Notas iniciais
Mais um esbarrão entre Lucas e Vinícius, a descoberta de uma farsa, e uma conversa entre mãe e filho. Como nosso protagonista se sairá hoje?

– O-olá. — Digo eu, ainda digerindo o mais brusco dos nossos esbarrões.

– Oi. Terminei de ler o seu livro. Bastante interessante, dá pra entender melhor o comportamento dos personagens daquela série que te falei a partir de muita coisa escrita aí. Não à toa o autor se propôs a fazer uma releitura dessa obra, né? — Diz Lucas, me deixando desesperado porque eu disse a ele que assisti a tal série, quando na verdade a desconheço.

– Pois é. Mas sério que você precisou só desses dois dias pra ler toda a antologia? — Pergunto tentando desviar o foco.

– Sim, é que não tenho cabeça pra ficar absorvendo esse tipo de coisa não. Eu leio, se eu não entender, avanço. Se eu entender, beleza. — Diz o rapaz dando um golpe cruel em Charles Baudelaire.

– Entendo. Eu sou do tipo que fica horas no mesmo poema até sentir todos os anseios do autor.

– Nossa... — Responde ele.

– Coisa minha. Talvez seja déficit de aprendizagem. — Comento rindo.

Como tudo que é bom passa rápido, nossa conversa estava chegando ao fim. O próximo ponto era o nosso, e logo já o vejo se articulando para levantar e saltar.

– Bem... até uma próxima. — Digo eu, que agora não tinha mais desculpas para esbarrar com ele.

– Hum... até, caro estranho.

Ele me cede passagem ao invés de já caminhar pra saída, como na última vez. Eu desço e me sento no banco do meu segundo ponto de ônibus — que estava deserto — pronto para dar uma última olhada nele enquanto desce do coletivo.

Lucas sai, me dá uma última olhada levantando as sobrancelhas e um leve sorriso de cumprimento, e segue andando. Nesse momento eu só consegui sentir ódio de mim por, em tantos encontros com ele, nunca ter conseguido deixar claro a que vim.

Eu fecho os olhos, encosto minha cabeça na contenção envidraçada do ponto e fico ali me xingando de tudo por dentro. Quando estou no ápice do meu auto-ódio, escuto.

– Numa próxima oportunidade eu te empresto a série.

Aquilo foi o suficiente para eu suspender meu estado de aflição. Era Lucas, que havia voltado, querendo retribuir o favor.

– M-mas eu já assisti. — Tento convencê-lo em semi-desespero já que havia percebido que a farsa chegara ao fim.

– Não assistiu. Bem, ao menos eu acho que não assistiu. Você não comentou nada sobre a série, apenas concordou comigo, talvez para não "quebrar o assunto". Ou seria você uma rara exceção que quando acha alguém que assiste as mesmas séries pouco conhecidas como essa, não fica empolgado pra discutir o enredo? — Me interroga.

– Ok, você venceu. Eu nunca ouvi falar dessa tal série, mas aceito assiti-la se me emprestar em alguma mídia. — Respondo eu, agora um pouco envergonhado pela situação.

– Beleza. Bem, como acho que você não é um assassino ou um psicopata, acho que podemos até marcar em algum local para eu te entregar os dvd's. Que tal?

– C-c-claro. — Digo com enorme felicidade ao ver isso como um... encontro. Mesmo sem saber a orientação sexual do cara.

– Amanhã, nesse mesmo horário, caso a gente não embarque no mesmo ônibus. Porém, no shopping, é a cinco minutos daqui. Praça de alimentação, em frente ao MC Foods, beleza? Apesar de não te achar um elemento de alta periculosidade, você pode muito bem armar um sequestro pra mim nesse ponto amanhã. — Diz Lucas ainda me acusando de ser um mal elemento.

– Por mim tudo bem. E não se preocupe com sequestro. Se você ainda vestisse uma blusa do pH eu cogitaria. Agora, Instituto Apollo... — Alfineto eu, que me encontrava bem... alegrinho.

– Bem, até amanhã.

– Até.

Até. Amanhã. Dessa vez não foi um "até mais" ou um "até logo". Pela primeira vez houve a fixação de uma data. Eu estava viajando, claro, mas viajando de uma forma tão intensa com aquilo tudo que... MAS QUE DROGA OLHA A HORA.

Mega atrasado para a faculdade.

Voltei para casa. Como (quase) sempre.

E rezando pelo dia seguinte.

Chego em casa bem animado. Como não fui — mais uma vez — para a faculdade, faltava muito para o dia acabar. Liguei o computador e entrei em um RPG online que Paulo havia me apresentado semanas atrás, e nele fiquei até umas 18h, quando saí do quarto para comer algo.

– Não foi para a aula de novo? — Pergunta minha mãe, que acabara de chegar em casa.

– Sabe como é esse trânsito, né... — Tento justificar.

– Que saia mais cedo de casa, seu preguiçoso.

– Mas eu não posso! — Respondo convictamente.

Ela me encara e percebe pela minha expressão que eu estava escondendo algo, mas resolve não me pressionar para evitar um conflito entre nós. Depois de um dia provavelmente cansativo, era o que menos queria.

Faço um lanche e retorno para o computador, onde fico jogando até perceber que passa das 22h. Hora de mais uma pausa. Dessa vez, para jantar.

Mamãe havia pedido pizza, algo raro, uma vez que, mesmo não sendo uma dona de casa, era um pouco orgulhosa e não se permitia "terceirizar" as tarefas do lar, geralmente realizadas por ela, e raramente por mim.

– Algum motivo especial para comprar pizza? — Pergunto para quebrar o gelo.

– Tive uma longa reunião agora, no final do dia. — Responde sorrindo.

– E pelo visto aconteceu algo bom, né?

– Sim. A empresa quer que eu a represente em um congresso em São Paulo nesse final de semana. Por isso, deixarei a casa em suas mãos. Tudo bem?

– Sim... sem problemas.

– Além do mais, cogitaram a possibilidade de uma promoção após meu retorno. Então, por mais simbólico que seja, resolvi comemorar pedindo uma pizza.

– Entendo. Mas é meio cruel dar pizza pro seu filho, sabendo que no final de semana ele só vai comer miojo, né? — Falo rindo.

Ela então me encara com um sorriso de canto de boca.

– Bem, meus parabéns. A senhora merece.

– Obrigada, meu filho. — Responde ela agora com um sorriso completo.

Vou para o meu quarto finalmente dormir, aguardando ansiosamente o próximo dia. Desligo o computador, apago as luzes, fecho a cortina. Breu total e silêncio absoluto. Eu estava pronto para apagar, quando dona Márcia entra no quarto, senta na ponta da cama e fala:

– Se eu realmente for promovida, isso significará algumas mudanças na nossa vida.

– Imagino. Promoção significa mais dinheiro, mais dinheiro significa que nossa vida mudará para melhor! — Comento eu, ainda tomado por um estado de alegria pelos acontecimentos do dia.

– É, é por aí.

Depois disso ela dá um beijo em minha testa e sai do quarto. Eu durmo logo após isso, e durmo bem. O despertador tocando pela manhã não me incomoda pela primeira vez em tempos.

Levanto rápido e empolgado para o dia que acabara de começar. Talvez o dia mais importante até aqui do meu delírio com Lucas.

Notas finais
Mais um capítulo no ar! Estabeleci que publicarei a fanfic nas quartas-feiras, às 14h05. Inclusive já deixo programado assim. Estão curtindo? O que acharam desse esbarrão de Vinícius e Lucas hoje? E da relação de Vinícius com sua mãe? =}