Um Conto de Páscoa - Gabriel precisa de heróis
1 Apresentando Gabriel Agreste, um “sovina de amor”
Notas iniciais
Gabriel Agreste sempre foi um homem sério. Dificilmente era visto sorrindo em público e pouco falava de aspectos pessoais de sua vida. E ele fazia questão de manter essa imagem, pois acreditava que teria o respeito necessário que pouparia sua família do assédio da imprensa. E sua imagem não iria se sobrepor ao seu magnífico trabalho de estilista. Sim, Gabriel era muito bom no que fazia e sabia disso! Não poderia deixar seu estilo de vida, sua aparência nem mesmo suas opiniões interferirem no que ele realmente se importava em exibir: suas criações de moda.
Essa era sua imagem para o restante do mundo. Dentro de casa, porém, ainda que fosse rigoroso nas regras que impunha, ele era (por vezes) um afetuoso e descontraído pai e marido. Com o filho Adrien e a esposa Amélie gostava de compartilhar suas experiências, contar histórias, mostrar fotos de viagens, assistir filmes, conhecer restaurantes finos. Por força de seu trabalho, era constantemente visto em eventos badalados de moda, acompanhado de sua esposa e filho, que eram modelos de suas coleções. Não gostava tanto dessas festas e de dar entrevistas, mas lhe agradava ver sua família se divertindo e, por isso só esse sacrifício valia a pena.
Gabriel tinha toda sua vida sob controle e achava que nada poderia abalar essa estrutura. Mas, infelizmente, ele estava errado. Sua amada esposa, sem demonstrar qualquer desequilíbrio, brigas, sinais de depressão ou outra doença, ou seja, sem o menor motivo aparente simplesmente deixou o lar para não mais voltar. Levou consigo poucos pertences e deixou uma pequena carta que não dava pistas de seu paradeiro ou de sua motivação. Apenas dizia que seu amor por ele e pelo filho não mudou, que não era infeliz, mas que ela precisava ir. Somente isso. A ausência de sua mulher lhe doía muito. Mas o vazio de informações pesava ainda mais. Ele estava inconformado.
Depois disso, Gabriel mudou. Reduziu o número de funcionários com quem trabalhava diretamente e transferiu a principal parte de seu trabalho para sua própria casa. De lá, à distância, passava ordens e se comunicava com os empregados de sua grife. Diminuiu consideravelmente sua aparições públicas, evitando festas e até desfiles. Para o público, se tornou quase uma lenda urbana. E passou a ser dentro de casa o mesmo homem que era publicamente. Não sorria, não conversava nada além do estrito necessário, quase nunca erguia a mão para qualquer demonstração de carinho. Não transferia à voz qualquer leveza que pudesse transparecer afeição. Estava seco. Parecia sempre esperar o pior das pessoas, como se todas elas o fossem abandonar ou trair em algum momento.
E, claro, quem mais sentiu essas mudanças foi Adrien. Seu pai estava sempre ocupado para atender as pessoas, e com ele não era diferente. O jovem passava dias sem ver o pai, mesmo estando sob o mesmo teto. Aos poucos, Adrien conquistou algumas liberdades, sendo a principal delas deixar o estudo em casa e passar a frequentar uma escola. Mas, com o passar dos anos, seu pai passou a cobrar maiores notas, melhor desempenho em esportes, mais fluência em línguas, e frequência nos ensaios fotográficos que eram cada vez mais extensos. Tudo o que ocupava mais tempo do modelo e o afastava mais do pai. No fundo, Gabriel queria que Adrien tivesse muitos compromissos para não ter tempo de pensar na própria vida e, dessa forma, não arquitetar planos de sumir, fosse para procurar a mãe, fosse para fugir do pai. Seria uma estranha e incompreensível forma de prisão que Gabriel julgava funcionar bem para manter seu filho com ele.
Adrien também sentia falta da mãe. Mas essa experiência o tocou de forma oposta. Ele aprendeu a valorizar mais os amigos e qualquer pessoa por quem se importasse, e apegava-se mais aos bons momentos. E estar cercado desses novos amigos o fazia menos triste. Ele até sorria bastante, se permitia se divertir; animava a todos com seu otimismo, era bondoso e bom ouvinte. Estava sempre disposto a ajudar. Porém nada disso era notado por seu pai. Adrien e Gabriel eram agora estranhos um para o outro. Enquanto o jovem era generoso para com todos, o mais velho tornou-se de certa forma avarento, mesquinho de sentimentos até com o próprio filho.
Ambos, pai e filho, sentiam maior tristeza na páscoa, pois foi justo nessa data que Amélie deixou a família. Então, na Segunda de Páscoa, quando todas as famílias se reuniam para comer carneiro e confraternizar, era quando Gabriel se enfurnava mais em trabalho e Adrien era mais deixado de lado. Ou seja, não aconteciam mais os almoços em família, a troca de chocolates e o passeio pela cidade. A partir daquele ano, páscoa era, para Gabriel, sinônimo de isolamento e, para Adrien, reforço de seu abandono.
Fale com o autor