Um Conto de Ônibus

5 Vinícius, O Solitário


Notas iniciais
Quando Vinícius finalmente toma coragem, parece decidir puxar os freios e não dizer a que veio. Mas Lucas não é bobo e o indaga algumas questões mal colocadas.

– Eu? Como assim? — Diz ele com uma cara de assustado.

– S-sim! É a primeira vez que nos falamos, mas achei tão raro ver alguém que também curte Charles Baudelaire que fiquei com vontade de te apresentar a antologia de poemas que eu tava lendo. — Digo eu encenando como se meu Oscar dependesse dessa atuação.

– Mas... ehr... não podia ter me mostrado no ônibus?

– Podia, mas enfim, deixei passar. Quer emprestado?

– E como eu te devolveria?

Boa pergunta. Tudo foi planejado tão em cima da hora, que esqueci desse detalhe. Aliás, de onde consegui tirar coragem pra respondê-lo daquela forma, e alguns instantes depois, mudar completamente meu discurso?

– Você me devolve quando a gente se esbarrar de novo. Talvez nem seja tão difícil, a gente salta no mesmo ponto.

– É, acho que não seria legal marcar um encontro com um estranho que acaba de conhecer pra devolver seu livro. Se bem que nem aceitar um livro nessas condições é legal. Mas pela sua gentileza, topo.

"Gentileza". Derreti.

– E você nem tem cara de pivete ou pobre, acho que dá pra depositar alguma confiança. — Completa ele acabando com a magia do momento.

– Bem, eu tenho que ir, daqui a pouco tenho natação. Até... algum dia, acho.

– Até.

Natação. Tá aí o motivo pra ele ter ombros tão bonitos também. Agora eu somava mais essa qualidade ao meu estranho predileto.

Voltando pro ponto, me dei conta do quão bizarro foi aquilo tudo, e ainda perdi um livro, pois eu tinha minhas dúvidas sobre se o Lucas não evitaria um cara que faz esse tipo de coisa com gente que nem conhece.

Enfim, aquele momento em que soube seu nome e pude trocar algumas palavras foi tão bom que consegui desativar o modo pessimista por um tempo. Em êxtase, resolvi até dar meia-volta e seguir pra faculdade.

– Eu chamava a polícia — diz Paulo Vitor, sentado comigo no fundo da sala já que queríamos papear e não saber o que era o platonismo de Sócrates.

– Mas bem, foi seu modo de romper suas barreiras. Mesmo que não dê certo com esse Lucas, que sirva pra você ser mais você mesmo no futuro.

– Mas Paulo, tem que dar certo com o Lucas!

– Ah, como amigo eu digo: isso, Vinícius! Dará tudo certo, vocês vão casar, adotar 18 crianças na África e causa inveja na Angelina Jolie! — Ouço Paulo dizer enquanto noto certo sarcasmo.

– Já meu lado consciente diz: você não sabe do que ele gosta, e vocês, mesmo com essa interação, são completos estranhos. Você nem sabe se ele é gay. Os argumentos não são os mais favoráveis, mas não ache que não desejo sucesso pra você nessa empreitada, é que apenas... as chances me parecem poucas.

– Não, eu entendo. — Digo já habilitando o modo pessimista.

– E é engraçado. Imagino você casado... ou melhor, eu tento, mas não consigo.

– É porque eu não vou casar, Paulo. — Digo eu convicto.

– Em um país maravilhoso como o nosso, mal temos direito a uma tal 'união estável', que vive sendo revogada por algum juiz regido por suas morais religiosas. Sorte a minha nunca sonhar com esse tipo de coisa. — Completo.

– Mas então você pretende morrer sozinho?

– Ah, eu não sei ao certo, mas te digo que não caso, isso não faço mesmo. Morar junto também é uma ideia que não suporto atualmente, não consigo nem imaginar.

– Vish, vai ficar velhinho e solitário. — Alfineta Paulo.

– "Quem não sabe povoar sua solidão, também não sabe ficar sozinho em meio uma multidão." Charles Baudelaire. — Devolvo.

Olho para o celular e vejo que já são 19h, hora em que sou liberado da cadeia por bom comportamento e posso ir dormir em casa, para no dia seguinte continuar cumprindo minha pena.

Vou pelo caminho refletindo enquanto outras 120 pessoas reclamam da lotação do coletivo. Chego em casa, me jogo na cama, e fico pensando no que Paulo disse. Estou destinado a ficar sozinho? Sou novo, mas meu histórico deixa claro que tenho complexos e complexos com esse assunto.

Fico intrigado, mas caio no sono. Antes mesmo que pudesse começar a aproveitar aquele momento de descanso diário, toca o alarme indicando que já estava na hora de levantar novamente.

Mas sem stress. Um novo dia, uma nova chance.

Notas finais
Olá a todos que acompanham essa história escrita por mim. Primeiramente gostaria de me desculpar pela demora com novos capítulos. Saibam que não teve um dia em que eu não pensasse em quem acompanha isso, mas realmente eu preciso de uma certa "inspiração" pra dar prosseguimento com ela, "inspiração" essa que no final das minhas férias - quando comecei - eu tinha em excesso, e agora, só pude ter novamente há alguns dias. Mas não se preocupem: aproveitarei esses momentos pra acumular capítulos e liberar, possivelmente, em ritmo semanal. Assim, quando eu precisar de um "hiatus" novamente, a regularidade dos capítulos estará assegurada por mais algum tempo. Obrigado.