sarah O’Brien estava sentava junto de Elizabeth MacDuff num dos cantos mais distantes da mesa, e Helena se juntou a elas sem cerimônias, diante do assado de cordeiro e da sopa de legumes. Não pôde deixar de observar Thomas e Ronan do outro lado do salão, conversando apenas um com o outro, embora alguns garotos claramente tentassem fazer parte da conversa. Não que eles estivessem sendo esnobes, apenas quietos. Não olharam na direção das meninas, e Helena disse a si mesma para não se decepcionar.

—Eu sempre quis ser magicontorcionista. –Comentou Elizabeth, dando uma mordida em sua torrada e mastigando pensativamente, enquanto lia a seção de entretenimento do jornal. Os olhos de Sabrina, o rosto emoldurado por cachos dourados, encontraram com os de Helena, e ela sorriu. –Você sabe, trabalhar num circo mágico.

Pelo que sabia, Elizabeth era mesmo muito boa no assunto. Podia subir metros em tecidos de seda e se contorcer como uma cobra. Era provável que, porém, a própria Helena tivesse mais facilidade no circo, por causa de sua maldição. Já tinha ouvido falar de casas de apresentação, circos e mesmo coisas menos classudas, como prostíbulos, que ficavam felizes em terem uma Maledictus para se apresentar.

—Duvido que seja tão glamoroso quanto imagina. –Foi tudo que Helena respondeu.

O jantar foi, de resto, silencioso. Sabrina e Helena se despediram de Elizabeth após a refeição e foram para o prédio ao lado, onde ficava seu dormitório vazio. Suas duas colegas estavam sumidas, mas nenhuma das duas se importava particularmente com isso. Conversaram brevemente sobre as aulas enquanto se trocavam, colocando suéteres confortáveis e meias quentes no lugar no uniforme, e então se deitaram cada uma a sua cama, com seus respectivos livros.

Abriu o livro dado por Thomas. Não esperava, na verdade, nada dele, mas, na contracapa, em uma letra legível e inclinada, estava escrito:

Helena, bonita como a de Troia
Igualmente desafortunada
Para você um livro,
Para ela, uma adaga.

Helena leu a dedicatória mais de uma vez, reparando não apenas nas palavras, na rima e em seu significado, mas na letra escrita com tanta delicadeza que era como se a pena houvesse flutuado por sobre a página, derramando tinta como se dançasse. Então afastou os pensamentos, e passou a página, determinada a esquecer, olhando o índice a procura do que ele dissera que ela devia ler mais atentamente: Quileutes e Cherokees.

Como as tribos estavam listadas em ordem alfabética, abriu na página de Magia Cherokee primeiro.

Havia uma longa introdução sobre a história da tribo e o modo como foram levados de um lado para o outro da américa por colonos não-majs. Helena leu essa parte com interesse, mas também com curiosidade; o que, possivelmente, podia haver ali que Thomas pensara que seria do seu interesse? Então ela achou.

Os Cherokees eram cheios de lendas. Sobre lobos e cobras. E sobre pessoas que se transformavam em animais por causa de maldições. Seu coração ficou gelado, quase parado em seu peito, por um longo instante, após ler a lenda do Cherokee que sabia não poder comer carne de esquilo, mas comeu mesmo assim, e por isso se transformou para sempre em cobra. Vários pensamentos inundaram sua cabeça: o primeiro deles que não havia feito nada errado para ser amaldiçoada, era uma questão de família. Seu pai havia se transformado em raposa em certa idade, e seu avô antes dele, e ainda sua bisavó. Segundo sua mãe, quando Helena nascera, já era capaz de se tornar uma pequena raposinha filhote, e assim eles souberam que ela não teria futuro.

A segunda coisa que pensou era que ele sabia de seu segredo. Helena pensara que o estava guardando bem; jamais falara sequer a palavra em voz alta que nomeava o que ela era. Nunca compartilhara com nenhum de seus amigos, e apenas a diretora da escola sabia de sua condição. De alguma forma, Thomas descobrira. Talvez observando os livros que ela mais lia na biblioteca, talvez a tivesse visto se transformar em alguma ocasião.

Por fim, não sabia o que ele queria a dando aquele livro. Talvez apenas avisá-la que sabia de sua maldição, talvez assustá-la. Mas o poema na dedicatória não sugeria isso. Comparara o livro com uma adaga, ou seja, com uma arma. Como residente da Casa de Horned Serpent, Helena sabia que todo conhecimento era uma arma, e era poderoso. Mas o que ela havia descoberto?

Quando passou para as lendas Quileutes, quase pulou a introdução. Agora já sabia o que procurar e não precisava vagar cega entre as páginas. Com os Quileutes, as lendas tinham a ver com lobos, mas estas eram diferentes. Os índios Quileutes pareciam ter controle sobre sua transformação, não serem escravos dela –e jamais, segundo as lendas, parecia haver um momento em que se tornava permanente. A pesquisa não parecia extensa ou específica, entretanto, e jamais Maledictus eram citados, embora animagos o fossem, por isso Helena não se permitiu ter esperança. Jamais havia se permitido ter esperança até agora.

Quando dormiu, com o livro sob o travesseiro, teve um sonho agitado com cobras falantes, lobos e raposas, mas foi um sonho agradável. No sonho, não havia medo, apenas a Transformação, do jeito que era; ver de uma altura e perspectiva diferente, ser ela e ser outro ao mesmo tempo. Pensando assim, era agradável ser raposa, quando ela não estava preocupada se ficaria para sempre assim.

De manhã, sentiu como se não houvesse dormido coisa alguma. Seu dia de sexta-feira era cheio de aulas: Duelos e Defesa Contra as Artes das Trevas de manhã, então Poções e Herbologia à tarde. Thomas não estava em lugar algum no café-da-manhã, e Helena olhava para as portas do Salão de Refeições a cada vez que entrava um novo aluno, até que Sabrina baixou os talheres de prata no prato com um estrondo.

—Helena, o que você tem? –Perguntou, num tom curioso.

Não era para menos. Helena era no geral quieta, calada e sucinta. Raramente demonstrava especial interesse ou agitação com coisa alguma, então seu novo comportamento era no mínimo alarmante. A bruxa fez um esforço para se aquietar no banco de madeira.

Thomas estava na aula de duelos, mas eles foram alocados em extremos opostos da sala; ela fazendo dupla com Bella Fontaine, e ele com Elizabeth. Bella era uma adversária competente, por isso não podia ficar desviando sua atenção para o garoto do outro lado, mas não pôde deixar de notar que os olhos dele a evitaram quase que conscientemente. Um par de vezes, ela pensou tê-lo visto virando os olhos para o seu lado, então os fechando com determinação e focando-os de volta em sua dupla. Helena se perguntou se a frustração a mataria até o fim do dia. Então isso era ter esperança, notou, surpresa. Se importar com o que aconteceria. De repente, ela se importava com o que Thomas tinha a dizer para ela.

Se importar não queria dizer que de repente o mundo se ajeitava para atender seus desejos. Ele não estava na mesma classe que ela em Defesa Contra as Artes das Trevas, e o almoço foi uma refeição rápida, principalmente porque Sabrina parecia agitada com a inscrição para o MACUSA que chegara pelo correio para que ela preenchesse, e Helena se juntou à amiga, lendo os detalhes por cima de seu ombro enquanto ela assinava com uma pena de sangue nos pedaços marcados.

Já havia aceitado que teria que abordá-lo após o jantar quando, por algum tipo de movimento do destino, encontrou Thomas num corredor vazio enquanto corria atrasada para a aula de Poções. O corredor ficava no segundo andar, e tinha algumas janelas de vitrais na lateral voltada para o pátio, um pouco sujas de folhas de outono molhadas pela chuva. O livro em sua bolsa à tiracolo pesou em seu ombro quando Thomas hesitou ao lado de uma mesa de xadrez bruxo colocada num canto, e Helena apertou a varinha.

Thomas estava andando na direção dela quando Helena levantou a varinha, a apontando em riste para o seu coração. Ele parou onde estava, mas não havia hesitação em seu semblante.

—Como descobriu? –Helena questionou, levantando a varinha mais alto. –Vai me entregar?

Ele se afastou um pouco dela, um passo para trás, parecendo mais ferido do que intimidado. Suspirou, fechando os olhos com força no ato.

—Agora, vamos lá, Helena, porque eu a entregaria? –Perguntou, a voz cheia de sensatez. –Você não é perigosa. –Helena fez um som com a garganta indicando que pensava o contrário, mas ele ignorou. –Não vê o que estou fazendo? Sei que é sobre isso que pesquisa em seu tempo livre, e eu também estava pesquisando pelas suas costas. Então encontrei isso e....

Helena o interrompeu.

—Então ninguém mais sabe? –Pensou que sentiria alívio, mas, de alguma forma, não foi isso. Era quase decepção.

—Apenas eu. –Ele garantiu.

Ela baixou a varinha para o chão.

—O que, exatamente, você descobriu?

Ele se aproximou um passo, parecendo testar se podia se aproximar. Como ela não levantou a varinha mais uma vez, ele cobriu o espaço entre eles até estar um pouco mais perto do que uma conversa casual exigia que estivesse. Era mais alto que ela, e quando olhava para baixo os cabelos castanhos caiam sobre seus óculos redondos de aros finos, mas ele não pareceu se importar.

—Apenas o que mostrei para você agora. –Disse, com um tom de desculpas, como se devesse saber mais. –Mas, talvez, se pudéssemos encontrar os índios das tribos indicadas para fazer algumas perguntas...

—Ninguém no mundo bruxo tem a cura. –Helena suspirou. Já havia ouvido aquele argumento de sua mãe um milhão de vezes.

—Eles não estão exatamente no mundo bruxo, estão? –Thomas insistiu. –Se conseguíssemos uma permissão da diretora Steward, poderíamos...

A bruxa o interrompeu mais uma vez.

—Thomas. –O seu tom era subitamente muito sério. Ele focou os olhos nela mais uma vez. –Agradeço o que está fazendo, realmente. Mas eu vivo com isso há dezessete anos. Meu pai e meu avô morreram disso. Me desculpe se não acho que haja esperança para mim. Você também não devia ter. Não há nós. É mais seguro para todos ao meu redor se só houver eu; sozinha.

Helena não esperou que ele respondesse, ou sua conversa a deixaria esperançosa mais uma vez. Ao invés disso, o contornou, em direção à aula de Poções, como se nada houvesse acontecido. Estava arrasada por dentro, mas era melhor cortar o meu pela raiz. Helena estava acostumada a ter suas esperanças destruídas, mas era melhor que Thomas não deixasse as dele chegarem muito longe, ou seria mais doloroso. Nem sobre sua doença, nem sobre ela. Sua verdadeira maldição era ficar sozinha, e isso era tudo.

Uma das regras da diretora Steward para sua presença no castelo era que fosse examinada mensalmente na ala hospitalar.

Helena não sabia o que pretendiam com isso. Não era como se a sua Transformação ocorresse aos poucos; presas e olhos de raposa, focinho e então calda. Ocorria tão rápido que às vezes ela achava estar no meio, mas já havia terminado. Se dobrava sobre si mesma e seus ossos mudavam, suas orelhas cresciam e seu focinho se inclinava para frente. Já havia feito isso diante do grande espelho de ouro de seu quarto em casa, e ficara surpresa ao notar que havia certo prazer em assistir. Era quase bonito, a mágica acontecendo.

Então, todo fim de mês, ela suspirava e se movia para a ala hospitalar. Aquele dia foi, se possível, ainda pior do que os outros. As abóboras que os alunos haviam comprado no vilarejo foram transformadas em decorações pelo castelo, para o Halloween, e Helena se esquivava do cheiro como algumas pessoas se esquivavam de um animal peçonhento, mas não havia forma de escapar do doce enjoativo.

Mas, apesar do cheiro e das abóboras, ela fez seu caminho até a ala hospitalar. Madame Ragnoll esperava por ela atrás de sua mesa branca no fundo do longo cômodo cheio de leitos vazios; e levantou os olhos verdes-oliva por de trás dos óculos com inteligência, abrindo a gaveta e puxando de lá uma pilha de pastas, começando a murmurar baixinho. Helena sabia o que murmurava, porque aquela cena era exatamente o que acontecia mensalmente, mais como se estivesse revivendo um sonho há muito repetido do que como se passasse por aquilo de novo.

—Helena Harkaway, Harkaway... –Ela passava as pastas, procurando pela certa. –Aqui. Sente-se, menina.

Helena se sentou. Não na cadeira à frente dela, mas num dos leitos brancos vazios. Com agilidade surpreendente ara sua idade, Madame Ragnoll saiu de trás da escrivaninha e foi até ela com a varinha em mãos. Não pediu licença ao enfiar a varinha acesa pelo feitiço Lumus em seu rosto, verificando suas pupilas. Ela apenas murmurava “hums” e “ah’s! ”, sem jamais falar a Helena o que via em seu rosto, mas Helena não se preocupava. Aquelas consultas eram apenas uma formalidade, para que, caso sua condição fosse a público, a diretora pudesse dizer que mantinha um olho nela, e que o resto dos alunos estavam seguros.

Em seguida fez um exame que consistia em um feitiço de batimentos cardíacos, que soavam altos e constantes, reverberando na ala hospitalar como se de repente ela estivesse presa em sua caixa cardíaca. Quando terminou, a enfermeira se afastou dela mais rápido do que se afastaria de alguém com varíola de dragão, mas Helena não ficou surpresa.

—Você pode ir, Srta. –Foi tudo que disse.

—Obrigada, Madame Ragnoll. –Respondeu automaticamente.

Como sempre fazia, foi à biblioteca. No mês de outubro, além de todas as vantagens que tinha geralmente, a biblioteca não era decorada com abóboras, então se tornava o único lugar, além dos dormitórios, seguro da escola. A ala hospitalar ficava no prédio baixo do Salão de Refeições, e ela teve que atravessar o campus para voltar, seus pés esmagando folhas enquanto caminhava. Haviam alguns alunos no pátio, aproveitando o último resquício de bom tempo antes que caísse a neve do inverno, mas ninguém prestou atenção nela.

Ao escolher uma mesa isolada na biblioteca labiríntica, tirou da bolsa à tiracolo o livro que Thomas a dera. Na semana anterior o lera tantas vezes que tinha a impressão de ter decorado as duas narrativas que ele queria que ela lesse, mas aprendera a passar pela dedicatória como se não estivesse lá, porque assim machucava menos a si mesma.

Thomas não a havia mais procurado, até aquela tarde. Por isso, quando alguém surgiu na sessão de lendas, onde ela se encontrava, nem aguçou os ouvidos esperançosamente, torcendo para que fosse ele ao mesmo tempo que desejava amargamente que não fosse.

Ainda assim, não ousou levantar o rosto quando ele se aproximou. Às vezes, fazia isso porque era mais fácil afastar as pessoas se não visse o olhar no rosto delas, mas daquela vez foi porque tinha vergonha de seu comportamento para com alguém que jamais fizera nada além de tentar ajuda-la. Tinha vergonha de ter admitido para ele uma fraqueza; a de que era imensamente solitária.

—Não devia estar praticando para a próxima aula de duelos? –Ele perguntou com tranquilidade e familiaridade, como se fossem amigos. –Vamos praticar feitiços não-verbais de defesa, você sabe.

—Você não devia estar indo a Salem com o resto do pessoal? –Helena devolveu a pergunta. –É dia de colheita; e há maçãs e abóboras para todos até onde sei.

—Eu estava cultivando esperanças de que pudesse convencer você a ir comigo.

O tom dele era absolutamente despretensioso, de alguém que não queria dizer nada além do que já dissera; e o tom de alguém que falava a verdade. Helena suspirou longamente.

—Como pode, Thomas? –Não olhou para ele ao perguntar. –Sabendo o que sou?

O garoto suspirou também, só que com muito mais drama e ênfase no ato.

—Você quer dizer que isso tudo é por você ser da Casa dos inteligentes e eu da dos guerreiros? –Perguntou muito sério. –Helena, isso não importa para mim.

Helena fechou os olhos com impaciência, então, finalmente, virou o rosto na direção dele.

—Seria de se esperar que se importasse com o fato de eu ser uma criatura das trevas que, até onde você sabe, pode mata-lo a qualquer instante.

Thomas teve a audácia de rir.

—De onde você tirou isso?

—É o que a maioria dos livros vai dizer a você, e o motivo para ser um tabu. –Respondeu Helena, com ar de quem sabia das coisas.

Ela não achava que eles já tivessem tido uma conversa tão longa sozinhos, olhando um para o outro tão de perto; os olhos cor de avelã deles eram como o outono, agradáveis e talvez um pouco decadentes, e os olhos cinzentos dela eram reticentes, cheios de hesitação. Ele podia ver isso mesmo através da hostilidade. Levantou uma mão para o rosto oval dela para ver se a bochecha era mesmo tão macia quanto parecia, mas, antes de chegasse lá, a abaixou.

—Você parece apenas humana para mim. –Disse, suavemente.

Helena poucas vezes em seus sete anos de educação mágica havia tomado a trilha por entre o Monte Greylock para a vila de Salem. Seus amigos o faziam com frequência. A eles era permitido visitar o vilarejo em quase todos os sábados, exceto em dias de prova ou festividades. O caminho estava adorável; flores eram cultivadas na trilha: rosas vermelhas e crisântemos dourados, amarelos, bronze e laranjas, na cor do outono.

Thomas estava sendo perfeitamente agradável –e razoável. Não insistiu em sua maldição, não falou em tribos indígenas. A perguntou como iam seus estudos para os Testes de Nível em Magia, os famosos TNM’s que tinham ao final do sétimo ano e que decidiriam se conseguiriam entrar em uma boa carreia pós-escola. Helena não o disse que o futuro não a preocupava. Seu pai passara pela Transformação aos vinte e cinco anos, e seu avô ainda mais cedo. Isso a dava uma média de sete anos de vida, e não tinha intenção de perde-los dentro do MACUSA.

Ela ajeitou o cachecol vermelho-cranberry ao redor do pescoço, e notou Thomas a olhando de lado com interesse, então corou quase até a cor do cachecol. Havia colocado um não particularmente atraente suéter cor de café, com botões nas mangas, e saia cor de creme. Em Ilvermorny, fora dos horários de aula os alunos tinham permissão para que se vestissem como bem preferissem, e suas colegas de dormitório usavam roupas bem mais provocativas que ela, o que a fazia se sentir um pouco menos mulher do que elas. Mas naquele momento, Thomas a olhava com o que ela pensou ser desejo.

Ele a observou ajeitando o cachecol no pescoço mais uma vez e entendeu sua vergonha como frio.

—Aqui. –A indicou o casaco marrom-claro de couro de dragão que usava. Helena hesitou, mas ele se posicionou atrás dela, já tendo tirado o casaco e ajudando-a a vesti-lo. –Pronto. Melhor?

Helena fez que sim com a cabeça, mas foi uma suposição. Ainda sentia suas bochechas quentes queimando, e o casaco dele também era quente, aquecido pela sua temperatura corporal. Thomas não pareceu se importar em ficar apenas com um suéter azul de lã, mas mesmo assim eles se apressaram pela trilha. Quanto mais cedo chegassem a uma estalagem quente, melhor seria.

A vila de Salem se abria de repente quando subiam a colina. A estrada principal estava repleta de carruagens, como se estivessem décadas atrasados no tempo, exceto que os cavalos eram abraxanos alados, magros e graciosos, etonianos marrons e fortes e granianos velozes. Lojas se estendiam pelas ruas e bruxos usando capas de viagens e roupas antiquadas entravam e saiam com pressa: lojas de animais com corujas piando, gatos miando e pufosos estendendo suas línguas azuladas até os ouvidos dos outros animais, para comerem a cera ali. Mais à frente, loja de escriba, com penas de luxo na vitrine, de fiuum e agoureiro, e tintas multicoloridas. Uma loja de acessórios anunciava um novo carregamento de carteiras de couro de briba, que se encolhia ao toque de um estranho, e luvas de couro de dragão.

O par de bruxos não parou para fazer compras; ao invés disso, se dirigiram direto ao Dragão Verde, pub da cidade, entre uma loja de poções embelezadoras e a doceria. Na porta do pub, uma placa com o desenho de um dragão cuspindo fogo de verdade anunciava o bar, que era verde como um pub irlandês por dentro.

Helena fez como se fosse sentar-se em uma mesa, mas Thomas a segurou e se dirigiu à atendente do pub: uma jovem bonita, talvez com uns trinta anos, que era ex-estudante de Ilvermorny, da casa Wampus como ele.

—Tessa, querida, chegou aqui um homem chamado Aaron White?

A garçonete se virou com um sorriso brilhante.

—Está esperando por você na mesa cinco. –Anunciou. –Está bebendo água de gilly. Devo levar o mesmo para você e sua acompanhante.

Thomas teve o cuidado de olhar em seus olhos esperando anuência, e quando ela consentiu, ele fez o pedido a Tessa. Helena se virou e perguntou quem era o homem com quem ele havia marcado um encontro e, quando viu Thomas corar um pouco, soube exatamente o porquê de ele a ter arrastado até ali.

—Não. Thomas, não.

—Apenas vamos ouvi-lo. –Ele insistiu, bloqueando sua passagem quando ela se virou para sair pela porta verde por onde haviam entrado. –Vamos lá, Helena. Apenas ouvir o que ele tem a dizer.

A volta para a escola foi silenciosa. Helena podia sentir o peso entre os dois. Devia ser uma caminhada agradável; o céu estava laranja no crepúsculo e lançava luzes amareladas por todo o caminho, deixando as flores em um tom agradável de bronze e cobre. As árvores ao seu redor eram nodosas e tinham altas copas, onde pássaros cantavam suavemente para o descansar do sol.

—Eu sei que você avisou. –Disse Thomas, finalmente.

Helena sorriu para ele com gentileza.

—Eu jamais esfregaria isso na sua cara. –Respondeu suave. –Eu apenas vivo com isso há mais tempo que você.

—Você abandonou a esperança. –Ele acusou.

—Minha esperança é diferente da sua. –Ela sussurrou.

O senhor com quem encontraram era, afinal, um ancião Quileute. Falara para eles como se dava a Transformação em sua tribo. Não nasciam podendo se transformarem, era algo que ocorria quando ficavam maduros o suficiente apenas. Era mais um tipo de animagia de sangue do que uma maldição; também podia abrir mão dela e envelhecerem como homens quando chegasse a hora. Helena não havia ficado particularmente surpresa: algumas coisas que o senhor chamado Aaron dissera eram coisas que ela havia previsto apenas lendo o livro indicado por Thomas. Ficou apenas agradecida que ele houvesse viajado um caminho tão longo por chave de portal para encontrar com ela.

Mas ela podia ver a decepção em Thomas.

—Qual a sua esperança, então? –Ele perguntou, parando no meio da trilha.

Helena parou também, e deu dois passos de volta para encontra-lo. Parou de frente para Thomas e estendeu a ele suas mãos frias. As dele estavam ainda mais geladas. Helena trouxe as mãos dele até suas bochechas, forçando-as a emoldurarem seu pequeno rosto oval, e colocou os olhos cinzentos nele. Seu rosto estava quente, as bochechas vermelhas de sangue e vergonha.

—Você está tão frio. –Comentou. Ele esperou sua resposta calado, os olhos cor de avelã perscrutando seu rosto. –Há coisas que quero fazer. Lugares que quero visitar. A Inglaterra. Paris. Tenho algum dinheiro herdado do meu pai, o suficiente para me manter.

—Eu não poderia ir com você? –Ele engoliu em seco.

Helena soltou as mãos dele, e estas escorregaram pelo seu rosto, de volta para as laterais do corpo de músculos magros que era o dele. Ela se afastou dele um passo.

—Você tem uma vida pela frente. –Foi o que respondeu. –Não tem porque viver cada dia como se fosse o último.

—Há certo romantismo nisso.

—Apenas quando não é literal. –A voz de Helena foi severa. –Pergunte a minha mãe se não acredita em mim.

Thomas não respondeu. Dando a conversa por encerrada, Helena voltou a andar pela trilha, pé ante pé, pensando que, em sua forma de raposa, os cheiros e sensações das folhas e terra e grama sob suas patinhas macias eram bem mais agradáveis.

—Helena. –Ele chamou de novo. Ela se virou em seu lugar; ele não tinha se movido do dele. –Me deixe procurar. Vou aos Cherokee agora. Me deixe acompanha-la aonde for.

Helena o encarou. Havia dito não tantas vezes, vez pós vez, e machucava a si mesma e aos outros quando o fazia. Dissera não à maioria de seus colegas, dissera não a inúmeros passeios em grupo, a encontros, e a Thomas. Ele havia recebido mais nãos do que o resto, mas ali estava, diante dela, a pedindo, consciente dessa vez sobre com quem lidava, a pedindo para que dissesse sim. Como era difícil ser sozinha, Helena pensou.

—Bem... –Ela hesitou. Era sua última chance de dar a resposta certa, mas ela estava tão cansada de ser correta. –Você pode começar me acompanhando de volta à escola, não é? Ou vai ficar parado aí?

Ele abriu um sorriso largo. Um sorriso um pouco tolo, talvez, até; infantil e verdadeiramente feliz. Helena sabia que não duraria. Como a sua homônima troiana, ela causaria tragédia ao longo de sua curta vida. Naquele momento, não pareceu importar tanto. Ela o estendeu a mão e Thomas a pegou.

De repente, alguém se importava, e ela existia.

Notas finais
Era isso que vocês esperavam de Helena? Gostaram do meu desenvolvimento de uma Maledictus? E Thomas, ele se meteu em maus lençóis? Maledictus foi uma das partes de Animais Fantásticos que me pareceu mais plausível. Na verdade, achei várias partes da história difíceis de engolir (CUIDADO, SPOILER); a morte de Leta, e o fato de ela ser a última Lestrange, por exemplo, quando sabemos que em algum momento mais tarde Rodolphus e Rebastan precisam nascer. Mas a história dos Maledictus realmente me interessou muito, e espero que o mesmo tenha ocorrido com vocês. Comentem se gostaram ou não!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!