Notas iniciais
Naveguem e se arrisquem nesse universo alternativo!

Eu caminhava pelo jardim do palácio observando os pássaros pousando nas rosas e depois alçando voo alto, soltando seus cantos de alegria e liberdade. Como eu queria ser um pássaro e poder voar junto à eles. Como eu queria poder cantar e rodopiar no ar, livre e absorta de quaisquer regras, etiquetas, estigmas. Por mais belo e imenso que o jardim do palácio fosse, já não era mais suficiente para mim. Eu queria ultrapassar os muros e correr, correr, sem me importar pra onde ir. Eu queria poder abrir os braços e rodar em meio as flores, me jogar em meio os campos de trigo, gritar, me expressar, apenas para parar de me sentir uma estátua de mármore sem sentimentos. Pois era o que eu me sentia, uma estátua vazia, sem emoção e sem vida.

Estava entardecendo e o sol poente sumia por trás dos muros. Eu caminhei para dentro da mansão para me preparar para a festa que haveria aquela noite. Eu não poderia estar mais desgostosa, pois aquela seria a festa para apresentar meu prometido, o tão aclamado conde Páris. Eu sempre sonhei em um dia encontrar um homem que eu amasse verdadeiramente e seria feliz em sua companhia por todos os dias de minha vida. Mas então naquele mesmo dia, minha mãe veio com a notícia de que eu deveria me casar em breve e já haviam escolhido um pretendente para mim.

Tudo em minha vida foi escolhido por mim, nem ao menos se importavam em saber minha opinião, meus sentimentos. Eu sou apenas uma boneca sendo manipulada... A noite chegou logo e a mansão logo estava cheia de convidados, pessoas influentes e poderosas do ramo de finanças. Eu vaguei em meio aquelas pessoas, curvando-me em respeito e sendo cortejada. Tudo tão superficial, tão falso. Quando me apresentaram o conte Páris, notei que era bem arrojado, porte charmoso, veio cheio de pompas para cima de mim, mas faltava algo... faltava meu coração pulsar por aquele homem.

Depois me dirigi para a sacada e vislumbrei o jardim em penumbra, parecia fantasmagórico em meio à noite. Então notei um movimento em uma moita ao lado e de lá saiu um homem. Recuei espantada e logo o rapaz me notou, olhou para cima e sorriu com um sorriso deslumbrante que brilhou em meio o escuro. Meu coração deu um salto quando dei de encontro com seus olhos. Mesmo na escuridão eu pude ver luz em seus olhos. Após isso eu já tinha sido fisgada e nada poderia me impedir de me aproximar daquele jovem que roubou meu coração. Aquele jovem cujo nome era Romeu e sobrenome era Montecchio, como vim a descobrir posteriormente. Fiquei surpresa e chocada quando descobri por minha ama que o homem por quem eu me apaixonara, pertencia a família rival da minha família. Porém eu não desistiria desse amor, se assim quis o destino nos testar com suas ironias, eu não iria me render facilmente.

Os dias passaram e nós marcávamos encontros escondidos por meio de bilhetes entregues por minha ama. Era tudo tão maravilhoso, meus dias com ele eram iluminados, eu sentia meu sangue correr quente em minhas veias quando estava em sua companhia. Porém um dia recebi a notícia de que meu primo foi morto por ele, por Romeu. Eu não soube o que pensar, meus sentimentos ficaram confusos. Porém naquele mesmo dia ele surgiu escalando as trepadeiras da parede de meu quarto, ele entrou e parou esperando qual seria minha reação. Eu não pude resistir, eu não conseguia odiá-lo, ele era o homem que eu amava, eu apenas corri para os seus braços com lágrimas nos olhos.

Naqueles poucos instantes que permanecemos juntos, criamos um plano de fuga. Nossas famílias jamais aceitariam que ficássemos juntos e eu estava disposta a abandonar tudo por ele, por que ele era o tudo que eu tinha. Naquela mesma noite, eu iria ao encontro de Romeu na madrugada e nós fugiríamos juntos. Ele se despediu de mim prometendo encontrar-nos novamente mais tarde. Depois que ele saiu, eu arrumei uma pequena muda de roupas e me despedi da ama, pedindo-lhe sorte para minha nova vida. Ela ajudou em minha fuga no meio da noite e eu pulei os muros correndo para o local de encontro com Romeu. Ali eu esperei por ele ansiosa com o coração descompassado de empolgação.

Vislumbrei então uma sombra virar a esquina, andando em minha direção, soltei um sorriso e não aguentando de ansiedade corri em sua direção, mas parei abruptamente quando outras pessoas surgiram atrás dele. Pude reconhecer a silhueta de meu pai tomar a fronte do grupo. Minha respiração acelerou e recuei desesperada. Meu pai gritou por meu nome e me alcançou apertando meu braço. Era o fim, eu fui descoberta, meu plano de fuga havia ruído.

- O que pensas que estás a fazer, virando as costas para tua família, fugindo com um Montecchio. Filha ingrata!

- Mas eu o amo, pai. Eu amo Romeu!

- Amas? Pois saibas que seu amor de nada vale para aquele sujeito. Ele vai se casar amanhã com uma camponesa, é a notícia que os ventos trazem. Enquanto tu ilude-se apaixonada por um Montecchio, ele está a enamorar-se com uma qualquer pela qual espalha palavras de amor pelos quatro ventos. E tu vais casar-se com Páris nesta quinta-feira, pois não quero que difames ainda mais o nome de nossa família com atos ínfimos.

- Não pode ser, não pode ser...Romeu me ama. Ele não faria isso comigo.

Mas minhas palavras de protesto de nada adiantaram. Arrastada de volta para casa fui mantida presa em meu quarto até o dia do casamento chegar. Minha ama foi castigada severamente por ter compartilhado com minhas luxúrias. E eu não poderia sofrer mais, pois Romeu não surgiu nem mais uma vez em minha sacada e eu pude saber por meio de outrem que ele realmente havia se casado.

Casei-me com Páris, mas sentia-me como se estivesse participando de meu próprio velório e não casamento, sendo enterrada viva. Oh céus por que tinha que ser assim? Provei da felicidade só para experimentar sofrimento maior. Os anos passaram-se e fui me tornando cada vez mais amarga. Nunca mais vi Romeu até que um dia em um passeio com Páris pela cidade, passando próxima a uma carroça de flores, Páris parou para comprar-me um buquê, olhei para o lado distraidamente enquanto ele escolhia o arranjo e vi... Vi Romeu ereto e cortês e ao seu lado uma dama de cabelos louros, ela mantinha sua mão no braço dele enquanto ambos caminhavam juntos.

Romeu virou e olhou na minha direção, parando os olhos em mim, ficamos um instante trocando olhares, até que Páris chamou minha atenção para o buquê que estendia para mim. Virei-me e peguei o buquê dando a mão à ele continuando nosso passeio. Virei-me para olhar Romeu novamente, mas esse já sumia ao longe com sua dama como companhia. Aquilo não poderia ter me deixado pior. Eu quis voltar imediatamente para casa.

Aquela noite eu não pude pensar em outra coisa, como Romeu pôde me iludir tanto naquela época? Como ele pôde fazer isso comigo? As lágrimas rolavam incontrolavelmente enquanto eu abafava o som do choro enfiando o rosto nos travesseiros. Eu não aguentava mais aquela vida. Era torturante. Era massacrante... Levantei-me e dirigi-me à cozinha para tomar um copo d’água. Estendi as mãos na bancada e recostei em uma faca que estava largada ali. Refleti por um momento em minha vida, ou melhor, na falta desta. Não valia a pena continuar assim, eu não queria continuar desta forma.

Peguei a faca e contemplei sua lâmina de forma doentia, então ouvi o som de passos vindo para a cozinha. Abaixei a mão ainda segurando a faca firmemente. Páris surgiu por trás de mim perguntando-me por que eu havia saído da cama. Eu não respondi, eu fiquei ali parada pensando seriamente se faria o que acabava de passar por minha cabeça. Ele ia me envolver pela cintura quando virei abruptamente e enfiei a faca em seu peito. Páris grunhiu com a dor, baixou o olhar para a faca e depois me encarou sem entender o que estava acontecendo, ele abriu a boca para dizer algo, mas eu puxei a faca e a enfiei de novo... e de novo... e de novo. Seu sangue espirrou pelas paredes da cozinha enquanto eu o esfaqueava, descontando toda a raiva e opressão que sofri por anos da minha vida miserável.

Por fim, quando seu corpo estava completamente desfigurado e seu sangue escorria pelos ladrilhos da cozinha, eu puxei a faca e a mantive na mão enquanto levantava ao lado do que sobrou do meu marido. Dirigi-me para o quarto com a faca em mão. A luz do luar inundava o cômodo sombrio, deixando apenas as paredes semi-cobertas pelas cortinas, obscurecidas. Escutei um farfalhar em uma delas e uma sombra saiu de trás da cortina. Na obsessão do momento, a atitude reflexiva que tive, foi levantar a mão com a faca e atacar àquele que vinha em minha direção, enfiei a lâmina diretamente em seu coração sem pestanejar, porém quando o ser deu mais um passo à frente e a luz do luar iluminou seu rosto, eu larguei o punho da faca que já se encontrava fincada em seu peito.

Era Romeu. Meu amado, meu querido Romeu. Ele perdeu as forças e tombou na minha frente. Eu o segurei e me ajoelhei devagar, acolhendo sua cabeça em meu colo, as lágrimas já começavam a jorrar. Romeu levantou a mão e acariciou meu rosto, eu levantei minha mão e pus sobre a sua, sentindo seu toque à tanto tempo perdido, à tanto tempo almejado.

- Meu amor! Meu eterno amor! – Romeu balbuciou – Eu jamais deixei de amá-la!

- Então por que abandonou-me? – segurei sua mão entre a minha.

- Queria eu poder manipular o destino com minhas próprias mãos. Eu teria ido buscá-la e roubado para mim como uma flor colhida no jardim. Porém naquele dia vosso pai invadiu a mansão de meus pais, eu estava pronto para sair e vir buscá-la quando teu pai meu impediu com uma espada em minha garganta, jurando me matar e espalhando injurias de que preferia matar a própria filha a ter que vê-la com um Montecchio; Nossos pais entraram em um acordo, de que eles me casariam no dia seguinte e a você na quinta-feira daquela semana e então nós jamais nos veríamos novamente ou ambos seríamos mortos. Meus pais temendo por minha vida arranjaram uma noiva rapidamente e eu temendo pela tua vida, me rendi ao desenrolar funesto que esse enredo tomou. Perdão minha amada, perdão se te fiz sofrer estes anos todos, mas meu coração jamais deixou de ser teu e mesmo agora que ele sangra, é de dor por não poder tê-la comigo, por não poder amá-la como você merece.

- Ah Romeu, se eu soubesse da verdade antes, eu teria lutado mais, eu teria sido mais forte para ir ao teu encontro meu amor. Como fui tola de crer que me trais-te. Esses anos foram tristes, sim, mas foi por que não tinha mais você ao meu lado. Eu nunca deixei de amá-lo Romeu. – acariciei sua face suavemente com minha mão.

- Temo ter que deixa-la agora Julieta, meu sangue escorre e minhas forças se esvaem com este. Dê-me um beijo. Um beijo para lembrar-me dos tempos antigos e será também um beijo de despedida, será este que levarei comigo para o paraíso se for merecedor de tal júbilo.

Beijei teus lábios macios e doces dos quais senti tanta falta durante anos, beijei intensamente com o mesmo ardor de quando menina e quando senti seu último suspiro em meus lábios, as lágrimas brotaram sem controle. Eu não suportaria viver novamente sem meu amado, com o peso te ter tirado sua vida com minhas próprias mãos. Minha vida não era nada sem a dele. Voltei a pegar no punho da faca fincada em seu coração, puxei a lâmina e a finquei em meu próprio peito. A dor era aguda, mas era a dor da liberdade, pois eu finalmente seria livre para ficar ao lado de quem eu amava de verdade. Deitei-me com a cabeça no peito de Romeu e esperei até que tudo escurecesse.

Notas finais
Comentem por favor! *-*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!