Um Conto de Morte
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Era domingo, nove e vinte e seis da manhã do dia 27 de dezembro de 2015.
Jackson estava em pé, parado, ainda atônito com o que tinha acabado de ocorrer: um motorista perdeu o controle de seu veículo e avançou em alta velocidade em direção à calçada onde o rapaz estava.
Instintivamente o garoto fechou os olhos e tentou pular para o lado, mas pela rapidez com que o automóvel se aproximava, Jack já esperava pelo impacto e a dor de ser atropelado. Ainda de olhos fechados, o jovem ouviu o som alto do carro chocando-se entre um poste de energia e um muro de uma residência.
O garoto de dezenove anos, Jackson de São Marcos, era um rapaz bonito, negro de um tom mais claro – ele identificava-se como "pardo" –, tinha olhos castanhos escuros e cabelos castanhos claros, os quais estavam cortados em estilo militar. Jack tinha como costume sair todas as manhãs de fins de semanas para fazer uma caminhada pelas ruas de Mauá, sua cidade natal.
"Essa foi por pouco", Jackson exclamou em pensamento quando abriu seus olhos e viu o veículo acidentado.
O jovem estava vestido apenas com uma camisa branca sem mangas, uma calça de moletom cinzenta e tênis de corrida.
— Hm, na verdade não. — Discordou dos pensamentos de Jackson uma garota pálida, mas de bochechas coradas, de lindos olhos azuis e cabelos dourados, que parecia um pouco mais jovem que o rapaz.
As roupas da garota contrastavam com a cor de sua pele: blusa, calça e sapatos pretos, incluindo também um cordão no pescoço com dois pequenos pingentes em forma de penas azuis, os quais combinavam com a cor de seus olhos. A moça tinha uma beleza que Jackson definiria como quase sobrenatural.
— Oi? — Questionou o rapaz, sem entender o que a recém-chegada queria dizer com aquilo.
Passou despercebido para Jack, mas aquela garota era a única que prestava atenção nele, com as demais pessoas da rua voltando sua atenção para o veículo acidentado. O próprio garoto esqueceu por um momento de que havia ocorrido um acidente bem na sua frente.
— Você está achando que se salvou por pouco de ser atropelado, mas está enganado. Você acabou de morrer, Jack. — Ela revelou.— Aquelas pessoas ali… Elas estão ao redor do seu corpo.
— Como é…? — Jackson não conseguiu terminar sua linha de raciocínio quando uma estranha sensação ruim se apoderou dele.
Ele não queria acreditar no que ouviu daquela desconhecida, mas, mesmo hesitante, ele correu até a multidão de curiosos, assustando-se quando ele atravessou as outras pessoas, como um espírito – o que de fato Jackson era agora –, constatando que a garota de olhos azuis estava dizendo a verdade, quando viu seu corpo no chão.
— Eu sinto muito. — A garota falou com sinceridade.
— Q-quem é você? — Gaguejou o espírito, confuso e assustado.
— Ainda não é óbvio? Eu sou a Morte. — Ela respondeu.
— Não, mas… Não… Não! Isso tá errado. — Jack desesperou-se. — Ainda tá muito cedo. Eu ainda nem consegui entrar na faculdade. Merda, e quanto à minha mãe e meu pai? Isso não tá certo!
— Eu sinto muito, Jack, mas aconteceu no tempo que era pra acontecer. — Disse a Morte. — Todos recebem uma vida inteira, e você teve a sua.
— Mas isso não é justo… Por favor, isso tem que ser um engano. Eu preciso de outra chance! — Implorou o rapaz.
— Há a opção de você reencarnar e… — A entidade sugeriu, mas foi interrompida.
— Não, não. Eu quis dizer uma outra chance aqui, nesta vida! — Esclareceu o espírito. — Uma ambulância deve tá vindo, então se você deixar, eles podem me reanimar e…
— Não funciona assim… Você teve traumatismo craniano, Jack. — Morte disse em um tom de lamentação. — Não há algo que possa ser feito quanto à isso.
A vítima de atropelamento tentou dizer algo, mas sua voz não saía. A angústia, a frustração e vários outros sentimentos o dominaram e, incapaz de falar, ele apenas cobriu seu rosto com as palmas das mãos e chorou, pensando em sua família.
Sentindo empatia pelo rapaz, Morte deu algum tempo para ele, antes de voltar a falar.
— Tudo bem, Jack. Não há nada de errado em chorar um pouco… — Após dizer isso, Morte se aproximou e afagou a cabeça dele, em uma tentativa de consolá-lo. — Sabe, eu não costumo vir pessoalmente buscar as pessoas.
Aos poucos Jackson foi se recompondo e prestando atenção no que a Morte dizia:
— Existem várias outras entidades que são responsáveis por realizar esse trabalho por mim, alguns deles mais fiéis à imagem de capuz, foice e tudo mais. Eu só apareço em ocasiões muito especiais. — A garota contou, sorrindo levemente.
— Especiais…? — Jackson repetiu num murmúrio. — O que eu tenho de especial?
Morte sorriu.
— Você pode ter tido uma vida mais simples, mas você tinha grandes planos, eu meio que gosto disso. — Caminhando envolta de Jackson, Morte continuava: — Em futuros possíveis, você teria muito sucesso.
O rapaz até pensou em tentar mais uma vez implorar por uma segunda chance de vida, mas não o fez, achando que isso pudesse de alguma forma acabar com a simpatia que a entidade parecia possuir por ele no momento. Aos poucos, ele estava começando a aceitar que não havia mais como voltar.
— Mas agora que você morreu… Eu não sei o que devo fazer com você. — Morte esfregou o próprio queixo, como se estivesse pensando e ponderando.
— Hã? Como assim? — O jovem recém-falecido a encarou, confuso. — Não existe um pós-vida ou algo assim?
— Pois é… Mas você era ateu, isso é um problema.
— Espera, eu não sou ateu! — Jackson negou.
Morte sorriu novamente.
— Certo, então me responda com sinceridade, Jackson de São Marcos… — Ouvir a personificação da morte dizer seu nome completo fez o rapaz sentir um arrepio. — Antes de ser atropelado, você realmente acreditava em Deus? Yahweh, o Deus Cristão? O Deus que seus pais, católicos, acreditam?
— Ele realmente existe? — Esquivou-se da pergunta.
— Perguntei primeiro. — Morte replicou e, vendo que Jack hesitava em responder, insistiu: — Hm?
O garoto brasileiro pensou em responder "Sim", mas algo nele sentia que a Morte saberia se ele estava mentindo ou não. Porém, ele próprio não achava que estava sendo sincero consigo mesmo se afirmasse não acreditar.
— Falando a verdade, se Ele existia ou não, não era algo que importava muito pra mim. — Respondeu o espírito. — Acho que as nossas ações em vida são mais sinceras se você faz alguma coisa sem esperar uma recompensa, ou punição, depois da vida. Todas as coisas boas que eu fiz, foi porque eu gostei de fazer elas, não porque eu queria recompensar algum pecado anterior ou conquistar uma vaga no Paraíso. Eu nunca fiz algo bom esperando ser recompensado por Deus.
A entidade que, aos olhos de Jackson, possuía a forma de uma garota loira, sorriu, satisfeita com essa resposta.
— E você ainda me pergunta o que há de especial em você… Mas respondendo a sua pergunta: sim, Ele existe. — Revelou. — Só que, como você ainda assim foi um bom menino, você pode relaxar porque não vai para o Inferno, mesmo que não tenha acreditado Nele em vida.
Suspirando aliviado, Jack até sorriu animadamente ao perguntar:
— Então eu vou para o Céu?
— Também não. — O sorriso do garoto desapareceu rapidamente e Morte achou aquilo cômico demais, começando a gargalhar pela quebra de expectativa de Jack.
O som de uma ambulância ou viatura começava a ser ouvido, aproximando-se.
— Não tem graça. — Jackson ficou levemente irritado com a garota ainda rindo dele.
— Me desculpa… Isso não foi profissional. — Desculpou-se. — Voltando ao assunto… Como te explicar? Hm… Segue o meu raciocínio: Há muitas pessoas que não vão em festas no sábado, que não comem carne vermelha na Semana Santa, não consumem álcool, com algumas pessoas que sequer perdem a virgindade antes do casamento. Eu não tô dizendo que fazer tudo isso ou que algumas dessas abstinências sejam requisitos para garantir a passagem para o Paraíso, mas você entende como não parece justo com as pessoas, que realizam todas essas abstinências em vida, se alguém que nem ao menos se importava com a existência de Deus, pudesse só entrar lá assim, tão facilmente, não é?
Jackson não respondeu, então Morte continuou:
— A última vez que você entrou em uma igreja foi com a sua mãe, quando você tinha doze anos.
— Tá, tá. Eu entendi. — Jack questionou: — Mas então… O que acontece comigo agora?
— Há algumas opções, é claro. Se realmente você tiver interesse em ir para o Paraíso, você vai ter que passar algo tempo de expiação no Purgató…
— Passo. — Jack a interrompeu.
— Ah, tão rápido? Não vai nem pensar duas vezes?
— Não.
— Ok… Há também a opção de você simplesmente desaparecer da existência, o que meio que tem tornando-se uma escolha cada vez mais comum, estranhamente.
— Eu… passo?.
— Você pode reencarnar novamente, uma nova vida. — Sugeriu.
— Só por curiosidade: Eu já fiz isso antes? Se sim, quantas vezes eu já reencarnei? — Jack quis saber.
— Cento e cinquenta e uma vezes.
— Cento e cinquen… — O garoto morto ficou espantado. — Uau! Isso parece um pouco demais. Não existe outra opção?
— Hm… Nesse caso, o que acha de, sei lá, me acompanhar por um tempo e, quem sabe, aprender um pouco sobre o que eu faço?
— Tipo… matar pessoas? — Questionou o rapaz.
— Haha. Eu não mato pessoas, Jack. — Morte contou, humorada. — Eu só apareço para guiá-las quando chega a hora. Eu felizmente não tenho a responsabilidade de decidir isso, e nem questiono quem decide, entende?
— Acho que sim…?
A personificação da morte sorriu e estendeu a sua mão para Jackson.
— Vamos?
— Claro. — O jovem recém-falecido assentiu antes de segurar a mão da Morte. — Pera, e o motorista do carro? Pareceu uma batida feia. Ele sobreviveu?
— Oh, sim, digo, não. — Disse a garota. — Já que eu estou aqui… Espera só um instante.
— Não tem muito pra onde eu ir, mesmo. — Jack expôs.
Nesse exato momento os bombeiros haviam conseguido retirar a porta esmagada do veículo. Meio zonzo e com uma forte dor de cabeça, o espírito do condutor do automóvel levantou-se e saiu do carro.
— Ah, merda… — Xingou o motorista ao virar-se e ver seu cadáver ainda dentro do automóvel.
— É, foi mesmo bem feito. — Morte comentou.
Diferente de Jackson, o condutor, chamado Roberto, enxergava a Morte como uma mulher negra, próxima da meia-idade, que usava uma blusa e calça brancas, salto alto vermelho e que tinha os cabelos presos em um coque. Os olhos azuis da visão de Jack se mantiveram, e o pingente com formato duas penas estava agora em uma pulseira, no braço esquerdo de Morte.
— O freio, ele não… — Roberto tentou explicar.
— Eu sei.
— Meu Deus, tinha um rapaz. Ele tá bem?
— Não foi sua culpa, Roberto…
O homem balançou lentamente a cabeça em negação, se sentindo culpado. Olhando diretamente para a entidade, questionou:
— Você é tipo um anjo ou algo do tipo?
— Algo do tipo. — Respondeu, sorrindo finalmente.
— Minha cabeça dói bastante. Isso é permanente?
— Não, é "psicológico". Eu vou te guiar para o pós-vida, logo essa dor vai sumir. Para falar a verdade, você nem vai lembrar dessa conversa ou do nosso encontro, só vai "acordar" e achar que foi direto pra lá imediatamente após o acidente. Alguns chama esse momento entre a morte e o pós-vida de "Oblívio" por isso.
— Que confuso… Então é assim que termina?
— Não, claro que não. — Morte sorriu. — A parte mais interessante da sua existência está só começando…
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